segunda-feira, 20 de maio de 2013

Pompéia, o goleiro voador

Segunda-Feira, 20 de Maio de 2013



 

Pompéia, o goleiro voador


Antonio Edmilson Martins Rodrigues*



 
Sou torcedor do América F.C. do Rio de Janeiro desde pequeno e isso quer dizer muita coisa para quem começa 2013 com 64 anos. Posso dizer que sou americano de coração, embora isso pareça anacronismo para as gerações de hoje, que olham para os times do Rio e só veem Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco. Mesmos alguns antigos torcedores do mequinha deixaram de lado as tradições do pavilhão rubro, abdicaram de sua história e bandearam-se para um dos grandes do Rio.

Minha atenção para o América veio de meu pai. Nos domingos, lá em Vila Isabel, meu pai e meu tio disputavam, quase a tapa, eu e meu irmão. Eu recebi, de meu pai, o uniforme do América, comprado na Superball e meu irmão, de meu tio, o do Vasco. No quintal brincávamos de América e Vasco, o clássico da paz, assim denominado por ter selado a pacificação no futebol carioca em 1937.

Mais tarde, já com oito anos, levado por meu pai, via os jogos do América no estádio da Rua Campos Sales. Sentia-me importante sentado na arquibancada junto com aquele mar de camisas vermelhas. Olhava com aflição e atenção os jogos. Notava a elegância de Amaro, a velocidade de Nilo, a classe de João Carlos. E o que falar da emoção dos gols de cabeça de Quarentinha, da calma de Djalma Dias ao desfazer, dentro da área, as jogadas dos adversários?

Mas quem mais me impressionava era o goleiro. Diferente do restante do time, que usava a camisa vermelha e o calção branco, Pompéia se vestia de negro ou de cinza e trazia no peito o escudo do mequinha. Era esguio, alto, de uma flexibilidade ímpar. Sua elasticidade chamava a atenção. Eu não tirava os olhos dele, entusiasmado com os seus voos, as suas defesas mirabolantes que levaram o narrador esportivo Waldir Amaral a apelidá-lo de Constellation. Outros apelidos se seguiram: Ponte Aérea, Caravelle, Fortaleza Voadora. Todos cabiam como uma luva naquele homem simples, nascido em Itajubá, Minas Gerais.

Esse extraordinário goleiro iniciou carreira no circo, onde desenvolveu sua capacidade de impulsão, experiência que deu a ele a condição de ser um goleiro acrobático. Suas defesas mexiam com a plateia e mereceram de Nelson Rodrigues uma crônica em um América e Bangu:

“Foi, então, que surgiu Pompéia, como uma bastilha inexpugnável. Pompéia! Eis o que o América tem e os outros clubes, não: − um Pompéia. Que bela e emocionante figura! É o goleiro mais plástico, mais elástico, mais acrobático do mundo. Nada tem de simples: − ele complica tudo. Em primeiro lugar, não sabe defender sem um salto ou, mais do que isso, sem um vôo. Pompéia voa, amigos. Pompéia voa! E enfeita, dramatiza, dinamiza tanto suas intervenções que o público tem a sensação de que todas as suas defesas foram geniais. (...) Ele é o espetáculo.

O apelido Pompéia vem da sua infância. Desatento aos estudos, gostava mesmo era de desenhar e o fazia bem, colocando no papel os personagens Popeye e Olívia Palito. Os colegas que viam os desenhos passaram a chamá-lo de Pompéia, pela dificuldade de pronunciar o nome do marinheiro. Pompéia nasceu José Valentim da Silva, em 27 de setembro de 1934, dia de São Cosme e Damião.

Iniciou sua carreira esportiva como centroavante no clube Itajubá, time composto de funcionários de uma fábrica de material bélico que participava do campeonato da Segunda Divisão mineira. Mais tarde, se transferiu para outro clube da cidade, o São Paulo, ainda como centroavante. Em um jogo em Três Pontas, o goleiro do São Paulo adoeceu e Pompéia foi escalado no gol. Saiu-se tão bem que chamou a atenção de todos, foi a grande sensação do jogo. Mais tarde, numa partida contra o Bonsucesso do Rio, o goleiro titular do São Paulo entusiasmou a todos, inclusive ao juiz da partida, também olheiro dos times do Rio, que convidou-o para treinar no Bonsucesso e jogar na Cidade Maravilhosa.

Atraído pelo convite, o goleiro não pestanejou e decidiu ir para o Rio. Apresentou-se em Teixeira de Castro e assinou seu primeiro contrato profissional em abril de 1953. No ano seguinte, transferiu-se para o América, onde permaneceu por 11 anos. Seu aprendizado da profissão foi feito com a ajuda do seu primeiro técnico. Alfinete, técnico do Bonsucesso, levava-o para assistir aos jogos do Vasco e do Fluminense, para ver Barbosa e Castilho atuarem. Mas não copiou o estilo de nenhum deles. Construiu um perfil próprio, no qual a estética das defesas se sobrepunha às dificuldades dos chutes. Em qualquer bola desenhava uma cena entre o belo e o rocambolesco, lançando-se sobre a bola de maneira espetacular. Para uns, era presepeiro, para outros, excelente goleiro.

Quando estava no seu dia, tomava conta do espetáculo e não tinha para ninguém, fazia das tardes de domingo o seu momento de fama e os comentários das resenhas do dia seguinte eram elogiosos. Com a estética do goleiro criada por ele, deixou como herança uma jogada, a ponte aérea. O nome vinha da novidade da época que era a ponte aérea entre Rio e São Paulo. Inventada por ele, hoje se tornou em jogada comum dos goleiros. Essa é apenas uma das contribuições de Pompéia. Porém, mais importante do que isso é a construção de uma nova forma de agarrar no futebol, trazendo para as partidas momentos de comédia de arte ou de tragédia cômica, subvertendo a forma tradicional de comportamento dos goleiros e alegrando a plateia, que ria e sofria com seus voos.

Essa marca particular de Pompéia levou-o à consagração como goleiro titular do América Futebol Clube (campeão carioca de 1960), atuando também como titular, em 1957, pela seleção carioca.

Pompéia chegou à seleção brasileira, quando a CBD montou um combinado para defender o Brasil em jogos contra seleções sul-americanas.

Diversas vezes ficava patente o racismo, quando se associava sua elasticidade a dos macacos.

Em seu primeiro jogo pelo América já despertou entusiasmo. O América jogava um torneio quadrangular em Lima, no Peru, do qual também participa o Santos de São Paulo e, no jogo final entre os dois clubes, Pompéia defendeu um pênalti batido por ninguém menos que Pepe, que assustava com a potência de seu chute todos os goleiros. Com essa apresentação de gala passou a dividir o gol do mequinha com Ari em diversas jornadas, mas sendo o titular em 16 das 22 partidas disputadas pelo América no campeonato de 1960.

Seu nome era dito, cantado, anunciado nas bancas da cidade nas segundas e sua estética de goleiro ganhou fama. Vários pompéias surgiram no Brasil e seus voos levaram-no longe. Jogou no Porto de Portugal e em vários clubes da Venezuela. E foi na Venezuela que terminou sua carreira de goleiro esteta.

Em 1969, num jogo entre o seu clube, o Desportivo Português, e o Real Madrid, depois de agarrar um chute difícil, que no rebote a bola foi novamente chutada contra a sua cabeça, perdeu uma de suas vistas, deixando a outra também prejudicada.
O chute foi dado por ninguém menos que Di Stefano. Com isso, teve que abandonar o futebol.
Com a impossibilidade de continuar a atuar, Pompéia perdeu a alegria. Seu colega Amaro ainda tentou levá-lo para o Bonsucesso como preparador de goleiros, mas nada mais deu certo na vida do grande Constellation. Na rua da amargura, sozinho e perdido, voltou-se para a bebida e morreu em maio de 1996, em um quarto de um manicômio, olhando para uma bola.

Amargou na vida e na morte a sina dos goleiros, ditada na célebre máxima de autoria desconhecida: “o goleiro é tão maldito que onde ele joga não nasce nem grama”.
*Antonio Edmilson Rodrigues é América, livre docente em História, professor da UERJ e da PUC-RJ, pesquisador de História do Rio de Janeiro, escritor de temas vinculados à história urbana, coordenador do projeto Conversa de Botequim e autor de “João do Rio, a cidade e o poeta”.

Um toque do Megafone:

‘Deixa Falar: o megafone do esporte’ apoia incondicionalmente a mudança do nome do Engenhão para Estádio Olímpico João Saldanha. Dia 27 de maio, às 19 horas, ocorrerá uma audiência pública no plenário da Câmara dos Vereadores/RJ para debater o projeto de lei dos vereadores Paulo Pinheiro, Eliomar Coelho e Renato Cinco, que propõe essa alteração. Além dos proponentes, até o momento, já declararam apoio os vereadores Jefferson Moura,Brizola Neto e Reimont. Na próxima semana o Megafone sai em edição extraordinária aprofundando o tema.

Deixa Falar: o megafone do esporte − criação e edição de Raul Milliet Filho.



Fotos: Arquivo Público do Estado de São Paulo/Memória Pública/Jornal Última Hora/http://tardesdepacaembu.wordpress.com

Por que não?

Algumas pessoas vêem as coisas como elas são e perguntam:
 
Por que?
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Eu sonho com coisas que nunca foram e pergunto:
 
Por que não?
 
Bernard Shaw

sexta-feira, 17 de maio de 2013

À Comissão da Verdade, ex-soldado revela execução de casal



http://www.jb.com.br/pais/noticias/2013/05/17/a-comissao-da-verdade-ex-soldado-revela-execucao-de-casal/

À Comissão da Verdade, ex-soldado revela execução de casal

Agência Brasil
 
O ex-soldado do Exército Valdemar Martins de Oliveira contou nesta quinta-feira, em depoimento à Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, detalhes da execução do casal João Antônio dos Santos Abi-Eçab e Catarina Abi-Eçab, militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) mortos em 1968.
Segundo Oliveira, os dois estudantes de filosofia foram mortos pelo coronel Freddie Perdigão, apontado como um dos criadores do Departamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi). “Ele se abaixou, quase de joelhos, e deu um tiro na cabeça de cada um”, disse, detalhando que Perdigão usou uma pistola Colt 45.
Oliveira garante ter participado de toda a operação que resultou na execução do casal, desde a captura em uma casa no bairro de Vila Isabel, na zona norte do Rio de Janeiro, até os dois serem levados para um sítio à margem da Via Dutra, onde foram mortos.
Segundo ele, antes da execução, o casal foi torturado em uma chácara em São João do Meriti, na Baixada Fluminense. “Um lugar tenebroso”, descreveu.
Algum tempo depois da execução, Oliveira disse que deixou o Exército por não concordar com aquele tipo de violência, e que chegou a passar um ano no Chile para escapar das perseguições dos militares. Em 1998 foi reintegrado, sendo dispensado no ano seguinte.
A versão oficial da época atribuiu a morte do casal Abi-Eçab à detonação de explosivos que os dois estudantes transportavam enquanto viajavam de carro pela BR-116, no trecho próximo a Vassouras.
Em 2000, porém, o laudo da exumação dos restos mortais mostrou que os dois foram executados. Militantes da Ação Libertadora Nacional, o casal era suspeito de ter participado da execução do capitão do Exército norte-americano Charles Rodney Chandler, em 12 de outubro de 1968.
De acordo com Oliveira, também participou da operação de sequestro e execução do casal o sargento Guilherme do Rosário, que morreu no atentado do Riocentro, quando a bomba que carregava explodiu em seu colo, dentro do carro.
O soldado reforçou a ligação de Rosário com o coronel Perdigão, apontado como mentor do atentado a bomba malsucedido ao Riocentro, onde ocorria o show comemorativo do Dia do Trabalho, em 1981. O coronel Perdigão morreu em 1997.
Em seu depoimento, Oliveira destacou ainda a participação de agentes dos Estados Unidos na doutrinação de soldados brasileiros. Segundo ele, nos treinamentos, foram exibidos filmes de torturas cometidas pelos norte-americanos na Guerra do Vietnã.

Crise, Estados falidos, sonegação global e arrocho

 

Sexta-Feira, 17 de Maio de 2013


CRISE, ESTADOS FALIDOS, SONEGAÇÃO GLOBAL E ARROCHO; UM ENRÊDO DE GARCIA MÁRQUEZ


"A Starbucks não paga impostos sobre seus rendimentos porque, segundo dizem, "não tem lucros contábeis".E não tem porque suas empresas locais, de propriedade e administração de Starbucks, pagam a uma empresa de Starbucks fora do país uma quantidade sideral pelo direito de usar o nome Starbucks. Ou seja, Starbucks paga a Starbucks pelo uso do nome Starbucks. E na legislação tributária neoliberal, isso é perfeitamente legal. É realismo mágico contábil.

A meu juízo, Gabriel Garcia Márquez deveria ter sido consultor de empresas de contabilidade". O desabafo é do economista Gabriel Palma, da Universidade de Cambridge, um dos entrevistados pelo correspondente de Carta Maior, em Londres, Marcelo Justo, na reportagem de leitura obrigatória por quem deseja entender as raízes de uma crise que há cinco anos imobiliza Estados e penaliza nações. As 100 empresas mais importantes do Reino Unido, por exemplo, tem mais de 8 mil subsidiárias em paraísos fiscais, informa Marcelo Justo. A Inglaterra não é exceção.

A desregulação das últimas décadas submeteu os Estados a um duplo torniquete fiscal. De um lado, corroeu a carga tributária deliberadamente,extinguindo impostos e mimando endinheirados com baixas alíquotas e isenções .Tudo em nome das reformas amigáveis aos mercados. De outra parte, o livre trânsito dos capitais favoreceu a evasão e a sonegação em triangulações contábeis lubrificadas pelo predomínio do comércio intra e inter-companhias e de suas respectivas conexões com paraísos fiscais. O conjunto empurrou a política fiscal dos governos à servidão do endividamento público, que por sua vez reduziu Estados nacionais a um anexo dos interesses rentistas.

O colapso de 2008 encontrou governos alijados de ferramentas para reagir e corporações solidamente apetrechadas para defender seus privilégios. Alguma surpresa que a Europa patine na mais longa recessão de sua história?

Morre Mestre Gamela, considerad​o o maior violonista brasileiro

17/05/2013

Morre Mestre Gamela, considerado o maior violonista brasileiro



Paula Resende

Do G1 GO

Mestre Gamela morre aos 70 anos, em Anápolis (Foto: Reprodução/ TV Anhanguera)
Mestre Gamela morre aos 70 anos, em Anápolis (Foto: Reprodução/ TV Anhanguera)
O músico e instrumentista Sidney Barros, conhecido como Mestre Gamela, morreu aos 70 anos na tarde de quinta-feira (16), em Anápolis, a 55 km de Goiânia. Segundo a equipe médica, ele teve uma infecção generalizada.
O artista é considerado o maior violonista brasileiro. Desenvolveu um método próprio de ensino de violão solo, que ensinou para cantores de todo o país, como Cássia Eller e Dado Villa-Lobos, além de acompanhar nomes consagrados como Dalva de Oliveira e Cauby Peixoto.
O velório, que começou na noite de quinta-feira, é acompanhado por familiares, amigos e alunos. O corpo de Mestre Gamela será enterrado na tarde desta sexta-feira (17), no Cemitério São Miguel, em Anápolis, cidade que escolheu para viver há 30 anos. O músico deixa a mulher, duas filhas e um neto.
De acordo com o cunhado de Mestre Gamela, Djair Brito, a família está muito abalada com a morte. Ele ressalta a força, a vontade de viver do instrumentista, a quem se refere como “mestre dos mestres”. “Gamela era como uma fênix. Ele teve que retirar o estômago e parte do intestino há dez anos, mesmo assim, se recuperou. Sempre foi assim”, afirma. Ele conta que o cunhado não se alimentava direito devido ao problema.
Djair Brito ressalta a paixão pela música de Mestre Gamela: “A música sempre em primeiro lugar”. O cunhado lembra que sempre que chegava na casa do instrumentista ele estava com o violão nos braços e com uma taça de vinho ou champagne ao lado. Inclusive, isso retrata uma das frases do mestre: “Acho um absurdo as pessoas brindarem com champanhe desejando ‘Saúde!’. Elas deveriam dizer ‘Cirrose’”.




História

Nascido em Barretos, no interior de São Paulo, Mestre Gamela começou a tocar violão aos 17 anos. Autoditada, ele se inspirou na obra de Luis Bonfá e João Gilberto. Exímio violonista, ele integrou orquestras em São José do Rio Preto (SP).
O músico teve oportunidade de acompanhar, profissional ou informalmente, alguns dos maiores intérpretes de nossa música, como Dalva de Oliveira, Maysa, Agostinho dos Santos, Ivon Cury, Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves e Cauby Peixoto. Ele também tocou ao lado de instrumentistas como Baden Powell e Maurício Einhorn.
Mestre Gamela desenvolveu por 10 anos o próprio método de ensino de violão solo, intitulado “A Arte do Violão Solo”. Ele iniciou artistas como Cássia Eller, Rosa Passos, Dado Villa-Lobos,
Zélia Duncan e Nelson Farias. A forma de apreender proposta pelo músico é implantada em escolas de todo país. Devido a paixão pela música, Mestre Gamela dava aulas até hoje.