segunda-feira, 24 de julho de 2017

Trem-bala







Não é sobre ter
Todas as pessoas do mundo pra si
É sobre saber que em algum lugar
Alguém zela por ti
É sobre cantar e poder escutar
Mais do que a própria voz
É sobre dançar na chuva de vida
Que cai sobre nós

É saber se sentir infinito
Num universo tão vasto e bonito
É saber sonhar
E, então, fazer valer a pena cada verso
Daquele poema sobre acreditar

Não é sobre chegar no topo do mundo
E saber que venceu
É sobre escalar e sentir
Que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo
E também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo
Em todas as situações

A gente não pode ter tudo
Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso, eu prefiro sorrisos
E os presentes que a vida trouxe
Pra perto de mim

Não é sobre tudo que o seu dinheiro
É capaz de comprar
E sim sobre cada momento
Sorriso a se compartilhar
Também não é sobre correr
Contra o tempo pra ter sempre mais
Porque quando menos se espera
A vida já ficou pra trás

Segura teu filho no colo
Sorria e abrace teus pais
Enquanto estão aqui
Que a vida é trem-bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir

Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá
Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá

Segura teu filho no colo
Sorria e abrace teus pais
Enquanto estão aqui
Que a vida é trem-bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir

As areias cantantes do deserto










Folha.com, 24/07/17



Cientista francês desvenda mistério das areias cantantes do deserto


Da BBC Brasil



Se você for a uma área no norte do deserto do Saara, no Marrocos, poderá ouvir –e ficar intrigado– com uma misteriosa música. Ela não vem de tendas, casas ou oásis, ela vem das dunas de areia.


​No século 13, o explorador Marco Polo já descrevia esse ruído estranho. Ele o comparava a cavalos trotando em batalha ou a espíritos assombrando viajantes. Em outros momentos, dizia que ele "preenchia o ar com sons de todos os tipos de instrumentos musicais", conta o livro ‘As Viagens de Marco Polo’.

Por muito tempo, o motivo do fenômeno natural raro permaneceu um mistério. Mas o físico francês Stéphane Douady tem buscado –e obtido– respostas sobre o fenômeno desde 2001.


CANTO DO ACASO
 
Douady e sua equipe se depararam com os sons do deserto por acaso, quando estavam em missão para estudar a formação das dunas e notaram que elas emitiam um som "fascinante".

"Já a primeira duna que visitamos era uma 'cantora' excepcional", disse o pesquisador, em entrevista por email à BBC Brasil.

O ruído surgiu quando um dos pesquisadores da equipe descia pelo monte de areia. A cada passo, ouvia-se um "uoooook", descreve Douady.

"Foi um momento mágico, [ouvimos] um som muito alto, de 110 decibéis, comparado ao de um pequeno avião sobre você", acrescentou ao programa Outlook, da BBC.

E se alguém corresse ou manuseasse a areia com a mão, o tom mudava. Eles, então, passaram o dia ali coletando dados e testando diferentes sons com os grãos de areia.

"Foi um dos melhores momentos da minha carreira", continua. "Primeiro porque era intelectualmente estimulante, pois as coisas que se pensava que eram sabidas na verdade não eram. E, ao mesmo tempo, estávamos nos divertindo tanto que parecíamos crianças no playground."

Mas, até aquele momento, não entendiam ainda as razões por trás dos sons. "O mistério que era o mais excitante", afirma Douady.


AREIA NA MALA
 
Para estudar o fenômeno, os pesquisadores levaram areia do deserto até o Laboratório de Matéria e Sistemas Complexos (CNRS, na sigla em francês), em Paris.

Cada um dos quatro integrantes da missão encheu seis garrafas de vinho com areia e as colocou em sua bagagem. "Isso seria o suficiente para fazer uma 'avalanche' cantante no laboratório", conta o pesquisador.

Nas pesquisas em Paris, a primeira descoberta foi que o som era produzido pelo movimento sincronizado dos grãos de areia, e que o volume e a variação tonal eram influenciados pelo tamanho desses grãos.
 
A partir daí, sua equipe visitou outros países para checar a teoria. Eles notaram que cada deserto tinha seu próprio timbre. 

Os grãos do deserto de Atacama no Chile eram parecidos e tão cantantes quanto os do Marrocos. Seus grãos eram mais homogêneos e tinham um som mais "puro". Em Omã, com grãos mais irregulares, o som era mais "duro". Eles visitaram ainda Estados Unidos e China, onde o acesso era difícil, e as areias produziam menos sons.


POR QUE CANTAM
 
Descobrir por que algumas dunas cantavam e outras não acabou virando a motivação do físico francês. "Estava ficando até um pouco obcecado com isso", conta.

Depois de meses de estudo, Douady notou momentos em que as areias paravam de cantar, e teve, então, a ideia de submergir os grãos em água salgada, como a do mar. 

Mais descobertas começaram a surgir. O deserto precisa ser seco, mas com "um pouco de água salgada para fazer a mágica", diz Douady.

Outros fatores estão nos grãos: precisam ser redondos para rolarem com facilidade e serem cobertos por um tipo de verniz de minerais, como magnésio, alumínio e ferro. 

Esse verniz produz uma cor preta, que transluz. O pesquisador acredita que esse verniz é essencial para produzir o som, mas ainda não entende o motivo. 

"Então o mistério ainda está lá", comenta Douady sobre o próximo passo da pesquisa. "É incrível saber que ainda há outras coisas para se descobrir".


VIAGEM DE TRANSFORMAÇÃO
 
Douady afirma que a expedição às dunas cantantes mudou sua vida. Seu interesse foi além do comportamento físico das areias. 

"Com todos aqueles sons, eu queria fazer música. Então busquei um artista que pudesse combinar gravações desses sons para fazer uma peça de música", conta Douady, que promoveu o lançamento do CD ‘Le Chant des Dunes’, de Estelle Coquin.


​"Tenho muito carinho por esse assunto. Não apenas porque é poético e musical, mas também porque é um fenômeno raro e não há muitas dunas no mundo que 'cantam' bem. E porque há fenômenos simples ao nosso redor que ainda são misteriosos e precisam ser explicados."

O som das dunas despertou o interesse do documentarista Mathias Théry que, em 2008, voltou ao deserto na companhia de Douady, e fez um documentário, ‘Cherche Toujours’, que tem trechos disponíveis no YouTube.

domingo, 23 de julho de 2017

Padre Moro



Padre Moro

(Por Eduardo de Paula Barreto)


Era dia de confissão
E os ladrões do erário
Na igreja da Conspiração
Entraram no confessionário
FHC contou ao Padre Moro:
‘Eu pequei com muito gosto
Quando fui Presidente
Assumo aqueles 100 milhões
E os roubos das privatizações’
Moro o perdoou imediatamente.
.
Aécio abrindo logo o jogo
Assumiu a paternidade
Daquele famigerado aeroporto
Que deu ao tio por caridade
E confessou: ‘Desviei o que pude
Daquelas verbas da Saúde
E Furnas me manteve abastado
Com as mesadas cujo dinheiro
Eu misturava ao do mensalão Mineiro’
E Moro perdoou os seus pecados.
.
Quando chegou a vez de Alckmin
Ele deixou o Padre Moro cansado
Por apresentar uma lista sem fim
Dos crimes que havia praticado
Confessou sobre o Trensalão
Gestão hídrica e a gratuita agressão
Aos alunos e professores
Admitiu que toda a sua legenda
Se beneficiava da Máfia da Merenda
E Moro o perdoou com louvores.
.
Todos os pecadores de direita
Confessaram os atos de corrupção
E apesar das maracutaias feitas
Todos receberam o perdão
E saíram da igreja
Se sentindo a cereja
Do bolo da criminalidade
E reassumiram os seus postos
Para roubarem de novo
Certos da impunidade.
.
Já era fim de tarde
Quando pessoas de bem
Se aproximando do Padre
Se confessaram também:
‘Nós éramos miseráveis
Como seres descartáveis
Numa sociedade cega
Mas hoje somos cidadãos
Graças à implantação
Dos ideais de esquerda’.
.
Então o Padre perguntou:
‘Mas quem promoveu a cura
Da sociedade que os flagelou?’
E todos gritaram: ‘Lula’
Foi quando num salto súbito
O Padre subiu ao púlpito
E rasgando a Bíblia do Supremo
Anunciou a sentença vingativa:
‘Sr. Luiz Inácio Lula da Silva
Pelo bem que fez, eu o condeno.'

sábado, 22 de julho de 2017

Dona de bordel vira tema de estudo em universidade federal





UOL, 22/07/17



Dona de bordel vira tema de estudo em universidade federal: "Caridosa e odiada"


Por Mário Bittencourt, em Vitória da Conquista (BA)



Habitualmente, as quartas-feiras são tímidas no bordel de Cabeluda, em Cachoeira, cidade do Recôncavo Baiano situada a 110 km de Salvador. Mas, no dia 5 de julho, o movimento foi fora do normal. Enquanto um homem saía de um dos quartos, ainda se arrumando, muitas outras pessoas iam entrando, até não caber mais ninguém no local. A maioria carregava um smartphone na mão, registrando o que podia.

Cabeluda, que é a dona e dá nome ao estabelecimento, estava toda produzida, com roupas novas e de cabelos grisalhos bem penteados, cercada de pessoas queridas. Afinal, para a cafetina de 73 anos, era um momento especial: ela e o mais famoso bordel da região, há mais de 40 anos em atividade, entrariam na UFRB (Universidade Federal do Recôncavo Baiano).


​Não como aluna nem como funcionária, mas como tema da dissertação de mestrado em ciências sociais da historiadora e pesquisadora baiana Gleysa Teixeira Siqueira. O local, onde doutores da academia avaliavam o projeto de mestrado, foi por décadas alvo do amor e da cólera da sociedade de Cachoeira, cujo início do povoamento remonta a 1531.

A dissertação "Uma História de Cabeluda: Mulher, Mãe e Cafetina" foi a primeira defendida fora dos muros da universidade, criada em 2005 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Alheia às fragilidades da idade, Cabeluda ficou o tempo todo em pé, ao lado de Teixeira, observando o que falavam sobre ela e sua casa, frequentada não só por quem deseja sexo, mas também amizades.

Mulher de pouca leitura, a cafetina demonstra satisfação no que vê e ouve por meio de expressões faciais, de onde brota um sorriso sincero. Durante a pesquisa, baseada no método de história oral, a futura mestra coletou depoimentos de parentes, amigos, amigos, vizinhos, autoridades, clientes, atuais e ex-profissionais do sexo e da própria Cabeluda, cujo apelido decorre dos pelos que ela tem no corpo.

Aos parentes, Cabeluda diz que não esperava tanta gente nem repercussão na mídia e se preocupa em como seus irmãos, que reviu recentemente, após 50 anos separados, vão absorver a notícia sobre o que fez durante todo esse tempo no "brega".

Brega é um termo regional no Nordeste que significa boate, casa noturna ou de prostituição. Também é como Cabeluda e suas moças reconhecem o local onde habitam, trabalham, trocam experiências de vida e possuem laços sociais em comum, fazendo daquele espaço um território.

Casa de tolerância, prostíbulo, puteiro e cabaré são sinônimos que muitas vezes carregam em si a carga do preconceito e da marginalização de pessoas que escolheram explorar o próprio corpo como forma de ganhar a vida.


Usar o termo negativo para torná-lo motivo de orgulho

"Apesar de não ser considerado assunto de interesse da política e da cultura, o brega faz parte da cultura local. O termo local é brega. Na antropologia, a gente valoriza como as pessoas chamam o modo como se reconhecem", disse o antropólogo e doutor em ciências sociais Osmundo Santos de Araújo Pinho, orientador da pesquisa sobre Cabeluda.

"Ativistas, como Gabriela Leite, falam delas como putas. Grupos estigmatizados buscam assumir o termo usado como ofensa para positivá-los. É como o negro, que hoje tem motivo de orgulho em ser chamado assim", completou.

O professor, que teve a ideia de a dissertação ser defendida no brega de Cabeluda, observou que o trabalho serviu para mostrar a ambiguidade reinante ainda na sociedade quando se fala em sexualidade.

"É visto como algo marginal, obsceno, mas ao mesmo tempo tem um reconhecimento e respeitabilidade, algo muito típico do Brasil. Ao mesmo tempo em que as putas são odiadas pelas mães de famílias, elas têm a sua importância social reconhecida", disse.

Diversas pessoas de Cachoeira, por exemplo, direcionam elogios a Cabeluda por ela ser uma pessoa generosa, que nunca negou aos outros um prato de comida ou pedido de ajuda financeira em momentos de dificuldade.


Casada aos 13 anos, agredida e infeliz

A distância da família ocorreu cedo: Cabeluda viu-se obrigada a se casar aos 13 anos com um homem mais velho e de quem apanhava.

Um dia se cansou da vida que não tinha e resolveu fugir de Itabuna (sul da Bahia), terra natal do escritor Jorge Amado, que imortalizou em suas obras personagens populares como Gabriela, Tereza Batista, Dona Flor e Tieta, marcadas pela sexualidade e pela luta contra o machismo e a repressão social. A história dessas personagens possui traços em comum com a de Cabeluda, que deixou a cidade onde nasceu e se criou com pouco mais de 20 anos, sem levar consigo roupas ou documentos.

Primeiro, foi para Feira de Santana e depois aportou em Cachoeira, município de 35 mil habitantes banhado pelo rio Paraguaçu. Encontrou uma cidade cuja economia estava em decadência, devido a construções de estradas de rodagem e de ferrovias, tirando o local da rota de escoamento da produção agrícola. Por séculos, o porto de Cachoeira foi o principal ponto de escoamento para a Europa de toda a produção agrícola regional, principalmente focada em cana de açúcar e tabaco.

Durante o apogeu econômico, foram construídos os cerca de 670 prédios de tendência neoclássica, hoje tombados pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que deram à cidade o status de "monumento nacional".

Uma das heranças coloniais de Cachoeira, que foi elevada à cidade em 13 de março de 1837, por decreto imperial, é a religiosidade: são 50 terreiros de candomblé, além de igrejas católicas diversas.

Quando Cabeluda chegou a Cachoeira, na zona portuária havia resquícios dos tempos áureos, da boêmia, com diversos bares e bregas próximos ao local.

Eles eram frequentados, sobretudo por viajantes e moradores da vizinha São Félix, que fica do outro lado do rio, sobre a qual está a ponte Dom Pedro 2º, construída na época do Império e uma das poucas no Brasil a ter a sua estrutura apenas em ferro (importado da Inglaterra) e madeira.

Um dos bregas mais famosos era conhecido como Guarani e também funcionava como casa de hospedagem. Foi onde Cabeluda buscou guarita. Outro que tinha clientela certa era o de Nenzinha, ambos situados na "rua do brega".

Cabeluda ficou no Guarani por pouco tempo. Com ajuda de uma amiga, foi para a rua Tavares, próxima à zona portuária, para abrir o negócio dela - atuava como profissional do sexo e cafetina ao mesmo tempo.

"Havia diversos bregas na cidade, aos poucos eles foram sumindo por causa da queda no movimento, mas o de Cabeluda sobreviveu e hoje faz concorrência com outros bregas menos famosos", conta a pesquisadora Gleysa Teixeira.


"Menina direita não podia andar na rua do brega"

Assim como toda criança nascida nos últimos 40 anos em Cachoeira, Gleysa, 33, cresceu ouvindo conselhos para nunca chegar perto da rua do brega - e ainda mais de Cabeluda.

"Quando eu era pequena, tinha medo de passar pela rua do brega por causa do imaginário social, da estigmatização do lugar. Sempre houve um discurso moralista contra o local, de que menina direita não pode andar lá", conta Gleysa.


​A ideia de pesquisar sobre a vida de Cabeluda veio ainda na graduação em história pela UFRB, quando o foco era sobre gênero feminino e classe trabalhadora. Foi amadurecida na especialização e posteriormente no mestrado.

"A possibilidade de estudar a Cabeluda veio com o professor Antonio Liberac Simões Pires, meu primeiro orientador num projeto de pesquisa. Ele me perguntou se eu teria coragem e encarei o desafio de frente", lembra a pesquisadora.

O brega de Cabeluda, destaca Gleysa, representa um símbolo de prostituição de Cachoeira, sendo a única casa existente nos moldes antigos, onde a dona do local lucra apenas com o aluguel do quarto, sem fazer a intermediação entre o cliente e a profissional do sexo.

O movimento intenso é entre as noites de quinta e domingo, quando moças de outras cidades da região vão para lá. A relação entre a clientela e as profissionais é livre. O programa varia de R$ 30 a R$ 50, por meia hora. O aluguel do quarto, independentemente do valor do programa, custa R$ 10.

O único problema é quando está cheio, pois o brega tem apenas três cômodos e há dias em que estão na casa até 15 moças - no dia da defesa da dissertação havia cinco delas presentes no local. O estudo de Gleysa abordou também o empoderamento feminino e o patriarcado na sociedade cachoeirana, marcada ainda hoje pelo pensamento colonial.

No trabalho, a pesquisadora diz ter desconstruído a ideia que sempre ouviu na infância, de que Cabeluda seria um problema social. "Ela é muito reconhecida pela sociedade, sobretudo pelas obras de caridade que realiza. Ela sempre ajudou as pessoas, teve uma vida discreta, nunca fez o mal para ninguém", afirmou.


Preconceito, caridade e reaproximação com a família

Cabeluda, além das três filhas legítimas, acolheu outros oito meninos, nascidos de mulheres que chegavam ao brega, saíam do trabalho e apareciam com as crianças, que ficavam aos cuidados dela.

Uma das filhas de Cabeluda é Natalícia Santana Mota. Com 43 anos, é a mais velha. Seu depoimento foi um dos mais marcantes da pesquisa de Gleysa Teixeira.

Ao UOL, ela relatou o preconceito sofrido na adolescência por conta de a mãe ter um brega: "Eu estudava numa escola paroquial, tinha 16 anos. Um dia à tarde fui merendar na casa de minha mãe com uma colega minha. Quando voltamos para a sala de aula, a professora perguntou onde a menina estava e ela falou que tinha ido merendar comigo. A professora, então, falou que no lugar que ela foi só tinha gente que não prestava. Abaixei a cabeça e comecei a chorar, nunca me esqueço disso".

Em outra situação, ela estava andando na rua com uma amiga que ia fazer primeira comunhão na Igreja Católica: "A mãe dela nos viu e disse bem alto, na frente de um monte de gente, que não queria a filha dela andando com filha de prostituta". "Eu sofri muito, vivia só, não tinha amizades. Quando fazia amizades e depois dizia que minha mãe era dona do brega, se afastavam logo de mim."

Natalícia estava na plateia no dia da defesa da dissertação, ocorrida poucos meses depois de Cabeluda ter revisto dois irmãos deixados em Itabuna.

A circunstância em que o encontro ocorreu foi por motivo de doença. Cabeluda havia sofrido um infarto e precisou ser internada às pressas numa UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Só que ela não tinha documentos de identificação.

Com ajuda de amigos, o hospital aceitou que ela ficasse em observação até que os documentos fossem providenciados, o que ocorreu dias depois de Natalícia ir até Itabuna em busca de pistas dos familiares.

Conseguiu encontrá-los após expor o problema em uma rádio local. Com os documentos, Cabeluda passou alguns dias na UTI e foi liberada. O problema no miocárdio era agravado pelo consumo de cigarro.

Cabeluda parou de fumar e foi ao encontro dos irmãos. As conversas que tiveram não foram bem explicadas por Natalícia - ela preferiu não comentar nada sem autorização de Cabeluda, que não quis dar entrevista ao UOL. Pelo mesmo motivo, Teixeira e Natalícia preferiram não falar o nome verdadeiro dela.


Professor defende a importância da apresentação no brega

Sobre a escolha do brega para ser o local da defesa, o professor justificou: "Na antropologia contemporânea, não podemos tratar os interlocutores da pesquisa de campo como meros objetos inertes, passivos ou apassivados". "Apresentar a dissertação no brega teve como um dos objetivos - talvez o mais importante - demonstrar e discutir o resultado da pesquisa frente aos interlocutores que outrora chamávamos de objetos de pesquisa."

Membros da bancada
A atitude, para o professor, "revela a importância de aproximarmos a universidade pública da comunidade na qual ela está inserida, e notadamente de setores excluídos, como as mulheres que trabalham no negócio do sexo. Então, nesse sentido, essa foi a nossa proposta despretensiosa, mas que acabou ganhando proporção maior do que esperávamos".

A UFRB informou que a escolha de locais de defesa de dissertação é de livre escolha dos pesquisadores envolvidos.

a Polícia Civil declarou que a última batida que fez no brega de Cabeluda foi em 2011, devido à procura por suspeitos de tráfico de drogas que estariam frequentando o local. De lá para cá, não houve mais registros.