sexta-feira, 3 de junho de 2011

O Peru na encruzilhada

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Um entreguista condecorando outro


Jornal do Brasil, 03/06/2011

O Peru na encruzilhada

Por Mauro Santayana

O Peru é o mais enigmático dos nossos vizinhos. Alguns de seus intelectuais, dos mais vigorosos da América Latina, foram dos primeiros a “pensar” as contradições de nossos povos. José Carlos Mariátegui se distinguiu como o mais importante marxista do continente, ao examinar as contradições de seu país, com seus Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. Romancistas como Ciro Alegria, de “El Mundo es ancho y ajeno”, José Maria Arguedas, autor do vasto painel de “Los Rios Profundos” e, mais recentemente, Vargas Llosa, com “Conversación en La Catedral”, não são menos importantes. Eles mostram a humanidade sofrida – rica em história, marcada pela dupla identidade, indígena e européia, além da ponderável presença negra e asiática – da inquieta nação amazônica e andina.

O Peru foi o primeiro país a ensaiar, com Victor Haya de La Torre,  o sonho do socialismo. Seu partido – Aliança Popular Revolucionária Americana – fundado no México, em 1924,  propunha ação internacional em toda a Indoamérica, ou seja, em todas as nações do continente, do México ao Chile, que ainda mantinham forte presença das populações autóctones da cordilheira. Haya de La Torre preferia ação mais moderada, enquanto seu companheiro de mocidade, o imenso autodidata Mariátegui,  criava o Partido Comunista Peruano.

Nenhuma obra de ficção – com forte presença antropológica – foi mais poderosa na análise das contradições andinas do que a de José Maria Arguedas. Privilegiado por haver vivido na cordilheira e, durante algum tempo da infância, apenas com índios e mestiços, ele expõe, como nenhum outro autor latino-americano, o contraditório mundo dos altiplanos e encostas das grandes montanhas, com o conflito permanente entre a visão ameríndia da vida e aquela imposta pela cultura européia. Arguedas acrescenta à sua obra maior, Los Rios Profundos, novelas menores, mas nem por isso menos poderosas, sobretudo na denúncia do imperialismo norte-americano e do latifúndio, como Todas las sangres, e El zorro de arriba y el zorro de abajo, além de artigos jornalísticos e estudos de etnologia.

É este povo peruano que vai domingo às urnas. De um lado, o candidato de centro-esquerda, Ollanta Humala e, do outro, a filha do sanguinário, corrupto e entreguista Alberto Fujimori, que se encontra preso, condenado pela justiça de seu país. As últimas notícias diziam da inquietação do “mercado” (sempre os mesmos) com a possível vitória de Humala. Para os banqueiros e seus sequazes, o destino do país não importa. Não importa a democracia, com o estado de direito e a liberdade das pessoas, mas, sim, os lucros do capital financeiro.

Há uma semana, a vitória da filha de El Chino eram favas contadas. Diante do perigo de que Fujimori  (como fazem os grandes narcotraficantes com seus negócios),  viesse a governar o país a partir da prisão, e da possibilidade de que a filha conseguisse indultá-lo – houve uma súbita mobilização nacional. Pessoas sensatas, ainda que não de esquerda, como é o caso de Vargas Llosa, manifestaram-se a fim de evitar a tragédia política. Nas últimas horas, cresceu a esperança de que Humala vença o pleito.

O que é mais estranho na atualidade peruana é a atitude do atual presidente, Alan Garcia. Garcia herdou de Haya de La Torre o Partido Aprista Peruano, vindo da APRA, fundada por Haya de La Torre e que fora uma bandeira da unidade latino-americana sob um projeto de socialismo libertário.

A conversão de Garcia à direita, fenômeno muito comum entre os que se elegem pela esquerda e logo se entregam aos antigos adversários, faz, no caso do Peru, lembrar verso poderoso do maior poeta do país, o comunista César Vallejo, em poema escrito em 1937:

Acaba de pasar, sin haber venido.



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São Paulo, sexta-feira, 03 de junho de 2011


Intelectuais apoiam esquerdista, empresários preferem direitista

DA ENVIADA A LIMA

A eleição presidencial peruana do domingo será a mais disputada da história do país, disseram dirigentes dos cinco maiores institutos de pesquisa do Peru ontem.
A direitista Keiko Fujimori e o esquerdista Ollanta Humala estão tecnicamente empatados: Keiko, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, aparece com 51,1% na pesquisa da IpsosApoyo de ontem, e Humala tem 48,9% dos votos válidos.
"Trata-se da eleição mais apertada e mais polarizada da história do Peru", disse à Folha Heber Joel Campos, professor da Pontifícia Universidade Católica do Peru.
O país está dividido entre as duas candidaturas. Os intelectuais peruanos estão se mobilizando contra Keiko, enquanto empresários atacam Humala.
Os meios de comunicação também estão em campanha aberta por Keiko.
A Confederação Nacional de Empresas Privadas, também pró-Keiko e seu modelo de livre mercado, está veiculando anúncios dizendo: "Não percamos o que o Peru já ganhou".
Um grupo de cem escritores, entre eles o Nobel Mario Vargas Llosa, divulgou na semana passada uma carta de repúdio à candidatura de Keiko.
"Eu deixei o Peru por causa do fujimorismo, que matava gente, subornava e censurava jornalistas", disse à Folha o escritor Santiago Roncagliolo, um dos autores da carta, que mora na Espanha.
"O dinheiro está com Keiko, mas nós, que cuidamos da memória do país, não podemos deixar o autoritarismo voltar."
Mas, para Campos, esse engajamento tem pouquíssima influência sobre o grosso do eleitorado peruano, as classes média e baixa.
As acusações de que o governo Fujimori teria empreendido um programa de esterilização em 300 mil mulheres pobres vêm afetando a votação dela.




http://palavras-diversas.blogspot.com/2011/05/imprensa-peruana-nao-respeita.html

terça-feira, 31 de maio de 2011

Imprensa peruana não respeita a democracia: todos os golpistas contra Ollanta


Acima está a carta em que Mário Vargas Llosa, famoso escritor peruano, ex-candidato a presidência da república, de centro direita, derrotado por Fujimori, renuncia a uma coluna em um grande jornal diário peruano, em uma forma de protestar contra a campanha descarada da grande imprensa peruana em favor de Keiko Fujimori, filha e herdeira política de Alberto Fujimori, que cumpre prisão por crimes por violação de direitos humanos e corrupção.

A campanha eleitoral peruana ganhou contornos muito parecidos com o que ocorreu no Brasil nas três últimas eleições presidenciais, em que se percebe nitidamente a formação de uma aliança midiática em torno de um candidato.
Lula e Dilma passaram por isso aqui e Ollanta Humalla sente o peso da mão editorial destes agentes políticos.
Estive em Lima em abril passado e pude testemunhar o quanto a imprensa está, declaradamente, apoiando Keiko.  Pior até, fazendo campanha contra Ollanta Humalla.

Como no trecho abaixo:

Assisti na TV RPP, um programa que debate contextos e cenários da atualidade peruana, uma discussão sobre "as incertezas de um governo Ollanta". Haviam quatro participantes no programa, todos pendendo para um só lado: Ollanta representa perigo para a "estabilidade peruana". Havia um ex-ministro da economia, algo como se o Pedro Malan fosse convidado para explanar sobre o governo Dilma, um editor de um grande jornal de economia, imaginem a Miriam Leitão, além do apresentador do programa, uma espécie de William Waack, e o editor de política e economia da emissora, quem sabe um "Alexandre Garcia peruano".
Todos foram unânimes em afirmar que uma vitória de Ollanta representa o atraso, a incerteza e o alinhamento ao "eixo do mal" sulamericano, Chávez, Evo e Kirchner.

O medo disseminado passa, necessariamente, pela associação de Ollanta com estes governantes populares. Neste programa da RPP não havia posicionamentos dissonantes daquele apresentado, não havia ninguém da equipe de Ollanta para rebater e discutir em condições, mínimas, de igualdade. Não havia o direito ao contraditório, à diversidade de pensamento. Mas o pior é perceber que isso não ocorre somente na RPP, alguns jornais impressos também praticam este jogo antidemocrático.

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Direto de Lima: A batalha de Ollanta Humalla contra "La Prensa" Peruana

Resultado é que as pesquisas indicam um cenário de incertezas quanto ao vencedor do pleito no próximo domingo, mesmo com toda ajuda que a imprensa peruana tem dado a Keiko, Ollanta Humalla está no páreo, em um clássico empate técnico nas últimas pesquisas divulgadas.

Jornalistas foram demitidos por não concordarem com a linha editorial pró-fujimorismo, outros se demitiram.
Escritores publicaram um manifesto de apoio a Ollanta Humalla e de repúdio a Keiko, milhares saíram as ruas para lembrar o período cinzento da história peruana, durante o governo de Fujimori, tem havido reações da sociedade organizada.

A opinião pública tem percebido tais arranjos e, em uma recente pesquisa, cerca de 52% afirmaram não crer em coberturas políticias imparciais da grande imprensa, enxergam uma prática jornalística danosa a democracia e muito favorável ao grupo político ligado a Fujimori e a seus seguidores e interesses.

Cenário muito parecido com o que foi investigado pela SECOM, órgão da Presidência da República, em julho de 2010 que demonstrou em uma pesquisa que  "cerca de 80% das pessoas crêem pouco ou não acreditam no que é publicado pela imprensa brasileira, mais de 60% acreditam que o noticiário é manipulado!", trecho do que foi publicado aqui no blog na época, no post  A omissão descarada da imprensa em denunciar a censura na TV Cultura .

Ollanta Humalla tem pela frente cinco dias decisivos para convencer o eleitorado peruano de que representa o melhor caminho para o desenvolvimento econômico e social de seu país e para isso terá que vencer dois adversários, primeiro sua oponente, Keiko Fujimori, segundo e mais poderoso adversário, a grande imprensa conservadora peruana. A batalha será duríssima!

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