sábado, 24 de setembro de 2011

Petição palestina reconhece Estado de Israel

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O Globo - 23/09/2011

Petição palestina reconhece Estado de Israel

 
Luís Bassets

A iniciativa do presidente Abbas de solicitar o reconhecimento da Palestina nas Nações Unidas foi tachada por Benjamin Netanyahu de unilateral e deslegitimadora do Estado de Israel. Como sucede com slogans eficazes, fruto de um trabalho político e diplomático cuidadoso, ambos os argumentos já tiveram êxito e hoje estão presentes em todos os debates sobre os acontecimentos que se produzirão nos próximos dias na sede da organização internacional. Um terceiro inconveniente se deduz dos dois anteriores: seu propósito é isolar Israel.
De todos os passos que os palestinos deram ao longo da história para exercer seus direitos, o movimento diplomático escolhido pelo presidente Abbas é dos mais pacíficos e multilaterais possíveis. Trata-se, de saída, de uma petição. Que se submete ao juízo da comunidade internacional inteira. Não de uma ação irreversível que se toma à margem do multilateralismo. A Autoridade Palestina solicita dos outros países um gesto similar ao que obtiveram os judeus da Palestina em 1947, quando se aprovou o plano de partilha que lhes permitiu criar o Estado de Israel. A petição palestina fecha o círculo, posto que consagra interna e externamente aquela partilha, então não aceita pelo conjunto dos países árabes; daí, não cabe esquecê-lo, a oposição ao gesto de Abbas por parte do campo radical - Hamas e Irã - que querem meramente que Israel desapareça.
Não é um gesto deslegitimador. Do reconhecimento do Estado palestino a partir das fronteiras de 1967, surgiria, pela primeira vez, um Israel reconhecido por seus vizinhos. No impasse atual, entre os vizinhos só o reconhecem os que têm acordos de paz - Egito e Jordânia, e muito poucos mais no entorno árabe e muçulmano. A precariedade das relações com estes e outros países faz temer, pelo contrário, que o não de Israel não fará mais senão complicar seu futuro, convertido nessa fortaleza que não quer se integrar em seu marco geográfico natural, segundo a descrição do rei Abdullah, da Jordânia. Têm razão os que esgrimem este argumento se centrarem a deslegitimação nos territórios ocupados da Cisjordânia. São os colonos, esses ocupantes ilegais e consentidos, que ficam deslegitimados. A única coisa que poderia justificar a defesa das colônias, inclusive retrospectivamente, era sua utilização como arma negociadora, e assim foram concebidas nos anos posteriores à conquista militar de 1967 por governos trabalhistas. Até que chegaram os direitistas do Likud, com os mapas do Grande Israel debaixo do braço, o mandato bíblico sobre a Palestina histórica inteira e o propósito de fazer voar pelos ares os Acordos de Oslo.
Não é um gesto unilateral na forma, como disse Netanyahu, porque rompe com o multilateralismo de uma negociação esgarçada e em suspenso como a de Oslo. Tampouco é unilateral em seu conteúdo: seu objetivo é regressar a Oslo e à fórmula de dois Estados, a qual não desejam nem o Hamas nem o sócio de Netanyahu, Avigdor Lieberman; o pai centenário e conselheiro do primeiro-ministro e historiador da Inquisição espanhola, Etzion Netanyahu; e provavelmente o próprio Netanyahu. Sem contar com a ironia de a acusação de unilateralidade partir de Israel, país surgido do multilateralismo, mas assentado no poder de veto de Washington no Conselho de Segurança da ONU.
Chegamos assim ao terceiro defeito, a vontade de isolar Israel, conforme esgrime o partido de Netanyahu. As provas são evidentes: Abbas quer negociar Estado a Estado e ter a oportunidade de atuar internacionalmente em condições mais equilibradas, algo que pode levar a empreender ações penais internacionais contra os colonos, seus governantes e os militares. Mas este argumento não diz respeito ao Estado de Israel, mas a determinados responsáveis políticos. Que compromete também os palestinos que atuem fora da legalidade internacional, como é o caso do Hamas. Se Israel está isolado não é pela ação diplomática de Abbas, mas pela ação isolacionista e deslegitimadora de Netanyahu, que rompeu a arquitetura inteira de alianças forjadas durante os 60 anos de história do país.
O mérito de Abbas é seu caminho legal e pacífico, que não deve abandonar em caso algum. Como não querer que a comunidade internacional aplauda os palestinos que agora somente esgrimem o ramo de oliveira e ao fim entregaram a pistola? A palavra é que lhes dá sua força moral e política; desautoriza e anula o errôneo caminho violento que alguns ainda querem trilhar; e coloca os EUA e Israel em apuros.
A direita israelense está a ponto de repetir aquele gesto de 1948, mas com o sinal trocado. Os conservadores israelenses declararão guerra como fizeram então os árabes?

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