terça-feira, 5 de julho de 2016

Documentário 'O Começo da Vida'


http://www1.folha.uol.com.br/colunas/redesocial/2016/07/1788407-um-garoto-assassinado-pela-policia-e-filho-de-todos-nos-diz-cineasta.shtml




Folha.com, 05/07/16




'Um garoto assassinado pela polícia é filho de todos nós', diz cineasta


 

Por Eliane Trindade





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Estela Renner é mãe de três filhos, mas chamou para si a responsabilidade de "maternar" toda as crianças da humanidade, usando para isso o seu ofício de cineasta. 
 

Como diretora do documentário "O Começo da Vida", em cartaz e também disponível na Netlfix e na plataforma Videocamp, a paulistana de 42 anos colocou no mundo este novo rebento artístico imbuída da missão de ressignificar a primeira infância, definidora de toda a nossa existência, de acordo com a neurociência.

Além de colocar "luz, câmera, ação" na fase da vida que vai do zero aos seis anos de idade, o filme é um convite para plateias ao redor do mundo refletirem sobre a tarefa de cada um no cuidado e no desenvolvimento de todas as crianças da nossa imensa aldeia planetária.

"Estamos cuidando bem dos primeiros anos de vida, que definem tanto o presente quanto o futuro da humanidade?", indaga Estela, sócia da Maria Farinha Filmes.

Com o foco na produção de obras cinematográficas que levantem debates capazes de transformar realidades, a documentarista vai além: "Não podemos pensar que é suficiente fazer um bom trabalho com os nossos filhos. Temos que fazer um bom trabalho com os filhos de todos".

Uma tarefa ainda mais desafiadora e espinhosa em um mundo de desigualdades e de violência.
Estela cita os casos dos dois garotos mortos pela polícia em São Paulo em junho: Ítalo, 10, alvejado por um policial militar após furtar um carro no Morumbi; e Waldik, 11, atingido por um guarda-civil metropolitano também durante uma perseguição. 

"Você está vendo essas crianças? Temos que nos responsabilizar também pelo filho do outro", defende a cineasta. "Não é produtivo sentir culpa."

Nos casos recentes de homicídio envolvendo crianças (pessoas de até 12 anos, segundo a lei), esse outro se materializou nas figuras das duas mães enlutadas, uma ex-presidiária (mãe de Ítalo) e uma ajudante de cozinha (mãe de Waldik).

"É muito fácil ser empático com a dor da criança, mas é difícil ter empatia com a dor da mãe. Tem muito julgamento", reconhece Estela. "Os pais dessas crianças são tratados como selvagens, quando muitas vezes não damos a eles condição nenhuma para serem cuidadores."

Como numa espiral sem fim, outras mães paulistanas choram diante de juízes pedindo que seus filhos adolescentes permaneçam na Fundação Casa, onde cumprem medida socioeducativa após terem cometido infrações.
 
É um apelo desesperado para evitar que morram ou matem ao voltar às ruas. Esse grito de impotência e de socorro dá a dimensão de um drama que não está circunscrito ao ambiente doméstico.

'O Começo da Vida' destaca a importância de a sociedade e o governo criarem as condições para que a parentalidade seja exercida. 

"Quando o filme diz que é preciso uma vila para cuidar de uma criança, precisamos de uma vila também para cuidar do adulto que vai cuidar daquela criança", entende a diretora.


LIÇÃO DE DESAMOR
 
Uma das cenas que mais marcaram Estela durante as filmagens do documentário foi a de uma mãe que cria 12 filhos numa favela declarar que só consegue dizer "Eu te amo" para algum deles quando está drogada. 

"Eu desaprendi a amar", conclui Simone, em relação à numerosa prole. Um desamor vivenciado ao presenciar o pai bater na mãe, o que a teria levado a buscar refúgio nas drogas a partir dos 11 anos.
Ao se tornar mãe, ela dá início a um novo ciclo de carências, agora na pele do adulto que não consegue cumprir o seu papel de cuidador.

Um dos 50 especialistas ouvidos no filme, Jack Shonkoff, diretor do Centro para a Criança em Desenvolvimento, da Universidade Harvard, defende a necessidade de se criar oportunidades para que pais e mães tenham qualidade de vida com os filhos. 

Segundo ele, o problema é que muitas vezes os políticos querem ajudar as crianças, mas não querem apoiar os adultos nessa empreitada vital para o futuro da humanidade.
Uma das mensagens mais poderosas do documentário está na boca de um ganhador do Prêmio Nobel de Economia. "Cuidar dos bebês é o melhor investimento que pode ser feito na humanidade", diz o economista James Heckman.

Ele cita estudo que realizou nos EUA segundo o qual cada dólar investido nos primeiros anos de vida resulta num retorno de sete a dez dólares para o Estado, levando-se em conta recursos gastos em centros de detenção e recuperação. "É um retorno maior que qualquer investimento em bolsa", prossegue o Nobel.


CAPITAL AFETIVO
 
E o principal capital a ser investido aqui é o afetivo, salienta a cineasta. "Ele está falando de amor. Eu pedi para ele usar essa palavra, pois queria traduzir para uma mãe que, ao interagir, brincar e estimular o seu bebê, ela está exercendo a maior revolução da neurociência e nem sabe."

Estela e sua trupe viajaram por nove países (Argentina, Brasil, Canadá, China, Estados Unidos, França, Índia, Itália e Quênia) para mostrar a universalidade dos sentimentos independente de diferenças culturais e socioeconômicas. 

O projeto, que já nasceu internacional, contou com o apoio das fundações Maria Cecília Souto Vidigal, Alana e Bernard van Leer e do Unicef. Após exibição do documentário em uma sessão especial da ONU, em junho, o filme atingiu um público de 100 milhões de pessoas. 

A poderosa mensagem de que a humanidade pode vivenciar um recomeço se começar a investir de verdade em cada uma de suas crianças vai se desdobrar em uma série em seis episódios, a ser exibida pelo canal pago GNT. 

As mais de 80 horas de filmagens ganham desdobramentos em temas como políticas públicas, torna-se pai e mãe, o bebê e suas capacidades, infância negada e educação. 

"Se tem uma coisa que também precisa mudar é o sistema educacional. A criança nasce com tantas virtudes e potência, e a gente enjaula ela. Você viaja pelo interior e quando vê um local cercado de grades é uma escola, que virou irmã gêmea de prisão", lamenta Estela.

Ao longo dos três anos de filmagens, a diretora e sua trupe foram derrubando muros e abrindo portas para se conectar com famílias de todos os tipos e cores, em favelas e mansões.

Uma conexão que, segundo Estela, deu-se ao brincarem no chão com os protagonistas mirins de 'O Começo da Vida'. "O chão tem muita presença no documentário. A gente está sempre deitado com a câmera, em todos os países pelos quais passaram. É muito pó, muito grão de areia."

E foi "debaixo do barro do chão", como canta Gilberto Gil, percorrendo quatro continentes, que a diretora construiu um mosaico para mostrar a força formadora e transformadora do amor materno e paterno.

Sentimentos, compromissos e conexões que podem ser exercidos por pais e mães, mas também por qualquer outra figura que chame para si o papel de cuidador de uma criança: uma babá, uma avó, um funcionário de creche ou abrigo, uma vizinha. 

"Nessas andanças, conheci todos os sentimentos", conclui a cineasta. "O que sobrou do filme é uma conexão profunda com todo o mundo. Somos todos um."

domingo, 3 de julho de 2016

O STF e o império da lei


http://www.maurosantayana.com/2016/07/o-stf-e-o-imperio-da-lei.html


Blog do Santayana, 03/07/16



O STF e o império da lei



Por Mauro Santayana





Na última semana, juízes e procuradores de São Paulo, declararam-se “perplexos”, e manifestaram-se contra a decisão da Suprema Corte, por meio do Ministro Dias Toffoli, de mandar soltar Paulo Bernardo, detido em Brasília, diante de seus filhos, em um apartamento pertencente ao Senado Federal, em espetaculosa ação da Polícia Federal que contou com a participação de numerosos homens e até mesmo de um helicóptero, como se o ex-ministro fosse um perigoso traficante de drogas, uma espécie de Pablo Escobar, entrincheirado em uma inexpugnável fortaleza no deserto, na fronteira sul dos EUA.
   
Têm os nobres procuradores todo o direito de ficarem perplexos com a decisão do Ministro Toffoli.

Como têm os cidadãos brasileiros - pelo menos aqueles que não fazem parte da manada psicótica manipulada por parte da mídia desde 2013 - o direito de, por sua vez, ficarem perplexos com a “perplexidade” dos procuradores, diante da clareza cristalina do que afirma a lei nesta República, a propósito das garantias aos direitos individuais, da presunção de inocência e do mais amplo direito de defesa que devem proteger o cidadão frente ao sistema e ao Estado, sempre que seu poder for distorcido ou exacerbado.

Nunca é demais lembrar, reza a Constituição Federal, no Artigo 5:

LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes;

LVII- ninguém será culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”;


E o Código Penal:

“Art. 283.  Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de sentença condenatória transitada em julgado ou, no curso da investigação ou do processo, em virtude de prisão temporária ou prisão preventiva.

“Art. 312.  A prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal, ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria.


Nos últimos tempos, têm se estirado e retorcido, como se fossem de látex, os princípios da lesividade; da materialidade; da culpabilidade; da velha e justa premissa  “in dubio pro reo”; da jurisdicionalidade; do princípio acusatório; do princípio do encargo da prova - é à acusação que cabe provar a responsabilidade criminal do suspeito; e o do contraditório.

A prisão do ex-ministro Paulo Bernardo, da forma como foi executada, é mais um indício, sutil como um elefante, de o país em que estamos nos transformando, e dos riscos que corre, no Brasil de hoje, a Democracia.

É da natureza humana a extraordinária sede de poder daqueles que têm algum poder.

E é por isso que a distorção e a desobediência ao espírito da Lei precisam ser combatidas, principalmente quando cometidas por agentes do Estado, porque depois, com o passar do tempo, elas se tornam mais intensas e  profundas e não podem mais ser controladas.

Uma coisa é o combate real à corrupção.

Outra, o discurso por trás dele, que, na maioria das vezes, ao contrário do que pensa a maioria, não é usado apenas  pelos mocinhos, mas principalmente pelos bandidos.


Pinochet, Suharto, Salazar, entre muitíssimos outros, e, principalmente, Mussolini e Hitler, dele fizeram sua bandeira e seu diabólico e demagógico ariete contra a Democracia, usando-o para abrir caminho para o poder, e para  implantar em seus países e mais tarde em toda a Europa ocupada um regime de terror assassino e demente, responsável pela prisão, a  tortura e o genocídio de dezenas de milhões de pessoas.

Nem serve, como muitos o vêm também, de panaceia para nada.

A Itália, terra da Operação Mãos Limpas, continua tão ou mais corrupta - ou corruptível - como antes, como se pode ver pelos mais recentes escândalos envolvendo a Velha Bota, e mesmo na China comunista - onde é punida quase que  sumariamente  com a morte - a corrupção continua existindo, porque o que muda uma Nação não são operações  jurídico-policiais, em si, mas alterações e aperfeiçoamentos reais no sistema político.     

O Inferno - como o próprio demônio vive repetindo, satisfeito  - está cheio de boas intenções.

O discurso de combate à corrupção não pode, como está ocorrendo no Brasil, se sobrepor ao desenvolvimento nacional,  aos Três Poderes e às  instituições.

Ele não pode estar acima da Democracia, que é, por natureza, tão diversa quanto problemática - já que reflete, como ocorre em qualquer país do mundo, os problemas e defeitos de toda a sociedade - mas que representa ainda o melhor regime encontrado nos últimos 2.500 anos para regular a vida das nações, dos estados, das comunidades e dirimir as diferenças dos variados grupos sociais.

Nem pode se arvorar em juiz do regime político vigente, ou do sistema de presidencialismo de coalizão, já que esse tipo de prerrogativa é atributo exclusivo do Legislativo - eleito pelo voto soberano de dezenas de milhões de brasileiros - e não de juízes de primeira instância, nem de policiais federais, nem de procuradores, que não tem função de mando nem de comando, e são - com todo o respeito que mereçam pelo seu trabalho - meros servidores do Estado.

Se tem gente, nessas instituições, que acha que ao passar em concurso, foi escolhido pelo destino para “consertar” o país - os nazistas pensavam o mesmo sobre a República de Weimar - eles devem afastar-se de suas respectivas carreiras e disputar, no voto, uma cadeira na Câmara ou no Senado, ou em uma Assembleia Nacional Constituinte.

E parar de acreditar que vão fazer isso  prendendo a torto e a direito, sem nenhum respeito pela Lei e a Constituição, políticos e empresários, com base em ilações forçadas e em delações “premiadas” dignas da Alemanha Nazista ou da União Soviética de Stalin.

Principalmente, quando eles mesmos não são perfeitos - é preciso lembrar que não existe corporação nenhuma que o seja, em nenhum lugar do mundo - como demonstram:



 a) - A prisão de dois adolescentes, separadamente, em duas cidades do interior de São Paulo, por terem “ousado” - apoiando-se no direito de expressão, um dos princípios basilares da Constituição Federal - criticar a polícia em comentários nas redes sociais.



b) - Os mais de 70 juízes "condenados" a bem do serviço público, a continuar recebendo integralmente altíssimos proventos depois de "aposentados",



c) - As dezenas de processos movidos por juízes e procuradores do Ministério Público, contra o jornal Gazeta do Povo, do Estado do Paraná - estado onde fica a "República de Curitiba" - por este ter denunciado, publicando documentos comprobatórios, que os proventos das duas classes passaram de 550.000 reais per capita no ano passado, muito acima, portanto, do teto legal correspondente ao salário de Presidente da República.

Processos criticados pela ministra Carmem Lúcia e suspensos por decisão da Ministra Rosa Weber, há poucos dias, em outra medida  extremamente louvável do STF, voltada para o restabelecimento de um mínimo de bom-senso e de respeito à legalidade no universo jurídico nacional.

Está se produzindo no Brasil uma espécie de macarthismo tupiniquim que - ao contrário também do que pensam muitos - será, como ocorreu nos EUA, duramente condenado pela História.

Cabe ao Supremo Tribunal Federal decidir se seus membros agirão com coragem e dignidade, como guardiões da Lei e da Constituição, nesta desafiadora fase da vida nacional, ou se, por pressão de parte da mídia e da massa  ignorante e intolerante que ela manipula, acabarão cedendo e aceitando tornar-se silenciosos cúmplices de uma tragédia anunciada, que não se encerrará agora, e que, pelo contrário, poderá se aprofundar com a entrega do país ao fascismo nas eleições presidenciais de 2018.    

Estamos agindo como se o pseudo combate à corrupção - no caso, uma doutrina jurídica que solta corruptos ou os “condena” a passar um ou dois anos em nababescas mansões - e pune homens públicos sem sinais de enriquecimento ilícito ou contas na Suíça a pesadas penas de prisão por atos de natureza político-partidária-eleitoral, não trouxesse, para o país, pesados danos colaterais, ou fosse, de per si,  o mais alto objetivo nacional neste momento, justificando, direta, indireta, kafkianamente, todo tipo de ilegalidade e despautério.

Algumas das maiores empresas do Brasil, de todos os matizes e áreas de atuação, são invadidas por membros das forças de segurança praticamente a cada novo dia, prejudicando seu crédito, seu valor, seus acionistas, os seus trabalhadores e suas famílias - demitidos às dezenas de  milhares - seus mercados, sua credibilidade externa, seus projetos - que são interrompidos - e centenas de pequenos e médios fornecedores que as atendem, que também passam a quebrar e  a cortar funcionários em nefasta reação em cadeia.  

Gigantescos projetos, de refinarias, plataformas de petróleo, complexos petroquímicos, irrigação e saneamento, navios, ferrovias, rodovias, energia, defesa - que não eram executados nessa dimensão e amplitude há décadas - são embargados judicialmente ou atrasados indefinidamente, seguindo o curioso raciocínio de que, para tentar achar, em uma obra, 2 ou 3% de suposta propina - o dinheiro arrecadado até agora em recuperação de desvios é pífio, por isso se recorre a “multas” para justificar o seguimento dos processos - não interessa se os outros 97% forem transformados em sucata, provocando bilhões e bilhões de dólares em prejuízo, ou se no final serão lançados, na prática, técnica, empresarial, e estrategicamente, no  lixo.

O programa do submarino atômico brasileiro está sendo investigado, o almirante responsável pelo bem sucedido programa nacional de enriquecimento de urânio foi preso, o controlador da empresa responsável pela construção do míssil A-Darter da Aeronautica encontra-se detido.

Essa situação está abrindo caminho para a entrega da indústria bélica brasileira a controladores estrangeiros, depois de anos de esforço da iniciativa privada e das Forças Armadas, para evitar que isso ocorresse.

É preciso não esquecer, nunca, que a criminalização da política - com a desculpa de se dar combate à corrupção e o recurso a um anticomunismo hidrofóbico, anacrônico, psicótico e obtuso -  é a pedra fundamental dos governos totalitários.



No Brasil, essa combinação nefasta levou ao fim da Democracia; a várias tentativas de derrubar Juscelino Kubitschek, de inviabilizar Brasília, os programas de industrialização e modernização do país, de energia e transporte; e ao suicídio, com um tiro no peito, do Presidente Getúlio Vargas.


Carlos Lacerda, apelidado de "O Corvo", símbolo e quintessência do golpismo hipócrita, canalha, entreguista e mau caráter, dizia de JK, em uma frase digna de um manual da CIA à época da Guerra Fria, que tornou-se uma espécie de roteiro estratégico dos golpistas latino-americanos: "esse homem não pode ser candidato. Se for candidato, não pode ser eleito para a Presidência da República. Se for eleito, não podemos permitir que governe, e se governar, ele tem que ser derrubado". 


Os “políticos”, como chamados, genericamente, pela massa conservadora  que os despreza e odeia - com todos os seus defeitos, que espelham a formação, limitações e idiossincrasias de seus eleitores - estão longe de ser perfeitos.

E isso não ocorre apenas aqui, mas em todas as nações democráticas do mundo.

Mas é a eles que pertencem os votos.

Votos que, não interessa a quem sejam dirigidos, se escudam no sagrado artigo primeiro da Constuição Federal, que reza  que “todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido”.

É esse poder que deve ser respeitado e obedecido, acima de todos os outros
, que dele derivam, como base e introito da Constituição, da República, da Lei, da  Democracia e da Liberdade.

Há quem tenha se habituado, nos últimos tempos, a tratar o voto como se este fosse um aspecto secundário da vida política nacional, que pode ser questionado, desrespeitado, relevado ou contornado, com base em ações de um ou outro segmento do Estado ou  da opinião pública.

A atual caça às bruxas deriva da íntima convicção que têm setores do Ministério Público, da Polícia Federal e da Magistratura - não todos, graças a Deus - de que foram indiretamente escolhidos por Ele, por meio de concurso, para consertar o país, punir e exemplar a “classe” política, e corrigir distorções eventualmente criadas pelo voto “equivocado” - que na verdade é direto e soberano - de milhões de cidadãos brasileiros.

Trata-se de temerário e perigoso engano.

O papel da Polícia, do Judiciário, do Ministério Público, é fazer cumprir a lei, e, para isso, é preciso obedecê-la, primeiro,  de forma plena, rigorosa e  respeitosa.

E o papel de julgar, moralmente, seus representantes, é do povo brasileiro - por meio da urna -  e não de instituições que estão ali para ser igualmente julgadas pelo povo e para servir à população que paga, com seus impostos, seus salários.

Nesse aspecto manda mais o eleitor do que o Juiz, o Policial, o Procurador.

Já que é preciso entender e reconhecer o fato, cristalino, de que trabalhar para o cumprimento da Lei não coloca ninguém acima da própria.

E que é necessário compreender que o exemplo tem que partir dos servidores do Estado, que a ela devem a mais estrita obediência e observância dos grandes princípios que a norteiam.
  
No Brasil de hoje, parece que nos esquecemos de tudo isso.

Como nos piores regimes autoritários, instalou-se, na parte mais intolerante e ignorante da população e em certos setores do Estado, um clima de desatado linchamento que justifica e promove a prisão de brasileiros sem nenhuma prova, na maioria das vezes apenas com base em delações e ilações, e joga-se a chave da cela fora até que o cidadão, abandonado praticamente à própria sorte, invente uma história qualquer para delatar o próximo da fila, igualmente sem provas, para reaver alguma perspectiva de liberdade.


Nessa situação  absurda e surreal, que só chegou onde chegou porque não foi corrigida, controlada, desde o início, e deixou-se correr solto o processo de formação de um consenso jurídica e constitucionalmente insustentável, por meio do estabelecimento de um comportamento de boiada em alguns segmentos da opinião pública, que, entre outras coisas,  insultam, ameaçam, impune e permanentemente, todos os dias, juízes do STF e a própria instituição, nos portais e redes sociais.

Pretende-se impor, na base da  pressão intensa e diuturna dessa parte da população - da  qual fazem parte grupos nada “espontâneos” - a vontade de juízes de primeira instância, procuradores e policiais, não apenas ao Supremo Tribunal Federal, mas também ao Congresso Nacional e ao Executivo, como se o poder de que dispõem para fazer o que estão fazendo fluísse de fonte própria, e não do próprio Legislativo, que tem a prerrogativa, garantida por milhões de votos, de organizar-se a qualquer momento - nesse caso, com imprescindível urgência - para votar e alterar leis que tolham eventuais excessos e arbitrariedades, permitindo a correção da perigosa rota que estão tomando os rumos nacionais.

Os juízes têm que parar de decidir por pressão da mídia e dos internautas que habitam o espaço de comentários dos portais e redes sociais - internautas que acham que podem obrigar o país a fazer o que lhes dê na telha - e de promover o espetáculo e a evidência para, ao buscar a aceitação e a admiração dessa minoria - porque de minoria se trata, não haja dúvida, como vemos nas últimas pesquisas - alimentar o seu ego e sua vaidade, e, em última instância, suas eventuais pretensões políticas ou eleitorais.     

Se os juízes e procuradores quiserem alterar o texto da lei, ou fazer política, devem recolher-se a seu papel constitucional, e preparar-se, com todos os ônus dessa decisão, para  candidatar-se, no momento certo, como representantes.
    
Até lá, só lhes resta aceitar e acatar as decisões do Supremo Tribunal Federal e do próprio Congresso Nacional, que possui - com todos seus eventuais defeitos -  poder para legislar do modo que bem lhe aprouver.

E ao Supremo Tribunal Federal, continuar trabalhando, paulatinamente - mas com firmeza cada vez maior - frente à Nação e à História, no fortalecimento de suas prerrogativas e autoridade, que estão sendo desafiadas constantemente por ameaças e pressões de todo tipo.

Restaurando plenamente o Império da Lei e do Estado de Direito, para fazer cumprir, de forma clara, transparente, incontestável, o que está escrito na Constituição da República.

Trigêmeas estonianas na maratona da Rio 2016


03 de julho de 2016



Trigêmeas estonianas na maratona da Rio 2016



JERÉ LONGMAN
DO "NEW YORK TIMES*, EM TARTU, ESTÔNIA



Enquanto Lea Luik esperava dentro de um táxi da era soviética, seu marido, Henno, carregava as recém-nascidas da enfermaria para o carro. Uma, depois duas, depois três.

Da maneira pela qual a história veio a ser contada, a graça está sempre na reação do taxista: "Vocês vão esvaziar o hospital?"

As irmãs Leila, Liina e Lily nasceram prematuras, um mês antes da data prevista. Nenhuma delas pesava mais de dois quilos. Por diversas semanas, sua casa foi como que uma unidade de terapia intensiva. Passados 30 anos, as irmãs são maratonistas pela minúscula Estônia, e ao que se sabe são as primeiras trigêmeas qualificadas para disputar a Olimpíada, de inverno ou verão.

O COI (Comitê Olímpico Internacional) informou que não tem registros específicos sobre atletas irmãos, mas que "diversas fontes confiáveis reportam que esta será a primeira vez que trigêmeos competirão nos Jogos Olímpicos".

Há 99,9%" de certeza de que nenhum trio de gêmeos participou de Olimpíada, quer no mesmo ano, quer em anos distintos. É um acontecimento raro o suficiente para que tivesse sido mencionado. Coisas assim não acontecem sem que ouçamos.

A Estônia, que garantiu sua independência em 1991, deixando a antiga União Soviética, tem pouca tradição nas provas femininas de corrida de longa distância e tem apenas 1,3 milhão de habitantes, o que o torna um dos menores da União Europeia. (Os estonianos brincam: "A Estônia está com um problema de imigração: três famílias se mudaram para o país. 'Ei, isso não é muito'. Mas o número real é sete".)

As irmãs Luik só começaram a correr a sério seis anos atrás, quando tinham 24.

Cada país é autorizado um máximo de três atletas na maratona olímpica. As irmãs Luik se qualificaram sob o padrão B de tempo para a maratona, de duas horas e 45 minutos. O melhor tempo pessoal de Leila é duas horas, 37 minutos e 11 segundos. Liina tem como melhor tempo 2h39min42seg, e Lily 2h40min30seg. Por coincidência, ou não, seus tempos de qualificação seguem a mesma ordem de seu nascimento.

Treinar trigêmeas, descobriu Lemberg, tem suas vantagens e desvantagens. Maratonas são uma empreitada solitária, capaz de gerar sentimentos de abandono e isolamento. Mas as irmãs Luik na prática formam uma equipe, que oferece apoio e encorajamento permanente e a oportunidade de forçar limites em competição com rivais conhecidas e nada hostis.

"As três juntas se dão muita energias umas às outras", disse Leila Luik. "Nenhuma de nós quer ser a mais lenta. Nós forçamos, forçamos, forçamos".

No passado tímidas e relutantes em atrair atenção, as irmãs agora são divertidas e entusiásticas. Completam as sentenças umas das outras e zombam de seus cabelos loiros tingidos. "Na verdade, são marrons como batatas".

Pouca gente consegue distingui-las com facilidade, mas como corredoras as trigêmeas não têm exatamente a mesma velocidade ou capacidade de oxigenação. Não se recuperam exatamente da mesma maneira de seu treinamento desgastante. Há variedade em sua forte semelhança.

Sabendo disso, Lemberg agora desenvolve exercícios separados para cada irmã.

Quando meninas, sofriam ansiedade se eram separadas na escola. Mas agora vivem sozinhas. Farão 31 anos em outubro, e se manterão sempre muito próximas, mas também são adultas vivendo vidas separadas.

ESTRATÉGIA PARA A PROVA OLÍMPICA

No Rio, as irmãs terão a tentação de marcar o ritmo umas para as outras, ou de aproveitar o vácuo uma das outras se no dia da prova houver muito vento, a fim de experimentar juntas o ponto alto de suas carreiras: trigêmeas idênticas com resultados idênticos. Mas é impossível prever como uma maratona vai se desenrolar. Para obter seus melhores resultados, elas sabem que devem correr separadas, e não juntas.

DE DANÇARINAS A MARATONISTAS

As trigêmeas se tornaram dançarinas profissionais de hip-hop e de dança contemporânea depois de terminarem o segundo grau, foram professoras de dança e apareceram em um vídeo de música. Também trabalharam como salva-vidas, o que requeria correr como parte do treinamento. Uma colega sugeriu que elas tentassem correr competitivamente. Em 2010, procuraram Lemberg, que é presidente do Clube Acadêmico de Esportes da Universidade de Tartu, para que as treinasse. 

Em 2011, Liina e Leila Luik dividiram os títulos nacionais nos 10 mil metros, meia maratona e maratona. A dança parece tê-las ajudado como corredoras, disse Lemberg, por ter reforçado seus tornozelos, ajudado a criar uma postura mais firme e contribuído para suas passadas silenciosas e econômicas. 

"Eu achava que elas só queriam correr nos finais de semana", disse o treinador. "Mas depois de um ano compreendi que  desejavam algo de mais sério".

No masculino, atletas estonianos conquistaram duas medalhas de ouro olímpicas no atletismo desde a queda do bloco soviético. Ekki Nool venceu o decatlo na Olimpíada de Sydney, em 2000, e Gerd Kanter venceu no arremesso de disco em Pequim, em 2008. Mas as corredoras de longa distância estonianas não conquistaram grande sucesso internacional.

O recorde nacional feminino na maratona, 2h27min4seg, foi conquistado quase duas décadas atrás, em 1997, por Jane Salumae, que venceu maratonas em grandes cidades como Roma, Los Angeles e Viena e terminou em quarto lugar na maratona do campeonato europeu de atletismo em 2002. Mas em suas duas participações olímpicas, a melhor posição que conseguiu foi um 44º lugar.

Talvez, disseram as irmãs Luik, a visibilidade que obtiveram estimule mais mulheres estonianas a participar de corridas de longa distância. Uma prova de sete quilômetros para mulheres em Tallinn atraiu mais de 10 mil participantes, em maio. "Mostramos que nunca é tarde demais para iniciar uma carreira profissional", disse Liina Luik.

Depois do Rio, as três irmãs considerarão se devem continuar e tentar a olimpíada de 2020 em Tóquio. E disseram também que podem tentar bater o recorde mundial de 2h15min25seg detido por Paula Radcliffe, da Inglaterra. Mas é claro que estavam brincando. Talvez, disseram, cada uma delas pudesse correr um terço de uma maratona, em um revezamento camuflado, com as substituições acontecendo na pista sem que os demais atletas percebessem. Leila Luik riu.

"Podemos nos esconder nos arbustos".



Tradução de CLARA ALLAIN

sexta-feira, 1 de julho de 2016

“Bando de corja”


http://www.cartacapital.com.br/revista/908/201cbando-de-corja201d




CartaCapital, 01/07/16


Editorial

“Bando de corja”



Por Mino carta




A volta ao País é cada vez mais dolorosa após viajar ao exterior, no meu caso duas semanas de férias na Itália, como sempre em busca das raízes. A Península, eixo da civilização mediterrânea, como dizia Braudel, vive a crise mundial precipitada pelo neo­liberalismo, mas conserva intacta e respeitada a sua impecável Constituição faz quase 70 anos. Deste gênero de situação, o Brasil está longe, muito mais, infinitamente mais, dos 10 mil quilômetros que o separam da Itália.

Haverá quem diga, como ouvi inúmeras vezes: pois retorne já à sua terra. Agora é tarde, ed è subito sera, como versejou Salvatore Quasimodo. E logo anoitece. Para mim e para o País, a noite mais funda, de uma escuridão de 500 anos. Percebo-me na aturdida plateia da tragédia do ridículo, imponente e desvairada, mesmo Shakespeare não seria capaz de contá-la. 

Inédita a seu modo, no paroxismo do paradoxo, alimentada pela prepotência e pela insensatez, pela arrogância e pela ignorância, pela incompetência e pela velhacaria. Ao cabo, para confirmar de forma jamais tão solar, a incompatibilidade crônica entre Brasil e democracia. 

O lance que perdi por estar ausente e agora vivo no regresso relata que Dilma Rousseff foi isentada de todas as acusa­ções apresentadas para justificar o impeach­ment. E há a mais tênue esperança de que o poder lhe seja devolvido?

Para fazer a vontade da casa-grande, atira-se a Constituição ao lixo e afirma-se a primazia das pesquisas em relação ao voto, graças ao conluio entre Justiça, polícia, Congresso, empresariado, com o febril endosso da mídia nativa. E com um adendo esclarecedor: pesquisa de opinião, sim, desde que não envolva o atual presidente interino, quem sabe até mais repudiado que a presidenta afastada.

Hoje me inclino às citações, e evocarei então uma definição do pai de meu caro amigo Políbio Alves Vieira, camponês na região de Vitória da Conquista. Dizia ele para identificar a quadrilha mais nefanda, o pior dos piores: bando de corja. 

Pois é do conhecimento até do mundo mineral que Dilma Rousseff está a ser julgada por um bando de corja, uma turma da pesadíssima que se atribui o direito de decidir o destino do Brasil.

O Direito, o assunto vem a calhar. Que vale observar a respeito de quem haveria de aplicar a lei e defender a Constituição? A impávida aquiescência da Suprema Corte diante de tais e tantas ofensas praticadas contra o bom exercício do Direito, inclusive por Sergio Moro e cia. Em país nenhum que se suponha civilizado e democrático algo similar acontece, mesmo palidamente aparentado.

O Brasil é único na sua desgraça e no seu descalabro, como se não bastassem os dados da calamidade endêmica: mais de 60 mil homicídios por ano, pouco menos de 50% do território desservido de saneamento básico, 92% da população incapacitada ao uso correto do vernáculo.

Tudo aquilo que os senhores da casa-grande conseguiram foi criar um país exportador de commodities. Nossos supostos capitalistas jamais se habilitaram a entender que o bem-estar do povo é o fato determinante do seu próprio êxito como empresários. É exatamente aquilo que um ex-metalúrgico entendeu ao promover o consumo, encarado como saída para a terra humilhada por quem manda.

Não são novas tais considerações diante do espetáculo desolador oferecido aos nossos olhos, a se acrescentar o esforço despendido pelo governo interino no sentido de aumentar o sofrimento de um povo espezinhado desde sempre. 

Aposta-se na sua resignação, como se a prepotência do senhor correspondesse à determinação dos fados. Neste meu retorno, cresce a minha convicção de que o golpe de 2016 é mais terrificante do que o de 1964, aquele desfechado contra a marcha da subversão até hoje retida na ameaça dos mentirosos e dos hipócritas. 

A ditadura teve o peculiar condão de me conduzir à melhor compreensão da serventia do jornalismo e de me estimular à esperança.

Vivo agora a desesperança mais pungente. Os ralos resultados até agora atingidos para colocar o País na rota certa foram inúteis. Em 64 a casa-grande não mostrou a cara e chamou os gendarmes para executar o serviço sujo. Acaba de tirar a máscara e faz, simplesmente, o que bem entende, conforme o figurino do barão medieval.

O Estado-nação como patologia


http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2016/07/1787343-o-estado-nacao-como-patologia.shtml



Folha.com, 01/07/16



O Estado-nação como patologia

 
Por Vladimir Safatle



Muito já foi dito a respeito da decisão inglesa de sair da União Europeia. Ela é certamente um dos fatos mais importantes deste curto século por aquilo que explicita.

A União Europeia nasceu com a promessa de ser o início de uma era pós-nacional, na qual os Estados-nação se submeteriam paulatinamente a uma engenharia institucional capaz de garantir a existência de sujeitos políticos pós-nacionais.

Aos poucos, atribuições dos parlamentos nacionais passaram ao Parlamento Europeu, a criação de uma moeda única levou a um banco central transnacional, as universidades criaram sistemas de intercâmbio contínuo tendo em vista a formação de cidadãos europeus.

Nesse sentido, não se tratava apenas de um espaço de livre comércio, mas da tentativa de criação de um espaço político que deixaria para trás as estruturas dos Estados nacionais. Diferente da Organização das Nações Unidas, que sempre foi algo mais próximo a um fórum de debates, a União Europeia representou, pela primeira vez, um processo efetivo de transferência de poder.

No entanto, mais de 20 anos depois de sua instauração, a ira de parcelas expressivas de populações do velho continente contra a União Europeia é visível. A decisão inglesa, por mais suicida que seja do ponto de vista econômico e político (com a saída iminente da Escócia do Reino Unido), é apenas a ponta do iceberg. A razão de tal ira talvez esteja involuntariamente bem expressa na representação visual de sua maior invenção, a saber, o euro. Há uma certa ironia em perceber como as notas de euro não representam seres vivos (personagens históricos, animais, flora), mas objetos mortos, como pontes, viadutos e outras construções de infraestrutura. A ideia era louvar a circulação. Para ser mais preciso, a circulação de riquezas, de produção, de capital. Mas, de forma sintomática, nestas representações não há pessoas.

De fato, durante todos estes anos a União Europeia foi uma engenharia institucional que só esteve de acordo em dois pontos: organizar políticas massivas de salvamento do sistema financeiro combalido desde a crise de 2008 e estabelecer políticas comuns de limitação de circulação de imigrantes. Os projetos iniciais de criação de uma Europa social, com estruturas transnacionais de garantias trabalhistas e defesa social, naufragaram rapidamente. No caso da Grécia, por exemplo, a União Europeia demonstrou toda sua irracionalidade ao impor medidas de austeridade durante anos com resultados catastróficos, decididas por tecnocratas sem rosto e sem disposição alguma para corrigir seus equívocos. 

No entanto, o voto britânico foi um dos mais impressionantes passos na direção errada da história recente. Ele foi animado por dois fatores: a crença de que o fortalecimento do Estado-nação serviria de contrapeso a estas políticas que levaram à pauperização do continente e o medo diariamente alimentado pelo próprio governo e por setores da imprensa local contra o além-mar (imigrantes, refugiados e estrangeiros).
O primeiro fator é apenas a tentativa de ressuscitar um arcaísmo. O Estado-nação não existe mais e melhor seria que ele fosse desmantelado de vez. Ele é apenas um zumbi que se alimenta de algumas das piores patologias sociais de nossa época, como a paranoia identitária, a ilusão das fronteiras, a paixão pelo isolamento. 

O Estado-nação não decide mais nada, mesmo quando ainda tem o controle de sua moeda, como no caso inglês. Apenas implementa políticas decididas por um sistema econômico global. Por isso, ele será usado todas as vezes que for o caso de desviar o eixo do descontentamento não para cima, ou seja, em direção àqueles que realmente decidem, mas para o lado, a saber, em direção àqueles que servirão de bode expiatório da vez, sejam poloneses, ciganos, negros ou árabes. 

Nos últimos dias, os ingleses descobriram uma obviedade: sair da Comunidade Europeia é impossível, daí esta situação digna de Monty Python de um país tentando adiar a implementação de uma decisão que ele mesmo tomou. As economias nacionais não existem mais. 

Por essa razão, a luta pela defesa contra a espoliação econômica não passa pelos Estados nacionais, mas pela politização das decisões econômicas impostas por organismos transnacionais, como a União Europeia, o FMI e o Banco Mundial. Mas faz parte de uma certa gestão da política atual desviar continuamente os eixos reais dos problemas para espaços imaginários.