quarta-feira, 21 de junho de 2017

JBS: outra catástrofe de terra arrasada?

http://jornalggn.com.br/noticia/jbs-outra-catastrofe-de-terra-arrasada-por-boeotorum-brasiliensis



Jornal GGN, 21/06/17



JBS: outra catástrofe de terra arrasada?



Por Boeotorum Brasiliensis



Ontem, 20 de junho de 2017, a Globonews mostrou uma reportagem sobre a JBS, a cadeia industrial da carne e a pecuária nacional. Destacou, além da participação da JBS em esquemas de corrupção, outros fatos sobre o grupo, sua atuação e sua situação. Menciona um quase monopólio da carne bovina nas mãos da JBS, o consequente desaparecimento de inúmeros pequenos frigoríficos e a decorrente dependência das fazendas de bovinocultura de corte em relação a um comprador principal, principalmente, mas não só, no Mato Grosso.
 
Descreve a preocupação desses produtores com tal dependência, o que, segundo relatado, implica na deterioração dos preços da arroba do boi vivo. Preocupam-se ainda por um eventual risco de inadimplência da JBS face aos efeitos das penas pecuniárias a que está submetida e, também, por possível aplicação de outras penalidades que possam seguir-se, tanto no Brasil quanto no exterior. Passa, também, pela menção a uma política governamental, ou melhor dizendo, a uma prática espúria de favorecimento via “crédito subsidiado” à JBS que a levou à posição de maior processadora mundial de proteína animal. Em seguida se refere à concentração da pecuária em grandes propriedades, à destruição consequente dos biomas onde ocorre e se instala, da precarização das pastagens dadas como, em sua maioria, degradadas e, também, ao abate de animais não certificados quando à origem. 
 
A produção pecuária na bovinocultura de corte adquiriu relevância e protagonismo, deixando de ser uma atividade de baixa tecnologia, pouca significância e com baixa qualidade de produto para se transformar em uma estrutura eficiente o bastante e levar o Brasil a ter o maior rebanho comercial do mundo (215 milhões de cabeças) e ser o maior player mundial no mercado da carne bovina. O segmento industrial, de processamento e comercialização de carnes, também evoluiu em termos empresariais, na qualificação de gestão, na sofisticação das formas de organizar e operar o negócio, bem como, na tecnologia de produtos e processos.
 
O desempenho econômico da cadeia de carne bovina, em números redondos de 2015 (dados mais atualizados que dispomos), mostra a relação de grandeza entre a pecuária de corte, o agronegócio e a economia nacional, como, também, a relação com o porte da JBS no segmento.  Em 2015 o PIB brasileiro foi de R$5,9 trilhões e o PIB do agronegócio foi de R$1,3 trilhão ou 21% do total.  
 
O PIB da pecuária, considerando toda a cadeia produtiva, foi de R$ 480 bilhões ou 30% do agronegócio mais de 6% do PIB total. A receita da indústria montou a R$ 138 bilhões, sendo R$ 94 bilhões de venda ao mercado interno, R$ 19 bilhões de vendas de exportação e R$ 25 bilhões pela venda de couros e de outros produtos da pecuária. Sem considerar o pessoal ocupado na produção de insumos, na distribuição e na comercialização no varejo, a produção de carne bovina no Brasil, nas fazendas e nos frigoríficos, emprega diretamente cerca de 2,5 milhões de pessoas.
 
A pecuária brasileira, sem dúvidas, ainda tem desafios a enfrentar e problemas a resolver. No campo, com maior incidência nas zonas de fronteira agrícola, há problemas de ocupação irregular de áreas de preservação, desmatamento para formação de pastagens, substituição de pastagem nativas por pastagens semeadas, manejo deficiente causando degradação das pastagens e problemas sanitários e de rastreabilidade do rebanho.
 
Entretanto, há ações em curso que tem melhorado o quadro geral e apontam tendências positivas. A aplicação de tecnologia vem evoluindo dentro e fora das propriedades. As previsões do setor para 2025 indicam que, em decorrência, a produção será da ordem de 11 milhões de toneladas e a área ocupada com pastagens passará dos atuais 167 milhões para 158 milhões de hectares. O preço da arroba entre 2004 e meados de 2016 subiu 149%. Nos últimos meses por uma combinação de fatores que vão da variação no câmbio, ao aumento da oferta e à retração da demanda interna os preços médios caíram cerca de 5%.
 
No que se refere à JBS, a empresa respondeu, em 2015, pelo abate de cerca de 8 milhões das 22 milhões de cabeças de gado bovino abatidas no Brasil sob inspeção (SIF). Com uma participação de pouco mais de 34% é, de longe, o líder do setor, porém, não pode ser apontado como um monopólio.
 
Em termos de receita, o negócio de carne bovina e que incorpora, além da operação no Brasil, receitas provenientes de operações na Argentina, Paraguai e Uruguai, faturou R$ 28 bilhões, sendo R$ 15 bilhões em vendas locais e R$ 13 em exportações. Em 2016 repetiu performance semelhante.  
 
Sem dúvida há uma concentração no setor e há um grau elevado de oligopolização, com 4 empresas controlando mais de 50% do abate inspecionado. Todavia, em mercados globalizados e de commodities e quase commodities, como o mercado de carnes, as economias de escala são imprescindíveis.
 
Logo, concentração é um resultado natural e esperado nesse mercado. Afirmações que a empresa incentiva o uso impróprio do solo e o desmatamento, ao não controlar adequadamente a origem de parte dos animais que abate, leva à outra questão onde se verifica que o controle oficial existente ainda não cobre perfeitamente o sistema pecuário.
 
As reclamações dos produtores, veiculadas na reportagem, sobre práticas abusivas de formação de preço, principalmente no Mato Grosso, não são confirmadas pela série histórica dos preços médios pagos ao produtor, mas merecem um olhar mais atento sobre a questão.
 
Preocupações sobre o aumento do risco JBS, sem dúvida procedem. A JBS tem quase R$ 20 bilhões em operações de crédito vencendo em 2017 e, após a delação efetuada por Joesley Batista, não há certeza sobre a capacidade de rolagem, o que pode pressionar o caixa da empresa.
 
Analistas do mercado apontam que há necessidade de alienação de parte do portfólio dos negócios, o que pode não ser o bastante exigindo o encolhimento nas operações do negócio de carnes, bovina e de aves e suínos. Neste caso, uma perda de mercado de até 30% ´pelo negócio JBS Mercosul poderá se verificar.
 
Notam-se indícios do início de uma campanha midiática e de possível ações de perseguição contra a empresa. Não está claro se a Globo – e os demais veículos que a seguem – está agindo dentro de uma linha intencional ou se, simplesmente, está repercutindo um tema que prendeu a atenção do público e que, sem dúvida, é relevante em todos os seus aspectos.
 
Também, se noticia o uso das instituições públicas como ferramentas de punição, de revanche contra os controladores da JBS, agindo contra a empresa. Se estas ações fazem parte de planos e de objetivos específicos ou não, faz-se presente a questão primordial de se preservar parte significativa de uma das cadeias produtivas mais importantes do País.
 
Cuidar para que as ações de reparação dos prejuízos causados e a consequente punição dos atos que os causaram recaiam sobre os seus agentes, aqueles que os promoveram e não sobre as estruturas de produção, beneficiamento e comercialização da carne bovina.
 
Empresas são abstrações jurídicas, não cometem atos benéficos ou maléficos. Quem agem são as pessoas, os indivíduos, e são estes que devem responder pelos atos cometidos. As estruturas de negócio, sobre as quais repousam o interesse da sociedade na geração de renda, salários e tributos, devem ser cuidadas como patrimônio da economia nacional.
 
Enfim, não se trata de resguardar interesses dos controladores da empresa que detém 42% das ações enquanto o Governo Federal, através do BNDES e da CEF, possui 25%.  
 
Nem daqueles a quem as autoridades atribuam atos ilegais ou criminosos. Esses deverão ter tratamento como reza a Lei, revendo-se ou não os termos da colaboração premiada firmada com a PGR, apresentando-se ou não novas denúncias.
 
O que não deve ser feito ou permitido é que se destrua a empresa em nome se satisfazer interesses que não sejam o interesse da sociedade.
 
Não se pode confundir uma coisa com outra, sob pena de vermos a perda de mais empregos, mais renda e mais tributos com os efeitos deletérios inerentes. Acima de tudo não é recomendável, que mais um setor da economia que logrou internacionalização e capacidade de competir em escala mundial, ser abalado em um dos seus pilares, a exemplo do que houve no setor de engenharia e construção pesada, no setor de equipamentos para petróleo e gás e no setor naval.
 
Em que se pense e se aja para responsabilizar os acionistas controladores da empresa, se pense e se aja para preservar o negócio e toda uma estrutura social e empresarial que dela depende onde, além dos mais de 120 mil empregados da empresa, estão envolvidos cerca de 90 mil fornecedores, seus empregados e suas próprias redes de fornecimento.
 
As palavras de ordem devem ser: responsabilidade e cautela.

terça-feira, 20 de junho de 2017

O sínodo cadavérico

http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/sinodo-do-cadaver-odio-alem-da-vida.phtml#.WUfsTzTQ_IU


Aventuras na História


Sínodo do cadáver: Ódio além da vida



Por Felipe Van Deursen



A Igreja Católica passava por uma época turbulenta no fim do século 9. Enquanto no século 20 a Roma teve oito papas, no século 9 contavam-se às dezenas os que se sucederam no cargo – a maioria na casa dos 30 anos. “Em alguns casos, os papas terminavam assassinados, eram depostos e fugiam”, diz a historiadora Valéria Fernandes da Silva, especialista em história da Igreja. As poderosas famílias de Roma tinham influência na Santa Sé, o que levou algumas pessoas perturbadas a se sentar no trono de Pedro. Mas, em termos de bizarrice, nenhum superou Estevão.

No começo de 897, o papa Estevão VI (alguns o citam como Estevão VII) tomou uma atitude excêntrica: ordenou a exumação de seu antecessor Formoso, morto nove meses antes. No evento conhecido como sínodo cadavérico, o corpo do papa-defunto (isso mesmo, o corpo), vestido com insígnias e ornamentos, foi julgado e condenado por excesso de ambição. Estevão excomungou Formoso, que foi despido de suas vestes papais e teve amputados os dedos da mão direita, usados para abençoar os fiéis. Seu corpo putrefato foi atirado no rio Tibre, pena comum a criminosos.

Depois do ocorrido, a popularidade de Estevão foi para o fundo do Tibre junto com o corpo de Formoso. Ele foi deposto numa rebelião e estrangulado até a morte, ainda em 897. No ano seguinte, o novo papa João IX anulou o sínodo cadavérico no Concílio de Ravena e ordenou o retorno do corpo de Formoso, resgatado do Tibre, à tumba, na Basílica de São Pedro. “Foi talvez o período mais conturbado da história do papado”, diz a historiadora Valéria Silva. “Coisas assim são um sintoma da instabilidade da Igreja, da crise de autoridade e da ingerência das grandes famílias.” Estevão foi considerado louco.

O caso teve uma repercussão tão assustadora, que a partir de 880, a Igreja trocou de papa como time brasileiro de futebol muda de técnico. Segundo o 'Dicionário de Papas', de Michael Walsh, foram 38 eleitos nos 150 anos seguintes, média de um a cada quatro anos. Como se fosse Copa do Mundo. Além disso surgiu a denominação "Antipapa", que apesar de parecer ter saído de uma história de super-heróis, serve para definir aqueles que se elegeram papas em oposição aos que foram escolhidos pelo poder central, em Roma. Entre os séculos 3 e 15, houve cerca de 30 antipapas. Reza a lenda que o desequilibrado Estevão, durante o julgamento, perguntou ao cadáver de Formoso: “Por que desrespeitaste esta diocese?”, ao que um diácono, escondido, respondeu: “Porque eu sou mau!”.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Trabalho doméstico não remunerado vale 11% do PIB no Brasil

https://www.cartacapital.com.br/economia/trabalho-domestico-nao-remunerado-vale-11-do-pib-no-brasil



CartaCapital, 19/06/17



Trabalho doméstico não remunerado vale 11% do PIB no Brasil



P
or Dimalice Nunes



A proposta de reforma da Previdência estabelece 62 anos como idade mínima para que mulheres possam se aposentar e 65 anos para os homens. Apesar da diferença, especialistas em gênero e participação da mulher no mundo do trabalho afirmam que o cálculo exclui as horas diárias que mulheres trabalham a mais que os homens e colabora para invisibilizar ainda mais o trabalho doméstico não remunerado.

A chamadaeconomia do cuidado” é o conjunto de atividades não remuneradas, geralmente exercidas por mulheres, como a limpeza da casa, preparação de alimentos e o cuidados com crianças, idosos e doentes da família. Um pacote que vale 11% do PIB atual segundo os cálculos da pesquisadora Hildete Pereira de Melo, professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (Abet). Em valores, foram cerca de 634,3 bilhões de reais em 2015, último dado disponível. 

A pesquisadora iniciou seus estudos sobre invisibilidade da mulher no mercado de trabalho em 1978 e, desde 2001, ela e sua equipe utilizam os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e e Estatística (IBGE) para calcular quanto vale o trabalho doméstico não remunerado. Contabilizar o valor dos afazeres domésticos no PIB do Brasil só se tornou possível a partir de 2001, quando o IBGE introduziu na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) a pergunta referente ao número de horas despendido pela população para executar essas atividades.
 
A conta, no entanto, ainda está aquém da realidade. Os dados do IBGE são a base dos cálculos de Melo, mas eles colocam numa mesma cesta um série de trabalhos que, quando remunerados, têm valores diferentes, como limpeza, cozinha ou o cuidado com idosos – tudo é classificado de forma genérica como “afazeres domésticos”.
Para calcular  a participação dessas atividades no conjunto das riquezas do País, os pesquisadores usam a média da remuneração das empregadas domésticas, que é diferente da renda de uma babá ou cuidadora de idosos, por exemplo.

É essa falta de dados mais precisos sobre o uso do tempo não remunerado que distorce o dado brasileiro em relação ao de outros países. Apenas na América Latina mais de 10 países já dimensionam o valor das atividades domésticas não-remuneradas no PIB. A média fica na casa dos 20%: 24,2% do PIB no México; 20,4% na Colômbia; 18,8% na Guatemala e 15,2% no Equador.
 

De casa para o PIB

Segundo a professora, 82% dessas atividades são realizadas por mulheres, mesmo num cenário em que 40% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres de acordo com dados do IBGE, uma evidente jornada dupla. Ainda segundo o instituto, homens dedicam cerca de 10 horas semanais às atividades não remuneradas, enquanto as mulheres dedicam pelo menos o dobro desse tempo. E mais: 40 milhões de mulheres têm como atividade única o trabalho não remunerado.

“Quando se trata de reforma da Previdência, dar visibilidade ao papel da mulher é mostrar que esse trabalho precisa ser reconhecido como riqueza”, afirma a deputada federal Ana Perugini (PT-SP). “Não há como ele ser reconhecido sem se estabelecer um valor. Só mensuramos a economia produtiva e não a reprodutiva. É comum dizer que o valor de um país está em seu povo, então precisamos saber de tudo que ele produz”, define. 

Mensurar e atribui valor ao trabalho doméstico não remunerado é bandeira, inclusive, da ONU Mulheres.

Segundo documento do órgão, o trabalho de cuidado não remunerado e o trabalho doméstico suprem carências em matéria de serviços públicos e infraestrutura. Eles formam uma carga e uma barreira injustas para a igualdade de participação no mercado de trabalho e na igualdade de remuneração.

A visibilidade das atividades realizadas dentro de casa é o foco da proposta, como defende a deputada Ana Perugini. Hildete Melo, da UFF, reforça a ideia. A pesquisadora conta que já chegou a ser abordada por donas de casa que se sentiram valorizadas quando souberam que seu trabalho tem um valor efetivo. 

“São 40 milhões de mulheres que trabalham exclusivamente em casa. Pensa na insatisfação que isso gera dentro de como o mundo do trabalho se organiza”, questiona. “Reproduzir a vida” – e não só falando na reprodução de fato, mas também do cuidado necessário para que outras pessoas gerem riqueza material – “é importante. Nós fazemos o que os homens fazem, mas eles não fazem tudo o que fazemos”, afirma Melo.   

Visibilidade é a palavra chave. É por isso isso que calcular o valor das atividades domésticas tem muito mais a ver com divisão sexual do trabalho do que com as Contas Nacionais, aquelas que calculam o PIB do país. “A não valoração decorre da discriminação sofrida pelas mulheres, a quem foi delegada a execução dessas atividades. A teoria econômica não fala nada sobre a economia reprodutiva, é tudo sempre pelo viés mercantil, só se trata do que se vende. Mas não se cria uma criança, se cuida de um idoso ou doente para vender”, ressalta Melo. 

A professora explica que as Contas Nacionais medem, por conceito, todas as operações socialmente organizadas para a obtenção de bens e serviços, sejam eles transacionados ou não no mercado, a partir de fatores de produção obtidos no mercado.

Isso inclui toda a produção para consumo próprio da agricultura e a produção por conta própria de bens de capital fixo imobilizados pelo próprio produtor, a casa em que se mora, por exemplo. Inclui também os serviços domésticos remunerados. “No caso do trabalho doméstico, quando exercido por terceiros, o valor desse serviço não mercantil equivale ao valor de sua remuneração, mas quando exercido por alguém da própria família ele não é computado nas contas nacionais”, esclarece.

O valor capturado ao se medir o trabalho doméstico não entraria de fato no PIB, ou seja, não inflaria o indicador. O projeto de lei, que segue recomendações internacionais e experiências já colocadas em prática em outros países, propõe a criação da chamada “conta satélite” específica para o trabalho doméstico não remunerado que funciona de forma paralela às Contas Nacionais, sem alterar seus resultados, mas fornecendo subsídios para quantificar a contribuição real do trabalho doméstico não remunerado.

A professora Hildete Melo explica que alguns países têm sua conta satélite restrita ao trabalho não remunerado em casa, outros ampliam esta contabilidade incorporando toda a produção realizada no interior dos domicílios incluindo, por exemplo, atividades de costura ou de preparo de alimentos “para fora”, a chamada conta satélite da produção domiciliar. “O fundamental é que a conta satélite expressa de forma realista essa economia não remunerada. O IBGE já tem as ferramentas para fazer esse cálculo. O que falta é verba para detalhar em quais atividades específicas as horas dos ‘afazeres domésticos’ são usadas e fazer a conta”, diz.

A história real por trás da crise econômica no Qatar





CartaMaior, 19/06/17



Sangue nas trilhas das Novas Rotas da Seda



Por Pepe Escobar 



"E antes que alguém pergunte, sim, o título é homenagem a Dylan.
Estamos todos enredados em... sangue*, não em nostalgia" (15/6/2017, Pepe Escobar, no Facebook).

O imperativo cardeal da política externa da China é não interferir em outros países, enquanto faz avançar as proverbiais boas relações com atores políticos chaves – ainda que estejam engalfinhados uns contra outros.

Seja como for, é de embrulhar o estômago de Pequim ter de assistir ao atual imprevisível impasse entre sauditas e qataris. Não há solução à vista, e cenários possíveis plausíveis incluem até mudança de regime e alteração geopolítica de proporções sísmicas no Sudoeste da Ásia – que visão ocidente-cêntrica chama de Oriente Médio.

E sangue nas trilhas no Sudoeste da Ásia só significa problemas ainda maiores à frente para as Novas Rotas da Sede, agora sob nova denominação de Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE [ing. Belt and Road Initiative, BRI].

Quando disse oficialmente que "Decidi (...) que é chegada a hora de exigir que o Qatar pare de financiar [o terrorismo]", o presidente Trump apenas assumiu como seus os créditos pela excomunhão orquestrada de Doha, resultado daquela já famosa dança das espadas Riad.

O alto staff de Trump contudo continua a afirmar que o Qatar jamais participou de discussões com os sauditas. O secretário de Estado Rex Tillerson, ex-presidente da Exxon-Mobil e conhecido agente operativo no Oriente Médio, fez o que pôde para diluir o drama – sabendo que não haveria razão para que o Qatar continuasse a abrigar em seu território a Base Aérea Al Udeid e o Centcom, para potência hostil.

Entrementes, a Rússia – entidade maligna preferida dentro do governo dos EUA – vai-se aproximando mais e mais do Qatar, desde a aquisição, que tudo mudou no início de dezembro, pela Autoridade Qatari para Investimentos, AQI [ing. Qatar Investment Authority, QIA] de 19,5% da gigante coroada de energia, Rosneft.

Esse movimento traduz-se como uma aliança econômico/política entre os dois maiores exportadores de gás do planeta; e explica por que Doha – que oficialmente ainda tem gabinete permanente no quartel-general da OTAN – repentinamente jogou debaixo do ônibus (econômico) os seus "rebeldes moderados" na Síria.

Rússia e China são unidas numa parceria estratégica complexa, de vários vetores. Pequim, privilegiando interesses econômicos, assume visão pragmática e jamais se inclina na direção de desempenhar papel político. Como maior produtor e exportador de manufaturas, o lema de Pequim é absolutamente claro: Faça comércio, Não Faça guerra.

Mas e se o Sudoeste Asiático vir-se em futuro próximo atolado em perenes relações de pré-guerra por todos os lados?


Irã, o melhor amigo da China e da ICE

China é a principal parceira comercial do Qatar. Pequim estava negociando ativamente um acordo de livre comércio com o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), antes dos atuais desentendimentos. Mais alguns passos à frente, cenário possível é até que o Qatar saia do CCG.

O Qatar é também a segunda maior fonte de gás natural liquefeito (GNL) para a China, e a Arábia Saudita é a terceira maior fonte de petróleo para a China. Desde 2010 a China está à frente dos EUA como maior exportador para o Sudoeste da Ásia, ao mesmo tempo em que firma a própria posição como maior importador de energia do Sudoeste da Ásia.

Recentemente, quando o rei Salman visitou Pequim, a Casa de Saud pôs-se a falar, em êxtase, de uma "parceria estratégica sino-saudita" baseada nem contratos assinados no total de $65 bilhões. A parceria, na verdade, baseia-se num acordo de cooperação em segurança, de cinco anos, entre Arábia Saudita e China, que inclui exercícios conjuntos de contraterrorismo e militares. Muito terá a ver com manter livre de qualquer tumulto político o lucrativo corredor Mar Vermelho-Golfo de Áden.

Claro, haverá quem faça cara de desagrado porque o wahhabismo saudita é a matriz ideológica do jihadismo salafista que ameaça não só o Sudoeste da Ásia e o ocidente, mas também a própria China.

As Novas Rotas da Seda, hoje ICE, implicam papel chave para o CCG – num investimento mútuo, marca registrada do modo chinês de "ganha-ganha". Num mundo ideal, a "Visão 2030" dos sauditas, de modernização, que o príncipe guerreiro Mohammed Bin Salman (MBS) vende praticamente sem pausa para respirar, poderia, em teoria, até conquistar o interesse do jihadismo salafista do tipo Daech por todo o Sudoeste da Ásia.

O que o príncipe MBS, iranofóbico, parece não compreender é que Pequim realmente privilegia o seu relacionamento econômico baseado na Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE, com Teerã.

No início do ano passado, quando o presidente Xi Jinping visitou Teerã, ele e o presidente Rouhani prometeram elevar o comércio bilateral China-Irã para colossais $600 bilhões em dez anos, praticamente todo o aumento relacionado à expansão da ICE.
China e Irã estão envolvidos em negócios sérios. Já há mais de um ano, trens de carga diretos entre China e Irã atravessam a Ásia Central em apenas 12 dias. E é só um aperitivo, antes da conexão completa por ferrovias de alta velocidade que cobrirão todo o arco da China à Turquia, via Irã, no início dos anos 2020s.

E em futuro distante (talvez nem tanto), uma Síria pacificada também será configurada como um dos nodos da Iniciativa Cinturão Estrada; antes da guerra, mercadores sírios eram figura de destaque no comércio de itens pequenos na Rota da Seda que vai do Levante a Yiwu na China ocidental.


ICE tem a ver com Turquia, Egito e Israel
 
A Rota Marítima da Seca chinesa nada tem a ver com algum "colar de pérolas" [de bases militares] ameaçador –, mas com infraestrutura de portos, construídos por empresas chinesas, que configuram pontos de parada chaves ao longo da ICE, do Oceano Índico via o Mar Vermelho e Suez até o porto grego de Pireus no Mediterrâneo. Pireus é propriedade da chinesa COSCO, que também opera o porto, desde agosto de 2016; esse moderno terminal de contêineres para comércio entre Leste e Oeste da Ásia já é o porto que cresce mais rapidamente em toda a Europa.

Por sua parte, o presidente Recep Tayyip Erdogan da Turquia já deixou bem claro que o interesse nacional da Turquia envolve o "Canal de Suez, mares adjacentes e dali até o Oceano Índico". Ao mesmo tempo em que Ancara instalou uma base no Qatar – agora há recebendo soldados –, também estabeleceu um Conselho de Cooperação Estratégica Turco-saudita.

Ancara pode estar-se engajando lenta e firmemente num 'pivô' em direção à Rússia –, no sinal verde para o Ramo Turco. Mesmo assim, também se pode falar de 'pivô' na direção da China – que também se deve desenvolver, percalços incluídos, em todas as áreas chaves, desde passar a ser membro do Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura (BAII), até passar a integrar a Organização de Cooperação de Xangai (OCX).

Ambos os países, Turquia e Irã – também possível membro pleno da OCX para o próximo ano –, estão apoiando ativamente o Qatar no presente impasse, inclusive mediante embarques regulares de alimentos. Vê-se assim mais uma vez como Pequim simplesmente não se pode deixar arrastar politicamente para o que é, na essência, a intratável, viciosa guerra pelo poder regional entre Irã e sauditas. Mais uma vez, a Iniciativa Cinturão Estrada supera tudo.

O Egito implica problema extra. Está alinhado com Riad, no atual impasse: afinal, o marechal-de-campo presidente Al-Sisi depende da "prodigalidade" da Casa de Saud.

Mas a nova capital no Egito, do tamanho de Cingapura a leste do Cairo é essencialmente financiada por investimento chinês: $35 bilhões ao final do ano passado, e aumentando. Brindes extras incluem Pequim facilitar a troca de moedas – provendo um empurrão muito necessário na economia egípcia. Ahmed Darwish, presidente da Zona Econômica do Canal de Suez, só tem elogios para o principal investidor no Corredor do Canal de Suez, que é Pequim, por falar dela.

E há também a nascente Conexão Israelense-Chinesa. Israel apoia a guerra-relâmpago de sauditas-Emirados Árabes Unidos contra o Qatar como, essencialmente, mais uma frente de guerra 'à distância' contra o Irã.

China está apostando em construir a ferrovia para trens de alta velocidade que ligará os mares Vermelho e Mediterrâneo. Se o proverbial oceano de contêineres puder ser acomodado perto de Eilat, os chineses poderão transferir a carga pela ferrovia Vermelho-Mediterrâneo até o Corredor do Canal de Suez, do qual os chineses já tomaram conta.
 
Construir a conectividade é ação frenética em todas as frentes. O Grupo Porto Internacional de Xangai [ing. Shanghai International Port Group] já controla o porto de Haifa. A China Engenharia de Portos [ing. China Harbor Engineering] construirá um novo porto de $876 milhões em Ashdod. Israel já é a principal fornecedora de tecnologia agrícola para a China – por exemplo, para dessalinização de água, aquicultura e criação de gado, por exemplo. Pequim quer importar de Israel mais tecnologia biomédica, de energia limpa e de telecomunicações. Suspense nessa relação é a iminente integração de Israel também como membro do BAII.

Não é exagero dizer que, doravante, tudo que aconteça no Sudoeste da Ásia será condicionado por e inter-relacionado à super rodovia-empório terra-mar da ICE, do Leste e Sudeste da Ásia até o sudeste da Europa.

Focada no movimento amplo da ICE na direção da multipolarização, da globalização 2.0 "inclusiva" e na rápida disseminação da tecnologia da informação, a última coisa de que Pequim precisaria seria qualquer retrocesso forçado: algum impasse fabricado, enlouquecido, como o novo front de guerra existencial à distância entre a Casa de Saud e o Irã, e com Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Israel engalfinhados contra Qatar, Turquia, Irã – e Rússia.

Não há dúvidas de que a insônia tem atormentado as noites no Zhongnanhai.** ***

* Blood on the Tracks [Sangue nas trilhas] é álbum de Bob Dylan, de 1975. Abre com a faixa Tangled Up in Blue [aprox. "Enredado em nostalgia/saudade"]. Pepe Escobar dá belo uso à semelhança (mais 'gráfica' que fonética) entre blue /blu/ e blood /bl%u08Cd/ (NTs).

** Zhongnanhai é um complexo de edifícios em Pequim, a oeste da Cidade Proibida, onde estão instalados o Diretório Central do Partido Comunista da China e a sede oficial do governo da República Popular da China [NTs com informações de Wikipedia].





Carta Maior, 19/06/17


A história real por trás da crise econômica no Qatar



Por Robert Fisk, The Independent



A crise no Qatar prova duas coisas: a infantilização continuada dos estados árabes e o total colapso da unidade dos muçulmanos sunitas, unidade que teria sido supostamente criada pela participação absurda de Donald Trump na conferência de cúpula dos sauditas, há duas semanas.

Depois de prometer lutar até a morte contra o “terror” xiita iraniano, a Arábia Saudita e parceiros mais íntimos agora se mobilizaram para combater um de seus vizinhos mais ricos, o Qatar, que seria a cabeça do “terror”. Só em peças de Shakespeare se vê traição de tais proporções. Nas comédias de Shakespeare, claro.

Porque, na verdade, há algo de inacreditavelmente delirante nessa charada. Claro que cidadãos do Qatar com certeza contribuíram para o ISIS. Mas, isso, cidadãos da Arábia Saudita também fizeram.
 

Nenhum qatari disparou aviões dia 11/9 contra New York e Washington. Mas todos os 19 assassinos eram sauditas. Bin Laden não era qatari. Era saudita.

Mas Bin Laden dava preferência ao canal al-Jazeera do Qatar, para divulgar suas falas pessoais, e foi o canal al-Jazeera quem tentou dar novo ânimo aos desesperados da al-Qaeda/Jabhat al-Nusrah na Síria, garantindo ao líder deles horas e horas de transmissão gratuita para explicar que, sim, eram grupo muitíssimo moderado, dedicado amante da paz.

Primeiro, tiremos da frente as partes histericamente cômicas dessa história. Vejo que o Iêmen estaria rompendo suas conexões aéreas com o Qatar. A notícia deve ter sido um choque para o pobre emir do Qatar, Xeique Tamim bin Hamad al-Thani, porque o Iêmen – sob bombardeio ininterrupto pelos ex-amigos sauditas e dos Emirados –, já não tem sequer um avião aproveitável com o qual criar, imaginem romper, conexões aéreas.

As Maldivas também romperam relações com o Qatar. Pelo sim, pelo não, o rompimento nada tem a ver com o empréstimo que sauditas acabam de prometer às Maldivas, por cinco anos, de $300m; nem com a proposta, de uma imobiliária saudita, de investir $100m na construção de um resort familiar nas Maldivas; nem com a promessa, feita por clérigos islamistas sauditas, de aplicar $100,000 em 10 mesquitas “de classe internacional” nas Maldivas.

E isso para nem falar do grande número de crentes fervorosos do ISIS e de outros cultos islamistas, que chegam ao Iraque e Síria para lutar contra o ISIS vindos – ora essa! Das Maldivas.

Agora que o emir do Qatar está sem soldados suficientes para defender o próprio pequeno país, os sauditas resolvem que ele teria de solicitar que os exércitos sauditas invadam o Qatar para restaurar a estabilidade – como os sauditas em 2011 persuadiram o rei do Bahrain a fazer. Mas o Xeique Tamim sem dúvida espera que a gigantesca base aérea militar dos EUA no Qatar seja suficiente para conter a generosidade saudita.

Quando perguntei ao pai de Tamin, Xeique Hamad (que adiante foi impiedosamente derrubado do poder por Tamin) por que não despachara os norte-americanos para bem longe do Qatar, ele respondeu: “Porque, se tivesse despachado, meus irmãos árabes me invadiriam.

Tal pai, tal filho, acho eu. God Bless America.

Tudo começou – conforme querem que acreditemos – com um suposto ataque de hackers contra a Agência Qatar News, que expôs alguns comentários pouco elogiosos, mas incomodamente corretos, do emir do Qatar sobre a necessidade de manter um relacionamento com o Irã.

O Qatar negou a veracidade da história. Os sauditas resolveram que era tudo verdade e divulgaram aqueles conteúdos pela própria (e mortalmente entediante) rede de televisão estatal. O supracitado emir, essa era a mensagem, fora longe demais daquela vez. Os sauditas, não o minúsculo Qatar, mandam no Golfo. E a visita de Donald Trump não comprovou precisamente isso?!

Mas os sauditas têm outros problemas com os quais se preocupar. O Kuwait, longe de romper relações com o Qatar, faz agora as vezes de pacificador entre Qatar e sauditas e Emirados. O Emirado de Dubai é muito próximo do Irã, recebeu dezenas de milhares de expatriados iranianos e absolutamente não segue o exemplo de ira anti-Qatar que vem de Abu Dhabi.

Há poucos meses, Omã estava até fazendo manobras navais conjuntas com o Irã. O Paquistão há tempos declinou o convite para mandar seus exércitos ajudar os sauditas no Iêmen, porque os sauditas requereram só soldados sunitas, não soldados xiitas; o exército paquistanês sentiu-se muito compreensivelmente ultrajado ao se dar conta de que a Arábia Saudita já obrava para sectarizar até o corpo militar paquistanês.

Há boatos de que o ex-comandante do Exército do Paquistão, general Raheel Sharif, estaria a ponto de se demitir da presidência da aliança muçulmana patrocinada pelos sauditas para combater o “terror”.

O presidente marechal de campo al-Sissi do Egito andou chiando contra o Qatar por apoiar a Fraternidade Muçulmana no Egito – e o Qatar, sim, apoia mesmo o grupo agora banido, que Sissi diz, erradamente, que seria parte do ISIS – mas o Egito, embora receba milhões dos sauditas, tampouco tem intenção de mandar soldados seus para ajudar os sauditas naquela guerra catastrófica que fazem contra o Iêmen.

Além disso, Sissi precisa de seus soldados egípcios para expulsar o ISIS e manter, mancomunado com Israel, o sítio contra a Faixa de Gaza palestina.

Mas, se se olha um pouco adiante pela estrada, não é difícil ver o que realmente preocupa os sauditas. O Qatar também mantém silenciosos laços com o regime de Assad; ajudou a libertar com segurança as freiras cristãs sírias sequestradas pela [frente] Jabhat al-Nusrah; e ajudou a libertar soldados libaneses sequestrados pelo ISIS no oeste da Síria. Quando as freiras deixaram o cativeiro, agradeceram a ambos, a Bashar al-Assad e ao Qatar.

E há suspeitas crescentes no Golfo de que o Qatar tem ambições muito maiores: financiar a reconstrução da Síria pós-guerra. Mesmo se Assad permanecer como presidente, a dívida síria poria a nação sob controle econômico do Qatar.

Isso, sim, daria ao minúsculo Qatar duas taças de ouro. Dar-lhe-ia um império territorial que faria dupla com o império midiático al-Jazeera. E estenderia a prodigalidade aos territórios sírios, os quais muitas empresas de petróleo gostariam de usar como rota de oleodutos do Golfo à Europa via Turquia, ou via navios-tanques petroleiros, do porto sírio de Lattakia.

Para os europeus, essa rota reduz as chances de serem chantageados pelo petróleo russo, e cria vias marítimas para o petróleo, menos vulneráveis se os navios-tanque não tiverem de cruzar o Golfo de Hormuz.

É ganho muito considerável para o Qatar – ou para a Arábia Saudita, claro, se o que se diz sobre os EUA controlarem os dois emires, Hamad e Tamim, não se confirmar. Uma força militar saudita no Qatar permitiria a Riad mamar todo o gás líquido que há no emirado.

Mas evidentemente os sauditas “antiterror” e amantes da paz – deixemos de lado por um instante as degolas – jamais desejariam a um irmão árabe destino tão desgraçado.

Assim sendo, esperemos que, pelo menos por enquanto, as linhas aéreas da Qatar Airways sejam a única parte esquartejada do corpo político qatari.


 * Traduzido por Vila Vudu

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Bom-mocismo é a marca de uma esquerda que tem medo do embate político




Jornal GGN, 15/06/17


Bom-mocismo é a marca de uma esquerda que tem medo do embate político


Por Luis Felipe Miguel, em seu Facebook



Eu não queria mais falar do affair Míriam Leitão, mas há algo que está incomodando demais. É a epifania que o episódio gerou em alguns, a visão de que há uma "selvageria" que a esquerda precisa a todo custo extirpar. Com argumentos delirantes e um bom-mocismo de gelar os ossos.

Primeiro, muita gente ignora um fato central: a tal agressão provavelmente nunca existiu. Há as incongruências do relato dela, há o timing estranhíssimo, há os depoimentos, vários, que a contradizem. Daí eu leio gente dizendo que não se pode duvidar da vítima. Isso, me perdoem, é uma demência. Há uma falha lógica. Se não houve agressão, não há vítima, então não há porque deixar de duvidar...

A regra de aceitar a denúncia da vítima como ponto de partida nasceu no contexto do descaso generalizado das polícias diante de casos de violência sexual. É uma regra muitíssimo razoável. Mas não implica negar a possibilidade de denúncia falsa, muito menos estabelecer um dogma de que qualquer pessoa que acuse outras de uma violência sempre merecerá crédito irrestrito e a despeito de quaisquer evidências contrárias.

Parece que o que sobra são algumas cantorias esparsas contra a Rede Globo em momentos isolados do voo, algo pouco educado, talvez, mas que nem de longe justifica tamanho auê. Muito menos que se compare com linchamento, amarrar em poste etc. É o tipo de discurso que evoca um clássico da minha infância, sempre útil para encerrar a discussão: apelou, perdeu.

Caso a agressão tivesse se desenrolado de fato da maneira como Leitão a narra, caberia discutir a gravidade dela. Eu, pessoalmente, acho que o escracho é algo sério, que deveria ser reservado para circunstâncias igualmente sérias.

Acho, sobretudo, que é necessário pesar seu resultado líquido: escrachar um torturador tem certamente um resultado diferente de escrachar uma jornalista reacionária. O torturador é desnudado; a jornalista pode posar de mártir da liberdade de expressão. Portanto, o escracho no avião teria sido provavelmente uma besteira, um exercício mal direcionado de agressividade, uma catarse politicamente mal calculada. Mas está longe de ser um crime de lesa-humanidade.

Li também gente dizendo que não se podia escrachar Leitão porque ela é reacionária mas "sempre defendeu os direitos humanos". Com que conceito de "direitos humanos" se está trabalhando, em que a proteção ao trabalhador e a garantia da velhice digna, por exemplo, não entram?

O meu incômodo, afinal, está nisso. Tanta indignação porque, aparentemente, está faltando finesse do nosso lado. Enquanto isso, a opressão cotidiana das maiorias continua normalizada. Antes que saquem a carta de gênero, não custa lembrar que, com o retrocesso nos direitos, as mulheres trabalhadoras são as primeiras vítimas do golpe que Leitão contribuiu, no limite das suas forças, para produzir. Então vamos pensar no tamanho da violência sofrida, entre a jornalista da Globo no avião e a operária, a balconista ou a camponesa, e calibrar nossa indignação de acordo.

Esse bom-mocismo é a marca de uma esquerda que tem medo do embate político, que vê o conflito social como diletantismo, que está focada na admiração de suas próprias qualidades.

Minha linha divisória não está nas boas maneiras; é quem quer a democracia e a garantia dos direitos contra quem não quer. Do lado de cá, tem gente rude, tem gente que perde a cabeça, tem gente que xinga, tem gente com uma visão política que acho limitada. Discordo, muitas vezes, às vezes posso até me exasperar, mas discordo estando do mesmo lado.

O caso de Míriam Leitão, mesmo que fosse verdade, estaria longe de justificar tamanha revolta moral. Afinal, estamos falando de política, do futuro de milhões de pessoas de carne e osso e do envolvimento muitas vezes apaixonado com causas e ideais. E no Brasil. Não estamos falando de um baile à fantasia em alguma Noruega mítica.

Miriam Leitão, capas de revistas e a teratopolítica

http://cinegnose.blogspot.com.br/2017/06/miriam-leitao-capas-de-revistas-e.html#more




Cinegnose, 15/06/17


Miriam Leitão, capas de revistas e a teratopolítica


Por Wilson Ferreira



A denúncia tardia da jornalista Miriam Leitão de que supostamente teria sido vítima do ódio de petistas num voo entre Brasília-Rio tem um timing preciso: o momento no qual Lula e Lava Jato estão em segundo plano diante da guerra entre os canhões da Globo e a resistência do desinterino Michel Temer em se agarrar à presidência. Além da palavra de ordem “Fora Temer!” ter evoluído nas ruas para o lema “Diretas Já!”.
 
Miriam Leitão coloca mais uma vez em funcionamento os mecanismos da “teratopolítica” – a estratégia semiótica da criação de inimigos monstruosos (o morfologicamente disforme, o monstro ou o simulacro humano) na política. Por contraste, as recentes capas das revistas informativas nacionais sobre a atual crise política demonstram isso: enquanto as representações de Dilma e Lula derivam entre a deformidade e um simulacro humano que se quebra ou derrete, com Temer é diferente: é o enxadrista e o estrategista que mantém a morfologia humana. Diferentes planos semânticos, sintomas do atual racha na grande mídia e uma guerra fratricida entre aqueles que articularam o golpe político de 2016.


Nas últimas semanas, Lava Jato, Power Points, triplex do Guarujá, pedalinhos de Atibaia e Lula, se não desapareceram, pelos menos ficaram em segundo plano na pauta da grande mídia.

Juntamente com os repórteres e comentaristas da Globo (esbaforidos, perplexos e gaguejantes ao vivo com a repentina decisão da emissora de jogar Temer ao mar), os brasileiros ficaram eletrizados com áudio do desinterino Temer gravado secretamente por Joesley Batista, o vídeo de uma mala cheia de dinheiro conduzida às pressas em pleno bairro do Itaim/SP pelo deputado federal e assessor especial de Temer, Rocha Loures, entre outras revelações-bombas diárias que colocam em xeque o atual Governo.

A divisão da mídia corporativa brasileira entre, de um lado, a Globo (que defendeu abertamente a renúncia do presidente e sustenta esmagadora maioria de manchetes tendo Temer como alvo), e do outro Estadão e Folha tentando apagar o incêndio marcou uma inédita ruptura na atuação em bloco das mídias nessas duas décadas de governos petistas.

Mas esse racha liderado pela poderosa Globo produziu um crescente e incômodo efeito colateral: o início da unificação das esquerdas e organizações sindicais em torno do “Fora Temer!” que evoluiu para a palavra de ordem “Diretas Já!”. Isso depois de uma bem sucedida Greve Geral em abril e o anúncio de outra para o dia 30 desse mês.

Certamente o lema “Diretas Já!” será o mote dessa nova greve, carro-chefe de luta pela defesa dos ameaçados direitos trabalhistas e previdenciários.

E como nas recentes coberturas de manifestações, prevê-se mais uma vez a Globo, tal como uma avestruz tautista, enfiando a cabeça na terra e tentado fazer os telespectadores acreditar que todos nas ruas estão juntos com a emissora, apenas pelo “Fora Temer!” – sobre o conceito de “tautismo” clique aqui.

 

Teratopolítica e vácuo político

 

Nesse vácuo político do cai-não-cai do desinterino Temer, e de um governo paralisado e sem conseguir tocar as reformas abençoadas pela mídia corporativa, começa a ficar preocupante para a mídia corporativa a pretensão das esquerdas e centrais sindicais ocuparem o espaço político. E, o que é pior, ver o crescimento do capital político de Lula, como atestam pesquisas recentes, mesmo com todas as convicções da chamada “República de Curitiba” onde estão os próceres da Lava Jato.

Portanto, entra mais uma vez em ação a estratégica semiótica de “teratopolítica” – derivado da teratologia ( de “depato”, “monstro”): ramo da ciência médica preocupado com o estudo das causas ambientais que possam alterar o desenvolvimento pré-natal levando a desenvolvimentos anormais.

Teratopolítica: demonizar o inimigo através da simplificação, exagero, vulgarização até transformá-lo em uma anormalidade, aberração e perigoso veículo de contágio de patologias sociais como ódio, violência, intolerância e preconceito.

Os instrumentos semióticos para a “teratopolitização” do inimigo vão das charges, montagens “fotoshopadas” em capas de revistas, mas, principalmente, matérias jornalísticas nas quais o jornalista é a própria (e única) fonte da informação de uma matéria ou coluna inteira.

 

O timing de Miriam Leitão

 

Eis que, após o “escândalo da fraude da Wikipédia” (mais uma das bombas ideológicas diárias feitas para minar o Governo Dilma), no qual denunciava que o seu perfil na enciclopédia eletrônica tinha sido alterado a partir de um IP do Palácio do Planalto, a jornalista Miriam Leitão volta à cena – na sua coluna em O Globo denunciou que fora vítima de “duas horas” de xingamentos e gritos” contra ela e a Globo em um voo Brasília-Rio.

Denunciou que os agressores eram “representantes partidários do PT”. Leitão levou dez dias para denunciar as agressões em sua coluna, em uma narrativa repleta de lacunas como muito bem apontou o jornalista Luís Nassif e relatos de passageiros que estavam no voo, contradizendo a colunista global – clique aqui.

Assim como no episódio do “escândalo da Wikipédia”, Mirian Leitão levou dias para fazer a denúncia. Lá em 2014, o timing foi a Operação Anti-Copa (com o auxílio luxuoso dos black blocs e manifestações de rua) e a CPI da Petrobrás – clique aqui.

Enquanto aqui, a “denúncia” de Leitão acontece num momento em que o desinterino Temer não caiu tão rápido como a Globo pretendia (a derrota da emissora no Tribunal Eleitoral que absolveu a chapa Dilma-Temer foi sentida nos telejornais globais) enquanto Lula e o PT ficaram em segundo plano diante da artilharia midiática voltada agora contra o Governo.

Por isso, o escândalo do suposto linchamento dos petistas contra uma jornalista da Globo no voo da Avianca pode ser o início de uma nova escalada da estratégia semiótica teratopolítica: petistas (assim como bolivarianos, comunistas e afins) são monstros intrinsecamente violentos e intolerantes.

 

Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come

 

Estamos diante de típica Fake News que evoluiu para uma pós-verdade: a presidenta do PT Gleisi Hoffmann passa recibo para a narrativa de Miriam Leitão ao pedir desculpas em nome do partido, acompanhando a solidariedade de órgãos de comunicação (Abraji, Abert, Aner, ANJ etc.).

Esse é o double bind (duplo vínculo - se ficar o bicho pega se ficar o bicho come) dessas não-notícias:
mesmo que você desconfie que tudo seja uma Fake News e dê tempo para apurar os fatos, involuntariamente passará a percepção de que é conivente com os supostos casos relatados – o tempo da Internet é instantâneo. Por outro lado, se reage aos acontecimentos dando anuência aos fatos, dará pernas a uma não-notícia.

Qualquer desmentido ou relatos posteriores revelando a falsidade das notícias serão ignorados: a primeira impressão é a que fica!

Por contraste, essa estratégia semiótica de teratopolítica está em prosseguimento nas capas das revistas semanais atuais sobre a crise política em torno do cai-não-cai do desinterino Temer.

Teratopolítica nas capas de revistas


Comparando as capas de revistas na época da crise política Dilma-Lula com a atual crise são marcante as diferentes formas de significações dos protagonistas supostamente envolvidos em denúncias de corrupção.

Enquanto as representações de Dilma e Lula transitam entre as feições da derrota e resignação derivando para a monstruosidade, na atualidade as representações de Temer na grande imprensa estão entre os signos do guerreiro, do estrategista e do intrépido.



Por exemplo, comentaristas da Globo News são unânimes em dizer que Temer fez a “fama” na política por “ser estrategista”, talvez como racionalização para a derrota da Globo em derrubá-lo rapidamente.

A “isotopia” (o plano de sentido semântico) das capas de revista informativas nacionais quando refere-se à Dilma e Lula é a do “terato” – algum tipo de deformidade que deve ser acuada, cercada, queimada, presa para depois ser despachada. E as representações icônicas transitam entre o monstro, o disforme ou algum tipo de simulacro humano como um fantoche controlado ou uma estátua que se quebra, se desfaz ou derrete.

Quando o tema das capas é Michel Temer a isotopia é totalmente diferente: é o “Pelejador” – guerreiro, enxadrista, estrategista, lutador. Temer mantém a integridade corporal e fisionômica. Para a grande mídia, a humanidade e morfologia do desinterino Temer são mantidas como se estivéssemos diante de um oponente digno e que deve, apesar de tudo, ser respeitado.



​Bem diferente de quando estamos diante das capas com Lula e Dilma: parecem pertencer a uma outra classe dos seres vivos – a das aberrações e dos seres infernais.

Essas isotopias diametralmente opostas das capas de revista levam a uma conclusão óbvia: Dilma e Lula são seres estranhos ao mundo dos homens de bem (os leitores das revistas) e devem ser perseguidos e eliminados.

Enquanto Temer, dentro da taxonomia dos seres vivos, apesar de tudo, pertence à espécie humana. Mesmo como suspeito ou inimigo, Temer ainda possui a dignidade da condição humana.

Esse grande racha na mídia corporativa (de um lado os canhões da Globo e do outro o restante da mídia levando baldes para tentar apagar o incêndio) demonstrado pelos diferentes planos semânticos nas capas de revistas nacionais atesta que testemunhamos uma guerra fratricida: Temer é um dos seus, mas virou um enxadrista indesejável.

Enquanto isso, cabe à República de Curitiba prender os monstros para enviá-los de volta aos quintos dos infernos.