quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

E se fossem os russos?







Blog do Santayana, 25 de fevereiro de 2015



E se fossem os russos?


Por Mauro Santayana



O advogado e blogueiro Pettersen Filho reproduz, em seu blog, anúncio da embaixada dos EUA, recrutando jovens “líderes” brasileiros, como “bolsistas”, com a seguinte mensagem:

“O Departamento de Estado dos EUA, por meio do Atlas Corps – uma rede internacional de líderes sem fins lucrativos, tem o prazer de anunciar oportunidades para líderes emergentes da sociedade civil para obter bolsas de estudos de 6 a 18 meses nos Estados Unidos. Interessados em se candidatar devem ter de 2 a 10 anos de experiência trabalhando em alguma ONG, nível universitário, até 35 anos de idade e fluência na língua inglesa… 

Os bolsistas selecionados serão inseridos em uma organização renomada na área social nos Estados Unidos. Despesas com passagem aérea, visto de entrada nos EUA, seguro saúde, alimentação, transporte local e acomodação partilhada serão totalmente custeadas. Informações sobre o programa e como se candidatar estão disponíveis no site:http://apply.atlascorps.org.”

Não bastando trazer ONGs de fora, ou criar, aqui mesmo, organizações que se infiltram nos mais diferentes segmentos da sociedade brasileira - e, como lembra Pettersen - estão especialmente ativas na Região Amazônica, os EUA seguem firmes em sua permanente estratégia de cooptação de jovens "líderes" locais de todo o mundo, por meio de organizações de fachada, ou “associadas”.

A esperança é a de que eles, em seu retorno, espalhem o que "aprenderam" e atuem na defesa dos interesses norte-americanos. 

Melhor, ainda, se, no futuro, alguns chegarem a posições proeminentes em seus respectivos países, para, como reza o slogan do AtlasCorps, "mudar sua perspectiva e mudar o mundo" - como aconteceu,  com certeza, ao menos quanto à primeira metade da frase, com um jovem sociólogo brasileiro, financiado, nos anos 1960 - como lembrou em artigo o jornalista Sebastião Nery - pela Fundação Ford, com expressiva quantia para fundar uma organização chamada CEBRAP, muitos anos antes de chegar à Presidência da República.

Se fossem os russos e os chineses - parceiros do Brasil no BRICS - ou os cubanos - conhecidos por seu envolvimento em causas humanitárias, como o combate ao Ebola - que publicassem por aqui anúncio semelhante, dá para imaginar como seria o alarido fantasioso e anacrônico, “anticomunista” e “anti-bolivariano", dos hitlernautas brasileiros, nos portais e redes sociais. 

Mas como se trata dos EUA - prestes a estrear, nos cinemas nacionais, nova campanha de lavagem cerebral, com o filme "American Sniper" - nação "libertadora" do Iraque, da Líbia e da Síria, países em que suas guerras e "primaveras" deixaram  milhões de mortos e refugiados e que estão entregues agora a terroristas originalmente armados pelos próprios EUA para combater quem estava no poder anteriormente - o assunto, com exceção de alguns sites da "blogosfera", quase passa em brancas nuvens por aqui.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A Petrobras precisa de um claro sinal de que estamos a seu lado








Carta Maior, 24/02/2015 




A Petrobras precisa de um claro sinal de que estamos a seu lado



Por Cândido Grzybowski



No delicado momento político que atravessa a Petrobras penso que se torna fundamental relembrar o que ela significa para a economia, a sociedade e a democracia no Brasil. Precisamos, cidadãs e cidadãos brasileiros, nos por em alerta e estar prontos a defender um dos maiores patrimônios por nós criados ao longo de gerações. Isto não significa defender os envolvidos pegos com a “mão na massa” pela operação “Lava Jato” da Polícia Federal. 

Aliás, tanto eles como os seus cúmplices, executivos de grandes empresas, e todos que de algum modo se beneficiaram do esquema de corrupção merecem o repúdio da cidadania, que exige justiça acima de tudo, dentro de critérios republicanos e de justiça democrática, sem privilégios de classe ou de poder.

O fato da última semana, a destituição da presidenta Foster e a renúncia de sua diretoria, com a nomeação de um novo presidente, é, sem dúvida, um sinal de que a Petrobras navega em meio à tempestade. Hoje, porém, a Petrobras desenvolveu tecnologia para explorar petróleo em águas profundas, bravias, e tem um corpo técnico de milhares de pessoas, tanto diretamente assalariados como prestadores de serviços, que sabem dar conta do recado. 

Mais, eles se sentem e agem como os verdadeiros representantes da cidadania lá, garantia para que a Petrobras dê conta do mandato que lhe damos. O que a Petrobras precisa é de um claro sinal de que estamos a seu lado, faça chuva, faça sol. Estamos aí, como cidadãos e como democratas, a defender o que é um dos bens comuns maiores que criamos e essencial para a nossa democracia. Não é a primeira vez que a Petrobras passa por dificuldades assim, e nem será a última. E não será desta vez que a cidadania do Brasil perderá a Petrobras.

Há muito tempo o Brasil luta por autonomia, talvez por altivez. Nunca demonstramos vontade de dominar outros povos, mas também não aceitamos que nos dominem, nem queremos ser simplesmente subalternos, subordinados que aceitam servir à hegemonia de quem quer que seja. Alguém vai lembrar e dizer que o capitalismo é assim mesmo, com um império e seus asseclas para dominar o resto. E quem disse que a cidadania do Brasil pensa e almeja isto? 

O interesse nacional, se é que existe, é um pacto entre a diversidade do que somos. Não nos venham impingir como interesse nacional o interesse de uma certa fração de classe dominante, que acha seus interesses contemplados numa dependência submissa ao imperialismo capitalista de turno. Sim, eles também mudam, pois o capitalismo é, por definição, para poucos, os mais fortes e competitivos nos mercados selvagens, com arsenais e exércitos se necessário. Só que existe cidadania e isto faz uma enorme diferença, como a pequena Grécia acaba de demonstrar.

A Petrobras existe enquanto tal porque a cidadania quis ter a questão energética ligada ao petróleo sob controle estatal. Luta árdua lá no começo, nos anos 50 do século passado, e luta árdua ao longo da história da Petrobras. Ela sobreviveu à “privataria” dos anos 90 e, depois da descoberta do pré-sal, voltou ao protagonismo de sempre. Mas os interesses privados derrotados não esmorecem, estão de plantão na menor oportunidade. Hoje a maior ameaça para a nossa Petrobras são as forças pró-privatização. A corrupção veio a calhar e reanimou a sanha privatista. Logo sobre um grande bem comum, como a energia que todos precisamos de algum modo.

É bom, nesta hora de dificuldades, comparar a situação da Petrobras com o resto do setor energético brasileiro. A geração e distribuição da vital energia elétrica para o modo que vivemos hoje foram irresponsavelmente desestruturados pela privatização e estão no centro de uma enorme crise sistêmica, mais de contradição entre interesses públicos e interesses privados do que clima e gestão. O mesmo não pode acontecer com o petróleo.
 
Aqui cabe lembrar a difícil equação entre petróleo e sustentabilidade. A energia fóssil é o grande vilão da mudança climática. Não dá para ignorar isto ao falar da Petrobras. Mas a questão é que não existe, no imediato, uma saída para a grande dependência civilizatória, por assim dizer, do que a energia fóssil oferece como possibilidade e sua presença absoluta no nosso cotidiano. Pior, existe uma geopolítica mundial atrelada à questão da energia fóssil, no centro da própria disputa imperialista, como neste momento a questão da Ucrânia e as contradições do Oriente Médio e Afeganistão revelam, com guerras e fundamentalismos inaceitáveis.

Voltando à nossa Petrobras, é fundamental que se afirme a hegemonia pública sobre ela e seu caráter de bem público do Brasil. Resguardemos para a cidadania a possibilidade do que fazer e como fazer a melhor gestão das grandes reservas de petróleo e gás do território do planeta que nos cabe cuidar, bem como de nosso reconhecido saber e capacidade de lidar com isto. 

Deixemos para depois a questão sobre como usar as reservas e a garantia de deixar para gerações futuras o que nós, por enquanto, utilizamos como energia a ser queimada. Firmemos um compromisso básico entre nós: a  Esta é a base a preservar inteira, como algo único e indispensável. Depois discutiremos o resto. Mas discutiremos, sem dúvida!


Cândido Grzybowski é sociólogo. Diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

As causas da intransigência alemã

 
 
 
 




Carta Maior, 23/02/2015




A Alemanha só busca a sua outra Europa 



Juan Torres López*




Os meios de comunicação e os centros de poder econômico e político da Europa tratam de nos fazer acreditar que as dificuldades para se chegar a um acordo com a Grécia provêm das exigências e das más práticas desse país, e que a posição do novo governo grego justifica o tratamento com intransigência por parte de seus sócios europeus, com a Alemanha na liderança.

No entanto, o certo é que a Grécia cumpriu à risca as imposições da troika, mas estas se mostraram um completo fracasso para recuperar a economia, diminuir a dívida e melhorar a vida das pessoas – o que justificaria a opção por um caminho diferente. Além disso, o que o novo governo grego está defendendo é encontrar fórmulas que permitam fazer frente a esses problemas de modo mais efetivo, não desprezando completamente os compromissos anteriores, mas sim os repensando. 

A isso se soma o fato de que o que a Grécia precisa para seguir adiante é um montante de recursos ou uma generosidade realmente ínfimos se comparados com aqueles dedicados até agora aos bancos, ou inclusive a economias muito mais prósperas, como a da Alemanha. Tanto é assim que até alguém pouco suspeito de ter simpatias pelo Syriza, como o residente Obama, se manifestou que o razoável seria não pressionar tanto a Grécia e ajudá-la a recuperar o crescimento para que possa sair dessa situação.
 
Por isso, acredito que, para entender a intransigência da senhora Merkel e de seus aliados, é necessário não olhar tanto para a Grécia, mas precisamente para a Alemanha e para o que vem acontecendo com a sua economia nos últimos tempos.
 
Com frequência, os europeus não estamos conscientes de que a Alemanha não é para nós mais um sócio, ou uma espécie de irmão mais velho, maior e mais poderoso. Não. A Alemanha é muito mais do que isso. A Alemanha é a quarta potência mundial, atrás de Estados Unidos, Japão e China, e sobretudo é a segunda economia exportadora do mundo. 

Ou seja, é uma economia gigantesca, e consequentemente obrigada a pensar em si mesma, e que precisa permanentemente dos mercados exteriores, o que significa que deve condicionar qualquer uma de suas estratégias para desfrutar de uma posição adequada (isto é, de vantagem) no contexto em que atua. 

Nos últimos dez anos, praticamente a metade do crescimento de sua economia dependeu de suas exportações netas. E acho que é nessa natureza da economia alemã que é preciso encontrar a razão da intransigência com que vem impondo seus interesses à União Europeia e agora à Grécia.
 
Nesse sentido, existem três fatores que neste momento estão influenciando decisivamente a estratégia alemã.
 
Em primeiro lugar, o comércio mundial está fortemente prejudicado, e não só em caráter conjuntural. Segundo um estudo recente de economistas do FMI e do Banco Mundial, o comércio mundial cresceu em 2012-2013 menos do que a metade nos 20 anos anteriores, e abaixo do crescimento da economia mundial, o que não aconteceu nas últimas quatro décadas. Isso significa que as economias exportadoras, como a alemã, terão nos próximos anos muitas dificuldades para atingir os mesmos ritmos de crescimento verificados em etapas anteriores.
 
Em segundo lugar, é preciso ter em conta que as exportações alemãs mudaram de destino nos últimos anos. Em 1990, 50% delas se destinavam aos países que agora fazem parte da zona do euro. Em 2014, esse índice caiu para apenas 40%. O crescimento médio anual registrado em suas exportações à zona do euro desde o ano 2000 (4,5%) é justamente a metade do aumento daquelas destinadas a outras áreas, tais como Europa central (9%) ou Ásia (10%). A Alemanha, portanto, está começando a ter outros sócios comerciais.
 
Em terceiro lugar, é preciso considerar também que a própria situação interna da economia alemã está mudando. Outro artigo publicado em dezembro pelo departamento de pesquisa do Banco Nacional de Paris (BNP) Paribas (Inflexible Allemagne) mostrou que, além de problemas futuros pela queda no comércio internacional, a Alemanha está diante de desafios internos de grande envergadura. 

O primeiro é envelhecimento crescente de sua população, pois se transformou no segundo país do mundo (atrás do Japão) com maior porcentagem de população com mais de 65 anos (21%), pelo fato de ter dificultado muito a compatibilidade entre a maternidade e o desenvolvimento da carreira profissional das mulheres. Algo que pode produzir, entre outras coisas, uma queda muito forte em sua taxa de poupança interna nos próximos anos.

Além disso, a Alemanha vem descuidando, nos últimos anos, do investimento interno – o privado caiu 7 pontos nos últimos 20 anos, e o dedicado à infraestrutura pública é 30% menos do que a média da OCDE, o que faz com que apresente hoje carências muito importantes. Segundo esse estudo do BNP Paribas, a brecha acumulada de 1999 a 2012 entre a taxa de investimento observada e a taxa ótima chegaria a 40% do PIB. 

A isso se soma o fato de, ao ter dedicado os excedentes obtidos nas últimas décadas ao investimento externo – em grande parte, para financiar bolhas especulativas em outros países –, a Alemanha descuidou de sua renda interior, o que também provocou um novo recorde na taxa de pobreza em 2013: ela afetava 16,1% do total da população, 60% dos desempregados, 35,2% dos monoparentais e 5,7% das crianças.
 
O que está acontecendo, portanto, é que o futuro para a Alemanha não será tão encantador. Não será tão fácil obter excedentes no exterior. Seus focos de interesse comercial vão deixar de estar em seus sócios do euro – aos quais parece que já espremeu por completo. E vai ter que dedicar muito mais atenção do que até agora a seus problemas e demandas de investimento interno.
 
A Alemanha não vai tomar a iniciativa para romper com o atual status quo do euro porque isso seria visto como uma agressão ao projeto europeu. Mas vai impor, com mais rigidez do que nunca, condições aos terceiros que já não são considerados sócios de interesse ou de preferência. E não se importará, portanto, em encurtar as rédias até que não lhes reste outro remédio senão se render ou se autoexcluir do euro. 

A Alemanha já olha sobretudo a um novo eixo europeu, de preferência com França e Polônia. É por isso que países como Grécia, Espanha, Portugal, Chipre e inclusive Itália não devem encontrar bons tempos dentro da zona do euro. 

O sensato seria que todos eles começassem a pensar se se conformam em ser simples comparsas de uma zona desenhada a favor da Alemanha, ou se têm em comum algo além do que serem desprezados por essa grande potência.
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A tradução é de Daniella Cambaúva.

Juan Torrez Lopes é catedrático de Economia Aplicada da Universidade de Sevilla. Autor de vários livros e trabalhos acadêmicos, entre os quais se destacam Los amos del mundo, Las armas del terrorismo financiero e Lo que debes saber para que no te roben la pensión, escrito em parceria com Vicenç Navarro.

A República do Paraná e a contrarrevolução conservadora

 
 
 




Carta Maior, 23/02/2015




A República do Paraná e a contrarrevolução conservadora



Leonardo Avritzer*




Nesta conjuntura política confusa na qual com menos de dois meses de governo, alguns atores políticos falam em impeachment e outros em derrubada judicial do governo, alguns acontecimentos ocorridos nas últimas semanas no Paraná nos dão uma boa ideia do que ocorrerá no Brasil se as forças progressistas não reagirem a altura dos desafios colocados pela conjuntura. 

Três fatos gravíssimos ocorridos no Paraná antecipam a contrarrevolução conservadora que se anuncia no Brasil: o assalto aos trabalhadores do setor público pelo governador Beto Richa; a tentativa de partidarizar as delações da operação "Lava Jato" e a absoluta imobilidade da polícia federal em investigar os vazamentos seletivos durante o processo eleitoral. Analisemos cada um deles.

O Paraná como quase todos os estados da federação se encontra em uma situação financeira difícil provocada seja por um processo de reeleição bastante custoso, como também pela situação mais geral da economia que tem reduzido a capacidade de arrecadação dos estados. Mas, apenas no Paraná, o governador dirigiu um assalto ao funcionalismo e ao setor público. 

No dia 04 de fevereiro, o governador do Paraná - utilizando a supermaioria que ele tem na Assembleia Legislativa no estado - apresentou em regime de urgência urgentíssima um projeto de lei (06/2015) que, entre outras coisas, extinguiu o Fundo Previdenciário dos Funcionários Públicos do estado incorporando-o ao orçamento do setor público. Além disso, o governo do Paraná extinguiu os quinquênios e tornou as licenças dos servidores inviáveis, uma vez que sua concessão passou a depender dos secretários de estado. 

Ou seja, na ânsia de equilibrar o orçamento estadual, o governo retirou direitos que o funcionalismo tem há décadas. Pior, ele ameaça fechar ou desativar quatro universidades estaduais que estão, juntamente com as universidades estaduais paulistas e cariocas, entre as melhores do país. Apenas, a mobilização social impediu o pior, mas aqui já se anunciou o projeto socialmente regressivo através do qual o PSDB pretende equilibrar o orçamento público no Brasil.

O segundo pilar da república do Paraná é um judiciário politizado e partidarizado. 

Evidentemente que a inciativa de deslanchar a operação Lava Jato foi extremamente bem vinda, já que a população brasileira não aguenta mais as formas ilegais de financiamento do sistema político. Também foram extremamente exitosas os acordos para a recuperação de ativos desviados da Petrobrás. 

Mas, rapidamente, a operação Lava Jato foi politizada com o vazamento de informações que tinham como objetivo criminalizar o partido do governo e interferir no processo eleitoral. 

Acusações que chegaram a ser feitas à própria presidenta na fase final da corrida eleitoral não tiveram a sua origem devidamente explicitadas e comprometeram fortemente a ideia de uma investigação republicana sem objetivos políticos. 

Pior, as delações premiadas passaram a transformar bandidos em heróis desde que apontassem na direção de um partido. Tal fato, coloca mais uma vez o judiciário brasileiro em questão na sua capacidade de punir malfeitos e a corrupção utilizando as regras do estado de direito. 

No caso da república do Paraná e de seu maior expoente judicial, o juiz Moro a situação é bem pior. Deturpa-se o estado de direito, coagindo física e moralmente os suspeitos como é o caso das condições degradantes que os donos de empreiteiras estão sendo submetidos, para coagi-los a assinar delações ou confissões para as quais o estado não tem prova.  

Esse instituto parece ser uma enorme deturpação do estado de direito e sugere uma completa politização e partidarização das investigações judiciais que ao que parece dispensam a apresentação de provas empíricas. O único objetivo parece ser obter uma informação que possa ser vazada à imprensa e aproveitada por atores políticos perdedores da última eleição presidencial.

Por fim, cabe aqui mencionar o papel da Polícia Federal. O Paraná apresenta a situação lamentável de uma polícia que não tem mais comando centralizado, que abandonou os princípios republicanos básicos e no qual os delegados podem se dar ao luxo de se expressar politicamente contra o governo ou de não investigar aquilo que não lhes interessa investigar.

O melhor exemplo vem de artigo na Folha de São Paulo desta semana no qual a advogada de um dos investigados pela Lava Jato expressa sua perplexidade em relação a não investigação de vazamentos pela Polícia Federal do Paraná. Amplamente ignorado pela grande imprensa, ela afirma que foi ao Ministério da Justiça informar ao ministro que o inquérito que apura vazamentos ouviu quatro jornalistas que não quiseram informar as suas fontes, direito este consagrado pela Constituição. 

Nenhuma outra estratégia investigativa foi tentada porque nada se procurou investigar. Ou seja, a mesma polícia federal que pula muros para aparecer na TV, constrange empreiteiros no cárcere e não investiga vazamentos que tiveram como objetivo desestabilizar o processo eleitoral de uma eleição para presidente. Ou seja, não parece existir o crime de lesão a soberania popular para a República do Paraná. 

O Paraná representa muito bem o projeto regressivo da direita brasileira expresso pelo mote “desempoderamento da democracia e partidarização do Estado de Direito”. 

Esse projeto, que despreza a vontade popular expressa no pleito do dia 26 de Outubro, parece ter igual desprezo pelo estado de direito e os métodos que ele consagrou para punir delitos. A justiça é confundida com a vingança e não se legitima em nenhum processo público. 

Esse projeto que se apresenta como alternativa de poder em um momento em que o poder não está ou não devia estar em disputa, deve ser respondido a altura pelos brasileiros que continuam acreditando que os problemas do país podem ser resolvidos com mais democracia e mais Estado de Direito.


Leonardo Avritzer é doutor em sociologia pela New School for Social Research (1993) e pós-doutor pelo Massachusetts Institute Of Technology (MIT), é professor adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais.

Uma questão de Estado








segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015




Carta de um professor da UERJ ao Joaquim Barbosa



Prezado colega Joaquim Barbosa.
(via Lista de discussão UERJXXI)

Você cobrou a exoneração do Ministro da Justiça por ter recebido advogados das construtoras, alegando no seu Twitter: “Reflita: vc. defende alguém num processo judicial. Ao invés de usar argumentos/métodos jurídicos perante o juiz, vc. vai recorrer à Política?”

Permita-me ponderar, caro colega da UERJ, a Política com P maiúsculo, conforme você bem escreveu, é a mais nobre das atividades humanas, pois é a partir dela que se constrói uma sociedade rumo ao eldorado ou rumo ao abismo.

É conveniente deixar claro que todos nós queremos a punição de corruptos, o fim da corrupção e a repatriação dos bilhões evadidos. No entanto, esse problema da Petrobras & construtoras está indo muito além disso. Já extrapolou as decisões (aplaudidas) de um único juiz e passou a ser uma questão de Estado. 

Explico: (1) Países ricos são aqueles que têm autonomia tecnológica, isto é, dominam o conhecimento que transforma a natureza em riqueza, desde os projetos de engenharia até o produto final. (2) Dentre as grandes empresas sediadas no Brasil, praticamente apenas a Petrobras & construtoras têm autonomia tecnológica. As outras grandes empresas, por serem mundiais, produzem bens aqui mas não desenvolvem a tecnologia no Brasil. (3) Quem domina a tecnologia tem o poder das decisões econômicas e a primazia dos melhores lucros.

A Petrobras é responsável por cerca de 10% dos investimentos realizados no País, cujo efeito multiplicador no crescimento da economia é exponencial. São razões de estado, portanto, que deveriam levar o governo a interceder politicamente no show de horrores que está provocando paralisação de setores produtivos da economia, desemprego e redução do PIB. 

O que a Petrobras e construtoras têm de perene são as suas máquinas, equipamentos, outros bens materiais, o petróleo, trabalhadores e tecnologia, sinônimo de conhecimento, que nada têm a ver com os desvios de dinheiro provocados por meia dúzia de dirigentes ironicamente colocados em liberdade “premiada”.

Digo, por experiência própria vivenciada no poder executivo estadual, que a corrupção pode ser totalmente debelada sem prejudicar as (únicas) grandes empresas nacionais que desenvolvem tecnologia de forma autônoma. 

Infelizmente, ao contrário do que se esperava, a forma seletiva de divulgação de passos inconclusos e não julgados do processo ‘lava-jato” está acarretando mais malefícios do que benefícios, até porque as tais delações (absurdamente) premiadas saíram dos bafos de bandidos confessos. 

Mas isso agora é o de menos. O pior é ver os negocistas e golpistas de plantão se aproveitando de todo esse caldeirão de manchetes cientificamente encomendadas para enlamear, não os corruptos, mas a empresa Petrobras e as construtoras visando à enfraquecê-las para desnacionalizá-las.

Reflita, caro Joaquim, (i) com tantas instituições há décadas sugando bilhões de dólares da nossa economia sem qualquer reação do judiciário, ministérios públicos e imprensa; (ii) com um processo criminoso de privatizações que aniquilou empresas e inteligências brasileiras sem que houvesse um só pio desses órgãos; (iii) e o que vemos agora é a exploração malévola para destruir o que de melhor nos resta na engenharia brasileira. 

Se o problema fosse realmente punir corruptos, eles não estariam em liberdade premiada. O alvo é realmente quebrar as últimas grandes empresas nacionais de engenharia; e logo a engenharia, um dos ramos do conhecimento que mais cria postos de trabalho em todas as áreas.

Isso é muito triste para um país que já tem mais de 70% do seu PIB controlado por não residentes. Será que você e o voluntarioso juiz Moro conseguem enxergar que existe algo que vai muito além dos “argumentos/métodos jurídicos” a que você se refere?

Nenhum “argumento/método jurídico” pode estar acima dos interesses da sociedade, nem pode ser usado para, por consequência, desgraçar a vida de milhares de famílias inocentes que dependem do funcionamento pleno das empresas nacionais que geram conhecimento e riquezas. 

Lecionei durante 36 anos na Faculdade de Engenharia da universidade a qual você pertence, a UERJ. Sabemos o quanto é árduo a formação de engenheiros desenvolvedores de tecnologia. E o que temos visto em todo esse episódio do “petrolão” é a lubrificação dos dutos que podem, mesmo que não houvesse intenção, levar o nosso petróleo gratuitamente para alhures e destruir o que nos resta de tecnologia própria nas empresas de energia e construção civil-mecânica. 

Acredite, caro Joaquim, os abutres já estão a grasnar: “entreguem tudo às empresas estrangeiras”; e, se elas tomarem conta do pedaço que nos resta, adeus à soberania e à tecnologia nacional. E isso, acredito, nem você nem o juiz Moro querem. Certo?

Seria muito bom que juristas de escol colocassem os seus saberes para impedir a alienação de riquezas e patrimônios nacionais.  Que achas da ideia? Se você puder convide o juiz Moro e apareçam em dois atos em defesa da Petrobras e Soberania Nacional: dia 24/02, terça-feira, às18h, na Associação Brasileira de Imprensa, e no dia seguinte, 25/02, quarta-feira, às 17h, no Clube de Engenharia.

O que está em jogo são os destinos soberanos do Brasil. Quebrem-se os políticos e dirigentes corruptos, mas não a grande estatal e a engenharia nacional.

Cordialmente.

Weber Figueiredo da Silva, D.Sc.
Professor na Engenharia do CEFET-RJ