quarta-feira, 8 de junho de 2011

Os banhos de Sinatra

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São Paulo, quarta-feira, 08 de junho de 2011


Banhos demais

RUY CASTRO

RIO DE JANEIRO
- Livro recente sobre Frank Sinatra, "Lady Blue Eyes - My Life with Frank", assinado por sua viúva Barbara, afirma que Frank tomava 12 banhos por dia. Não deve ser a informação mais importante do livro. Seja como for, ela deixa Sinatra mal - nos dias de hoje, não fica bem tomar banho demais. Mas vejamos.

A grande carreira de Sinatra como cantor, ator e figura pública durou cerca de 40 anos a partir de 1939
. Como crooner, gravou 14 faixas com a orquestra de Harry James na Columbia (1939-40) e 93, com a de Tommy Dorsey na Victor (1940-41). Como cantor solo, cerca de 280, de novo na Columbia (1943-52); 370 na Capitol (1953-60); e 450 na Reprise (1960-80). Só aí são mais de 1.200 faixas, e esta é apenas sua discografia oficial. Já é disco à beça.

Somando as faixas que foram gravadas e não lançadas, as muitas gravações especiais (como os V-discs) e os vários takes alternativos, pode-se multiplicar esse número por cinco. Seriam então 6.000 faixas. Sinatra fez também 54 filmes e cantou em quase todos - essa produção chega a mais 160 faixas. Há também os milhares de programas de rádio e TV, que ele manteve durante anos, e os shows em boates, cassinos e estádios -quase tudo foi gravado, e não há mídia que comporte esse material.

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Entre cada disco, filme ou show, Sinatra fez política, apoiou presidentes, meteu-se com a máfia e namorou o fino das mulheres -Ava Gardner, Lana Turner, Eva Bartok, Marilyn Monroe, Natalie Wood, Lauren Bacall, Judy Garland, Marlene Dietrich, Grace Kelly, Kim Novak, Angie Dickinson, Janet Leigh, Virna Lisi, Jacqueline Kennedy, muitas mais. Será que tinha tempo para passar o dia tomando banho?

Mas, então, em 1976, Frank se casou com Barbara. Ele, 61; ela, 50. Nos 22 anos que levaram casados, e já semiaposentado, até morrer, em 1998, ele pode ter optado pelos 12 banhos diários.
 
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O Estado de São Paulo, 07/11/2010

O mito que se recriou sozinho

Michiko Kakutani THE NEW YORK TIMES

Ele forneceu a trilha musical para várias gerações de americanos que tentavam transpor os caminhos espinhosos do romance e lidar com amor e mágoa. E ele se tornou um dos homens contraditórios quintessenciais da cultura do século 20: o sujeito durão cujo canto irradiava uma notável ternura e vulnerabilidade; o sofisticado baladeiro de Las Vegas com uma visão existencial da vida; o citadino elegante que sabia cantar a dor de cotovelo como ninguém. Os fãs podiam reconhecer sua voz com duas ou três sílabas torneadas com perfeição, e o conheciam por seu estilo: o chapéu inclinado, o paletó jogado sobre o ombro, os cigarros Camel e os Jack Daniel"s.

Reprodução
Sinatra 'deu ao mundo o que tinha de melhor em sua música'

Ele foi o destruidor de corações adolescentes original e o arauto de uma nova era de celebridades. Quando nevava, um escritor observou, "as garotas lutavam por suas pegadas, que algumas levavam para casa e guardavam na geladeira". A história da ascensão e autoinvenção de Frank Sinatra e a história de sua queda e seu admirável retorno tiveram as características dos mitos americanos mais essenciais, e seu relato, disse certa vez Pete Hamill, requeriam um romancista, "alguma combinação de Balzac e Raymond Chandler", que pudesse "se aproximar mais da verdade fugidia que um "autobiógrafo" refinado como Sinatra jamais se permitiria chegar". Agora, com Frank: The Voice (Doubleday, 786 págs., US$ 35), Sinatra tem esse cronista em James Kaplan, autor de ficção e não ficção que produziu um livro com todos os detalhes emocionais e o ímpeto narrativo de um romance.
Influências. Se não há nenhum insight novo sobre a música no livro que não tenha sido feito antes por críticos ou pelo soberbo livro de Will Friedwald, Sinatra! The Song Is You (que se apoiou em dezenas de entrevistas com colaboradores), Kaplan faz um trabalho ágil, evocativo ao traçar o desenvolvimento da arte de Sinatra, mostrando como ele assimilou influências iniciais e aos poucos descobriu uma voz própria. Mostra como a admiração adolescente de Sinatra por Bing Crosby (pioneiro numa forma de expressão casual e direta) e sua fissura juvenil por Billie Holiday (cujo emocionalismo combinava com o seu) moldaram suas ambições. Também mostra como Sinatra imitou seu primeiro chefe, o bandleader Tommy Dorsey, em tudo, do guarda-roupa e os atavios (incluindo "a colônia Courtley e a pasta de dente Dentist Prescribed de Dorsey") à sua presença de palco e controle de respiração. E, ainda, como Sinatra trabalhou com afinco sua dicção, seu fraseado e os aspectos narrativos de seu canto.
Como o próprio Sinatra explicou certa vez, ele em geral começava com uma folha de letra sem música: "Nesse ponto, estou olhando um poema, tentando entender suas emoções. Depois, começo a falar, não a cantar as palavras, para poder experimentar e conseguir as inflexões certas. Quando canto com a orquestra, canto as palavras primeiro sem microfone, para poder ajustar a maneira que estive praticando ao arranjo. Estou procurando combinar a emoção que encontrei por trás da canção com a música. Daí junta tudo. Você canta a canção." Este, é claro, continuaria sendo o aspecto mais singular da arte interpretativa de Sinatra: sua capacidade de tornar cada canção sua, de transmitir sua essência emocional investindo-a com seus próprios sentimentos mais profundos. A solidão e a ânsia de amar que sentiu quando criança; o medo que experimentou quando jovem cantor tentando fazer um nome; a embriaguez que sentiu como o novo fenômeno seguido por garotas aos gritos; a dor e perda que sofreu após o colapso de seu casamento com Ava Gardner: todos foram expostos no seu canto, e, combinados com sua extraordinária musicalidade e perfeccionismo, deram-lhe a conexão intuitiva com seu público e o respeito duradouro de seus pares.
O livro termina antes da ascensão de Sinatra à condição de lenda. Ele para com a conquista do Oscar de 1953 no papel de ator coadjuvante em A Um Passo da Eternidade, deixando o leitor sedento por um retrato de seus anos restantes. O fato de o Oscar ter sido a volta de Sinatra após desastrosa queda de prestígio durante os anos do pós-guerra (aquela época escapista quando canções tolas eram populares, e Sinatra era obrigado a cantar coisas ridículas como a canção do Pica-Pau), quando seu divórcio de sua primeira esposa, Nancy, e seu turbulento relacionamento com Gardner o haviam transformado em forragem de tabloides.
Por pura vontade e talento, Sinatra sairia da sarjeta da carreira - seu próprio agente George Evans havia previsto que ele em breve estaria "profissionalmente morto". Mas, ao aceitar o tipo de acordo oferecido a artistas novos (e não a antigos superastros) e cobrindo os próprios custos de gravação, ele se reinventaria, criando na Capitol Records álbuns como Only the Lonely e In the Wee Small Hours que se tornariam clássicos incontestáveis.
Ao narrar a ascensão, queda e nova ascensão de seu objeto ( tudo antes dos 40 anos), Kaplan nos dá sensação vívida dos mundos cruzados por Sinatra, de Hoboken e Nova York a Hollywood e Las Vegas, bem como dos gostos musicais em rápida transformação que o moldaram e depois foram moldados por ele. Ele nos apresenta colaboradores de Sinatra como Nelson Riddle e rivais como Crosby e Eddie Fisher, e no percurso espalha alguns esboços vívidos de conhecidos e amigos. Por exemplo, descreve a influência de Tommy Dorsey como o "campo gravitacional de uma enorme estrela escura" e o produtor de cinema Sam Spiegel como "um operador saído de um romance de Saul Bellow: maxilar pesado, nariz proeminente e dedo mindinho anelado".
Sozinho. Quanto ao temperamento estourado e a ambição fria de Sinatra, Kaplan escreve que ele "passaria por cima de qualquer um que se colocasse em seu caminho até ele agarrar a oportunidade", que "o plano mestre para ele era exatamente este: para si. Sozinho." Mas Kaplan lembra que Sinatra deu "ao mundo o que tinha de melhor em sua música". E essa música, no fim das contas, permanece sendo a autobiografia mais reveladora do cantor. "Tendo tido uma vida de violentas contradições emocionais, tenho uma capacidade superaguçada tanto para a tristeza como para a euforia", observou Sinatra certa vez. "Qualquer outra coisa que se tenha dito sobre mim não é importante", acrescentou. "Quando eu canto, acredito que sou honesto."

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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