sexta-feira, 10 de junho de 2016

A crise é um modo de governo





Folha.com, 10/06/16
 


A crise é um modo de governo

 
Por Vladimir Safatle



​​
'Aos nossos Amigos: Crise e Insurreição' é um pequeno livro de um conjunto de autores anônimos chamado Comitê Invisível. Ele acaba de ser lançado no Brasil (n-1 Edições) em um momento que não poderia ser mais propício. Sua capacidade de apresentar teses sobre a natureza dos impasses da vida contemporânea é algo que há muito havia desaparecido das prateleiras das livrarias.

"Desde 2008, vivemos em constante ritmo de insurreição", dizem os autores. Nosso maior erro é não perceber como estamos, seja no Brasil, na Turquia, na Espanha, na Tunísia ou na Grécia, em um processo mundial de contestação e desencanto. Faz parte de uma lógica de gestão de crise mundial dar a impressão de que estamos todos a lutar contra governos locais e aparatos nacionais de poder.

No entanto, esses governos são apenas repetidores de uma mesma política global, que parece saída da mesma cabeça, feita com maior ou menor intensidade. Nossas discussões são sobre intensidades da mesma política, sobre se tais direitos serão ou não desmontados, sobre qual a intensidade dos cortes, não sobre caminhos alternativos.

Essa homogeneidade mostra duas coisas fundamentais. Primeiro, que nenhuma saída será local ou nacional. Segundo, e mais importante, que apenas a perpetuação de um estado permanente de choque poderia nos levar a tamanha limitação da capacidade de pensar. O que talvez nos explique por que a crise não é algo a ser combatido pelas práticas de governo. Há muito a crise se tornou a própria prática de governo. Previne-se, por meio de uma crise permanente, toda e qualquer crise real.

O que significa que essa crise que aparece diariamente nos jornais não passará. Ela ficará continuamente como um fantasma a justificar toda "austeridade". Haverá sempre um corte na previdência a fazer, uma restrição orçamentária a impor, gordura a cortar em uma "reestruturação permanente de tudo" que só não mudará uma coisa: a defesa da elite patrimonial, os rendimentos da oligarquia financeira.

Mas para submeter populações inteiras a tal regime de governo faz-se necessária uma verdadeira engenharia psicológica de duas mãos.
De um lado, vende-se a ideia de que a crise "é o momento vivificante da 'destruição criadora' que cria oportunidades, inovação, empreendedores, em que só os melhores, os mais motivados, os mais competitivos sobreviverão". Ou seja, a crise seria o momento no qual a coragem como virtude poderia aparecer. Por isso, os que temem a crise, procurando proteção, só poderiam estar a agir como crianças. Eles não são sujeitos conscientes da falácia de uma destruição criadora que sempre poupa aqueles bem nascidos. Eles são crianças mimadas.

Não por acaso, as políticas de gestão da crise são chamadas de políticas de "austeridade". O termo remete à lógica protestante de uma vida austera, responsável, adulta e realista contra o dispêndio, o excesso e a irresponsabilidade. Ele traz no seu bojo a ideia de que, enquanto você trabalhava, alguns "vagabundos" se aproveitavam, não precisando se impor uma vida restrita como a que você foi obrigado a suportar. É contra os "privilégios" desses mimados que todos deveriam lutar.

O raciocínio é primariamente falso. Se alguém está a procurar "vagabundos" deveria começar por olhar no topo do sistema financeiro e na casta rentista da elite brasileira, não nas classes historicamente desfavorecidas. Mas isso pouco importa, pois o discurso da austeridade não se sustenta em algum dado de realidade, mas na tentativa de impor uma ética por trás de conjuntos de práticas de governo. Por isso, é no terreno ético que o combate deve iniciar.

Daí uma compreensão decisiva: "O que acontece hoje não é apenas que alguns queiram impor uma austeridade econômica a outros que não a desejam. O que acontece é que alguns consideram que a austeridade é, em absoluto, algo bom, enquanto que outros consideram, sem de fato ousar afirmar tanto, que a austeridade é, em sua totalidade, uma miséria".

Como essa "vida austera", há de se impor uma outra ideia de vida, baseada na partilha em vez da economia, na conversa em vez do silêncio, no excesso ao invés da restrição. A austeridade sempre foi a forma de restringir a vida de muitos para garantir o gozo de poucos. Eis algo que aparece na base da crise como modo de governo. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

Direitos cabem no Orçamento; "bolsa milionário", não






Portal Vermelho, 27 de maio de 2016

 

Direitos cabem no Orçamento; "bolsa milionário", não


 
Por Joana Rozowykwiat


A expressão, ela explica, faz referência ao fato de que, no Brasil, ricos e super ricos possuem privilégios fiscais que pesam nas costas dos mais pobres e prejudicam a arrecadação. Grazielle, que é assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), defende então o fim de regalias e a ampliação de tributos para as camadas mais altas da sociedade. 

“O que não cabe no Orçamento é a isenção de Imposto de Renda nos Lucros e Dividendos, a carga tributária regressiva que pesa muito mais sobre os mais pobres e a classe média, a sonegação e a evasão fiscal e a dívida ativa da União", exemplifica, em entrevista ao Portal Vermelho.

De acordo com ela, o governo interino age de forma irresponsável ao querer implementar medidas que prejudicam o trabalhador, sobre quem já pesa uma carga tributária alta, injusta e regressiva. “Cortar os direitos justamente daqueles que mais contribuem, proporcionalmente, é o auge da irresponsabilidade, do descompromisso e da incapacidade de um governo”, afirma.

Nas duas primeiras semanas, a equipe de Michel Temer já declarou que o país não tem condições de sustentar a universalidade do acesso à Saúde; defendeu a cobrança de mensalidades para cursos de extensão e pós-graduação em universidades públicas; cancelou a construção de unidades do programa Minha Casa, Minha Vida; propôs uma reforma da Previdência com redução de direitos e ampliação da idade mínima; decidiu priorizar uma reforma trabalhista precarizante; anunciou o congelamento dos gastos públicos, inclusive em áreas subfinanciadas, como Saúde e Educação, entre outros.

Sem querer desagradar empresários e políticos que apoiam o impeachment e combatem a elevação de tributos, o presidente provisório evitou, até então, propor mais impostos. Grazielle, contudo, aponta que redistribuir a carga tributária, aumentando-a para as parcelas mais ricas da sociedade e desonerando as camadas mais baixas, além de promover uma maior justiça fiscal pode ajudar a alcançar o tão almejado equilíbrio nas contas públicas.

“As opções não são apenas cortar despesas ou aumentar a carga tributária. A justa e real opção é redistribuir a carga tributária, acabar com os privilégios", diz.

Lucros e dividendos
Grazielle ressalta que grande parte da estrutura tributária do país está baseada em impostos indiretos, ou seja, que incidem sobre o consumo de bens e serviços e não sobre a renda e a propriedade. Isso significa que, proporcionalmente, os mais pobres pagam mais impostos, já que possuem renda inferior, mas pagam o mesmo preço que os ricos por produtos e serviços. Além do mais, toda a sua renda é utilizada no consumo, enquanto uma parte importante da renda dos mais ricos acaba convertendo-se em riqueza e patrimônio, cuja tributação é menor.
​
O Projeto Isonomia, iniciativa construída por diversas organizações da sociedade civil, incluindo o próprio Inesc e o Instituto Justiça Fiscal (IJF), propõe então alterações na cobrança do Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF), de modo a tornar mais justa a tributação brasileira. 
​
De acordo com o estudo, o IRPF representa somente 2,7% da arrecadação total do país, enquanto a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 8,5%. O Projeto Isonomia apresenta uma série de propostas, que elevariam a participação deste imposto na carga tributária total para 5,4%, número mais próximo da média mundial.

O primeiro passo seria alterar a Lei 9.249/95. Tal norma, aprovada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP), instituiu a isenção de Imposto de Renda sobre os lucros e dividendos, dando uma ajudinha ao andar de cima. Entre todos os países da OCDE, somente Brasil e Estônia têm essa isenção sobre lucros e dividendos.

“Um dos problemas da tributação brasileira é a falta de isonomia. A gente taxa muito mais as rendas oriundas do trabalho que a renda proveniente do capital. As altas rendas são predominantemente originárias do capital. Grande parte daqueles que recebem acima de 40 salários mínimos tem rendas originadas da distribuição de lucros e dividendos e é, portanto, isenta de pagar o tributo. Quando crio um tratamento não isonômico, privilegio justamente as maiores rendas”, diz Dão Real Pereira dos Santos, diretor de Assuntos Institucionais do IJF.

Conforme informações colhidas pelo Projeto Isonomia, o Relatório da Receita Federal do Brasil de 2013 mostra que, apenas em rendas relativas a lucros e dividendos, foram declarados naquele ano R$ 231,30 bilhões. Se este valor fosse submetido à mesma tabela progressiva que incide sobre as rendas tributáveis, considerando uma alíquota média de 25%, o resultado poderia gerar cerca de R$ 58 bilhões em Imposto de Renda.

Faixas
Um segundo passo seria criar novas faixas com alíquotas diferentes, na tabela do IRPF. Atualmente o tributo é cobrado a partir de cinco faixas, conforme tabela abaixo. 


De acordo com Grazielle, hoje, a tabela só é progressiva até determinado ponto. “Quando a gente chega na parcela acima de 30 salário mínimos, mais ou menos 27 mil reais, a partir daí ela fica regressiva. Então há uma injustiça fiscal dentro dela”, opina, afirmando que essa progressividade chega apenas até uma classe média alta, deixando os ricos e milionários de fora. 

Segundo ela, o fato de existirem apenas cinco faixas faz com que não seja possível separar adequadamente a porcentagem que cada grupo realmente deveria pagar. “Há gente com salário que não é tão alto, mas que paga uma alíquota elevada. Por outro lado, o limite ainda é muito baixo para quem realmente está na ponta, ou seja, quem recebe muito mais”, compara a assessora do Inesc.

“Os milionários - o 0,1% da população brasileira que é mais rico - pagam menos impostos, proporcionalmente, que a classe média hoje”, diz.

Para equalizar a questão, o Projeto Isonomia propõe estabelecer oito faixas na tabela do imposto, conforme tabela abaixo. 


“É um estudo prévio, ousado, que oferecemos para debate. Uma simulação que parte dos dados da Receita Federal de segregação de renda por salário mínimo. Nele, interpolamos as alíquotas por faixa de renda, o que produziria uma desoneração da base da pirâmide e uma oneração maior do topo”, conta Dão Real Pereira dos Santos. O modelo proposto utiliza como referência para estabelecer o limite de isenção o salário mínimo calculado pelo DIEESE (R$ 3.299,66 em 2015).

“Eliminando a isenção na tributação dos lucros e dividendos e aplicando esta tabela, 97,3% dos contribuintes do IR, que ganham até R$ 27.120,00, irão pagar menos imposto de renda. Já quem ganha acima dos R$ 27.120 - apenas 2,7% dos contribuintes - irá pagar um pouco mais”, resume Grazielle.

Dão dos Santos lembra que, além de corrigir injustiças, a nova tabela ainda contribuiria para injetar dinheiro na economia, pois haveria uma redução da tributação do IR para as rendas mais baixas enquanto o topo da pirâmide passaria a pagar mais Imposto de Renda.

De acordo com estudo do Projeto Isonomia, com estas medidas, espera-se uma elevação da arrecadação do IRPF total; uma redução substancial da carga tributária incidente sobre as baixas rendas, especialmente os salários dos trabalhadores; uma redução da desigualdade social; e a criação de condições para uma efetiva redução da tributação sobre o consumo, reduzindo o custo de produção e, consequentemente, os preços médios dos produtos nacionais.

Segundo cálculo das entidades que construíram o projeto, se taxados lucros e dividendos e aplicada a tabela proposta, a arrecadação subiria cerca de R$80 bilhões, que representa quase a metade do déficit de R$170,5 bilhões que o governo provisório prevê para 2016.

“Melhor redistribuído, o IR contribui mais com o orçamento e promove justiça fiscal tanto na arrecadação quanto depois, na execução, porque é mais verba para investir em políticas públicas que garantem direitos. Além disso, com os recursos economizados, a classe média, que passaria a pagar mesmo imposto, poderia utilizar seu dinheiro de outra forma, movimentando a economia brasileira”, completa Grazielle.

Sonegação

A assessora do Inesc propõe ainda algumas medidas que, avalia, teriam importante efeito sobre a sonegação e a evasão fiscal, grandes destruidores do orçamento nacional. Entre elas, está a criação de uma força-tarefa no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), com analistas e auditores da Receita Federal para acelerar os processos dos devedores da União, o que poderia gerar uma receita de até R$ 913 bilhões. 

Grazielle defende ainda a cobrança imediata dos valores de Dívida Ativa da União que já tiveram os processos transitados em julgado. Ela avalia que tal medida poderia devolver R$ 236 bilhões aos cofres públicos. 

Outra ação que a especialista em orçamento público sugere é o direcionamento dos servidores da Receita Federal para o controle da evasão e da sonegação fiscal, que, em 2015, previa-se que atingiria mais de R$ 500 bilhões.

Já o IJF propõe a modificação da lei sobre os crimes contra a ordem tributária, como forma de acabar com a impunidade. Atualmente, se alguém comete algum crime tributário, enquanto não transitar em julgado a cobrança dos tributos, o sonegador não responde pelo crime. 

E, mesmo depois de encerrado o processo na via administrativa - coisa que pode levar em média 8 anos -, se o sonegador pagar ou parcelar a dívida tributária, também não poderá ser condenado pelo crime. “Que outro crime deixaria de ser punido simplesmente pela reparação do dano?”, questiona Dão dos Santos. 


​
 


Folha.com, 03/10/15


Prêmio Nobel ataca elite alienada e propõe mais impostos para os ricos

 
ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO



Começou com a eleição de Ronald Reagan. Os mais ricos passaram a pagar menos impostos, a economia foi desregulada e o setor financeiro tornou-se central. A memória da Segunda Guerra Mundial, e da solidariedade que engendrou, foi desaparecendo.

O rápido crescimento com avanço da indústria e ascensão das classes médias ficou para trás. O fim da União Soviética, eliminando a competição ideológica, frustrou planos de inclusão para a maioria da população.

O bem-estar das corporações foi engordando ao mesmo tempo que encolhiam os projetos de ajuda aos mais pobres. Um norte-americano típico ganha hoje menos do que ganhava há 45 anos – feitas todas as correções. Uma em cada quatro crianças vive na pobreza (na Grécia é uma em seis).

O 1% mais rico abocanha um quarto da renda e 40% da riqueza dos EUA.  Há 25 anos, essas percentagens eram de 12% e 33% respectivamente. Políticos e parlamentares fazem dessa superelite e atuam em função dela.
Essa crescente desigualdade destrói o mito dos EUA como a terra de oportunidades, sabota a eficiência da economia e, principalmente, abala os pilares da democracia. O lema de "um homem um voto" está sendo convertido em "um dólar um voto".

É com esse pano de fundo que o prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz desenvolve 'The Great Divide' [A Grande Divisão], obra que disseca os movimentos que levaram a rupturas e desagregações na sociedade norte-americana nas últimas décadas.


Seu ponto central: a desigualdade galopante é fruto de políticas deliberadas e poderia ter sido evitada. Stiglitz ressalta que o fosso social fabricado nos Estados Unidos – e replicado pelo mundo – impede uma recuperação mais robusta da economia, reforçando iniquidades e mais concentração de riqueza.

Com uma linguagem contundente e didática, o autor extrapola em muito o estrito mundo econômico. Sua reflexão passa pelo comportamento da elite, cada vez mais divorciada das necessidades da população.

Alienada das condições sociais gerais, da saúde, da educação, da segurança e da infraestrutura, essa fração dos superricos vive numa bolha, não liga para o que acontece com a maioria e gera efeitos perversos para o país. Nas palavras do Nobel:

"De todos os custos impostos pelo 1% para a nossa sociedade talvez o maior seja a erosão de nosso senso de identidade, no qual o jogo justo, a igualdade de oportunidade e o senso de comunidade são tão importantes".

Stiglitz, 72, lembra que Alexis de Tocqueville (1805-1859) identificou nos norte-americanos a existência de um "interesse próprio bem compreendido", ou seja: para o próprio bem-estar individual é preciso prestar atenção nas condições dos outros.

Segundo o Nobel, os americanos aprenderam que "ajudar os outros não é apenas bom para a alma, mas é bom para os negócios". No entanto, agora a elite não entende que o seu destino está interconectado com o da maioria da população –os 99%.

"A história mostra que isso é algo que, no final, o 1% mais rico pode aprender _muito tarde", diz. O alerta está em 'Do 1%, pelo 1%, para o 1%', famoso ensaio publicado originalmente pela revista "Vanity Fair", em 2011, e que serviu de inspiração para protestos como o Occupy Wall Street.

O texto é um dos mais esclarecedores do livro, que recupera discussões de outras obras de Stiglitz, como 'The Price of Inequality' (2012) e 'Freefall' (2010). Ex-executivo do Banco Mundial e do conselho econômico da administração Bill Clinton, Stiglitz reforça, também nesta obra, seu ataque contra os bancos.


Condena, especialmente, as práticas anti-competitivas na área de cartão de crédito. Recomenda uma forte legislação antitruste – o que impulsionaria pequenos negócios. No conjunto, defende uma maior taxação para os mais ricos, demolindo argumentos contrários.

Ainda que repetitivo em alguns pontos, "The Great Divide" é essencial para entender os dias que correm –não só nos EUA.



​
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/O-grande-erro-e-a-grande-dor-causada-pelo-neoliberalismo/7/36246

 

Carta Maior, 07/06/16

 

O grande erro e a grande dor causada pelo neoliberalismo



Por Vicenç Navarro* - Público.es


 
Se você lê a imprensa econômica ou as páginas econômicas da imprensa em geral, deve ter visto que em muitos países estão sendo introduzidas práticas bancárias através das quais as instituições financeiras, em vez de pagar juros pelo dinheiro que o cidadão deposita no banco, cobram do mesmo para guardar esse dinheiro. É o que chamam de juros negativos. Você se perguntará: por que o fazem? E a resposta a essa pergunta varia de acordo com o economista que responde. As chamadas “ciências econômicas” não são tão científicas como a maioria da população acredita.
 
Uma resposta muito frequente é a de que existe hoje no mundo muitíssimo dinheiro. Na verdade, há tanto dinheiro que não se sabe o que fazer com ele. E, para os ricos, é mais seguro ter o dinheiro depositado no banco que debaixo da almofada da sua casa. A resposta tem certa lógica. Mas o que você faria se tivesse muito dinheiro seria, em vez de colocar o dinheiro debaixo da almofada ou num banco? Tentaria utilizá-lo bem, investindo, comprando propriedades que gerassem renda agora ou num futuro a médio ou longo prazo, aumentando o consumo. Isso é precisamente o que a maioria dos economistas também dirá. Já que o maior problema das economias desenvolvidas é a escassa demanda, parece lógico que se tomem medidas para aumentar o consumo. As autoridades públicas tentam fazer com que, no lugar de guardar o dinheiro, as pessoas utilizem esses recursos comprando. É importante, portanto, que os bancos, em vez de forçar a barra com os juros sobre os depósitos, incrementando a poupança.
 
Essa explicação parece lógica, mas há um grande problema: assumir que não se está conseguindo aumentar o consumo no país – seja porque não há suficiente dinheiro em circulação, o que é não é verdade, mas é difícil de explicar. Em realidade, os bancos centrais, incluindo o BCE (Banco Central Europeu), vem imprimindo mais e mais dinheiro (bilhões de novos euros em circulação. No entanto, a economia permanece estancada. Para dizer a verdade, os bancos já chegaram a entregar empréstimos com juros negativos, durante muito tempo. Se os juros do dinheiro que você deposita no banco são mais baixos que a inflação (que é o que aconteceu durante bastante tempo), você está perdendo dinheiro no depósito bancário.
 
Por que a política monetária é dramaticamente insuficiente?

O grande erro dos talibãs neoliberais está aí. Acreditar que a economia pode se tornar a base da quantidade de dinheiro que há no mercado (que depende, entre outros fatores, da quantidade de dinheiro que o Banco Central imprime, que é o que se chama política monetária) é estar profundamente equivocado. Isso não quer dizer que seja completamente errôneo. Há um elemento de verdade, mas só um elemento, e agora é um elemento muito pouco importante. O que não quer dizer que os bancos não puderam ajudar no estímulo da economia. Mas, hoje, a banca privada não o faz. O Banco Central deveria dar (a juros muito baixos) dinheiro aos Estados (uma quantidade que possa ser regulada), para que os mesmos possam, com esses recursos, apoiar diretamente as famílias e as pequenas e médias empresas. Mas não o fazem, porque preferem fazer tudo através da banca privada, que utiliza a maior parte desse dinheiro para fins especulativos.
 
Não o fazem, e não é porque os banqueiros sejam pessoas ruins (embora muitos pensem que sim, porque são avarentos e não sempre honestos com seus clientes), mas sim porque a rentabilidade do investimento é muito maior na especulação que no que se chama investimentos produtivos (na produção de bens e serviços). Além disso, não confiam nas pequenas e médias empresas, pois as vê como pouco seguras. Em outras palavras, o problema não é a falta de dinheiro mas sim os canais pelos quais são distribuídos tal dinheiro. Na verdade, as grandes empresas nunca tiveram tanto dinheiro, mas também enfrentam um grande problema: não há onde depositá-lo. Por isso os bancos cobram para guardá-lo.
 
Qual é o problema, então?
 
Acreditem, embora você não veja isso na imprensa, o maior problema da economia hoje é a falta de demanda de bens e serviços, porque a população não tem dinheiro para comprá-los. E o fato de não ter dinheiro é porque a maioria consegue sua renda na base do trabalho, ou seja, salários ou outras formas de compensação relacionadas com o trabalho. Aí está o ponto decisivo. As rendas derivadas do trabalho (como porcentagem de todas as rendas) vêm caindo, enquanto as rendas do capital vão crescendo. Esse é um problema gravíssimo, mas silenciado e ocultado pelos meios de comunicação. Se você acha que essa teoria é paranoica, tente mostrar onde se lê sobre isso em artigos ou matérias na televisão. Pode haver uma ou outra exceção, mas elas só vão confirmar a regra.
 
Essa ausência não significa que os jornalistas sabem a verdade e a ocultam. Isso costuma acontecer, mas não é o mais frequente. Na verdade, o que predomina é mais a ignorância, não a manipulação, mesmo nos meios ditos especializados em economia – embora realmente exista os que funcionam pela regra contrária.
 
É muito fácil ver o que está ocorrendo. Os cortes nas políticas sociais diminuíram a demanda de uma forma substantiva. Hoje, a escassez de demanda é o maior problema na Zona Euro (especialmente no sul da Europa), e é responsável pelo estancamento econômico e o baixíssimo crescimento econômico. Esse estancamento foi causado, por sua vez, pela queda nos investimentos produtivo (na União Europeia, a baixa foi de 8,4% em investimentos no ano 2000 para 6,8% em 2014, enquanto na Espanha, ainda pior, de 7,5% a 5,7% durante o mesmo período). A diminuição do apoio em áreas como a investigação e o desenvolvimento também é bastante notável. Na verdade, as políticas de reformas trabalhistas impulsadas pelos diferentes governos – tanto o PP (Partido Popular, força de direita da qual faz parte o presidente Mariano Rajoy) quanto o PSOE )(Partidos Socialista Operário da Espanha, de centro-esquerda), e inclusive a nova frente de centro-direita chamada Cidadão aplaudiu essas medidas, que tiveram como consequência a queda no valor real dos salários e o aumento da precariedade, e das políticas de austeridade, com cortes realizados e aplaudidos por tais partidos, que tiveram um impacto muito negativo, causando primeiro a grande recessão, e logo atrasando a recuperação econômica.
 
A sabedoria convencional está mudando?
 
Os exemplos mais notáveis de atraso se dão devido ao enorme domínio dos meios de informação por parte de forças conservadoras e neoliberais. Tanto a direção do FMI quanto até mesmo o presidente do BCE indicaram que as políticas monetárias são insuficientes, e que o que parece ser a solução é um pacote de medidas fiscais para estimular a economia mediante medidas fiscais.
 

O que se entende por medidas fiscais é a redução dos impostos, com o que se consideram que estimulará a economia, o que é verdade, mas só até certo ponto, já que as diminuições de impostos, por regra geral, beneficiam mais as rendas superiores que a maioria da população, e os primeiros já têm tanto dinheiro que o que recebem como isenção ou rebaixa dos impostos se transforma em acúmulo, não em mais consumo, ao contrário do que a maioria da população, que não tem tantas posses e gasta quase toda a ajuda extra que recebe.
 
Logo, a melhor maneira de estimular a economia é dar um giro de 180º, acabando com as reformas contraproducentes que foram impostas à população. Na verdade, o presidente estadunidense Franklin Roosevelt tirou o seu país da Grande Depressão graças a um incremento enorme do gasto público, através de investimentos públicos bastante necessário ao país, o estabelecimento da Segurança Social e o estímulo à sindicalização, para que se aumentassem os salários. Hoje, isso é o que a Espanha necessita, por exemplo. Infelizmente, nem o PP, nem o PSOE, a frente de centro-direita Cidadãos propõem algo semelhante àquilo. As propostas do PSOE não se distanciam o suficientemente das políticas públicas seguidas por seus antecessores, e isso é parte do problema. Hoje, a principal necessidade é estimular a economia através de um aumento notável dos investimentos públicos nas áreas sociais, energéticas e industriais, criando empregos de qualidade. Um aumento importante dos salários, revertendo as reformas trabalhistas para reforçar os sindicatos, ao invés de debilitá-los. Se a Espanha não faz isso, seguirá o mesmo caminho enfrentado pela Grécia, que terminou aceitando a continuidade das reformas neoliberais. E tal mudança das políticas contra o que se indica nos círculos econômicos e políticos, onde se reproduz a sabedoria convencional. Portugal é um exemplo de onde a coalizão governante de esquerda tratou tais políticas. A Espanha poderia ser outro. Na realidade, os dias da austeridade estão contados, pois existe hoje uma rebelião dos países da Zona Euro (vejamos o que acontece na França). Diante de tais políticas, que prejudicam muito as classes populares. A vitória nas próximas eleições e nas internas pode fazer com que, no dia 26 de junho, uma coalizão de partidos progressistas anti-austeridade, seria um passo muito importante para reverter o austericídio presente. Pensem, portanto, que o seu voto pode determinar que se continue com essas políticas desastrosas ou que alguém seja capaz de confrontar tudo.

 

* Catedrático de Ciências Políticas e Políticas Públicas pela Universidade Pompeu Fabra, professor de Políticas Públicas da The Johns Hopkins University, ex-catedrático de Economia, da Universidade de Barcelona.

 
Tradução: Victor Farinelli

Busca de nexo político





Jornal da AEPET, 07/06/2016 



Busca de nexo político


Por Paulo Metri



Acontecimentos políticos do país, com fortes repercussões econômicas e na esfera do poder, estão merecendo melhores explicações. Sinto-me, muitas vezes, assediado por versões grotescas dos fatos. Ouço a cantilena de pessoas que são repassadoras de informações da Globo, Folha, Veja, Época, CBN e outros canais de mídia do capital, a dizer coisas do tipo: “Tudo ocorre porque governos gastaram mais do que conseguiam arrecadar. Então, criaram déficits públicos e, como não há mais a possibilidade de tomar empréstimos, passa-se a dar pedaladas e a pegar dinheiro em bancos públicos”. Argumentos como este são ouvidos em diversos lugares.

Tudo se resume em definir prioridades para onde o dinheiro público deve ir. Se vai para beneficiar os mais ricos, como no caso do Proer, ou os mais carentes, como o Bolsa Família. Por exemplo, não há um canal de mídia que proponha a auditoria da dívida como forma de descobrir se ocorreram fraudes no seu cálculo e, dependendo do resultado, diminuir o pagamento das parcelas de juros. O Equador fez auditoria da sua dívida e encontrou erros que a reduziram em 70%.

A alternativa única daqueles que são vassalos dos donos de papéis do governo brasileiro é retirar recursos dos programas sociais para pagar os juros da dívida, mesmo discurso da Globo et caterva. Henrique Meireles se subordina, como bom vassalo, também a este pensamento. Eles não se importam se tais juros carregam suor e sangue de brasileiros. Estes juros são intocáveis, como um décimo primeiro mandamento de Deus.

Em compensação, os neoliberais simplesmente não falam da inclusão social que ocorreu nos governos petistas. São 36 milhões de pessoas que saíram da linha da miséria, além de outro tanto, que não eram miseráveis e ascenderam a níveis superiores. Deveria ser considerada como um “roubo” a ineficiência dos governantes anteriores a Lula, que não propiciaram esta ascensão. Ou seja, eles furtaram dos miseráveis melhorias na condição de vida. Quando se fala aos neoliberais sobre a inclusão social dos governos petistas, eles argumentam que Fernando Henrique foi o criador do Bolsa Família, como tergiversação para iludir eventuais ouvintes inocentes, pois os tucanos não promoveram inclusão social significativa.

É louvável a busca para descobrir os roubos que existiram no país. É criticável a tendência de se buscar criminalizar só o PT, quando, por exemplo, atos altamente comprometedores aconteceram na Petrobrás, na administração do presidente Fernando Henrique Cardoso. Sobre este tema vale a pena ler o artigo “Em defesa da Petrobrás”, que está no site do Clube de Engenharia. Como já é lugar comum, o governo deste presidente foi blindado contra qualquer acusação, muitas das quais eram possíveis casos verdadeiros, pelo “seu” procurador geral Geraldo Brindeiro.

Entretanto, os humanos, que na verdade são estações repetidoras da Globo, não cansam de dizer que o governo Lula foi o mais corrupto do país. Quem diz isto não pode estar falando sério. Para se afirmar tal coisa, seria necessário saber quanto roubo ocorreu em cada governo brasileiro passado. Isto não existe! Quem rouba busca esconder o malfeito. Os que querem ser iludidos, porque têm esperança de virem a fazer parte da elite ou são simples adoradores dela, acreditam, por exemplo, que o governo Fernando Henrique Cardoso é o paradigma da retidão.

No entanto, imaginem todas as privatizações sendo realizadas “no limite da irresponsabilidade”. Mas como o judiciário e a mídia divulgam seletivamente os erros do PT, nos últimos tempos, não é de se estranhar o ódio criado na sociedade ao partido. Contudo, o roubo fazia parte da política nacional, inclusive porque dele provinham os recursos pagos a congressistas que chantageavam o Executivo para a aprovação de projetos colocados por este poder. Quiçá, agora, o roubo seja reduzido e o Congresso moralizado.

Quando houver provas sobre roubos praticados, quem roubou deve sofrer as penalidades da lei. Mas a tese do “domínio do fato” afronta o princípio da presunção da inocência, porque é sempre usada quando não há provas irrefutáveis. Pela presunção da inocência, é preferível errar livrando um criminoso a penalizar um inocente. No entanto, na situação absurda de não prevalecer este princípio, que façam a tese prevalecer indiscriminadamente e se leve para a cadeia também o Fernando Henrique. Para ele, bastaria um julgamento, cuja tramitação deve ser menos demorada, o da compra de votos para a reeleição, pois para testemunhar existe um réu confesso, o ex-deputado Ronivon Santiago, e um delator da Lava-Jato, o ex-deputado Pedro Corrêa.

Cito alguns enigmas políticos não bem decifrados, para mim. Quais são as forças políticas internas e externas que querem o impeachment e com quais intuitos? Supondo que o governo Dilma seja extinto, qual será a missão do Temer, depois de abocanhar o poder? Por que razão forças, tanto de direita quanto de esquerda, estão querendo fazer eleição direta para presidente já?

Com relação ao primeiro enigma, as forças políticas são a oligarquia interna, exploradora da massa trabalhadora, e as corporações estrangeiras, que querem se apoderar dos lucros proporcionados pelo mercado brasileiro e dos nossos recursos naturais, em especial, o Pré-Sal. Em outras palavras, querem continuar retirando parcela do fruto do trabalho da sociedade e parcela dos recursos naturais do país. Ou seja, querem voltar a dominar a sociedade brasileira, dominação esta que não estava tão bem assentada nos governos petistas.

O objetivo do governo Temer é dar um choque neoliberal na nossa sociedade, com extinção ou redução de programas de alto impacto social, como o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida, o Fies, o Pronatec, o sistema de cotas e outros. O capital não dá trégua. Merece alertar que os péssimos ministros, aos olhos da esquerda, que Temer escolheu, são os ideais para impor o programa neoliberal e antissocial pretendido.

No entanto, a implantação deste programa está sendo caótica. Não escolher uma mulher e um negro no seu primeiro ministério foi um erro. Diminuir o status da Cultura, do Desenvolvimento Agrário e de outros órgãos, assim como juntar Ciência, Tecnologia e Inovação com Comunicações, chega a beirar a estupidez. Não haverá ministro que consiga se aprofundar em todos os temas deste novo Ministério.

O capital insistirá em impor as teses liberais na economia, enquanto existir a humanidade, pois os seres gananciosos sempre existirão. O antídoto contra estes seres prejudiciais ao conjunto da espécie é a conscientização política e não é por outra razão que o governo Temer já busca modificar o currículo estudantil, retirando as cadeiras de sociologia e filosofia e restringindo o ensino de história e biologia. Temer cutuca os movimentos sociais com a mesma vara curta que se cutuca temerariamente a onça.

Neste momento, parte da direita está querendo tirar Temer, após a defenestração da Dilma, exatamente pelos erros políticos citados, que possivelmente continuarão a acontecer. Os erros já ocorridos chegam ao ponto de Dilma ameaçar o resultado da próxima votação do impeachment no Senado, reconduzindo-a à presidência, apesar de todo apoio da mídia. Irão querer comprar o voto de eventuais senadores corruptos, se existirem, para garantir a perda de Dilma nesta próxima votação.

Assim, parte da direita quer eleição direta para os cargos de presidente e vice-presidente, mesmo que a última vacância se dê na segunda metade do mandato da chapa. Porque, se for na primeira metade, a própria Constituição já prevê que haja eleição direta para tais cargos. Notar que a Carta Magna prevê também eleição indireta pelo Congresso dos dois cargos, no caso da vacância do vice-presidente ocorrer na segunda metade do mandato. Esta opção não é aceita pela própria direita, que tem medo do nascimento de um novo Temer, produto fisiológico das bancadas majoritárias do Congresso: as da bala, do boi, da Bíblia, dos planos de saúde, da educação privada e outras. A sociedade também não quer eleição indireta, por lembrar a ditadura.

Para que a segunda vacância ocorra, em qualquer época, é necessário que Temer renuncie, o que não é garantido, haja vista o que este senhor fez por uma perspectiva esdrúxula de poder. A bem da verdade, existe também a possibilidade de o TSE julgar o processo de impugnação da chapa Dilma e Temer, hoje em tramitação, os afastando. Este pode ser um instrumento para retirada de Temer.

Entretanto, a direita não quer eleição direta com Lula presente por medo de perder. Para resolver a questão, o juiz Moro tem a incumbência de criminalizar Lula para tirar seus direitos políticos. Além disso, o PT precisa ser definido como organização criminosa para perder seu registro como partido e, assim, retirar a possibilidade de um Haddad, por exemplo, vir a substituir Lula como candidato à presidência. Chamam esta possibilidade de golpe dentro do golpe. Contudo, creio que estão esquecendo Roberto Requião em outro partido, pois o PMDB nunca dará legenda a ele, ou Ciro Gomes.

Minha grande estranheza é ver integrantes da esquerda também proporem eleições diretas já. Se existir algum senador, correligionário da presidente, com dúvida com relação à próxima votação no Senado, não por achar que ela cometeu crime de responsabilidade, mas por ter cometido erros na economia, eticamente não deve expressar seu desejo de eleição direta.

A presidente cometeu erros (sim!), sendo o último deles o de aceitar o projeto de lei 131 do José Serra, emendado por Romero Jucá, que permite a entrada das petrolíferas estrangeiras no Pré-Sal como operadoras. Contudo, votar a favor do retorno de Dilma é certamente a melhor opção. Não se pode comparar os erros dela com o desastre que seria o governo Aécio. Além do mais, teve grandes acertos também, principalmente nas áreas social e de relações internacionais.

Por último, lembro que não se deve interromper, nunca, regras estabelecidas pela Constituição em cima dos acontecimentos, por se tratar de casuísmo. Não se pode confundir a sociedade, que precisa cada vez votar melhor, e para aprender, através de tentativa e erro, precisa de constantes votações nas épocas constitucionalmente previstas.

domingo, 5 de junho de 2016

Tempo de "avanços" - Sacco e Vanzetti, de 1920, explica 2016


http://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2016/06/1778333-tempo-de-avancos.shtml



Folha.com, 05/06/16



Tempo de avanços

 
 
Por Janio de Freitas



Michel Temer só anda em marcha a ré, nos recuos diários, mas outros avançam por ele. Avançam nos direitos alheios, avançam contra princípios e leis, avançam nos truques, malandragens e golpinhos em benefício próprio ou do seu grupo.

As notícias de que a dúvida assedia senadores pró-impeachment alarmaram parte da imprensa, que voltou ao ataque a Dilma, e levaram à criação de novos golpinhos pelos governistas. Encurtar o prazo do processo no Senado, como pretendido por Michel Temer, é um casuísmo indecente. E indicativo de que o governo prevê estar incapaz, em setembro, de se aguentar.
 
Na mesma linha é a atitude do relator Antonio Anastasia, comandado de Aécio Neves (PSDB-MG), que rejeitou a inclusão, nos elementos de defesa, das gravações e delação de Sérgio Machado. Seriam "estranhas ao objeto deste processo", diz ele. Trata-se de processo de impeachment e as falas gravadas tratam, em grande parte, do impeachment. Há toda a pertinência em figurarem na acusação ou na defesa. A recusa de Antonio Anastasia é uma arbitrariedade, pessoal e processual, e restringe o direito de defesa. Em linguagem mais à altura anã da atitude, é um golpe baixo.

"Eu acho" é o verbo e o tempo verbal mais apreciados pelos brasileiros. Serve para muito mais do que expor opinião. "Eu acho que tem que ser assim" é definitivo, não opina. E assim aparece em muitas das frases de Romero Jucá (PMDB-RR) que propõem "um pacto" para "delimitar" a Lava Jato "até aqui", e sustar no ponto em que está "a sangria" do meio político.

No Senado articula-se, porém, a limitação de "achar" ao sentido de opinião, para derrubar o pedido de Conselho de Ética para Jucá. Ambos também do PMDB, o presidente do Conselho, João Alberto Souza (MA), e Renan Calheiros (AL) são os patronos da nova lexicologia. Por "achar" que Nestor Cerveró devia fugir, uma fuga que não resultaria em "delimitação" da Lava Jato, Delcídio do Amaral foi cassado pela unanimidade do Conselho de Ética.

A propósito de Romero Jucá, a Lava Jato, rápida na prisão de Delcídio, não se distingue muito do Senado. Mas tem novidades próprias, em uma de suas especialidades. Condicionar o acordo de delação premiada de Marcelo Odebrecht à disposição do seu pai de "também falar" é uma forma brutal de coerção. O envolvimento de familiares é um método muito ao gosto das ditaduras, e foi prática comum na ditadura militar. Não é necessário invocar a Alemanha nazista, portanto, para atestar a indignidade desse método.
 
Por sua recusa, até há pouco, a admitir a delação premiada, Marcelo Odebrecht é mantido preso há um ano. Pode-se compreender que a Lava Jato queira ouvir também o ex-presidente Emílio, responsável pelos maiores saltos de crescimento e capacitação do grupo empresarial, hoje operando em muitos países. Mas, para ouvi-lo, pôr em suas mãos a liberdade ou a prisão do próprio filho, é moralmente inadmissível.

A outra novidade não está no método, já conhecido. Está em sua persistência, já com mais de dois anos. O possível acordo de delação premiada do presidente da OAS foi suspenso porque Léo Pinheiro nega qualquer papel de Lula na reforma do apartamento e nas obras do sítio. Estas, pedidas por Paulo Okamotto, e aquela decidida pela empreiteira, sem que houvesse venda. Ou Léo Pinheiro diz o esperado pelos interrogadores ou não haverá delação premiada, porque a Lava Jato não crê no que está dito. Se, contudo, há descrença, é uma razão a mais para investigar –o que a Lava Jato pouco faz ou nem faz– e não para coerção.
 
Como complemento desse ambiente que começa no Congresso e termina na arbitrariedade ou na cadeia, o ministro da Transparência, Torquato Jardim, diz esperar dos funcionários que não apoiem o governo de Temer "a dignidade de pedir suas exonerações". O ministro talvez não saiba que os servidores públicos federais são da União, não dos governos. Alheios à versão Temer: ame-o ou deixe o emprego.
O cafezinho, 04/06/2016


Sacco e Vanzetti, de 1920, explica o golpe de 2016



Por Rogerio Dultra dos Santos, colunista do Cafezinho.



Estreou no Rio nova temporada da peça Sacco e Vanzetti, uma espécie de “O Processo” de Kafka. Só que o enredo, além de real, descreve a fascistização da sociedade norte-americana e a repressão aos trabalhadores e aos seus direitos nos anos que antecedem a Segunda Guerra Mundial. Assisti a peça ontem, e ela traz um claríssimo paralelo com o golpe que prospera hoje no Brasil.

Logo após uma greve geral histórica, que fez mais de 4 milhões de trabalhadores cruzarem os braços em 1919, dois imigrantes anarquistas vindos da Itália são acusados injuntamente de roubo e assassinato e sofrem um longo processo judicial, com ampla cobertura dos meios de comunicação.

Testemunhas de defesa não foram ouvidas, acusados estavam em lugares diversos na hora do crime e testemunhas de acusação foram induzidas a dizer o que não viram. Em 1925 um homem assumiu ser o verdadeiro autor dos assassinatos, em vão. O julgamento, dada a manipulação da mídia, transformou-se num circo.

O processo de Sacco e Vanzetti ficou famoso no mundo todo pelo tamanho da mobilização dos trabalhadores, que tomou conta de vários países, numa onda de protestos que sensibilizou a comunidade internacional.

Nesta semana, quando o Senado Federal resolve passar por cima de procedimentos para acelerar o impeachment de Dilma Rousseff, não por acaso o Ex-Ministro  José Eduardo Cardozo resolveu citar a ignominiosa condenação dos operários italianos, como um exemplo do descalabro jurídico em curso.

A ele foram dados dez minutos “o dobro do tempo dos senadores”, fez questão de afirmar o Presidente da Comissão, o Senador Raimundo Lira (PMDB-PB), para que respondesse em bloco uma peça com 86 (oitenta e seis) questionamentos acerca de provas, apresentado pelo relator Antonio Anastasia (PSDB-MG).

Recusando-se a participar do que claramente virou um arremedo de julgamento, o Ex-Ministro da Justiça e advogado da Presidenta afastada levantou-se e foi embora, seguido pelos Senadores que fazem oposição ao que já é mundialmente reconhecido como golpe de Estado.

Se sabe que a estratégia dos golpistas é acelerar ao máximo o processamento do impeachment, adiantar a votação no Senado e “estancar a sangria” não somente da “Operação lava-jato”, mas do desastroso governo ilegítimo e interino de Michel Temer.

Com a provável queda do seu desastrado AGU, e com a também possível não indicação da Secretária de Políticas para as Mulheres por envolvimento em “articulação criminosa”, Temer já pode pedir música no Fantástico. Em três semanas, serão três ou quatro ministros depostos, sumidades que velozmente entrarão no esquecimento público.

A situação do governo interino e golpista agrava-se com uma inesperada e consistente mobilização popular, em todo o país e em vários lugares do mundo, exigindo o respeito às regras da democracia e a saída do Presidente de fachada.

Dada a atual conjuntura, assistir à peça Sacco e Vanzetti  é quase um soco no estômago.

O cenário que envolve a platéia a coloca praticamente dentro dos acontecimentos. A iluminação lúgubre, o ambiente esfumaçado, o figurino de época – que reproduz as vestes do operariado dos anos 1920 – e, principalmente, a dinâmica regular de troca de móveis, vão trazendo aos poucos a sensação da fatalidade burocrática do arremedo de justiça que passa diante dos olhos.

O tom de tragédia anunciada, o caráter explicitamente político de algo que deveria ser jurídico e técnico, a pressão da imprensa, o “clamor” da “opinião pública” exigindo mais punição, tudo lembra o que estamos vivenciando hoje.

Sacco e Vanzetti foram eletrocutados sete anos depois de iniciado o processo. Em 23 de agosto de 1927. Desde então, sua história rendeu livros, documentários, filmes e um pedido formal e tardio de desculpas do Governador de Massachusets, em 1977.

Sacco e Vanzetti, fica claro, foram mortos não pelos crimes que não cometeram, mas pelas suas convicções libertárias, por serem imigrantes, “aliens”, como até hoje somos chamados nos EUA. O conflito capital/trabalho ficou escancarado. O anticomunismo e o medo da revolução popular impulsionaram a quebra das regras do jogo pelo judiciário. Serem ambos, Sacco e Vanzetti, declaradamente  “anarquistas” foi o que bastou para a sua condenação.

Como a sentença dos italianos eletrocutados, o script para o impeachment de Dilma Rousseff no Senado Federal também já está escrito. Texto manietadamente fluido, onde regras novas são a todo momento sacadas da cartola – como a redução do prazo de defesa de 15 para 5 dias – a fim de evitar que Senadores indecisos mudem de posição e votem a favor da Presidenta.

O setor nuclear do Poder Judiciário, o STF, tem apoiado os procedimentos golpistas e dele não se espera muito, como não se esperava do juiz do caso Sacco e Vanzetti, desejoso da indicação para as Cortes Superiores. O STF fecha os olhos para a Justiça e reproduz a sua covardia histórica como no caso de Olga Benário e na chancela do Golpe de 1964.

Hoje, a face mais venal e partidarizada do Judiciário brasileiro não é nem o Juiz de Curitiba - o que quer prender Lula de qualquer jeito -, mas Gilmar Mendes, o Ministro que almoça, janta e se encontra nos fins de semana com possíveis réus de seus processos.


* A peça, que reestreou ontem no Armazém da Utopia, baseia-se no texto do argentino Mauricio Kartum, tem a direção de Luiz Fernando Lobo e é encenada pela Companhia Ensaio Aberto.