domingo, 7 de novembro de 2010

Livro: Samba de Sambar do Estácio - 1928 a 1931

O Estado de S.Paulo, 06 de novembro de 2010

Desde que o samba é samba

Lucas Nobile

Era o princípio da década de 1950 e grande parte dos imóveis da Rua São José, que chegava até a principal Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro, seria desalojada para dar lugar à construção do edifício do Terminal Menezes Côrtes, até hoje no local. Tal movimentação se refletiria como uma "salvação e a abertura de uma realidade" na vida do jovem Humberto Franceschi, na época com seus vinte e poucos anos.
Otto Stupakoff/Instituto Moreira Salles
Otto Stupakoff/Instituto Moreira Salles

O lendário sambista Heitor dos Prazeres no Estácio, em 1657
Tudo porque, com tal debandada, instalou-se ali um imenso sebo de discos, que pegava quase que a rua inteira. Naquele momento, milhares de álbuns de grande musicais americanos e das big bands da Metro invadiam a São José, atraindo toda a atenção dos ouvidos da garotada. Pelo pedaço, a música brasileira era relegada a planos bem inferiores e os registros dos raríssimos discos da Casa Edison eram vendidos a preço de muamba, praticamente dados, algo hoje na casa de 50 centavos.
Franceschi comprava justamente estes apenas para ouvir, por prazer e curiosidade. Mal sabia que ali começava a construir o arcabouço que o formaria como um dos maiores pesquisadores de música popular brasileira. Tempos depois, ao longo dos anos 50 e 60, sua casa já era tomada em reuniões informais por verdadeiras lendas do cancioneiro nacional, como Ismael Silva, Heitor dos Prazeres, Alcebíades Barcelos, o Bide, Getúlio Marinho, o Amor, entre outros bambas do Estácio.
Franceschi travava contato estreito com os músicos e ouvia suas composições com atenção, mas quem lhe alertou mesmo para tamanha inventividade daqueles sambas foi o amigo e jornalista Lúcio Rangel. Depois do estralo, começava rondar a cabeça de Franceschi a ideia de escrever um livro sobre os personagens reais e a história do celeiro de onde vieram, o Estácio.
A terceira aventura do pesquisador - antes ele já havia escrito os dois belos livros Registros Sonoros por Meios Mecânicos no Brasil (Studio HMF, 1984) e A Casa Edison e seu Tempo (Sarapuí, 2002) - emerge agora com o lançamento de Samba de Sambar do Estácio - 1928 a 1931 (Instituto Moreira Salles e Imprensa Oficial), na próxima terça, às 20 horas, no IMS, no Rio, em mesa redonda com outro pesquisador notável, José Ramos Tinhorão.
A feitura do livro pode ser chamada de aventura pelo fato de não haver nenhum documento ou notícias de jornal que contassem a história do bairro a ser retratado. "A grande concentração do Estácio se dava no mangue e, na década de 1930 o mangue era pecado. Se eu escrevesse o livro, as pessoas iriam dizer que era mentira. Indo até lá, não existe mais nada, foi tudo demolido", comenta Franceschi, com 80 anos completados no último dia 9 de setembro e uma memória absurda.
O caminho do pesquisador recebeu clarões elucidativos em dois momentos. O primeiro, quando ele descobriu na prefeitura do Rio que, em 1928, toda a região havia sido aerofotografada. O material permaneceu intacto, sem intervenções até passar, em 1935, por um levantamento cartográfico sobre o voo, resultando em desenhos de todas as ruas e casas do Estácio. O segundo, veio, despretensiosamente, das mãos de Francisco Duarte. "Ele era repórter do Jornal do Comércio e vidrado em gafieira. Após sua morte, eu fiquei cerca de três anos correndo atrás de pistas da família dele. Encontrei a filha, que me mostrou fitas registradas por ele em um gravador sobre o que ele sempre dizia ser gafieira. O material estava muito confuso, com gravações em cima de gravações, mas eu fui perceber que aquilo não era gafieira coisa nenhuma, eram registros que documentavam coisas preciosíssimas de remanescentes do Estácio", diz o pesquisador.
Com a estrada enfim mais iluminada, Franceschi pensou primeiramente em fazer apenas um CD com os sambas mais representativos do Estácio, mas julgava ser pouco demais para ilustrar tamanha riqueza. Depois veio então a ideia de fazer um DVD contando o que foi o bairro, um mapa da região e não 20, mas 100 músicas relevantes do Estácio. A intenção foi além e o livro Samba de Sambar do Estácio terá encartado esse DVD. Há imagens belíssimas, documentos raros, mas o destaque mesmo fica por conta dos áudios de joias como Ando Sofrendo, de Rubens Barcelos e Roberto Martins (Odeon, 1937), com arranjo do acadêmico e erudito Simon Butman, em contraposição a Você Chorou (Victor, 1935), de Sílvio Fernandes, o Brancura, arranjada por um gênio popular, Pixinguinha. Sem contar também Quem eu deixar não quero mais (Odeon, 1928), primeira composição do Estácio, feita por João de Oliveira e Edgar Marcelino dos Santos, o genial Mano Edgar, assassinado três anos depois dentro de uma barbearia no número 40 da Rua Carmo Neto, em decorrência de problemas com o jogo do bicho.
"A intenção do DVD é mudar esse conceito em relação aos livros de história da música popular brasileira. Não adianta nada você escrever o livro e o leitor não ouvir sobre aquilo para entender realmente do que se trata", explica Franceschi.
Toda as preciosidades do DVD são um luxo para o público. Mesmo assim, não apagam, pelo contrário, só acrescentam à qualidade e o rigor da pesquisa do autor na confecção do livro. A obra é um exemplo de preservação da música nacional e do patrimônio cultural por meio dos casos de um bairro, seus costumes e seus personagens.
É um documento histórico que conta a história de Ismael Silva (o maior em termos de produção), Heitor dos Prazeres, Mano Edgar, Bide, Getúlio Marinho, Bucy Almeida, Sylvio Fernandes, Zé Espinguela (com seus pontos de candomblé), que inovaram no gênero, com andamento particular marcado por uma levada basicamente percussiva; o surgimento de termos, como "malandro capoeira"; os blocos, como o principal Deixa Falar; a contribuição do bairro para que o futebol aceitasse jogadores negros em seus times; os equívocos dos pelegos de um embrião do Ministério do Trabalho infiltrados nos blocos na tentativa de transformá-los em ranchos vigiados pela polícia para que não houvesse conotações políticas nos sambas. Há ainda depoimentos, tabelas e gráficos sobre ascensão e queda da produtividade do Estácio. Enfim, um material de riqueza intangível.

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