terça-feira, 23 de maio de 2017

Análise da crise por Samuel Pinheiro Guimarães






Jornal GGN, 23/05/17



Análise da crise: o Brasil não está só no mundo


Por Samuel Pinheiro Guimarães



1.    A vitória ideológica/econômica/tecnológica dos Estados Unidos sobre a União Soviética, a adesão russa ao capitalismo, a adesão da RPC ao sistema de instituições econômicas liderado pelos Estados Unidos e a abertura chinesa controlada às MNCs levaram à consolidação da hegemonia política/imperial dos Estados Unidos.

2.    As diretrizes da política hegemônica americana são:

·     induzir a adoção, por acordos bilaterais e pela imposição, por organismos “multilaterais”, dos princípios da economia neoliberal;
·     manter a liderança tecnológica e controlar a difusão de tecnologia;
·     induzir o desarmamento e a adesão “forçada” dos países periféricos e frágeis ao sistema militar americano;
·     induzir a adoção de regimes democráticos liberais, porém de forma seletiva, não para todos Estados;
·     garantir a abertura ao controle externo da mídia.

3.    As dimensões e as características da população e do mercado interno; de território e de recursos naturais (ampliada de forma extraordinária pela descoberta do pré-sal); a localização geográfica na área de influência americana; a capacidade empresarial do Estado e da iniciativa privada (BNDES, Petrobrás, Vale do Rio Doce, Embraer) a capacidade tecnológica em áreas de ponta (nuclear, Embrapa, etc) tornariam o Brasil uma área de atuação prioritária para a política exterior americana, que articulou:

·    apoio à redemocratização política controlada pelas classes hegemonicas no Brasil;
·    a luta ideológica e midiática contra a política de desenvolvimento econômico e industrial que é identificada com o autoritarismo militar;
·    apoio aos movimentos sociais (ONGs etc);
·    retaliação contra as políticas nacionais de desenvolvimento (nuclear, informática, espacial);
·    mobilização ideológica para a implantação das regras do Consenso de Washington:
§ disciplina fiscal;
§ redução dos gastos públicos;
§ reforma tributária;
§ juros de mercado;
§ câmbio de mercado;
§ abertura comercial;
§ investimento estrangeiro sem restrição;
§ privatização;
§ desregulamentação econômica e trabalhista;
§ direito à propriedade intelectual.
·    desarmamento.

4.      A implantação, entusiasta e excessiva, das medidas econômicas, políticas e militares, propagadas pela academia, mídia e autoridades americanas, pelos Governos Fernando Collor/Fernando Henrique Cardoso, diante das características do subdesenvolvimento: enormes disparidades sociais, a fragilidade relativa das empresas de capital nacional, vulnerabilidade externa da sociedade contribuíram para o fracasso dessas políticas que levaram ao agravamento da concentração de renda, ao agravamento das deficiências de infraestrutura, ao aumento da violência social, acarretaram sua impopularidade e permitiram à vitória dos movimentos políticos progressistas diante dos Governos de Menem; Battle; Andres Perez; Fernando Henrique Cardoso, Sanchez de Lozada; Mesa.

5.      A eleição de Lula e seu Governo colocaram em risco o objetivo permanente norte-americano de implantar políticas neoliberais em toda a América Latina e de incorporar as economias latino-americanas à sua economia, de forma subordinada.

6.      A articulação política e econômica de Lula/Kirchner/Lugo/Correa/Evo/Chavez reforçou a necessidade, para os EUA, de uma reação estratégica.

7.      Os Estados Unidos, em cooperação com grupos internos em cada um desses países, iniciou campanhas de desestabilização política.

8.      No Brasil, esta campanha se inicia com o processo do “mensalão” e com a aceitação pelo judiciário da “doutrina” do domínio do fato, aplicado contra José Dirceu, em caráter exemplar e como possível sucessor de Lula.

9.      Apesar da campanha Anti-Lula e Anti-PT, os índices de popularidade do Presidente e do Partido atingiram níveis recorde e permitiram a eleição de Dilma Rousseff.

10.  O Governo Dilma Rousseff, sem capacidade política, aderiu gradualmente ao programa neoliberal de ajuste fiscal, de faxina ética e de contração do Estado.

11.  A incapacidade de articulação, de trato político e de mobilização social facilitou a articulação e o sucesso do processo de impeachment.

12.  De outro lado, a Operação Lava Jato, em articulação com o Departamento de Justiça americano, e com as agências de inteligência (espionagem) americanas como a NSA, a CIA, o FBI), através de procedimentos ilegais, tais como prisões arbitrárias, vazamento seletivo de delações de criminosos confessos, a desobediência ao princípio fundamental de presunção de inocência, a mobilização da opinião pública contra pessoas delatadas, colocando em risco a ordem jurídica e criando ódio na sociedade, com a conivência do STF, foi um instrumento de ataque ao Partido dos Trabalhadores contra o PT e a candidatura do Presidente Lula.

13.  A gradual autonomia e fanatização moralista da força tarefa de Curitiba levou a denúncias contra outros políticos, em especial do PMDB e do PSDB.

14.  A característica de “radicais livres” e o conflito com a Procuradoria Geral levou à investigação de Temer pela PF (também radical) e, como a PGR, aliados principalmente ao PSDB contra o PMDB.

15.  Os objetivos básicos das classes hegemônicas brasileiras, em estreita articulação com as classes hegemônicas norte-americanas, são:

·    consolidar na legislação, de preferência na Constituição, as políticas neoliberais do Consenso de Washington;
·    reduzir a possibilidade de vitória do Presidente Lula em 2018 e a vitória dos candidatos progressistas nas eleições para o Congresso;
·    impedir a revisão por um novo governo das reformas conservadoras, em especial a EC95;
·    reduzir a capacidade de ação externa e interna, do Estado brasileiro;
·    destruir a política sul-americana de formação de um bloco regional e de inclusão no Conselho de Segurança da ONU;
·    integrar o Brasil à economia americana e criar a obrigatoriedade de execução no Brasil de políticas econômicas neoliberais;
·    impedir a industrialização, ainda que apenas parcialmente “autônoma”, do Brasil por empresas de capital brasileiro;
·    consolidar este programa econômico ultra neoliberal através de compromissos internacionais, a começar pela adesão do Brasil à OCDE.

16.  Michel Temer, por imprudência, colocou em risco a credibilidade do processo de aprovação legislativa deste programa ao se deixar gravar pela PF em diálogos de natureza ilícita.

17.  Trata-se, agora, para as classes hegemônicas de substituir “funcionários”, a começar por Temer, e substituir o comando do processo das reformas por “funcionários” menos envolvidos no sistema tradicional de aquisição e controle de poder político pelas classes hegemônicas, minoritárias ao extremo. (caixa 2, compra de votos, propinas a Partidos e a pessoas, nomeações na Administração, liberação de verbas)

18.  A decisão de afastar Michel Temer diante de gravações difíceis de refutar já foi tomada pelas classes hegemônicas, como revela o editorial de primeira página do Jornal O Globo e, portanto, do sistema Globo de Comunicação.

19.  A posição da Folha de São Paulo e do Estado de São Paulo refletem ainda certa ausência de consenso, porém nada significam em termos de impacto diante do poder da Globo.

20.  Não foi ainda decidido pelas classes hegemônicas o método de afastamento e substituição de Michel Temer:

·    renúncia;
·    decisão do TSE sobre a Chapa Dilma/Temer;
·    processo do STF.

21.  Para as classes hegemônicas, a questão política essencial é evitar as eleições diretas antecipadas. Assim:

·    o processo no STF seria muito longo, e permitiria a mobilização popular;
·    a decisão do TSE levaria a eleições diretas, sobre o que há dúvidas;
·    a solução mais viável e em tempo mais útil seria negociar com Temer sua renúncia, a “recompensa” pelos serviços prestados e sua imunidade.

22.  Também não foi ainda resolvida a questão do sucessor de Temer, mas o PSDB se prepara para assumir o poder e o PMDB a resistir.

23.  Nas eleições indiretas os mais prováveis candidatos seriam Tasso Jereissati, pelo PSDB, e Nelson Jobim, pelo PMDB.

24.  Os objetivos estratégicos das classes hegemônicas, que orientam e controlam seus “funcionários” no sistema político, continuam a ser os mesmos:

·    acelerar a aprovação das “reformas” ultra neoliberais;
·    desmoralizar Lula e o PT;
·    “construir”  um candidato “gestor”, apolítico, como João Doria, para 2018.

25.  A operação da PGR/PF serviu para afastar mais um candidato “político” como Aécio Neves, pois Serra já está na prática afastado e Alckmin será “afastado” por Doria.

26.  Estas classes hegemônicas contam que mesmo com a vitória de Lula em eleições diretas este se encontrará manietado pela EC95.

27.  Quanto mais cedo Michel Temer deixar o poder pior será para a Oposição pois sua saída acelerará a aprovação das “reformas”.

28.  O que interessa agora é retardar a saída de Temer, enfraquecendo e dificultar e adiar o mais possível a aprovação das “reformas”.

29.  A luta pelas Diretas Já é fundamental para mobilizar a militância e conscientizar a população dos efeitos dessas “reformas”.

30.  Realismo: a queda imediata de Temer atende aos interesses das classes hegemônicas assim como ocorreu com o afastamento de Eduardo Cunha da Presidência da Câmara.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O rato pariu uma montanha





Extra, 22/05/17




O rato pariu uma montanha



Por Felipe Pena



Tem que manter isso aí, viu?

São onze horas da noite e um presidente da república está comprando o silêncio de um ex-deputado. O encontro acontece no porão do palácio, após o interlocutor ultrapassar a cancela de segurança usando um nome falso como senha. O interlocutor é um dos maiores empresários do país e carrega um gravador no bolso.

Tem que manter isso aí, viu?

O empresário informa ao presidente que faz pagamentos mensais ao ex-deputado e a um doleiro responsável por suas operações financeiras, ambos presos em uma carceragem de Curitiba. Também conta que comprou dois juízes e conseguiu infiltrar um procurador na equipe do ministério público que o investiga.

Ótimo! – responde o presidente.

O empresário precisa resolver pendências junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, onde trava batalha contra uma estatal sobre o preço do gás que é fornecido à sua empresa. Está disposto a pagar 5% de propina. Pergunta quem pode ajudá-lo. O presidente indica um deputado cujo gabinete funciona no Palácio do Planalto.

Posso falar tudo com ele? – pergunta o empresário.

Pode. Ele é da minha estrita confiança. – responde o presidente.

O empresário deixa o palácio após conversar 36 minutos com o presidente. O gravador registra o começo e o fim do diálogo marcando o horário da rádio CBN. Não há cortes, não há edições.

Joesley Batista, dono do grupo JBS, sabe o poder do material que tem nas mãos. Nos próximos dias, ele negociará o acordo de delação premiada que acabará com o governo golpista de Michel Temer. Também levará à lona o senador Aécio Neves, articulador dos primeiros movimentos do golpe, logo após perder as eleições presidenciais de 2014; e o deputado Rodrigo Rocha Loures, o tal homem da estrita confiança do presidente.

Agentes da polícia federal seguirão o deputado pelas ruas de São Paulo, onde ele receberá uma mala com 500 mil reais de propina cujas notas estão marcadas. Rocha Loures será filmado durante o trajeto.

Outra equipe seguirá o primo de Aécio Neves, Frederico Medeiros, que também recebe 500 mil reais. O senador tem um motivo claro para a escolha de Frederico: "tem que ser um que a gente mata eles antes dele fazer delação".

Frederico continua vivo.

A carreira de Aécio vira pó.

No dia 17 de maio de 2017, às sete e meia da noite, o jornalista Lauro Jardim revela toda a história. Faz exatamente um ano que Temer demitiu o copeiro do Palácio do Planalto, José da Silva Catalão. Agora é o próprio Michel que assina o aviso prévio.

Na cadeia, o ex-deputado Eduardo Cunha olha para a imagem de Temer na TV e lembra-se da frase de Danton quando ia para guilhotina: "O que me consola, Robespierre, é que atrás de mim virá você".

No dia seguinte, 18 de maio, o presidente convoca a imprensa para dizer que não vai renunciar. Inconscientemente, repete o gesto de Richard Nixon, quatro décadas antes. Está nervoso, tenso. Não contesta as informações, apenas parte para o ataque.

Ao ouvir a gravação, Temer minimiza seu conteúdo e diz que a montanha pariu um rato. Mas parece o contrário.

O rato pariu a montanha. E é uma imensa montanha de crimes.

O Sindicato dos Jornalistas de MG decreta o dia 18 de maio como "dia da liberdade de imprensa em Minas Gerais" por causa da prisão da irmã de Aécio, Andréa Neves, que perseguiu diversos profissionais durante os governos da famiglia no estado. Frederico, o primo, também é preso. O senador é suspenso do cargo.

Vejo isentões e coxinhas envergonhados em todos os lugares. Fotos de artistas e jogadores de futebol ao lado de Aécio desaparecem das redes sociais. Lembro-me dos motivos que os levaram às ruas para pedir o golpe.

Nunca foi pela corrupção.

Foi ódio de classe mesmo. Com pitadas de misoginia.

As pedaladas serviram apenas como pretexto para derrubar Dilma. Nunca serviram para condenar Temer, que fez o mesmo. Talvez porque a presidenta fosse vista constantemente numa bicicleta e Temer nunca tenha andado em outro veículo que não fosse um carro importado.



Mas agora é diferente. O crime existe e foi gravado. Os ratos começam a abandonar a montanha. Leio o 'Discurso sobre a servidão voluntária', de Étienne La Boétie, escrito na primeira metade do século XVI. O jovem Étienne diz que o tirano só governa porque há pessoas que aceitam ser governadas por ele, mas quando esta obediência voluntária cessa, cessa também o poder do tirano.

Os coxinhas se cansaram do tirano.

Não tenho a mesma certeza sobre Sérgio Moro.

Nos três anos em que a operação lava jato foi comandada por Moro e a república de Curitiba, nenhum tucano foi atingido. E, entre os caciques do PMDB, apenas Eduardo Cunha foi preso. No final do ano passado, Cunha fez 21 perguntas a Michel Temer. Elas antecipariam em muitos meses a sua queda, mas Sérgio Moro barrou todas. O dono da JBS procurou o MP de Brasília porque talvez acreditasse que Moro, mais uma vez, blindaria Aécio e Temer. E, principalmente, não deixaria que o primo e a irmã do senador, que não têm foro privilegiado, fossem presos.

Na quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal julga o recurso do presidente para suspender o processo. Logo saberemos o que mudou no grande acordo nacional. Podemos apostar na queda do tirano que alterou o currículo do ensino médio por decreto, sem consulta à população? Podemos apostar na queda dos que defendem o neofascismo do projeto Escola Sem Partido? Podemos apostar no fim das contrarreformas que retiram direitos dos trabalhadores?

Sim e não.

O tirano cai, mas o golpe continua.

Este é o país que liberta um branco milionário condenado por corrupção e mantém preso um negro pobre condenado por porte ilegal de pinho sol.

Este é o país que usa uma projeção de PowerPoint como prova.

Este é o país do rato que pariu a montanha.

E só há uma maneira de escalar:

Diretas já!

Diretas!

Já!


*Jornalista e escritor. Doutor em Literatura pela PUC, com pós-doutorado pela Sorbonne, é autor de 15 livros.



"Para que as coisas permaneçam iguais, 
é preciso que tudo mude.”





Folha.com, 19/05/17



Devemos obedecer a um governo ilegítimo?



Por Vladimir Safatle



Devemos obedecer a um governo ilegítimo? Devemos aceitar ordens de quem, de forma explícita, se mostra capaz de servir-se do governo para impedir o funcionamento da Justiça ou para fazer passar leis que contrariam abertamente a vontade da maioria? Essas perguntas devem ser lembradas neste momento. Pois a adesão pontual do povo a seu governo não se dá devido à exigência da lei, mas devido à capacidade dos membros do governo de respeitarem a vontade geral.

Essa capacidade está definitivamente quebrada. Não. Na verdade, ela nunca existiu. Se quisermos ser mais precisos, devemos dizer que apenas se quebrou a última de todas as aparências. O desgoverno Temer não consegue nem sequer sustentar uma aparência de legitimidade. Cada dia a mais desse "governo" é uma afronta ao povo brasileiro. O que nos resta é a desobediência sistemática a todas as ações governamentais até que o "governo" caia.

Temer entrará para a história brasileira não apenas como o primeiro vice-presidente a ter conspirado abertamente contra sua própria presidenta até sua queda final. Ele será lembrado como o primeiro presidente a ser pego operando diretamente casos de tráfico de influência (o caso de seu antigo ministro da Cultura sendo obrigado a liberar uma licença para viabilizar o apartamento de Geddel Vieira) e de pagamento para silenciar presos.

Exatamente no mesmo momento em que esse senhor exigia do povo brasileiro "sacrifícios" ligados à destruição de condições mínimas de trabalho e garantia previdenciária ele pedia ao dono da Friboi que continuasse a dar mesada para presos ficarem calados. O mesmo que entregará o país com 14 milhões de desempregados e mais 3,6 milhões de pobres garantiu lucros recordes para os bancos brasileiros no último trimestre.

Agora, alguns acham que o Brasil deve seguir então "os procedimentos legais" e empossar o investigado Rodrigo Maia para que convoque uma eleição indireta para presidente.

De todos os disparates nesta República oligárquica, este seria o maior de todos. Em um momento como o atual, o país não deve recorrer a leis claramente inaceitáveis, ainda mais se levarmos em conta a situação em que vivemos. Afinal, como admitir que um presidente seja escolhido por um Congresso Nacional de indiciados e réus, fruto de um sistema incestuoso de relações entre casta política e empresariado que agora vem à tona?

Uma das bases da democracia é não submeter a soberania popular nem a decisões equivocadas feitas no passado, nem a instituições aberrantes. O povo não é prisioneiro dos erros do passado, mas sua vontade é sempre atual e soberana. Ele pode desfazer as leis que ele mesmo fez e destituir instituições que se mostram corrompidas.

Por essa razão, o único passo na direção correta seria a convocação extraordinária de eleições gerais, com a possibilidade de apresentação de candidaturas independentes, para que aqueles que não se sentem mais representados por partidos possam também ter presença política.

Que o Brasil entenda de um vez por todas: em situações de crise, não há outra coisa a fazer do que caminhar em direção ao grau zero da representação, convocar diretamente o povo e deixá-lo encontrar suas próprias soluções. Toda democracia é um "kratos" do "demos", ou seja, o exercício de uma força ("kratos") própria ao povo em assembleia. Essa é a única força que pode abrir novos horizontes neste momento.

Pois que não se enganem. Como já dissera anteriormente neste espaço, Temer não existe. Esse operador dos escaninhos do poder, acostumado à sombras e aos negócios escusos, sempre foi politicamente ninguém.

Quem governa efetivamente é uma junta financeira que procura reduzir o Estado brasileiro a mero instrumento de rentabilização de ativos da elite patrimonialista e rentista. A mesma junta que impõe ao país "reformas" que visam destruir até mesmo a possibilidade de se aposentar com uma renda minimamente digna. Ela tentará continuar no governo independentemente de quem seja o manobrista no Palácio do Planalto. Ela tentará o velho mote: "Tudo mudar para que nada mude". Mas, para isso, precisará deixar o povo afastado de toda decisão política.


*Professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo).

sexta-feira, 19 de maio de 2017

James Baldwin, pregador de uma América que ainda está por converter






Publico.PT, 19/05/2017



James Baldwin, pregador de uma América que ainda está por converter


Por Isabel Lucas



Em vida, James Baldwin foi muitas vezes confrontado com a questão de ser um escritor profético. Nessas alturas, o sorriso quase sempre se escancarava, revelando o enorme espaço entre os seus dois dentes da frente. Depois o rosto fechava-se numa seriedade que lhe era clássica e respondia de olhar fixo no interlocutor. Podia ser uma resposta como a que deu à Paris Review em 1984. "Eu não tento ser profético, como não me sento para escrever literatura. É simplesmente isto: um escritor tem de assumir todos os riscos do que põe no papel (...). Ninguém pode controlar essa realidade. Isso lembra-me uma coisa que Pablo Picasso é suposto ter dito a Gertrude Stein enquanto pintava o seu retrato. Gertrude disse: 'Eu não pareço assim.' E Picasso respondeu: 'Mas vai parecer.' E ele estava certo."

Baldwin sabia causar efeito. Aprendeu-o no tempo em que fez sermões na Igreja Pentecostal do Harlem entre os 14 e os 17 anos. Estudava os textos evangélicos e improvisava perante a audiência – “como um músico de jazz numa composição”, diria –, lendo-lhe as reacções, ajustando o que dizia de modo a ganhar e a agarrar a atenção. Era um pregador a tentar passar uma mensagem. Abandonaria a religião, mas foi no púlpito que aprendeu o poder da palavra e, no caso da oralidade, do tom.

Na escrita, tudo era diferente. Um jogo cego, íntimo, em que não vislumbrava o leitor e não havia a tentação do efeito. Isso seria fazer batota. A única opção era ser verdadeiro em relação ao mundo em que crescera, em que vivia, aquilo que estava na sua cabeça e era preciso pôr para fora. “Era o chamamento de testemunhar a verdade que dominava o ser de Baldwin, e nesse papel ele poderia ser duro, intransigente e brutalmente cruel”, escreve o seu amigo e biógrafo David Leeming, em James Baldwin, a biography (1994). Escrevia sobre o que conhecia e o incomodava, um solitário na sua relação atormentada e apaixonada com a América. “Ele sabia que a combinação da sua herança afro-americana, do seu talento – 'um dom de Deus' – com as palavras e até mesmo da sua misteriosa filiação e da sua 'ambivalência' sexual o tornava inevitavelmente um estranho, um estranho condenado (…) a pregar e converter, mesmo que desejasse simplesmente viver”, precisa Leeming.

 

​Nos ensaios, nos romances, nos poemas e nas peças de teatro que escreveu, nas intervenções públicas com que se tornou protagonista da luta pelos direitos civis, Baldwin foi “a testemunha” e essa característica elevou-o ao estatuto de figurar – vale o que vale, sim – como um dos autores do cânone americano. Começou a escrever em 1953, aos 29 anos; morreu em 1987, com 63. A sua obra reflecte a relação conflituosa que sempre teve com o seu país: a América, onde não queria ser tratado como branco nem como negro, mas como um homem para lá da raça ou da sexualidade. Um dia, anos depois das grandes lutas civis, em 1979, disse numa entrevista ao New York Times: "A América não mudou assim muito."


Foi ele que teve de mudar e voltar a sair, para morrer em França sem qualquer expectativa de assistir à conversão do seu país.


O profeta

James Baldwin não se apresentava como um poeta, mas foi-o, e amou os poetas americanos acima de todos. Emily Dickinson e o modo como tratava a língua, a falta de solenidade. Walt Whitman, que lia como um contemporâneo. Na escrita, como na vida, ao lutar contra o racismo, pelos direitos dos negros, dos homossexuais, contra a discriminação de classe, tentou aplicar o que entendeu do poema O Regresso dos Heróis (in Folhas de Erva, Relógio D’Água, 2010): “Sou um homem, estive lá, sofri.” É outra frase da mesma entrevista à Paris Review, em que assume, com todos os riscos, o papel de testemunha de que falava Leeming e que o tornaria no tal profeta, um profeta à semelhança dos do Antigo Testamento, como sublinha o biógrafo: Baldwin era uma espécie de Ezequiel, de Isaías, de Jeremias ou de Samuel do século XX. A sua fé era na redenção do homem, especialmente do homem americano, que acabaria por aceitar todos os homens americanos como iguais.
 
​“A profecia de Baldwin assumiu muitas formas. Os seus ensaios destacam-se entre as expressões mais articuladas que existem da condição humana no seu tempo. As colecções Notes of a Native Son Nobody Knows My Name, o longo ensaio The Fire Next Time, já se tornaram clássicos. Em três peças, muitos contos e seis romances, incluindo, principalmente, Go Tell it on the Mountain, Giovanni’s RoomSony Blues e Another Country, Baldwin cria parábolas para ilustrar, no domínio privado e pessoal das relações humanas, as palavras dos seus ensaios.” Mas tudo isto de que fala David Leeman, e que faz de Baldwin um dos nomes fundamentais da literatura da última metade do século XX, está por ler em português.



​Trinta anos depois da sua morte, ocorrida em 1987, e no ano em que se estreia o documentário Eu Não Sou o Teu Negro, de Raoul Peck – reconstruindo no cinema um livro, Remember This House, que não chegou a ir além de umas notas e de uma intenção –, James Baldwin pode deixar de ser um quase desconhecido em Portugal. Há pelo menos três editoras a movimentarem-se para tê-lo em breve no seu catálogo: as editoras Relógio D’Água, Companhia das Letras e uma terceira que prefere manter o sigilo enquanto decorrem as negociações com os agentes do escritor americano. Porque é que isso só acontece agora? “Talvez por ter havido sempre uma reserva em relação a autores marcadamente americanos, sobretudo em relação a temas como o racismo negro”, arrisca Francisco Vale, editor da Relógio D’Água, que gostava de publicar Giovanni’s Room. “Essa reserva parece estar a desaparecer. Tem havido edição em Portugal desse tipo de autores, há público interessado, o cinema também tem ajudado.” Clara Capitão, directora da Companhia das Letras, adianta que Baldwin “ficou esquecido por estar muito associado à luta pelos direitos civis na América, um tema em desuso durante anos, mas que ressurgiu com grande actualidade”. Quando percebeu que não havia nada dele editado em Portugal, “quis tê-lo no catálogo”, refere, sem adiantar títulos de obras.



​A edição em português do livro que esteve na origem do argumento de Eu Não Sou o Teu Negro chegou a estar anunciada, mas dificuldades com os direitos das imagens impossibilitaram que livro e documentário coincidissem no tempo, como aconteceu nos Estados Unidos.


O livro, homónimo, é um tratado sobre a identidade, um dos temas recorrentes de toda a obra ensaística e ficcional de James Baldwin, partindo de uma interrogação fundadora: quem é o meu pai? Daí se construiu ele de olhos no futuro, desde o topo de uma das colinas de Central Park, no Harlem, um dos seus refúgios preferidos. Os biógrafos notam semelhanças com umas das suas personagens, John, outro nome para James, no romance com notas autobiográficas Go Tell it on the Mountain. Também esta passagem se possa talvez aplicar-lhe: “Sentia-se como um conquistador há muito aguardado, a cujos pés se espalhariam flores, e diante do qual as multidões gritavam 'Hossana!' Ele seria, de todos, o mais poderoso, o mais amado, o ungido do Senhor; e iria viver nesta cidade brilhante que os seus antepassados tinham olhado de longe com saudade.”


​Ele era dali. Teve a glória, e depois o esquecimento. Quando morreu, vítima de cancro, em 1987, Toni Morrison escreveu um texto elegíaco na New Yorker: “Sabias, não sabias, como eu precisava da tua linguagem e da mente que a formou? Como eu confiei na tua coragem feroz para domesticar desertos para mim? Como eu estava fortalecida pela certeza que vinha de saber que nunca irias magoar-me? Sabias, não é, como eu amava o teu amor? Sabia. Então isto não é nenhuma calamidade. Não. Isto é um jubileu. ‘A nossa coroa", disseste, ‘já foi comprada e paga'. ‘Tudo o que temos de fazer’, disseste, 'é usá-la'”.


Ele deu-lhe a linguagem, diria ela. E, feito o luto, a América parecia ter mudado. Até muito recentemente, Baldwin era um escritor lido por poucos, associado a um tempo ultrapassado. Mas depois começaram a surgir notícias de mortes. Manchetes de jornais sobre negros assassinados pela polícia e um movimento que se alastrou ao país: Black Lives Matter. O activismo afro-americano regressava e recuperava os seus símbolos, depois dos acontecimentos de Ferguson, Staten Island, Baltimore. Escritores de uma nova geração lembravam os escritos de outra geração. Em Entre Mim e o Mundo, carta dirigida ao filho adolescente sobre o que é crescer com um corpo negro na América, o jornalista Ta-Nehisi Coates citava Baldwin como uma referência. Falava do medo. O mesmo medo de sempre, ancestral. O livro foi um best-seller. Os valores do movimento cívico dos anos 50 e 60 pareciam de novo actuais e as palavras de Baldwin proféticas. Ele falara numa falha moral americana, dissera que enquanto a América não enfrentasse o seu preconceito nada mudaria. Num dos seus muitos ensaios, A Negro in Paris, escreveu: "Essa alienação profunda de si mesmo e dos seus homens é, em suma, a experiência americana.
Em Novembro de 2016, James Hannaham, um escritor, negro, homossexual, citava James Baldwin em Nova Iorque a propósito da vitória de Donald Trump. Ironizava: “Neste momento tenho tudo para ser perseguido segundo o discurso que elegeu este senhor para presidente dos Estados Unidos”. 

É com estas referências, e visto o documentário, que se chega ao Harlem num sábado de manhã. À procura da tal batida ou do ritmo afro-americano que os seus romances carregam. No Boulevard Malcolm X, esquina com o Martin Luther King. O Harlem continua negro, mas já não é só negro, é muito mais multirracial. Numa banca, entre livros antigos, há uma edição velhinha de Tell Me How Long The Train’s Been Gone, o quarto romance de Baldwin, coberto com uma película de plástico riscada. Não tem preço marcado. O vendedor pede para não mexer. Está no meio de volumes sobre a história da escravatura, de fotos de Barack Obama. Cheira a galinha frita, a incenso, canta-se hip-hop. O som da voz de Samuel L. Jackson parece ecoar. É o som que tomou posse da voz de Baldwin no filme, e parece tudo muito vivo.


​O livro que está ali remete para outro tempo, estranhamente. Talvez James Baldwin não reconhecesse este Harlem. Ou talvez sim. O facto é que não custa andar por ali como que a fazer a viagem que os livros dele sugerem e que a sua biografia conta.


O ilegítimo

James Baldwin nasceu ali, no Harlem, em Nova Iorque, a 2 de Agosto de 1924, com uma palavra associada à sua certidão. Ilegítimo. Filho de Berdis Jones, nunca soube quem foi o pai e viu nessa ilegitimidade a metáfora da raça a que pertencia. O biógrafo David Leeman refere mesmo que ele construiu uma mitologia pessoal a partir daí. “Preferiu usar a sua ilegitimidade, o seu estatuto de minoria e a sua homossexualidade como material de apoio para uma persona mítica ou representativa indicada em títulos como Nobody Knows My NameNo Name in The Street ou Stranger in the Village”, escreve Leeming, recordando que ele se auto-denonimava um bastardo do Oeste.

O seu apelido é o do padrasto, David Baldwin, um rígido pastor protestante do Harlem, filho de uma escrava de Nova Orleães, mãe de 14 filhos, negros e mulatos, e pai dos oito irmãos mais novos de James. Naquela família estava outro símbolo da América de todas as cores que Baldwin levou para a literatura e para os seus discursos enquanto activista dos direitos civis. Sou negro apenas enquanto vocês pensarem que são brancos” foi uma das frases que mais repetiu, literalmente ou em múltiplas versões com o mesmo sentido; em voz alta ou na solidão da escrita que descobriu à noite, enquanto todos dormiam. Era nessa altura que reflectia sobre os livros que lia na escola, os filmes que via, os heróis que tomou como seus e que acontecia serem quase todos brancos, porque era partir da perspectiva branca que se narrava a América da literatura e do cinema. Joan Crawford, John Wayne, Bette Davis, Abraham Lincoln. No filme de Peck, diz que não pensava neles como brancos; via-os americanos como ele.

O reverendo Baldwin não gostava disso. Dos interesses e da amizade de James com brancos. Para um homem vindo do Sul, isso era desafiar a vontade de Deus. Acabou louco e morreu de tuberculose quando James tinha 19 anos. Deixou-lhe um sentido de responsabilidade sobre os outros que nunca mais se apagaria. O mal que lhe pudesse acontecer teria repercussões. Pouco depois, o seu melhor amigo atirou-se da Ponte George Washington para as águas do Rio Hudson, uns quarteirões acima do Harlem, então a capital afro-americana, o que era o mesmo que a capital da segregação a que muitos não resistiam. Baldwin viu nesse suicídio uma projecção do seu futuro. Se não fugisse, matava-se, matava ou morria. Nova Iorque discriminava-o. Aos 24 anos, com 40 dólares no bolso, foi para Paris com um livro começado e uma identidade por resolver.


Richard Wright

Antes, tocara à campainha do escritor, poeta, crítico literário e comunista desprezado pelos comunistas brancos Richard Wright, em Brooklyn. Dezasseis anos mais velho, Wright era um dos nomes mais activos na luta contra o racismo. Perseguido, ou melhor, pressionado pelo então regime puritano dos Estados Unidos do pós-guerra, mudou-se para Paris com a ajuda de Gertrude Stein e tornou-se definitivamente um expatriado. Baldwin dirá que foi para Paris porque a cidade era uma referência de liberdade. De costumes, de pensamento. Mas que poderia ter ido para qualquer outro lugar. Simplesmente fugia de um futuro que se lhe apresentava diferente daquele que imaginara na colina de Central Park. Sentia que se tinha alguma coisa para fazer, para escrever, Paris era o lugar. Nos Estados Unidos, estava agarrado ao anátema: ser negro, e homossexual, no Harlem. E em Paris, onde não conhecia ninguém, reencontrou Richard Wright, um dos seus mentores. “Richard foi muito importante para mim. Era muito mais velho (…). Ajudou-me, realmente, com o meu primeiro romance. Isso foi em 1944-45”, conta na entrevista à Paris Review, uma das mais esclarecedoras sobre o modo como entendeu o seu percurso. “Um dia bati à porta dele em Brooklyn! Apresentei-me e, claro, ele não fazia ideia de quem eu era. Não tinha publicado nenhum ensaio, nenhuma ficção (…). Eu adorava-o. Amava-o. Éramos muito diferentes um do outro, como escritores, provavelmente como pessoas também. E à medida que eu crescia, isso tornou-se cada vez mais evidente.” Acabaram zangados.

Mas Baldwin tinha razão. Foi em França que começou a sua carreira de escritor. Com ensaios e um primeiro romance, terminado numa aldeia dos Alpes suíços ao som da música de Bessie Smith, como ele conta e como outro escritor, muitos anos mais tarde, em 2014, recriará num texto publicado na New Yorker. Era o livro que o acompanhara desde Nova Iorque, centrado na sua relação com o padrasto a quem sempre chamou pai. Go Tell it on the Mountain saiu em 1953 e revelou uma intimidade política numa prosa que muitos compararam em elegância à de Henry James. James Baldwin escrevia através de imagens. Não descrevam, mostrem”, aconselhava a quem lhe perguntava como escrever. Era sempre ele, no papel de testemunha que já revelara nos ensaios que ia publicando em várias revistas, desde os 20 e poucos anos. Descreve-os como uma tentativa de se superar.

Afirmava-se então como escritor em França, mas a América chamava-o. “Eu sabia que tinha de voltar”, dirá várias vezes. Conhecia Martin Luther King Jr., Malcolm X, Medgar Evers. Estavam a desempenhar um papel importante numa luta que também era a dele. Era o seu dever estar com eles, publicamente.

O pregador voltava. Agora porta-voz de uma causa. A sua história não era apenas a do escritor. O activista político ganharia protagonismo nos anos seguintes.

E seriam anos de morte. Medgar Evans, Malcolm X e Martin Luther King Jr. seriam assassinados, por esta ordem. Enquanto Baldwin percorria o país, foi ao Sul da família do pai, mais uma vez falou em encontro com as raízes e mais uma vez viu que essas raízes eram as da América. E escrevia. Sobre a estranheza, sobre ser um corpo estranho. Havia sempre quem olhasse. Em Paris, em Nova Iorque, nos Alpes suíços, em Nova Orleães. Ele procurava uma linguagem para falar disso, que fosse a sua, que resultasse do seu testemunho. Do ilegítimo, e do que viu o amigo suicidar-se, acontecimento-chave que levou para outro dos seus romances de referência, Another Country (1962). É o Village dos anos 50, a bissexualidade, a relação amorosa entre raças diferentes, a traição, um ambiente que conheceu quando foi empregado de mesa num restaurante local, ou quando o impediram de se sentar noutro restaurante, já como cliente, por não servirem negros. 



​Estava outra vez na América. Perante o documentário que agora se estreia nas salas portuguesas, e que dá conta da urgência desse regresso ao país, do impulso de estar ao lado das minorias, revela-se um Baldwin público, quase cinematográfico, que se movimenta entre estúdios de televisão, priva com Hollywood, tenta arranjar adeptos para a sua causa, a da igualdade, da não-discriminação. Que tenta não chorar no funeral de Martin Luther King, mas que quase enlouquece depois, incapaz de continuar a escrever. Tudo parecia ter parado. Ele desistia da América e a escrita era o que lhe restava. Sobre a América, inevitavelmente, porque não teve outro assunto que não a identidade.







Publico.PT, 18/05/2017



A grande invenção dos brancos



Por Luís Miguel Oliveira



O grande choque, conta James Baldwin no texto lido em off por Samuel L. Jackson, aconteceu no momento em que percebeu que, apesar de se identificar com o herói Gary Cooper, o herói não se identificava com elee que portanto ele, “índio”, negro, não-branco, era o inimigo. A virtude maior do filme de Raoul Peck sobre o legado de Baldwin é saber pegar nas questões de imagem e de representação (dos negros americanos) e dar-lhes um sentido, material e documental, que às vezes é um pouco mais do que meramente ilustrativo.

A representação cultural precede a representação política, e as palavras combativas de Baldwin voltam insistentemente a este ponto – contar a história dos negros americanos, antes e depois do movimento pelos direitos cívicos, é contar a história de um segmento da população que, durante décadas (ou séculos), não teve direito, pelo menos a uma escala massificada, à auto-representação. Viveu com imagens criadas por outros, retratos de “criaturas que existem apenas na imaginação dos brancos” (dixit Baldwin), sem um espelho (o outro choque, diz Baldwin, é por volta dos cinco anos, quando “o negro percebe que não é branco”). Se o diálogo é ainda impossível, ou pelo menos muito difícil, é porque o “negro” é uma “invenção do branco”, ouvimos ainda nas palavras de Baldwin, possuidoras de um eco singularmente godardiano (quando o franco-suíço fala, por exemplo, da Palestina como uma “projecção” de Israel).

Não espanta, pois, que para além das fortíssimas e complexas palavras de Baldwin (que o filme, na locução sóbria de Jackson, restitui sem pedagogia nem floreados), boa parte de Eu Não Sou o teu Negro repouse em imagens – imagens do cinema clássico americano (“reflexo de um mundo racista” mais do que entidade especialmente racista, como Baldwin frisa), imagens da publicidade, retratos falsos, fantasiosos, ofensivos.

E depois, o seu contracampo, os mártires (os três amigos que estão na base do texto de Baldwin: Medgar Evers, Martin Luther King e Malcolm X, todos assassinados), os humilhados, os linchados, os cadáveres que são cadáveres por nenhuma razão para além de serem negros. Peck encontra as imagens que sustentam o texto de Baldwin, ou com que o texto de Baldwin dialoga, e por vezes, somando dois mais dois, vai um passo em frente; como naquele momento, perto do final, em que o texto de Baldwin comenta que o mundo representado pelo rosto de Doris Day nunca foi realmente confrontado com o mundo representado pelo rosto de Ray Charles, e Peck faz suceder a um plano do rosto choroso de Doris Day, como um contracampo imaginário, o documento fotográfico de um negro sumariamente enforcado num tronco de árvore.

Amplamente documentado, e com muitas imagens de intervenções públicas e televisivas do próprio Baldwin, montado com dinamismo, Eu Não Sou o teu Negro é uma peça importante para se perceber um pouco melhor o que raio se passa, o que raio ainda se passa, na América destes dias.