quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Os limites da lei





Blog do Santayana, 24 de dezembro de 2014


 
Os limites da lei
 
Por Mauro Santayana

O Juiz  Helmer Augusto Toqueton Amaral determinou a quebra do sigilo cadastral de 20 usuários do Twitter que, em mensagens divulgadas nessa plataforma digital, tentaram vincular o senador mineiro à prática de ações criminosas e ao uso de entorpecentes.

A atitude do Senador Aécio Neves e a decisão do Juiz Helmer Torquato deveriam servir de exemplo para outras personalidades políticas e outros magistrados em nosso país.

A Presidente Dilma Roussef tem sido chamada de assaltante de banco e de assassina - entre outros  ataques muito piores de caráter pessoal - sem que tenha  sido acusada disso, ou tenham sido apresentados qualquer prova ou indício nesse sentido, sequer no período em que esteve presa pela ditadura militar.

José Genoíno tem sido insistentemente acusado de ter esquartejado pessoalmente vítimas no episódio da Guerrilha do Araguaia, sem que nada tenha sido provado contra ele quando foi preso no Pará. 
 
O ex-presidente Lula tem sido guindado à posição de dono de bilionários grupos econômicos privados, e nenhum deles, nem Dilma, nem Genoíno, nem Lula, sem falar em homens públicos de outros partidos, adotou a atitude corajosa que assumiu Aécio Neves, agora, ao encarar de frente e processar seus detratores, respondendo decisivamente a ataques dos quais tem sido vítima, há anos, na internet.

Ora, quem cala, consente, diz o dito popular. E uma mentira, se repetida indefinidamente, acaba por se transformar em verdade absoluta, como afirmava o acólito de Hitler Josef Goebbels, Ministro da Propaganda do III Reich.

Se há calúnias, não contestadas, que agridem, além do bom senso, apenas e diretamente as suas vítimas, mais graves, ainda, são os crimes de incitação ao racismo, à tortura, ao assassinato, à violência e ao golpe de Estado, que também tem sido perpetrados, impunemente, não apenas no Twitter, mas também no Facebook, no Google +, no Youtube e nos principais portais e meios de comunicação do país, em postagens e em comentários, sem nenhum controle por parte de "moderadores" ou do Judiciário.

A Lei 7.170 é  clara, e define como "crimes contra a Segurança Nacional e a Ordem Política e Social, manifestações contra o atual regime representativo e democrático, a Federação e o Estado de Direito." 
 
Cabe aos cidadãos de bem e a organizações como a OAB, denunciar os ataques que tem sofrido a democracia, e ao Ministério Público e ao Judiciário, como um todo, atuar na linha de frente da defesa da Constituição e das instituições. 

Os absurdos que são escritos nos sites nacionais a cada momento - alguns chegam a ser constrangedores, pela vilania, ignorância, baixeza, vulgaridade e sordidez - são a prova maior de que vivemos claramente em uma nação em plena vigência do Estado de Direito, com a mais ampla liberdade de expressão e de opinião.  
   
Esses direitos, no entanto, não se aplicam à calúnia, ao racismo, e à apologia do golpismo, venha este de onde vier, com ataques ao regime democrático e à ordem constitucional.
 
A Lei dispõe de meios e de instrumentos, que precisam começar a ser utilizados, para impor limites e punições a esse tipo de crimes.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A campanha sórdida contra Graça Foster e contra o Brasil







Jornal do Brasil, 23/12/2014



A campanha sórdida contra Graça Foster e contra o Brasil


Jornal do Brasil

 
 
 
Transparente, competente, com 34 anos de Petrobras, com talvez o menor patrimônio entre funcionários de seu nível, e certamente com um patrimônio infinitamente inferior ao de qualquer executivo que tem ou teve cargo de presidente ou diretor da estatal.

O JB não tem a menor dúvida da transparência e da dignidade de Graça Foster. E o JB também sempre defendeu as empresas brasileiras - mesmo padecendo da tal mídia técnica -, pois sabe que as defende pelo interesse nacional.

Qualquer reflexão de cidadãos brasileiros, puros ou não, faz com que se perceba que a campanha que se faz contra Graça Foster é sórdida, não por razões ideológicas ou políticas. Sórdida porque representa uma campanha contra o braço do desenvolvimento brasileiro.

O interesse pela destruição da Petrobras se relaciona com o interesse pela destruição de um país, que cresce pelo povo mais sofrido. Chega a ser revoltante essa campanha, que não é de hoje. Os mesmos, com os mesmos DNAs, trabalharam contra a Petrobras desde a sua fundação. É notória a resistência enfrentada naquela época contra o monopólio da estatal na exploração do petróleo. Foi preciso uma forte mobilização nacional, com a campanha "O petróleo é nosso", para que o projeto fosse adiante.

Uma senhora, muito menor em tudo que Graça Foster, fez um chamamento público. Esta senhora, tendo sido sempre inferior em cargos e remuneração, deve ter em compensação um patrimônio muito maior que o de Graça Foster, por entender de economia.

A mesma mídia que lhe dá espaço hoje teria lhe dado no momento em que supostamente tomou conhecimento de irregularidades. Houve retardo de lucidez, ou ela duvida da mídia? 

Não se conhece caso de pessoa que se diz patriota, mas que permanece pertencendo a um grupo de supostos ladrões. Para os verdadeiramente patriotas, a rejeição à convivência promíscua com este tipo de comportamento é absoluta. Se não for, perde-se o direito de querer ser honesta.

Íntegra do discurso do Papa Francisco à Cúria Romana (22.dez.2014)

 
 
 


Radio Vaticano, 23/12/2014 
 
 
 
 
Publicamos abaixo o discurso integral proferido pelo Papa à Cúria Romana em 22 de dezembro de 2014:
 
“Tu estás acima dos querubins, tu que transformaste a miserável condição do mundo quando te fizeste como nós” (Santo Agostinho).
Amados irmãos,
Ao final do Advento, encontramo-nos para as tradicionais saudações. Dentro de alguns dias teremos a alegria de celebrar o Natal do Senhor; o evento de Deus que se faz homem para salvar os homens; a manifestação do amor de Deus que não se limita a dar-nos algo ou a enviar-nos uma mensagem ou alguns mensageiros, doa-se-nos a si mesmo; o mistério de Deus que toma sobre si a nossa condição humana e os nossos pecados para revelar-nos a sua Vida divina, a sua graça imensa e o seu perdão gratuito. É o encontro com Deus que nasce na pobreza da gruta de Belém para ensinar-nos a potência da humildade. Na realidade, o Natal é também a festa da luz que não é acolhida pela gente “eleita”, mas pela gente pobre e simples que esperava a salvação do Senhor.
Em primeiro lugar, gostaria de desejar a todos vós – cooperadores, irmãos e irmãs, Representantes pontifícios disseminados pelo mundo – e a todos os vossos entes queridos um santo Natal e um feliz Ano Novo. Desejo agradecer-vos cordialmente, pelo vosso compromisso quotidiano ao serviço da Santa Sé, da Igreja Católica, das Igrejas particulares e do Sucessor de Pedro.
Como somos pessoas e não números ou somente denominações, lembro de maneira especial os que, durante este ano, terminaram o seu serviço por terem chegado ao limite de idade ou por terem assumido outras funções ou ainda porque foram chamados à Casa do Pai. Também a todos eles e aos seus familiares dirijo o meu pensamento e gratidão.
Desejo juntamente convosco erguer ao Senhor vivo e sentido agradecimento pelo ano que está a nos deixar, pelos acontecimentos vividos e por todo o bem que Ele quis generosamente realizar mediante o serviço da Santa Sé, pedindo-lhe humildemente perdão pelas faltas cometidas “por pensamentos, palavras, obras e omissões”.
E partindo precisamente deste pedido de perdão, desejaria que este nosso encontro e as reflexões que partilharei convosco se tornassem, para todos nós, apoio e estímulo a um verdadeiro exame de consciência a fim de preparar o nosso coração ao Santo Natal.
Pensando neste nosso encontro veio-me à mente a imagem da Igreja como Corpo místico de Jesus Cristo. É uma expressão que, como explicou o Papa Pio XII “brota e como que germina do que é frequentemente exposto na Sagrada Escritura e nos Santos Padres”. A este respeito, São Paulo escreveu: “Porque, como o corpo é um todo tendo muitos membros e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo” (1 Cor 12,12).
Neste sentido, o Concílio Vaticano II lembra-nos que “na edificação do Corpo de Cristo há diversidade de membros e de funções. Um só é o Espírito que, para utilidade da Igreja, distribui os seus vários dons segundo as suas riquezas e as necessidades dos ministérios (cf. 1 Cor 12,1-11)”. Por isto “Cristo e a Igreja formam o «Cristo total» - Christus totus -. A Igreja é una com Cristo».
É belo pensar na Cúria Romana como sendo um pequeno modelo da Igreja, ou seja, um “Corpo” que procura séria e quotidianamente ser mais vivo, mais sadio, mais harmonioso e mais unido em si mesmo e com Cristo.
Na realidade, a Cúria Romana é um corpo complexo, composto de muitos Dicastérios, Conselhos, Departamentos, Tribunais, Comissões e de numerosos elementos que não têm todos a mesma tarefa, mas são coordenados para um funcionamento eficaz, edificante, disciplinado e exemplar, não obstante as diversidades culturais, linguísticas e nacionais dos seus membros.
Em todo o caso, sendo a Cúria um corpo dinâmico, ela não pode viver sem alimentar-se e sem cuidar de si. De facto, a Cúria – como a Igreja – não pode viver sem ter uma r
​el
ação vital, pessoal, autêntica e sólida com Cristo. Um membro da Cúria que não se alimenta quotidianamente com aquele Alimento tornar-se-á um burocrata (um formalista, um funcionalista, um mero empregado): um ramo que seca e pouco a pouco morre e é lançado fora. A oração diária, a participação assídua nos Sacramentos, de modo especial, da Eucaristia e da reconciliação, o contacto quotidiano com a palavra de Deus e a espiritualidade traduzida em caridade vivida são o alimento vital para cada um de nós. Que todos nós tenhamos bem claro que sem Ele nada poderemos fazer (cf Jo 15, 8).

Consequentemente, a relação viva com Deus alimenta e fortalece também a comunhão com os outros, ou seja, quanto mais estivermos intimamente unidos a Deus tanto mais estaremos unidos entre nós porque o Espírito de Deus une e o espírito do maligno divide.
A Cúria está chamada a melhorar-se, a melhorar-se sempre e a crescer em comunhão, santidade e sabedoria a fim de realizar plenamente a sua missão. No entanto, ela, como todo corpo, como todo corpo humano, está exposta também às doenças, ao mau funcionamento, à enfermidade. E aqui gostaria de mencionar algumas destas prováveis doenças, doenças curiais. São doenças mais costumeiras na nossa vida de Cúria. São doenças e tentações que enfraquecem o nosso serviço ao Senhor. Penso que nos ajudará o “catálogo” das doenças – nas pegadas dos Padres do deserto, que faziam aqueles catálogos – dos quais falamos hoje: ajudar-nos-á na nossa preparação ao Sacramento da Reconciliação, que será um passo importante de todos nós em preparação do Natal.
1. A doença do sentir-se “imortal”, “imune” ou até mesmo “indispensável” pondo de lado os controles necessários e habituais. Uma Cúria que não faz autocrítica, que não se actualiza, que não procura melhorar é um corpo enfermo. Uma visita ordinária aos cemitérios poderia ajudar-nos a ver os nomes de tantas pessoas, algumas das quais pensassem talvez que eram imortais, imunes e indispensáveis! É a doença do rico insensato do Evangelho que pensava viver eternamente (cf Lc 12, 13-21) e também daqueles que se transformam em senhores e se sentem superiores a todos e não ao serviço de todos. Esta doença deriva muitas vezes da patologia do poder, do “complexo dos Eleitos”, do narcisismo que fixa apaixonadamente a sua imagem e não vê a imagem de Deus impressa na face dos outros, principalmente dos mais fracos e necessitados. O antídoto para esta epidemia é a graça de nos sentirmos pecadores e de dizer com todo o coração «Somos servos inúteis. Fizemos o que devíamos fazer» (Lc 17, 10).
2. Outra doença: a doença do “martalismo” (que vem de Marta), da excessiva operosidade: ou seja, daqueles que mergulham no trabalho, descuidando, inevitavelmente, “a melhor parte”: sentar-se aos pés de Jesus (cf Lc 10,38-42). Por isto Jesus chamou os seus discípulos a “descansar um pouco’” (cf Mc 6,31) porque descuidar do descanso necessário leva ao estresse e à agitação. O tempo do descanso, para quem levou a termo a sua missão, é necessário, obrigatório e deve ser lavado a sério: no passar um pouco de tempo com os familiares e no respeitar as férias como momentos de recarga espiritual e física; é necessário aprender o que ensina Coelet que «para tudo há um tempo» (3,1-15).
3. Há ainda a doença do “empedernimento” mental e espiritual, ou seja, daqueles que possuem um coração de pedra e são de “dura cerviz” (At 7,51-60); daqueles que, com o passar do tempo, perdem a serenidade interior, a vivacidade a audácia e escondem-se atrás das folhas de papel, tornando-se “máquinas de práticas” e não “homens de Deus” (cf Hb 3,12). É perigoso perder a sensibilidade humana necessária que nos faz chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram! É a doença dos que perdem “os sentimentos de Jesus ” (cf Fl 2,5-11) porque o seu coração, com o passar do tempo, endurece e torna-se incapaz de amar incondicionalmente ao Pai e o próximo (cf Mt 22,34-40). Ser cristão, com efeito, significa ter os mesmos sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2,5), sentimentos de humildade e de doação, de desapego e de generosidade.
4. A doença da planificação excessiva e do funcionalismo. Quando o apóstolo planifica tudo minuciosamente e pensa que, fazendo uma perfeita planificação, as coisas efectivamente progridem, tornando-se, assim, um contabilista  ou um comercialista. Preparar tudo bem é necessário, mas sem jamais cair na tentação de querer encerrar e pilotar a liberdade do Espírito Santo, que é sempre maior, mais generosa do que toda a planificação humana (cf Jo 3,8). Cai-se nesta doença porque «é sempre mais fácil e c
ô
modo adaptar-se às próprias posições estáticas e imutadas. Na realidade, a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo na medida em que não tem a pretensão de regulamentá-lo e de domesticá-lo… - domesticar o Espírito Santo! - … Ele é frescor, fantasia, novidade».

5. A doença da má coordenação. Quando os membros perdem a comunhão entre si e o corpo perde a sua funcionalidade harmoniosa e a sua temperança, tornando-se uma orquestra que produz barulho, porque os seus membros não cooperam e não vivem o espírito de comunhão e de equipe. Quando o pé diz ao braço: “não preciso de ti”, ou a mão à cabeça: “quem manda sou eu”, causando, assim, mal-estar ou escândalo.
6. Há também a doença do “alzheimer espiritual”: ou seja, o esquecimento da “história da salvação”, da história pessoal com o Senhor, do «primeiro amor» (Ap 2,4). Trata-se de uma perda progressiva das faculdades espirituais que num intervalo mais ou menos longo de tempo causa graves deficiências à pessoa, tornando-a incapaz de exercer algumas atividades autónomas, vivendo num estado de absoluta dependência das próprias visões, tantas vezes imaginárias. É o que vemos naqueles que perderam a memória do seu encontro com o Senhor; naqueles que não têm o sentido deuteron
ô
mico da vida; naqueles que dependem completamente do seu presente, das suas paixões, caprichos e manias; naqueles que constroem em torno de si barreiras e hábitos, tornando-se, sempre mais escravos dos ídolos que esculpiram com as suas próprias mãos.

7. A doença da rivalidade e da vanglória. Quando a aparência, as cores das vestes e as insígnias de honra se tornam o objetivo primordial da vida, esquecendo as palavras de São Paulo: «Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses , e sim os dos outros» (Fl 2,1-4). É a doença que nos leva a ser homens e mulheres falsos, e a vivermos um falso “misticismo” e um falso “quietismo”. O mesmo São Paulo os define «inimigos da Cruz de Cristo porque se envaidecem da própria ignomínia e só têm prazer no que é terreno» (Fl 3,19).
8. A doença da esquizofrenia existencial. É a doença dos que vivem uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre e do vazio espiritual progressivo que formaturas ou títulos acad
ê
micos não podem preencher. Uma doença que atinge frequentemente aquele que, abandonando o serviço pastoral, se limitam aos afazeres burocráticos, perdendo, assim, o contacto com a realidade, com as pessoas concretas. Criam, assim, um seu mundo paralelo, onde colocam à parte tudo o que ensinam severamente aos outros e começam a viver uma vida oculta e muitas vezes dissoluta. A conversão é por demais urgente e indispensável para esta gravíssima doença (cf Lc 15,11-32).

9. A doença das bisbilhotices, das murmurações e do mexerico. Já falei muitas vezes desta doença, mas nunca é suficiente. É uma doença grave, que começa simplesmente, quem sabe, para trocar duas palavras e se apodera da pessoa, transformando-a em “semeadora de cizânia” (como satanás), e em tantos casos “homicida a sangue frio” da fama dos seus colegas e confrades. É a doença das pessoas co
v
ardes que, não tendo a coragem de falar diretamente, falam pelas costas. São Paulo nos adverte: «Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes» (Fl 2,14-18). Irmãos, guardemo-nos do terrorismo das maledicências!

10. A doença de divinizar os chefes: é a dos que cortejam os Superiores, esperando obter a benevolência deles. São vítimas do carreirismo e do oportunismo, honrando as pessoas e não a Deus (cf Mt 23,8-12). São pessoas que vivem o serviço, pensando exclusivamente no que devem obter e não no que devem dar. Pessoas mesquinhas, infelizes e inspiradas só pelo seu próprio egoísmo (cf Gal 5,16-25). Esta doença poderia atingir também os Superiores, quando cortejam alguns seus colaboradores para obter a sua submissão, lealdade e dependência psicológica, mas o resultado final é uma verdadeira cumplicidade.
11. A doença da indiferença para com os outros. Quando alguém pensa somente em si mesmo e perde a sinceridade e o calor das relações humanas. Quando o mais especializado não coloca o seu conhecimento ao serviço dos colegas menos especialistas. Quando se chega ao conhecimento de algo e o esconde para si, ao invés de partilhar positivamente com os outros. Quando, por ciúme ou por astúcia, se sente alegria ao ver o outro cair, ao invés de erguê-lo e encorajá-lo.
12. A doença da cara fúnebre. Quer dizer, das pessoas grosseiras e sisudas que pensam que, para ser sérias, é necessário assumir as feições de melancolia, de severidade e tratar os outros – principalmente os que consideram inferiores – com rigidez, dureza e arrogância. Na realidade, a severidade teatral e o pessimismo estéril são muitas vezes sintomas de medo e de insegurança. O apóstolo deve esforçar-se por ser uma pessoa amável, serena e alegre que transmite alegria por toda parte onde quer que se encontre. Um coração repleto de Deus é um coração feliz que irradia e contagia de alegria todos os que estão à sua volta: é o que se vê imediatamente! Não percamos, portanto, aquele espírito jovial, cheio de humor, e até autoirônico, que nos torna pessoas amáveis, mesmo nas situações difíceis. Quanto bem nos faz uma boa dose de sadio humorismo! Far-nos-á muito bem recitar muitas vezes a oração de São Tomás Moro: rezo-a todos os dias; me faz bem.

13. A doença de acumular: quando o apóstolo procura preencher um vazio existencial no seu coração, acumulando bens materiais, não por necessidade, mas só para sentir-se seguro. Na realidade, nada de material poderemos levar connosco, porque “a mortalha não tem bolsose todos os nossos tesouros terrenos – mesmo que sejam presentes – jamais poderão preencher aquele vazio; pelo contrário, torná-lo-ão cada vez mais exigente e mais profundo. A estas pessoas o Senhor repete: «Dizes: sou rico, faço bons negócios, de nada necessito – e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu ... Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te» (Ap 3,17-19). A acumulação só pesa e freia inexoravelmente o caminho! E penso numa anedota: um tempo, os jesuítas espanhóis descreviam que a Companhia de Jesus era como a “cavalaria leve da Igreja”. Lembro-me da mudança de um jovem jesuíta que, enquanto carregava num caminhão os seus muitos bens: bagagens, livros, objectos e presentes, ouvi um velho jesuíta, que estava a observá-lo, dizer com um sorriso sábio: e esta seria a “cavalaria leve da Igreja?”. As nossas mudanças são um sinal desta doença.
14. A doença dos círculos fechados onde a pertença ao grupinho se torna mais forte do que a pertença ao Corpo  e, em algumas situações, ao próprio Cristo. Também esta doença começa sempre por boas intenções, mas com o passar do tempo, escraviza os membros, tornando-se um câncer que ameaça a harmonia do Corpo e causa tanto mal – escândalos – especialmente aos nossos irmãos menores. A autodestruição ou o “tiro amigo” dos camaradas é o perigo mais sorrateiro. É o mal que atinge a partir de dentro; e, como diz Cristo, «todo o reino dividido contra si mesmo será destruído» (Lc 11,17).
15. E a última: a doença do proveito mundano, dos exibicionismos, quando o apóstolo transforma o seu serviço em poder e o seu poder em mercadoria para obter dividendos humanos ou mais poder; é a doença das pessoas que procuram insaciavelmente multiplicar poderes e, com esta finalidade, são capazes de caluniar, de difamar e de desacreditar os outros, até mesmo nos jornais e nas revistas. Naturalmente para se exibirem e se demonstrarem mais capazes do que os outros. Também esta doença faz muito mal ao Corpo porque leva as pessoas a justificar o uso de todo o meio, contanto que atinja o seu objectivo, muitas vezes em nome da justiça e da transparência! E vem-me aqui à mente a lembrança de um sacerdote que chamava os jornalistas para lhes contar – e inventar – coisas privadas e reservadas dos seus confrades e paroquianos. Para ele a única coisa importante era ver-se nas primeiras páginas, porque assim se sentia “potente e convincente”, causando tanto mal aos outros e à Igreja. Pobrezinho!
Irmãos, estas doenças e tais tentações são naturalmente um perigo para todo cristão e para toda a Cúria, Comunidade, Congregação, Paróquia, Movimento eclesial e podem atingir quer em nível individual quer comunitário.
É necessário esclarecer que só o Espírito Santo - a alma do Corpo Místico de Cristo, como afirma o Credo Niceno-Constantinopolitano: «Creio... no Espírito Santo, Senhor e que dá vida» - pode curar todas as enfermidades. É o Espírito Santo que sustenta todo o esforço sincero de purificação e toda boa vontade de conversão. É Ele que nos faz compreender que todo o membro participa da santificação do Corpo ou do seu enfraquecimento. É Ele o promotor da harmonia: “Ipse harmonia est”, diz São Basílio. Santo Agostinho diz-nos: «Enquanto uma parte aderir ao corpo, a sua cura não é desesperada; mas o que foi cortado não pode nem curar-se nem sarar».
O restabelecimento é também fruto da consciência da doença e da decisão pessoal e comunitária de tratar-se, suportando pacientemente e com perseverança a terapia.
Somos chamados, portanto – neste tempo de Natal e por todo o tempo do nosso serviço e da nossa existência - a viver «pela prática sincera da caridade, crescendo em todos os sentidos, naquele que é a Cabeça, Cristo. É por Ele que todo o Corpo – coordenado e unido por conexões que estão ao seu dispor, trabalhando cada um conforme a actividade que lhe é própria – efectua esse crescimento , visando à sua plena edificação na caridade» (Ef 4,15-16).
Amados irmãos!
Certa vez li que os sacerdotes são como aviões: só fazem notícia quando caem, mas há tantos que voam. Muitos criticam e poucos rezam por eles. É uma frase muito simpática, mas também muito verdadeira, porque delineia a importância e a delicadeza do nosso serviço sacerdotal e quanto mal poderia causar um só sacerdote que “cai”, a todo o Corpo da Igreja.
Portanto, para não cair nestes dias em que nos preparamos à Confissão, peçamos à Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, que cure as feridas do pecado que cada um de nós tem no seu coração e que ampare a Igreja e a Cúria a fim de que sejam sadias e saneadoras; santas e santificadoras para a glória do seu Filho e para a nossa salvação e do mundo inteiro. Peçamos a Ela que nos faça amar a Igreja como a amou Cristo, seu Filho e nosso Senhor, e que tenhamos a coragem de nos reconhecermos pecadores e necessitados da sua misericórdia e que não tenhamos medo de abandonar a nossa mão entre as suas mãos maternais.
Os melhores votos de um santo Natal a todos vós, às vossas famílias e aos vossos colaboradores. E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim! Obrigado de coração!

​​​​​​​​10 ações de Obama para regularizar as torturas da CIA

 
 
 



Carta Maior, 23/12/2014
 
 
 
10 ações de Obama para regularizar as torturas da CIA

 
Por Nazanín Armanian
 
Quando Calígula nomeou Incitatus, seu cavalo, como cônsul de Britínia, ele insinuou que aquele império poderia seguir seu curso à margem da vontade de seus servis senadores.
 
Em 2008, o senador Barack Obama era a favor de processar os funcionários da CIA que cometeram atos atrozes de tortura, afirmando que “ninguém está acima da lei”, e que Guantánamo deveria ser fechada. Meses depois, e graças a seu lema “change”, Obama substituiu um Bush transformado em bode expiatório do sistema, e em breve ratificaria o conceito de “gatopardismo” do novelista Tomasi di Lampedusa: o de “mudar tudo para que nada mude”.
E agora, um presidente derrotado – tanto por perder as eleições ao Senado como por sua incapacidade de cumprir suas promessas – tenta reabilitar seu prestígio falando de torturas como se fossem fatos passados.

O relatório do Senado sobre as torturas da CIA cometidas entre 2002 e 2009 contra uma centena de cidadãos estrangeiros sequestrados demorou 5 anos para aparecer porque a agência e o próprio Presidente fizeram todo o possível para freá-lo: desde obstruir o acesso do Comitê do Senado aos documentos até instar o Departamento de Justiça para processar penalmente os pesquisadores, passando por hackear seus computadores até destruir os vídeos das torturas. Logo, o mesmo “sistema” (ambos os partidos) decidiu que o relatório – redigido originalmente em 6000 folhas e que, após a censura, ficou com cerca de 500 – fosse divulgado depois das eleições do último dia 4 de novembro.
 
O que o presidente Obama tem feito contra a tortura – essa “invasão ao mais profundo do ser, em um lugar a que ninguém pode chegar para ajudar, naquele lugar no qual as fronteiras do meu corpo se confundem com as fronteiras do meu eu”, nas palavras de Jean Améry, escritor preso pelos nazistas – é revelador:

1. Em 2008, ele arquivou os expedientes abertos por crimes da CIA e impediu a formação de uma comissão bipartidária da verdade que ia investigar não mais apenas “quatro maçãs podres”, mas toda a agência e muitos dos altos cargos do governo Bush.
 
2. Em sua intenção de encobrir a CIA, nomeou John Brennan como seu diretor: era o ex-chefe do Centro de Ameaças Terroristas da CIA na era Bush, e responsável pela base da Inteligência na Arábia Saudita (desconhece-se se sua posição teve a ver com não implicar a Arábia Saudita no 11 de setembro, quando diziam que 9 dos terroristas eram daquele país). E agora, apesar dos horrores que esses papéis revelam e em uma leitura pouco honesta deles, Obama volta a apoiá-los e ainda minimizando atos de envilecimento tão graves, como obrigar os presos a defecar em público, ultrajando seu mais profundo sentido humano. Ele não sente empatia pelas vítimas, mas sim com seus algozes: disse que lhes compreendia, pobrezinhos que “estavam sob uma grande pressão pelas circunstâncias” (em 2005, continuavam torturando os detidos de 2002, como se sua “informação” tivesse algum valor!). E Brennan, em vez de apresentar sua demissão e procurar um bom advogado, agradeceu a todos os seus “patriotas” subordinados, referindo-se aos torturadores, que segundo a Fundação Open Society, levavam aqueles martirizados aos “buracos negros” de 54 países, para continuar a torturá-los em suas masmorras. Bem, os amigos de Boko Haram fazem o mesmo, mas em seu próprio território, e não dão lições de moral a ninguém. O fato de um em cada quatro estados ter colaborado com esses crimes mostra a magnitude e a dimensão desses “alguns erros” aos quais Obama se referiu.
 
3. Assinou uma “ordem executiva” que proíbe a tortura, mas com dois matizes: primeiro, que só menciona a CIA, e não o resto das agências de inteligência, excluindo especial e conscientemente o Comando Conjunto de Operações Especiais, que possui seus próprios centros de detenção secretos pelo mundo; e segundo, que esta “ordem”, ao não passar pelas câmeras, poderia ser anulada pelo próximo presidente.
 
4. O presidente se nega a eliminar o “Apêndice M” do Manual do Campo do Exército sobre os interrogatórios, que autoriza os militares a usar a tortura físicas e psicológica nos prisioneiros.
 
5. Ele fez todo o possível para impedir a difusão de notícias e imagens sobre a tortura cometida pelos seus funcionários pelo mundo, e pressionou seus aliados cúmplices (desde britânicos até tailandeses) para manter ocultos esses crimes.
 
6. E falta à verdade quando diz que “Essa não é a forma como operamos”. Ele mesmo é o único chefe de Estado do mundo com uma “lista da morte” (kill list) para assassinar pessoas consideradas “terroristas”. Brennan é o autor de Disposition Matrix”, o software responsável por organizar essa lista.
 
7. Ao dizer que “torturamos algumas pessoas”, além de zombar de centenas de seres humanos esmagados por seus homens, mostra-se consciente de que as torturas da CIA não apareceram com as crueldades da Al Qaeda, e que os EUA as vêm praticando desde o início da Guerra Fria, e de forma sistemática.
 
8. O chefe do executivo está utilizando a doutrina do “Privilégio do segredo de Estado” (“state secrets privilege”) para evitar que as vítimas de tortura usem provas contra os funcionários do Governo em suas demandas.
 
9. Ainda que o reconhecimento formal do uso da tortura obrigue Obama a perseguir seus responsáveis, ele sugeriu que não vai processá-los. Voltará a olhar para o outro lado e colocará a “organizar o esquecimento” da sociedade, como ocorreu em 1976 com o Comitê Church, que determinou que os governos dos EUA – desde Roosevelt até Nixon – haviam prevaricado, chegando inclusive a assassinar líderes estrangeiros, e hoje está esquecido.
 

10. Não fechou Guantánamo, onde os presos “inocentes” ainda deverão esperar anos para serem colocados em liberdade.
 
Enquanto isso, os avisos de suspeitos atentados, assim como as verdadeiras torturas, continuarão justificando um pressuposto desmedido e o negócio da repressão – como o pagamento de 81 milhões de dólares a dois sádicos psicólogos que planejaram essas torturas –, apesar de que, segundo o Senado, não serviram para nada.
 
Nessa tragédia, a cumplicidade dos meios de comunicação de massa é assombrosa: são capazes de produzir empatia com, por exemplo, os sequestrados da cafeteria de Sidney (por um xiita fanático que, segundo o roteiro que eles difundiram, pedia a bandeira dos extremistas sunitas do Estado Islâmico que exterminam os xiitas!), enquanto ocultam o rosto humano e a dor dos inocentes cativos nas prisões ilegais da CIA, e o inferno da incerteza na qual também vivem seus filhos, pais e companheiros.
 
O relatório revela também as mentiras sobre o 11 de setembro, tais como o fato de Abu Zubaydah, sequestrado em 2002 e considerado “lugar-tenente” do terrorista saudita e “um organizador do 11/9”, por Michael Sheehan, ex-diretor do contraterrorismo do Departamento de Estado, nem sequer ser da Al Qaeda. O comitê do Senado ressalta ainda a inutilidade da tortura para revelar novas ameaças, ao contrário do que se argumentou no filme trash “A hora mais escura”, uma abominável apologia de tortura sobre o suposto assassinato do suposto Bin Laden.

Melhorando as “Verschärfte Vernehmung” nazistas
A CIA não apenas copiou o termo “técnicas de interrogatório melhoradas” dos nazistas (“Verschärfte Vernehmung”, para se referir à arrepiante palavra “tortura”, mas também se fez com elas: baseadas no triângulo de “posições de estresse, privação sensorial e humilhação sexual”, trata-se de torturas que não deixam marca visível no corpo, provocando em troca um intenso sofrimento e transtornos e traumas psicológicos. Métodos que estiveram presentes na história humana desde que seres dominaram e exploraram outros, e inclusive aparecem nos castigos divinos das religiões monoteístas contra os dissidentes.

A “arte” de tortura de “não tocar” da CIA consiste em: manter o preso em um estado permanente de terror, privação do sono até 180 horas em pé, colocá-lo em posições de estresse (pendurado pelos braços), a negação do contato humano durante longos períodos, colocar capuz e submeter o preso a fortes barulhos, o uso da hipotermia, o “submarino”, o choque elétrico, bater nas genitálias, mantê-lo ajoelhado durante horas, injuriar seus entes queridos, mantê-lo nu em público, e inclusive a ausência de pelos e cabelo é para despojar-lhe a dignidade humana e arruiná-lo como pessoa, e tudo para que uns carrascos sádicos se sintam superiores.
 
Jesse Leaf, o ex-agente da CIA no Irã, recorda que na década de 1960 ensinavam técnicas nazistas aos agentes do SAVAK iranianos, além de instrui-los quanto a outros métodos: sentar os homens e mulheres presos políticos em chapas quentes, simulacros de execução e de afogamentos, introduzir fragmentos de vidro e jogar água fervendo nas genitálias, submergi-los em tanques de fezes, arrancar-lhes as unhas e dentes, e colocá-los em posição fetal durante longos períodos em um pequeno ataúde. A CIA-SAVAK chegou a gravar cenas de tortura reais para distribuir o vídeo entre países como Taiwan, Indonésia e Filipinas.

Nos Kubark, os manuais de tortura desclassificados em 1996, a CIA e o Pentágono continuavam mostrando, sem qualquer controle, o “estado profundo” dos EUA.
 
Tortura como parte da Política Externa dos EUA
 
A tortura sistemática – que representa uma negação da democracia – faz parte da doutrina da política externa dos EUA, baseada na violência contra estados soberanos, na conquista militar de outros territórios e no espólio de recursos alheios. E exibir o terror é uma estratégia de intimidação, como quando quis estourar a bomba nuclear.
 
A informação útil que pode escapar de um ativista é aquela que é obtida nas primeiras horas de prisão. Submetê-lo à tortura durante meses e anos tem apenas o objetivo de difundir o pavor entre os que estão lá fora. Inclusive, exibir Guantánamo teve a função da “pedagogia do terror”; do contrário, teriam ocultado os réus na frota de barcos-prisões que os EUA mantêm nos mares.
 
Trata-se do país que levou adiante o Programa Phoenix contra o povo vietnamita, a Operação Condor na América Latina, ou a recente Operação Punho de Ferro no Iraque.
 
O único ponto positivo desse informe é que se absolvem os acusados da “teoria da conspiração” de ter denunciado as mentiras em torno do 11/9, de apontar o terrorismo de Estado e de desmontar a versão oficial dos atentados.
 
Trata-de do país onde a polícia (a força da repressão de Estado) pode matar os cidadãos negros (outros que são “Untermensch”, ou “sub-humanos”, nos termos nazistas) com total impunidade. Não é preciso esperar para ver algum “branco” norte-americano ou britânico e seus aliados no Tribunal Internacional por ter assassinado cerca de dois milhões de iraquianos e afegãos.

É certo que existem muitos governos que torturam seus opositores com esses mesmos métodos bárbaros, mas nenhum tem um braço tão grande e uma impunidade tamanha como a de que goza o ainda principal império planetário.
 
Os chefes dessa falsa democracia baseada no poder de provedores de “alimentação” retal a seres humanos cativos, abatidos e derrotados devem sentir muito mérito.
 
 
Tradução de Daniela Cambaúva

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Publicidade: o 'photoshop' do capitalismo contemporâneo

 
 
 




Carta Maior, 22/12/2014
 


​​
Publicidade: o 'photoshop' do capitalismo contemporâneo



Valter Palmieri Júnior - brasildebate.com.br



O capitalismo é marcado pelo seu caráter dinâmico, contraditório e de dominação política e ideológica, que transforma constantemente os vários aspectos do modo de vida, engendrando uma série de conflitos na sociedade, que, em um movimento também contraditório, adere e resiste aos novos “modelos” de vida civilizada.

Uma arma contemporânea do capitalismo que consegue violentar os valores sociais de modo muito sedutor é a publicidade (incluindo as estratégias de marketing e criação de marcas). Não criando valores e desejos novos, mas reforçando e manipulando os valores já existentes na sociedade.

A publicidade é uma espécie de photoshop do sistema, pois permite uma edição tridimensional do modo de vida capitalista, não apenas escondendo os efeitos violentos da mercantilização da vida social, mas milagrosamente transformando em fascínio algo que era para ser contestado.

Essa faceta da publicidade ocorre porque ela se tornou muito mais do que apenas um discurso para vender mercadorias, ela é a própria mercadoria, consumida e ressignificada. Por isso, é o principal objeto de consumo para descrever a nossa atual sociedade de consumo.

O sociólogo Jean Baudrillard explica de forma didática o papel da publicidade nos nossos dias ao compará-la com a figura do papai Noel.

Assim como as crianças não se importam com a existência real da figura natalina, uma vez que o importante é que seus pais lhes deem um presente em nome dele, as pessoas também não se importam com a veracidade do discurso da publicidade, dado que o essencial é a cumplicidade da crença.

Ou seja, o que importa é que ela seja compartilhada, já que a “crença” funciona apenas porque se funda na reciprocidade da manutenção da relação.

É fácil entender tal questão a partir da análise das próprias propagandas. Por exemplo, consumir o comercial da Coca-Cola hoje em dia é muito mais do que acreditar que é uma bebida saborosa, tanto que seu slogan é “viva o lado coca-cola da vida”, associando o produto com felicidade, liberdade e prazer momentâneo.

Consumir a propaganda de uma tintura de cabelos não é acreditar que quem utiliza o produto possuirá os cabelos iguais ao da Juliana Paes ou outra modelo do comercial, tanto que no slogan “L´oréal, porque você vale muito!” fica clara a tentativa de associar a marca com questões subjetivas valorizadas atualmente, como a elevada autoestima.

Para que a publicidade venda felicidade, modernidade, liberdade, autoestima, igualdade, exclusividade e outros valores, foi necessário que essas características se tornassem escassas para a maioria da população, para que se transformassem em objetos de desejo de consumo.

A sociedade de consumo tornou a sociabilidade ainda mais individualizada e impessoal, despersonalizando os indivíduos, uma vez que as relações sociais ocorrem por meio da manipulação do universo dos símbolos e signos das mercadorias.

O consumo torna-se, dessa forma, o principal critério de diferenciação social.

O conjunto de características psicológicas que determina os padrões de pensar, sentir e agir, ou seja, a individualidade é pautada, na sociedade atual, por intermédio do consumo e a sociabilidade ocorre através do meio do nível de aderência ao sistema de signos criados pelo processo produtivo, mas que mantêm um modo ativo com a sociedade, que participa na construção desses signos.

Ser alguém é estar constantemente atualizado no mundo da moda, não apenas em relação a carros, corpo, roupas e smartphones, mas, sobretudo, em valores, crenças e desejos.

É por esta razão que Jean Baudrillard afirma que o culto da diferença se funda na perda total das diferenças substantivas.

A diferença é que imprime a identidade ao indivíduo, a questão é que as diferenças que hoje importam se referem ao ter e não ao ser, a massificação anulou tanto as individualidades que elas passaram a ser fabricadas, por isso nossa sociedade é marcada pela despersonalização e culto a diferença não substantiva (supérflua), reduzindo o elo social.

Desse modo, em uma sociedade em que o que é valorizado é a abundância de objetos, a publicidade cumpre com o papel de preencher o vazio que o desenvolvimento capitalista nos trouxe ao coisificar o ser humano e humanizar as coisas.

Sendo, por esta razão, um editor das imagens do capitalismo, fazendo as pessoas acreditarem que o real é a imagem falseada criada a partir do real.

Outra característica importante da publicidade é seu papel de democratizar e homogeneizar os desejos de consumo (em escala global por meio das transnacionais).

Afinal, apenas o desejo coletivo é capaz de criar as ‘necessidades’ sociais, porque os indivíduos só acreditam na publicidade porque confiam que os outros também estão acreditando.

Por exemplo, um outdoor do novo carro do ano que se encontra em um local onde milhares de pessoas irão ver e desejar todos os dias, mas apenas uma porcentagem ínfima irá conseguir realizar esse desejo e apenas por isso é objeto de ambição.

Um grande problema que cresce com o tempo é que os gastos com publicidade crescem em nível mundial em uma taxa maior do que o crescimento da renda média em uma sociedade estruturalmente desigual, tornando cada vez mais problemático acreditar no mito da abundância, pois fica cada vez mais claro que esse mito se sustenta no seu oposto.

Resistir a toda essa lógica começa justamente em enxergar os grandes problemas contemporâneos sem nenhuma farsa, sem nenhum photoshop.

Enxergar a raiz dos problemas é o único meio de produzir formas de enfrentamento, uma vez que não é possível curar uma doença apenas com o conhecimento dos sintomas superficiais, é necessário compreender o que está provocando o surgimento e desenvolvimento da doença.

Sabemos que a publicidade é apenas um componente da lógica do sistema capitalista, mas que tem um papel cada vez mais fundamental ao ampliar a alienação, contribuindo para que a sociedade exalte uma falsa e ilusória abundância, ao invés de resistir à violência de um sistema essencialmente excludente.

Aderir à sociabilidade que a publicidade explicita é muitas vezes irresistível, é extremamente difícil não participar das novas tecnologias e formas de interação social criadas. Por isso, o caminho é resistir coletivamente, construindo novas formas de se viver em sociedade.

 
*Valter Palmieri Júnior é mestre em Desenvolvimento Econômico pelo IE-Unicamp e, atualmente, doutorando do mesmo programa na área social e do trabalho