segunda-feira, 30 de março de 2015

A fraudulenta superioridade dos economistas

Apesar de ser Bacharel em Economia, concordo integralmente com este artigo.

Nos tempos atuais, mal consigo contar nos dedos de uma só mão economistas dignos de credibilidade.
 
 
 
 





Jornal do Brasil, 30/03/2015




A fraudulenta superioridade dos economistas



Jornal do Brasil



 
O jornal espanhol El País  publicou neste domingo (29/03) um artigo do escritor e colunista venezuelano Moisés Naím. Ele desconstrói a imagem dos economistas, que seriam superestimados no mundo atual, e relembra um texto seu publicado há dez anos, em que já tratava do tema.  

"'A arrogância dos economistas foi rigorosamente confirmada por uma pesquisa publicada em uma de suas revistas especializadas. O Journal of Economic Perspectives  revela que 77% dos alunos de doutorado em economia das mais prestigiosas universidades dos Estados Unidos pensa que 'a economia é a ciência social mais científica'. Entretanto, tão somente 9% dos entrevistados afirmam que há consenso a respeito de como responder perguntas básicas da ciência econômica'.

Naquele texto também dei exemplos da surpreendente brecha que havia entre o pouco que sabiam e o muito superiores que se sentiam os economistas em relação a outros cientistas sociais, como cientistas políticos ou sociólogos", relembra Naím. Ele prossegue: "E em vista de sua vasta ignorância sobre temas básicos da ciência econômica, sugeri que ‘seria conveniente que os economistas trocassem a arrogância intelectual por uma atitude mais humilde e ver o que podem aprender com os outros". Isso não aconteceu. E não por que a ciência econômica tenha preenchido os vazios de conhecimento que a infestavam uma década atrás".

"A mesma revista em cujos dados baseei minha coluna há dez anos acaba de publicar um artigo intitulado (ironicamente) 'A superioridade dos economistas'. Nele se demonstra que uma década depois, e apesar da catastrófica crise mundial que não foram capazes de prever e cujas razões e soluções ainda debatem ferozmente, os economistas continuam acreditando que sua ciência é superior a todas as demais. Embora existam incipientes tentativas de recorrer a outras disciplinas para enriquecer suas teorias, a realidade é que os economistas estudam — e citam — predominantemente seus colegas", aponta Naím.

Os autores do artigo, Marion Fourcade, Etienne Ollion e Yann Algan, examinaram as 25 publicações científicas mais respeitadas em Economia, Ciência Política e Sociologia. Constataram que, entre 2000 e 2009, em todos os artigos publicados na The American Economic Review (AER), a mais importante, 40% das referências são a artigos publicados nas outras 24 principais revistas de economia. Tão somente 0,3% dos artigos citados provêm das revistas de sociologia e 0,8% das principais revistas de ciência política. Ou seja, em todos os textos publicados nas 50 revistas mais importantes de outras disciplinas durante toda uma década os economistas só encontraram cerca de 1% de artigos dignos de serem citados.

E há mais. À pergunta 'Você está de acordo ou em desacordo com a afirmação de que o conhecimento interdisciplinar é melhor que o conhecimento obtido por uma só disciplina?', a maioria (57%) dos professores de economia dos EUA ouvidos pela pesquisa estava em desacordo. Por outro lado, 75% dos professores de sociologia e 72% dos cientistas políticos pesquisados disseram que trabalhar de modo interdisciplinar era melhor.

Mas o desdém dos economistas pelas ideias de outros campos não é universal. Há disciplinas que os atraem muito. As finanças e os negócios, por exemplo. Enquanto que as citações dos economistas a outras disciplinas vêm diminuindo, as referências a artigos publicados em revistas acadêmicas especializadas em finanças experimentaram um vertiginoso crescimento. 

Luigi Zingales, um respeitado economista, adverte que a proximidade de seus colegas em relação ao mundo dos negócios e das finanças pode ameaçar sua independência e condicionar sua agenda, suas conclusões e recomendações.

Zingales constatou, por exemplo, que quando os autores de artigos acadêmicos não trabalham em faculdades de negócios seus textos são significativamente menos propensos a justificar os elevados salários que os executivos recebem e com frequência têm uma posição crítica a respeito. Dois terços dos sociólogos norte-americanos ouvidos pela pesquisa afirmaram que as empresas privadas têm lucros excessivos, enquanto que apenas um terço dos economistas acredita nisso. Quase nenhum professor de finanças ouvido estava de acordo.

“A crise econômica que o mundo ainda vive e a incapacidade dos economistas para oferecer soluções sobre as quais há um significativo consenso revela que seu instrumental teórico necessita urgentemente de uma injeção de novas ideias, de métodos e hipóteses sobre a conduta humana. É difícil que isso ocorra enquanto prevalecer o arrogante isolamento intelectual da elite que atualmente rege de maneira férrea e míope as pesquisas econômicas”, conclui o artigo do El País.

Os interesses internacionais por trás da crise na Petrobrás







Jornal da AEPET,  30/03/2015 



Os interesses internacionais por trás da crise na Petrobrás


Por  Eduardo Maretti



A queda do preço das ações da Petrobras e fatos que se originam em entidades do chamado mercado, como a perda de grau de investimento, em 24 de fevereiro, ou a exclusão do índice Dow Jones de sustentabilidade, como na última semana, fazem parte de uma estratégia deliberada de ataque à estatal brasileira, com motivações político-econômicas internacionais. A avaliação é do professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), consultor da ONU e economista Ladislau Dowbor.

“Essas coisas têm que ser vistas num plano geopolítico. Fazem parte da mesma guerra que levou à invasão do Oriente Médio, às tentativas de desestabilização do governo da Venezuela, outra grande fonte de petróleo. No nosso caso, é o pré-sal que desperta interesse internacional”, diz Dowbor. “A Petrobras está num processo de pressão internacional que se apoia em forças locais.”

O preço das ações preferenciais da Petrobras caiu 52%, considerando o preço em real convertido em dólar, na comparação entre o que valia em 19 de março de 2014 e um ano depois, 19 de março de 2015. “Não tem nada de incorreto nessa conta. O que é incorreto é achar que isso significa o que realmente a Petrobras está perdendo em valor”, afirma Dowbor.

O professor vê ingenuidade na crença largamente alimentada pela imprensa tradicional de que é apenas o mercado ou seus mecanismos que promovem fatos como a queda do preço do petróleo, que em junho de 2014 custava US$ 115 o barril e hoje está em US$ 54. Em artigo que publicou em seu blog, Dowbor afirma: “A visão que temos, em grande parte devida aos comentários desinformados ou interessados da imprensa econômica, é que as flutuações de preços da commodities resultam das variações da oferta e da demanda”.

“Não são mecanismos de mercado que fazem cair o preço para a metade. Isso tem que ser visto pela área política, e não pela econômica. É um sistema especulativo planetário. É a mesma coisa que aconteceu com a degradação do grau de investimento (da Petrobras, em fevereiro). Faz parte de um ataque”, completou à Rede Brasil Atual.

A conta do economista se baseia no fato real de que as reservas do pré-sal não se desvalorizaram e o estoque de petróleo continua sendo o mesmo. “Se, com todo o ataque, conseguirem mudar a situação política do país, com a troca de presidente ou o que seja, e conseguirem privatizar a Petrobras, as ações vão explodir e quem tiver comprado na baixa vai ganhar. São os mesmos especuladores. O ataque é esse, é um ataque nacional e internacional. Estão fazendo isso com a Argentina, com a Venezuela, com os países que não se dobraram aos interesses do ‘mercado’.”

O secretário de Relações Internacionais da Federação Única dos Petroleiros (FUP), João Antônio de Moraes, analisa da mesma forma os fatos gerados por entidades vinculadas ao mercado ou que refletem seus índices. “O Brasil está sob um cerco de ataques. A Petrobras, como maior agente econômico do país, está neste contexto. É uma ação internacional muito bem montada que busca abalar o Brasil.”

Moraes acredita que o governo brasileiro teria como, no mínimo, minimizar os efeitos dos ataques. Para ele, o país deveria se aproveitar do momento em que as ações da Petrobras estão baixas e comprar papeis da companhia. “Essa medida teria dois efeitos: aumentaria o controle do povo sobre a empresa, tão estratégica, e ajudaria a derrubar a tática deles de prejudicá-la.”

domingo, 29 de março de 2015

Distorções no combate à corrupção

 
 
 




Carta Capital, 29/03/2015




Distorções no combate à corrupção



Por Pedro Estevam Serrano




A presidente Dilma Rousseff assinou decreto que regulamenta a  Lei Anticorrupção e enviou ao Congresso um conjunto de medidas com as quais pretende, entre outros, tornar crime o enriquecimento ilícito de servidores públicos, a prática de caixa dois e a lavagem de dinheiro para fins eleitorais. Promessa de sua campanha à reeleição, as propostas foram apresentadas também como resposta do governo às  demandas da sociedade.

A centralidade do tema da corrupção nas manchetes dos jornais, fruto de uma relação complexa que a mídia estabelece com casos mais rumorosos, acompanhada de uma onda moralista e conservadora que tem contaminado o ambiente político e social, explica a extrema relevância que o tema vem ganhando na agenda pública.

Não há dúvidas de que há méritos nas medidas anunciadas, mas o combate à corrupção no Brasil já tem se intensificado muito desde a redemocratização e, em especial, a partir do governo Lula, que, além de garantir maior autonomia ao Ministério Público Federal, valorizou significativamente a carreira dos delegados federais, atraindo para a Polícia Federal os melhores quadros, conferindo à instituição autonomia no exercício de suas funções nunca antes vista. O Judiciário tem acompanhado esse movimento e, ao contrário do que diz o senso comum, existe hoje no plano federal uma máquina de combate à corrupção muito mais independente, autônoma, e ativa – realidade que não se espalhou para a esfera dos Estados e municípios.

Essa inegável melhoria ocasiona, como primeira consequência, maior percepção da corrupção pela população. Apesar de ser um fenômeno que acompanha o Estado brasileiro desde antes da sua origem, hoje, a prática de corrupção tem maior visibilidade justamente porque é mais punida. Não vivemos o auge da corrupção, como muitos querem acreditar, mas um momento emblemático de punição daqueles que cometem crimes de corrupção.

A exposição da corrupção, ao mesmo tempo que, em alguma medida, inibe sua prática, também gera distorções, quando a ideia de um sistema impessoal de combate à corrupção é substituída, na narrativa da mídia, pela figura do “justiceiro”, ou seja, de um determinado agente do judiciário, do MP ou da polícia, apresentado como autor de uma operação ou de um procedimento que, na verdade, tem como sustentáculo uma engrenagem de que ele é apenas uma peça.

Essa sinergia estabelecida entre mídia e órgãos de apuração, em muitos casos, envolve inclusive cometimento de crime pelo agente público, que, para assumir o protagonismo midiático de um determinado caso, vaza informações sigilosas, prejudicando o próprio curso da apuração e vulnerabilizando os direitos fundamentais dos acusados. Na mídia, a narrativa da defesa tem voz nitidamente reduzida e é o espaço antes do linchamento do que do julgamento público.

A título de combater a impunidade e a corrupção, o MP tem defendido mudanças no Código de Processo Penal, para que provas ilícitas possam ser consideradas para fins de condenação, quando isso atender ao interesse público. Ou seja, propõe a flexibilização de um direito fundamental, que é o direito de só ser acusado ou condenado mediante provas lícitas, em favor de um conceito indeterminado de interesse público, que, na prática e no caso concreto , será determinado pela vontade arbitrária da autoridade, uma distorção característica de regimes de exceção.

Antes de exigir que a corrupção seja combatida a qualquer custo e por quaisquer meios, é preciso revisitar a história e lembrar que foi sob o pretexto de extirpar a corrupção que Robespierre instituiu o Terror e o genocídio na França, a Alemanha nazista produziu o Holocausto e a ditadura militar brasileira torturou e matou seus opositores. O que uma sociedade que vive sob um real Estado Democrático de Direito precisa perseguir é o equilíbrio entre um sistema impessoal de combate à corrupção e a garantia aos direitos fundamentais do acusado. Só assim será possível afastar o perigo da barbárie e da incivilidade que nos ronda.

Uma enfermeira brasileira no front do ebola

 
 
 
 




Estadão, 29 de março de 2015



A enfermeira brasileira no front do ebola



Por Adriana Carranca
 
 
A enfermeira gaúcha Halima Husein (de hijab preto), entre colegas na Etiópia
 
 
Das quatro tendas que abrigavam os 60 pacientes infectados pelo vírus Ebola sob seus cuidados em um hospital de campanha erguido às presas em Monróvia, capital da Libéria, a enfermeira brasileira Halima Husein via desaparecer uma “tenda” a cada dia. Quinze mortos diários, dia após dia. É uma baixa impensável mesmo para os mais habituados às tragédias.

Os corpos eram desinfetados e enterrados a uma distância segura, com todos os pertences. Não restavam vestígios deles. Não cabiam despedidas. O Ebola mudou os hábitos de vida e os rituais de morte por onde passou.

À medida que o contágio avançava para um surto descontrolado, somaram-se a esse cotidiano macabro as cremações arbitrárias. Era uma questão de saúde pública, mas não só isso – os responsáveis por abrir covas e enterrar os mortos estavam à beira do colapso. Foi a primeira vez em toda sua história de socorro a tragédias que a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), para a qual Halima trabalha, teve de importar incineradores para dar vazão aos cadáveres.

Em um ano, desde seu início, em março de 2014, o surto fez mais de 10 mil mortos. É o equivalente a cinco vezes o número de vítimas fatais em todos os 28 surtos da doença somados desde que o vírus foi identificado, em 1976. Ele não se alastrou apenas em número, mas geograficamente. Antes concentrado na África Central, o Ebola chegou ao oeste do continente com rapidez nunca vista. Foi uma tragédia sem precedentes.

Agora que a epidemia dá sinais de esmorecer, com redução da velocidade de contágio, as organizações internacionais começam a avaliar seus efeitos mais duradouros e menos visíveis, porém profundos, como o impacto psicológico nos que vivenciaram a calamidade perto demais para se esquecer, como Halima.

Filha de refugiados palestinos que sonhava desde pequena em trabalhar com ajuda humanitária, Halima viu a fome secar o corpo de crianças em um hospital no sul desértico da Etiópia. Acompanhou o flagelo de vítimas da doença de Chagas no Paraguai, da malária no Sudão do Sul e da desnutrição infantil no Iêmen, até uma revolta estourar na capital do norte iemenita, onde estava, e os feridos inundarem o hospital.

Em Misrata, na Líbia, esteve “muito perto da frente de batalha”, em meio a “um conflito direto”; feridos e amputados chegavam-lhe às mãos no eco das explosões. No Líbano e Turquia, recebeu refugiados sírios massacrados no fogo cruzado entre as forças do presidente Bashar Assad e rebeldes. Nesse território sem lei Halima ingressou três vezes, em missões de socorro. “Num hospital onde passávamos as noites você podia ouvir os aviões do governo bombardeando a cidade. A gente sabia que eles estavam bombardeando escolas, comércios… E a gente sabia que naquele momento havia muita gente morrendo”, descreveu Halima ao Aliás.

Lidar com a morte faz parte do cotidiano de médicos e enfermeiras como ela. Mas não da maneira vista na epidemia do vírus. Ao falar da experiência no hospital de Monróvia, sua voz se torna ofegante, o ar parece faltar-lhe. “Você vê os corpos… Você vê corpos deixando as tendas toda hora, a ponto de aquilo se tornar natural e você… você, imune a emoções”, ela relembra. “Nada te prepara para ver a morte desse jeito. Não nessa dimensão. Não desse jeito.”

A gaúcha Halima iniciava o dia às 7 horas reunida com o restante da equipe para discutir os casos do dia anterior. Ao chegar à clínica, por volta das 8, parte dos pacientes havia desaparecido de noite. Até o fim do expediente, por volta de 20 horas, outros sucumbiriam. Entre um quarto e metade, no total. Era uma rotina mórbida de dimensão assustadora até nas pandemias. “Nunca tinha visto tanta gente morrer. Bá, é uma das piores coisas que tu podes ver. De a pessoa estar sentada, conversando contigo, você se vira para dar atenção a outro paciente e, quando volta, ela caiu morta do teu lado. Nas guerras, pelo menos temos a chance de salvar os que chegam até nós. Com o Ebola é diferente. Você tem uma sensação muito forte que é a de incapacidade. Não está nas suas mãos, não importa o que você faça, como enfermeira ou como pessoa. É um sentimento difícil. Eu vi muitos colegas chorando.”

A impossibilidade de contato direto com os pacientes, o estigma da doença, as condições precárias, o dilema vivido entre o desejo de ajudar e o medo constante de ser contaminado, tudo agrava o calvário dos que cuidam dos infectados pelo Ebola. “O que eu mais temia era morrer sem ter minha família por perto”, diz Halima. Ela estava em treinamento na Bélgica quando houve o primeiro caso de contaminação de um profissional da MSF, uma enfermeira francesa. “Foi o momento de sentar, pensar e tomar a decisão”. Ela decidiu embarcar para a Libéria.

Àquela altura, julho de 2014, o Ebola havia chegado às portas de Monróvia com força assustadora, ceifando vidas entre os que estavam ali para salvá-las – quatro enfermeiras do Hospital Phebe, na periferia da cidade, e um médico do Centro John F. Kennedy Memorial morreram. Em agosto, o sistema de saúde do país entrou em colapso. Pacientes com doenças como malária eram recusados para dar lugar a contaminados pelo Ebola. Mesmo assim, os leitos se tornaram insuficientes. Em 5 de agosto, o presidente da Libéria decretou estado de emergência. Três dias depois, com incompreensível letargia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o Ebola emergência global. A declaração coincidiu com o contágio de dois americanos da organização cristã Bolsa Samaritana.


Negligência

Convencidos da catástrofe, ONU, OMS e o Centro de Controle de Doenças dos EUA mobilizaram a maior operação da história para o controle de uma epidemia. Nos três meses entre o primeiro caso e o despertar da comunidade internacional, no entanto, milhares de pessoas já tinham sido infectadas. Muitas morreram antes de saber o que debilitara seus corpos.

“Para o surto de Ebola ter chegado a tal nível de descontrole foi preciso que muitas instituições falhassem. E elas falharam, com consequências trágicas e evitáveis”, declarou Christopher Stokes, diretor-geral da MSF, na semana passada. Em 31 de março, a MSF alertara para a disseminação geográfica do vírus de forma “sem precedentes”, após a doença ingressar na Libéria pela fronteira com a Guiné. Na ocasião, a OMS negou qualquer diferença de surtos passados. Novo alerta foi feito em 21 de junho, quando a epidemia já estava “fora de controle”, segundo a MSF. 

“Muitos enfermeiros e médicos morreram no início da epidemia porque desconheciam os protocolos, não sabiam sequer que estavam diante do Ebola. Quando a MSF chegou a campo, havia desinformação, desconfiança e medo”, relata Halima. Àquela altura, corpos eram largados no asfalto. Hospitais e clínicas superlotadas, inclusive da MSF, eram obrigados a recusar doentes infectados mesmo sabendo que, nas ruas, contaminariam outros. Sobrecarregados e amedrontados, médicos e enfermeiros liberianos entraram em greve. A violência se espalhou no rastro do vírus.

“O que me motivou (a ir para a Libéria) foi saber que as pessoas precisavam ser atendidas, mas não tinham mais como. Não que meu medo fosse zero, porque o medo é algo natural. Mas, quando você tem a oportunidade ajudar numa situação como essa, é difícil recusar”, disse Halima. Em um ano desde o início do surto, 500 trabalhadores da saúde morreram infectados pelo Ebola na Guiné, Libéria e Serra Leoa, países onde a escassez de médicos e enfermeiros era realidade mesmo antes da epidemia. Desses, 14 eram da MSF.

Para evitar contaminação, os protocolos de segurança eram rígidos. No início, Halima teve dificuldade para se adaptar à forma de lidar com os pacientes, separada deles por um macacão de denso material impermeável, avental e touca cirúrgica, botas, máscara, óculos de proteção, duas luvas e um respirador. Nada atravessava o aparato, nem mesmo o ar, e a temperatura lá dentro chegava a 50°C. “Eu os via inteiros, mas eles só podiam ver meus olhos”, lembra. Os doentes a reconheciam pelo nome escrito no jaleco. E o que eles diziam, não trazia alento algum. “Halima, por que está fazendo isso? Eu vou morrer”, ouviu muitas vezes, enquanto tentava alimentá-los e aplicar-lhes a medicação.

Ao todo, o hospital tinha 180 leitos – e não parava de crescer. Quando chegavam aos cuidados de Halima, os pacientes já tinham percorrido o caminho dos condenados pelo vírus, como num corredor da morte. A entrada era a ala de triagem, onde eram isolados aqueles com sintomas de contágio. Estes eram, então, levados para a ala dos suspeitos e testados. Poucos voltavam daquele ponto. A maioria seguia dali para a “enfermaria de confirmados”, onde Halima os aguardava. “Havia tanta dor nos olhos deles…”


‘Acabou o tempo’

Dentro do uniforme de proteção amarelo, Halima tentava não ceder ao calor intenso, nauseante. “É muito, muito quente. Você transpira o tempo todo”, disse. “Um dia, eu estava com uma criança no colo e comecei a passar mal. Minha colega percebeu e disse: ‘Acabou o tempo’. É um comando do protocolo e temos de obedecer, para não correr riscos. Tive de largá-la e sair. Mas é duro ver os pacientes sem a família, na companhia apenas de outros que estão morrendo. Então, você tenta se segurar. À noite, dormíamos de exaustão.” 

De volta da missão, já em Bruxelas, onde teve atendimento psicológico, um sonho perturbava Halima: ela estava de volta à clínica de Monróvia, com os colegas da equipe, todos infectados e aprisionados àquele lugar. Cenas reais ainda voltam a sua mente, em flashbacks involuntários e inoportunos. Como a de uma mãe que Halima orientava a alimentar o filho de 6 anos, enfraquecido pelo Ebola. “Ela conversava comigo e simplesmente caiu para o lado, morta, na frente do filho”, lembra. “Eu vi aquela criança apática. Ele não teve reação, apenas virou o rosto. Eu desinfetei o corpo e o cobri, porque outros pacientes olhavam. Não gosto nem de pensar para não ficar remoendo o que a gente viu ali.” 

Nos 21 dias de isolamento no Brasil, Halima “não queria tocar em nada nem em ninguém”. “Você fica um pouco paranoica. Tem o choque de ter visto tantas mortes, o choque de saber que não tem cura. Você sempre se pergunta: será que eu podia ter feito mais por eles?”


‘O vírus da morte rápida’

Na África ocidental pós-epidemia de Ebola não há apertos de mão ou abraços. As pessoas conversam mantendo certa distância, pelo menos o suficiente para não se deixar alcançar pela saliva do outro. A peste que os africanos chamam de “vírus da morte rápida” deixou no rastro da passagem mudanças econômicas e socioculturais que afetaram comunidades inteiras.

“Não há dúvida de que o surto está afetando seriamente nossa existência como nação. O Ebola está nos forçando a mudar a forma como nos cumprimentamos, como mostramos afeição uns pelos outros, como cuidamos dos doentes”, escreveu o reverendo James B. Sellee, no Liberian Observer. “O Ebola está minando laços de família e causando divisões. Está matando nossa já frágil economia e faz isso rapidamente.”

A queda no número de infectados pelo Ebola em 2015 foi recebida com entusiasmo pela comunidade internacional, mas a velocidade de contágio hoje ainda é maior do que em qualquer surto anterior. Em 20 de março, um novo paciente testou positivo na capital Monróvia após mais de duas semanas sem casos confirmados.
 
 

O ajuste é um grande desajuste








Folha.com, 29/03/2015



Desajuste



Por Janio de Freitas




A realidade econômica e social vivida pelo Brasil em 2014 começou a ser mostrada no final da semana pelo IBGE, que tem as estatísticas menos desconfiáveis. São dados, incluído o cabalístico PIB, que não atestam a escandalosa crise econômica na qual o nosso dia a dia mental e físico está atolado há mais de quatro meses.

O Brasil, a partir do próprio governo e com os alto-falantes de sempre, diz-se, e diz ao mundo, que 2014 o deixou em estado de coma. Não é verdade. O Brasil não é, como está apresentado, a Grécia, não é a Espanha, não é Portugal, nem se assemelha a esses ou qualquer outro posto em desgraça pela crise ocidental criada por corrupção e golpes da rede bancária dos Estados Unidos.

Os economistas alimentados pelo "mercado" e a classe que busca fáceis lucros financeiros ou políticos podem dizer, como lhes convém, que o Brasil está em estagnação. Os governistas e seus aliados menos ou mais falsos podem dizer que o Brasil está em situação estável. O que importa nas duas qualificações é ambas significarem que, se o país não evoluiu em muitos sentidos, também não sucumbiu nem, guardadas as proporções, resistiu menos aos efeitos da crise americana do que as potentes Alemanha, França e Itália.

Como se explica a espetaculosa catástrofe de que se fala em todas as horas por todos os meios? Na campanha da eleição presidencial, Aécio Neves e Marina Silva referiam-se a inflação alta e a desempenho pífio da indústria, atribuído ao governo. Não era de crise que falavam. Mal se decidira a eleição, e sem qualquer motivo perceptível, Dilma de repente atira a notícia de que seu ministro da Fazenda será o neoliberal Joaquim Levy, para fazer um tal "ajuste econômico". Que ajuste? Por quê? E por que um adepto da política mais conservadora, que antes mesmo de assumir já justificava o "desempenho fiscal mais sólido" como "melhor para as ações"?

Com tamanho desajuste de ideias, Dilma decretou estar o país em crise. Mesmo que não estivesse, Dilma acabava de criar o veio a ser explorado pelo vício dos conservadores brasileiros, o de reverter sem eleições o resultado eleitoral.

É claro que nada senão o mau passo de Dilma pode explicar a criação do pessimismo e da crença generalizada nas manipulações de aspectos da economia. Não é a realidade de 2014 a responsável pela realidade de 2015.

O tal PIB cresceu 0,1%, que a rigor não é mais que um zero envergonhado, e a produção industrial recaiu 1,2%, o que não é novidade porque pífio não foi o desempenho no ano, é a indústria brasileira. No maior número de quesitos a economia esteve bem, ou não foi mal ou, ao menos, foi melhor do que a vizinhança. Mesmo pequenos indicadores o refletem: quando se lê a notícia de que "setor de biscoitos e massas fatura 11,5% mais em 2014", os dispensáveis biscoitos mostram a que gastos o bom nível de consumo até se permitiu. Nada de crise.

A tão falada alta da inflação não pôde evitar o desprazer de vê-la fechar o ano abaixo do teto fixado de 6,5%. Resultado muito bom considerados o problemático e longo período eleitoral e outras circunstâncias. Só em janeiro e no curto e carnavalesco fevereiro deste ano, a inflação do ajuste de Levy/Dilma chegou a 2,48% no IPCA e 2,66% no INPC.

O desemprego estava reduzido a 4,3% em dezembro, e a remuneração do trabalho, com altas no ano que chegaram a 4% (outubro), em dezembro ainda conseguia aumento de 1,7%. O desemprego em fevereiro de 2015 chegou a 5,9%, e cresce em março. A remuneração do trabalho teve resultado negativo de 0,5%.

Desde 1888, com o fim da escravidão, o emprego remunerado é o direito primordial dos que lutam pela vida. E o primeiro atingido quando predomina a política em favor dos que têm a vida a lutar por eles. É o que retorna com o ajuste de Levy e Dilma.

Mas Dilma traz ao menos uma novidade, em comparação com outros praticantes do neoliberalismo e com os submetidos ao FMI: Dilma pressiona contra uma emenda parlamentar que dê aos aposentados a correção que uma medida provisória concede ao salário mínimo. Desse modo, tão original, os aposentados passam a pagar, com a correção que deixam de receber, o salário mínimo dos outros.

O ajuste é um grande desajuste.