quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Dentre todos os rostos da Cracolândia, a Veja só enxerga a loira

 
 
 
 
 

Spresso SP, 26/11/2014



Dos rostos da Cracolândia, a Veja só enxerga um: o branco



Por Ivan Longo





É difícil distinguir alguém no bloco de maltrapilhos que andam a esmo na região, feito zumbis [...] Uma loira magra, de 1,79 metro de altura e olhos verdes, no entanto, não consegue passar despercebida”. Assim, que a matéria de capa de Veja São Paulo do último sábado introduz a sua personagem. Ignorando as outras centenas de pessoas que vivem em situação de miséria e dependência química na região da Cracolândia, centro de São Paulo, a revista traça um perfil e conta a história da jovem Loemy, que deixou o Mato Grosso há alguns anos e veio para a capital paulista para tentar engatar na carreira de modelo.

Capa da revista Veja São Paulo e Loemy, em foto de ensaio, antes de começar a viver na Cracolândia. (Foto: reprodução/divulgação)


Hoje, Loemy vive na Cracolândia, da mesma maneira que os outros dependentes químicos: pedindo esmolas, por vezes assaltando, com poucos ou nenhum cuidado médico e fazendo uso abusivo de drogas. Ela também vaga pelo chamado “fluxo” dopada de crack e fica alucinada, aos maltrapilhos, como os outros usuários – estes, em sua maioria negros, a Veja prefere chamar de “zumbis”. O que a ex-modelo tem, portanto, de diferente em relação à toda aquela população de rua e dependente de crack? A própria publicação responde: ela é loira, magra, de 1,79 metro de altura, olhos verdes e ex-modelo.

Para a Veja, ela não pertence àquele cenário e precisam resgatá-la de lá. Só ela. Salvando-a, evitam que todos os outros à sua imagem e semelhança caiam no fosso. Como se fosse uma espécie de aviso psicológico aos jovens e às crianças brancas. O restante não importa, são pretos e pardos”, afirmou a professora de história e militante do movimento negro Luzia Souza, que recebeu, recentemente, o título de uma das 25 negras mais influentes da internet.

Esse tipo de recorte feito pela reportagem acaba por reforçar a invisibilidade a qual negros e pobres, principalmente dependentes químicos, são submetidos pela sociedade e pela imprensa. A matéria da Veja mostra, indiretamente, que só aquele perfil merece atenção, em detrimento das tantas outras pessoas que passam pelos mesmos problemas. A grande diferença consiste no fato de que a loira de olhos verdes e com um futuro promissor representa um exemplo perfeito, para a classe média e branca, do que não pode e não deve acontecer. A ex-modelo, neste sentido, torna-se uma grande vítima, que não deveria estar naquele lugar, enquanto todos os outros seriam vilões.

Para o psiquiatra Dartiu Xavier, diretor do Proad (Programa de Orientação e Assistência a Dependentes), da Universidade Federal de São Paulo, e uma das maiores referências do assunto, a matéria da Veja ajuda a manter o preconceito criado por essa mesma imprensa que exclui as minorias e contribui para a falta de entendimento de um problema tão delicado que é o crack.
A Veja se transformou em imprensa marrom, não faz jornalismo. Esse tipo de matéria só reforça o estereótipo do que as pessoas entendem por Cracolândia, que está completamente fora da realidade”, afirmou Xavier.

“Desde que o crack passou a dominar o cenário das grandes cidades, sobretudo de uma cidade como São Paulo, essas pessoas causam ódio, nojo e incômodo. Assim se tornam invisíveis. Não seria nada bonito, nem saudável, nem venderia revistas, colocar negros na capa, isso jamais emocionaria as pessoas, assim como também ninguém se emociona quando um negro não passa despercebido ao ser morto, ou espancado, confundido com bandido. É normal”, reforçou Luzia Souza.

Tabelando com Luzia, o psiquiatra, que há mais de 15 anos frequenta a Cracolândia, acredita também que a reportagem passa o entendimento errado em relação à droga, de que seria ela que levava as pessoas à condição de rua e miséria quando, na verdade, o que acontece, é justamente o contrário.

As pessoas acabam partindo do princípio de que a droga colocou aqueles usuários em situação de miséria, quando na verdade foi a miséria que os levou à droga. Essa vitimização da pessoa pela sua aparência e status social é extremamente perigosa. Quando é branco e rico, é vítima. Quando é preto e pobre, culpado”, analisou.

Assim como Loemy, centenas de outros usuários de crack da Cracolândia tinham uma condição financeira e social completamente diferente e, em um determinado momento da vida, perderam tudo e encontraram na droga um caminho para amenizar a dor. Será que essas tantas outras pessoas da região, majoritariamente negras, também não tem histórias de vida para contar? Ou foram, a vida inteira, viciados em droga? Por qual motivo, então, essas pessoas são completamente ignoradas pela mídia tradicional enquanto a figura de Loemy desperta interesse ao ponto de ser capa de uma das revistas de maior circulação no país?

Luzia de Souza responde: “Não tem importância relevante o crack, nem o extermínio dos jovens, nem a mendicância, nem a pobreza de crianças e jovens pretas e pardas. Está no imaginário popular, fomentado pelas mídias como Veja, que nós todos temos tendência ao crime, ao abismo social, à pobreza e que nos adaptamos com maestria nesses cenários, não os brancos de olhos azuis. Nós só causamos revolta e eles causam sentimento de piedade”, disse.

Vale lembrar também que a Veja é a mesma revista que, em 2009, usou sua capa para reforçar seu apoio à criminalização dos usuários de droga. Com a chamada “Quem cheira, mata”, a publicação tentou associar o consumidor ao traficante e, indiretamente, à criminalidade. Na reportagem de capa deste sábado, no entanto, a usuária, Loemy, é tratada de maneira humanizada e em nenhum momento é ligada ao crime. Será que, para a Veja, a ex-modelo compra drogas em um mercado paralelo ao dos traficantes?

Durante toda a reportagem, a jovem loira que se “afundou” no mundo do crack é tratada como uma usuária em detrimento de todas as outras pessoas que ali vivem, que são simples “viciados” ou ainda pior, limitam-se a números. No final da matéria há, inclusive, um balanço que aponta a “Cracolândia em números”. Afinal, para a publicação, história humana ali só há uma: a da que “não pertence” àquele lugar.

Loemy, agora, parece ter um futuro um pouco mais promissor. Após a repercussão da reportagem da revista da editora Abril, a dependente química foi chamada para gravar um programa com o apresentador Rodrigo Faro, na TV Record. Ela agora está em um hotel, sob cuidados médicos, com tudo pago pelo programa. E a emissora promete ainda custear um tratamento em uma clínica de reabilitação para “resgatar” a usuária.

Em fevereiro deste ano, a reportagem da Fórum esteve na Cracolândia quando flagrou um usuário parecido com Loemy, só que negro, pedindo às equipes de reportagem de veículos da imprensa tradicional que o dessem um violão, pois seria a “única coisa” que o faz feliz. O homem não só não ganhou um violão como sequer estampou qualquer capa de algum desses veículos.
Loemy precisa de ajuda, diz a chamada da capa da Veja. A Cracolândia também.

Arte: Vitor Teixeira




Haiti: Forças de paz da ONU deixam mães e bebês para trás



Portal Forum, 25/11/2014


Haiti: Forças de paz da ONU deixam mães e bebês para trás



Por Amy Bracken* | Tradução: Agência Pública





Quando os militares estadunidenses deixaram o Vietnã em 1973, deixaram algo de um legado vivo. Recrutas norte-americanos haviam engravidado dezenas de milhares de mulheres vietnamitas. O governo dos Estados Unidos eventualmente criou um visto especial para aquelas crianças, muitas delas pobres, e fundou um centro residencial para elas. Mas esta situação não se limita à ocupação americana do Vietnã, ou sequer a situações de guerra. Ela também é um efeito colateral, frequentemente esquecido, das missões de paz da ONU.

As Nações Unidas realizaram 69 missões de paz desde 1948, e há atualmente cerca de 100 mil membros uniformizados da ONU em 17 operações pelo mundo. É sabido que algumas deixam para trás crianças ou mulheres grávidas, mas não há qualquer sistema para reivindicação de paternidade através da organização.

Na cidade litorânea de Port Salut, Sasha Francesca Barrios, 5, tem a atenção de sua mãe e de alguns visitantes. Ela fala sobre a escola e canta a popular canção infantil haitiana Ti Zwazo, ou “Passarinho”. E quando sua mãe pede que identifique o jovem de pele clara em uma foto, ela logo responde, “Papa m”, ou “meu papai”.

Barrios vive em uma pequena casa com mãe, avó e tia. A mãe, Roselaine Duperval, conta que o pai de Sasha era um membro da Marinha na missão de paz da ONU no Haiti – comandada pelo Brasil – conhecida por seu acrônimo em francês, Minustah. Mas Barrios nunca o conheceu.

“Eles vieram aqui, e tinha um que era bom comigo,” Duperval conta. “Ele disse que me amava, e nós estávamos juntos. Eu nunca imaginei que, se eu ficasse com ele e tivéssemos uma filha, ele me abandonaria e não ajudaria a criança.”

Mas ela engravidou, e diz que o marinheiro, que era do Uruguai, deu a ela $200 no começo da gravidez, mas deixou o Haiti antes de Sasha nascer. Ela nunca ouviu falar nele novamente. Agora, Roselaine sobrevive com serviços de manicure e pedicure na casa das pessoas. “Eles vêm a nosso país para nos ajudar”, ela diz, “e não nos ajudam; têm filhos conosco e vão embora. Eu preciso de ajuda para minha filha, para pagar a escola. É responsabilidade da Minustah. Estamos em um país sem emprego. Precisamos de ajuda da ONU. Eles sabem que as tropas da Minustah deixam bebês aqui, crianças sem pais.

Sete mães, sete filhos abandonados


Ela diz ‘nós’ porque conhece outras mulheres na mesma situação. Em fevereiro, a ONU levou até a capital sete mães, incluindo Roselaine, com suas crianças para fazer testes de DNA. Agora as sete mulheres estão esperando pelos resultados. Um militar uruguaio diz que os supostos pais foram solicitados a enviar amostras de DNA. Se a paternidade for confirmada, fica a cargo da Justiça uruguaia decidir o que fazer.

É claro que comprovar paternidade e conseguir apoio à criança também é um desafio quando o pai é um haitiano local. Mas a ativista comunitária Miriame Duclair diz que é muito mas difícil quando o pai é um estrangeiro da missão de paz. “A diferença,” Duclair diz, “é que se o pai é haitiano, geralmente a família vai ajudar a mãe… Mas quando um estrangeiro deixa uma criança, não há ninguém para ajudar. Quando a ONU fala em vir ao Haiti para estabilizá-lo, não é verdade. Eles estão desestabilizando.”
A ONU possui uma política para facilitar alegações de paternidade e apoio à criança nesses tipos de casos, mas cabe ao país de origem dos soldados dar continuidade ao processo.

Relação de exploração


O coronel do Exército uruguaio Girardo Frigossi diz que, não importam quais sejam as circunstâncias, relações sexuais entre soldados da ONU e cidadãos locais nunca são aceitáveis. “Não há possibilidade de relação, consensual ou não,” ele diz, “porque o poder está com o soldado da ONU, porque eles têm comida, eles têm água, eles podem prover segurança, eles têm dinheiro.”

Sylvain Roy, da Unidade de Conduta e Disciplina (CDU) da ONU, é ainda mais claro. “Ainda que a mãe concorde,” ele diz, “o relacionamento é explorador.

Rose Mina Joseph tinha 16 anos quando ficou grávida, ela conta, de um soldado uruguaio de 35 anos. Ela não descreve sua relação como exploradora, mas deixa claro que a comida oferecida por ele foi parte da situação. “Os missionários davam proteção, e ajudavam as crianças aqui,” ela diz. “Eles davam a elas um pouco de comida, e tudo mais, e a mim também.” Ela mostra uma foto sua, no aniversário de 17 anos, com o namorado soldado atrás de um bolo e de uma mesa coberta por comida. Mas, após ele deixar o Haiti, ele deixou de atender o celular e mandar dinheiro, conta ela.

Um oficial no Uruguai diz que o suposto pai concordou em fazer o teste de DNA. Se for comprovada a paternidade, o caso será decidido em um tribunal nacional. “Eu quero que a Minustah me tire da pobreza,” Joseph diz, “para colocar eu e minha criança em um lugar melhor.”

Nenhum pedido reconhecido


É um desejo comum, mas Joseph está em um território quase inexplorado, ainda que o Uruguai esteja fazendo algo sobre isso. A ONU começou a compilar estatísticas de reivindicação de paternidade apenas no ano passado. E elas mostram apenas 19 reivindicações substanciais contra membros de missões de paz pelo mundo entre 2010 e 2012. Um relatório independente sugere que havia muitos outros requerimentos antes da ONU começar a registrá-los. E muitas mães não estão pedindo paternidade porque não há um sistema conhecido para tanto. As mulheres de Port Salut só ganharam a atenção da ONU graças a um jornalista americano que escreveu sobre elas em 2011.

Você não pode esperar que uma mulher vivendo no meio do Congo, por exemplo, consiga entrar com um pedido de reconhecimento de paternidade e apoio à criança em uma corte de outro continente,” diz Roy, da CDU. “Mas essa é uma situação com a qual precisamos lidar.”

E para aqueles que conseguem entrar com os pedidos, as coisas não parecem promissoras. Um relatório da ONU do começo deste ano diz que, “Segundo o conhecimento da Organização, ainda não há um pedido de paternidade reconhecido através de ações judiciais em qualquer país com auxílio de tropas ou da polícia.”

* Amy Bracken é uma jornalista freelancer baseada em Boston que sobre questões relacionadas com o Haiti.

Essa reportagem foi produzida pelo site 100Reporters, em parceria com o programa The World da Public Radio International. Clique aqui para ler o original, em inglês. 
  
Foto de Capa: Amy Bracken




http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/11/o-que-acontece-quando-um-menino-e-estuprado-pela-minustah-haiti/



Portal Forum, 26/11/2014


O que acontece quando um menino é estuprado pela Minustah no Haiti?



Por Amy Bracken*, na Agência Pública


 
A Place d’Armes, praça localizada no centro da cidade de Goinaves, no norte do Haiti, é movimentada por comerciantes e grupos de amigos reunidos para descansar e socializar. Mas ali perto há uma área é menos frequentada – um trecho de tijolos cheios de arame farpado e pilhas de lixo.

“Foi ali que aconteceu, por lá”, diz meu companheiro.

O local abrigava um posto do contingente das tropas de paz paquistanesas – uma unidade policial das Nações Unidas que faz parte da missão de paz comandada pelo Brasil. Eles deixaram o lugar desde a chegada das tropas argentinas, que se instalaram em outra parte da cidade.
Segundo o relato de moradores da região foi ali que, no início de 2012, eles
testemunharam o estupro de um garoto de 14 anos, portador de deficiência mental. O adolescente foi violentado por policiais das Nações Unidas em um carro oficial. Os fatos foram esquecidos por algumas pessoas na Place d’Armes. Para outros, a história ainda está viva.
O jovem Adler Delismat conserta telefones celulares. Segundo ele a vítima – vamos chamá-lo de Jean – era “um dos garotos que andam por aqui”. “Foi abandonado pela família. Os soldados sempre davam a ele algo para comer. Ele lustrava sapatos dos oficiais e eles lhe davam um pouco de dinheiro. Até que em uma manhã, nós soubemos que Jean havia sido estuprado pelos soldados. É inaceitável. Eu sei que a lei haitiana não permite isso.”

Tecnicamente, a lei haitiana não se aplica a missões de paz estrangeiras, de acordo com a Convenção sobre Privilégios e Imunidades da ONU.

A disciplina é uma responsabilidade do país pacificador, a menos a imunidade seja suspendida pelo Secretário Geral, o que não acontece com militares e quase nunca com policiais.
Há pouco mais de uma década, as Nações Unidas intensificaram as medidas de formação e investigação para tentar resolver problemas de exploração e abuso nas suas forças de paz. Assim foi criada a Unidade de Conduta e Disciplina (CDU). Sylvain Roy, da CDU, insiste que a soberania do Estado-Membro não significa que a ONU é impotente quando se trata de disciplina. “Existe a necessidade de uma parceria”, diz ele, “que seja reconhecida pelo Estado-Membro e que nos permita abordar e tentar encontrar uma solução de forma mais abrangente.”
Em outras palavras, mesmo que a disciplina seja responsabilidade do país pacificador, a ONU pode tentar influenciar nessa decisão.


Foram anos de abusos sexuais

 

No caso de Jean, a ONU trouxe especialistas de Brindisi, na Itália, e de Nova Iorque para trabalhar na investigação. De acordo com oficiais das Nações Unidas que pediram para não serem identificados, o que os investigadores encontraram é muito pior do que se pensava: o abuso ocorreu por anos. Jean era passado de um contingente para o próximo.

Além disso, segundo os oficiais, foi descoberto que, quando soube que investigadores da ONU estavam a caminho, o comandante do contingente contratou um homem haitiano para levar Jean para outra cidade para escondê-lo dos investigadores.

Após a investigação, o Senado haitiano aprovou uma resolução pedindo que a ONU suspendesse a imunidade do país-membro. Os ministros da Justiça e das Relações Exteriores fizeram o mesmo pedido formalmente. “Estávamos abertos a todas as negociações para resolver o problema amigavelmente”, diz Arsene Dieujuste, o advogado da família de Jean.

Ele diz ter pressionado funcionários do governo para que eles pressionassem os agentes da ONU. Os agentes da ONU negociaram com autoridades paquistanesas, pedindo que os soldados fossem submetidos a um julgamento no Haiti com a condição de que o condenado ficasse em acomodações alternativas, e não na prisão local.

Um oficial da ONU que pediu para não ser identificado relatou estar presente em uma reunião com membros do alto escalão da organização na qual os participantes concordaram que algo dramático deveria ser feito. Suspensão de imunidade, condenação efetiva do comandante… alguma coisa. O oficial lembrou que havia um senso de determinação – alguns soldados batiam os punhos na mesa na reunião. Mas, segundo ele, a reunião foi seguida por um jantar entre o representante paquistanês para as Nações Unidas e o chefe das missões de paz da ONU. Depois disso, os esforços para que medidas exemplares fossem tomadas foram abandonadas. Seguiu-se a mesma rotina de sempre.

Afinal a corte marcial foi realizada no Haiti, com o acusado julgado e sentenciado por seus pares. O principal acusado confessou, foi expulso da corporação e condenado a um ano de prisão no Paquistão. Outros dois policiais também foram expulsos.
Nenhuma das pessoas contatadas pela reportagem, tanto na ONU quanto representantes do Paquistão, aceitaram o pedido de entrevista.


Daria para responsabilizar comandantes, diz CDU

 

Roy, da CDU, só lamenta as ações da ONU para casos como este quando um comandante está envolvido. “Eu não vejo porque não se poderia solicitar responsabilização contra os comandantes das tropas” diz ele, “se temos provas… havia ordens e medidas tomadas por comandantes para interferir em uma investigação”.

Eu pergunto, “você pode ir além de solicitar?”

“Aí teríamos que entrar no relacionamento entre a ONU e o Estado-membro”, diz ele. “Mas a responsabilização pode não ser aplicada sempre, apesar da nossa crença de que poderia ser.”
Se a ONU não está satisfeita com um Estado-membro, ela pode expulsá-lo de uma missão. No entanto, segundo um oficial da organização, as missões de paz paquistanesas fazem um ótimo trabalho. Eles também são os maiores contribuidores para missões de paz, com mais de 8 mil policiais, tropas e peritos militares implantados. Embora a ONU pague os governos que contribuem em missões de paz, um funcionário diz que há uma resistência em dizer algo que ofenda aqueles que colocam seu pessoal em risco.

Para o advogado Dieujuste, não faz sentido que a ONU não seja responsabilizada. “Nós não conhecemos o Paquistão”, diz Dieujuste. “Quando vemos um carro com o símbolo da ONU, nós não sabemos se é francês ou o que é. A ONU é a instituição. Portanto, cabe à ONU acertar as contas.”

Dieujuste está pedindo uma indenização de 5 milhões de dólares para a família de Jean. Ele considera a quantia uma maneira de iniciar as negociações e diz que o dinheiro deve corresponder à hediondez do crime. Mas cerca de 20% seria o pagamento do seu trabalho como advogado.

Sem indenização

 

Néumie Joseph trabalha para uma agência de proteção cidadã haitiana em Gonaives e está familiarizada com o caso de Jean. Ela diz que se os autores do crime fossem haitianos comuns, provavelmente Jean não teria uma representação adequada e o caso teria fracassado. Para ela, o público quer manter a ONU em um padrão mais elevado. “As ações de um ou dois indivíduos prejudicam a imagem da instituição”, afirma. “Os indivíduos podem ser presos, mas no caso de Jean, as pessoas precisam ver que a justiça foi feita pela instituição. A vítima precisa ser indenizada.”

De acordo com Roy, a ONU não dá indenizações em dinheiro, mas tem uma política de conectar as vítimas aos serviços da organização.

Agora Jean está sob custódia do governo haitiano, morando em um abrigo de uma organização sem fins lucrativos fora e Porto Príncipe e sem relações com a ONU. Não está claro se o Paquistão fez alguma contribuição para a família de Jean ou para o abrigo.

Com Diejuste e Junie Adain, a meia-irmã mais velha de Jean, dirigimos quatro horas para encontrá-lo. É um local pacífico, com pequenos prédios dispersos, decorado com esculturas de animais e árvores floridas. Esperamos em um quarto comum arejado e alegre, então Jean chega, sorrindo desconfiado.

Adain se aproxima do irmão cautelosamente, comentando sobre os quilos que ele ganhou. É uma coisa boa, e ele parece dizer em poucas palavras que está feliz ali. Mas Adain não está sorrindo. “Os soldados precisam ter vergonha do que fizeram”, ela diz. “Eles se aproveitaram da deficiência mental dele. Sabiam que não falaria.

E fizeram isso várias vezes. Mesmo que eles nunca paguem uma indenização, vão pagar no dia do juízo final.”
Adain diz que a família merece uma indenização por ter sido tão envergonhada. Insiste que gastaria o dinheiro para garantir que o irmão tenha uma vida boa.

Por enquanto, esse abrigo financiado por fundações parece estar finalmente proporcionando a Jean a proteção e a segurança alimentar que lhe faltaram quando criança, quando polia os sapatos dos soldados das missões de paz em troca de comida, dinheiro e amizade.


* Amy Bracken é uma jornalista freelancer baseada em Boston que sobre questões relacionadas com o Haiti.

Essa reportagem foi produzida pelo site 100Reporters, em parceria com o programa The World da Public Radio International. Clique aqui para ler o original, em inglês.   

Drones dos EUA mataram 28 civis para cada execução de militante



http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/11/eua-mataram-28-civis-para-cada-execucao-de-terrorista-com-uso-de-drones-nos-ultimos-dez-anos/




Portal Forum, 26/11/2014



EUA mataram 28 civis para cada execução de terrorista com uso de drones nos últimos dez anos



Por Patrícia Dichtchekenian, do Opera Mundi




De acordo com o relatório, o método de eliminar terroristas a partir de múltiplos disparos provenientes de veículos aéreos não tripulados apresenta mais efeitos colaterais graves para os direitos humanos do que soluções em longo prazo: de 2004 para cá, 1.147 civis foram mortos na tentativa de assassinar 41 lideranças de organizações como Al Qaeda e Talibã.

Bombardeios de drones têm sido vendidos para o público norte-americano sob a justificativa de que esses ataques são ‘precisos’. Mas não há nada rigoroso quando isso resulta na morte de centenas de desconhecidos – homens, mulheres e crianças”, critica a advogada Jennifer Gibson, responsável pelo estudo.

Uma das principais armas de guerra na gestão do presidente dos EUA, Barack Obama, os drones suscitam questões acerca da capacidade de precisão da inteligência norte-americana. Nos últimos oito anos, por exemplo, inúmeras foram as tentativas de eliminar Ayman Zawahiri, líder da Al Qaeda no Paquistão: em duas investidas em 2006, pelo menos 76 crianças e 29 adultos foram mortos pelos drones, comprovando a ineficiência da ferramenta.

O Paquistão, aliás, é um dos principais alvos dos aviões não tripulados norte-americanos: no país, drones assassinaram 24 lideranças terroristas, mas isso veio concomitantemente à morte de ao menos 874 civis, dentre os quais 142 crianças.

No entanto, há muitas mortes de terroristas que não conseguem realmente ser confirmadas. Há ocasiões, por exemplo, que algumas baixas são registradas e contabilizadas duas vezes. Em outras, a identidade do alvo também se revela errônea.

Além disso, há casos em que líderes são encontrados mortos em circunstâncias diferentes de ataques aéreos. Paralelamente, existem sérios problemas com a análise de dados de ataques de drones dos EUA, já que muitas ofensivas ocorrem embaixo do pano oficial.
 

O gráfico Pitch Interactive contabilizou ataques e mortes com drones no Paquistão, clique aqui para ver a multimídia



“O presidente Obama precisa ser direto e franco com o povo norte-americano sobre o custo humano deste programa”, afirma Gibson ao jornal The Guardian. Se até mesmo o seu governo não sabe quem está dentro dos sacos de corpos a cada vez que uma ofensiva dá errado, as alegações de que este é um programa com rigor de precisão me parece um absurdo”, acrescenta.

No ano passado, um levantamento que pode ser visto no gráfico interativo “Out of Sight, Out of Mind” mostra que, dos mais de 3 mil mortos contabilizados pelo projeto desde 2004, apenas em 1,5% dos casos houve confirmação de ligações com atividades terroristas.
Como esses bombardeios acontecem em zonas de guerra perigosas e com pouca cobertura midiática, é difícil contar com apenas dados de militares norte-americanos que são muitas vezes as únicas fontes no local e podem manipular o número real de baixas, distorcendo o impacto dos drones nesses países.

Há quem tenha medo que o medo acabe




http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Guerra-sem-fim-no-Oriente-Medio/6/32304



Carta Maior, 26/11/2014 


Guerra sem fim no Oriente Médio


 
PorReginaldo Nasser, Fórum (*)




Vocês sabem qual pais é um grande produtor de petróleo, vizinho de um membro da Otan, onde há militantes muito bem armados com histórico de práticas de execução, extorsão e decapitação de pessoas? Nesse país também está em marcha uma sistemática campanha contra repórteres, além de milhares de pessoas escravizadas, tráfico de mulheres e uma série de ações de intimidação nas comunidades nativas. Quem pensou na Síria, Iraque e no grupo Isis errou, pois estamos falando do México. Além disso, os cartéis mexicanos não só já realizaram ataques e assassinatos dentro dos EUA, mas já mataram mais cidadãos norte-americanos dentro dos próprios EUA do que os atentados terroristas no dia 11 de Setembro.

Apesar de tudo isso, é o Isis que representa “um claro e real perigo “para os EUA, de acordo com general Martin Dempsey, chefe do Estado-maior, que acrescentou ser necessário formar uma coalizão internacional para enfrentá-los. O secretário de Defesa Chuck Hagel afirmou ainda que o Isis representa uma ameaça superior à de grupos como a al-Qaeda, e acredita que combatentes estrangeiros com passaportes ocidentais poderiam realizar ataques em qualquer lugar do mundo.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Washington Post-ABC News no mês de outubro, 90% dos norte-americanos avaliaram o Isis como uma séria ameaça aos interesses vitais dos EUA. Esse estado de espírito foi muito bem orquestrado pelo governo e mídia. Uma pesquisa realizada pela FAIR (o grupo de verificação da mídia nacional) sobre os principais programas de debates, mesas-redondas e entrevistas na TV entre os dias 7 a 21 de setembro (quando teve inicio exposição dos vídeos de decapitações) avaliou que, do total de 205 fontes que apareceram em programas discutindo opções militares na Síria e no Iraque, apenas seis dessas pessoas expressaram oposição à intervenção militar dos EUA. Listas de convidados foram constituídas, em sua grande maioria por funcionários e ex-funcionários da Casa Branca, bem como por oficiais militares ligados ao Pentágono. (No Debate and the New War).

Essa percepção de que o Isis representa uma “ameaça existencial” permitiu, por sua vez, que o presidente Barack Obama solicitasse ao Congresso o montante de 5,6 bilhões de dólares para o inicio de uma nova guerra liderada pelos EUA no Iraque e na Síria. Assim, a Síria poderá tornar-se o 14º país islâmico que as forças dos EUA já invadiram, ocuparam ou bombardearam, e em que os soldados norte-americanos mataram ou foram mortos desde 1980. São eles: Irã (1980, 1987-1988), Líbia (1981, 1986, 1989, 2011), Líbano (1983), Kuwait (1991), Iraque (1991-2011, 2014-), Somália (1992-1993, 2007-), Bósnia (1995), Arábia Saudita (1991, 1996), Afeganistão (1998, 2001-), Sudão (1998), Kosovo (1999), Iêmen (2000, 2002-), Paquistão (2004-).


Como se sabe, em todas essas operações militares ocorre, previamente ou posteriormente, a montagem de uma enorme infraestrutura de guerra. As estimativas de gastos giram em torno de 10 trilhões de dólares ao longo das últimas quatro décadas com o argumento de combater ameaças e promover estabilidade no Grande Oriente Médio (America’s Bases of War in the Greater Middle East. From Carter to the Islamic State 35 Years of Building Bases and Sowing Disaster By David Vine Global Research, November 17, 2014).

À medida que os EUA se tornam, cada vez mais, uma sociedade multicultural e plural, torna-se cada vez mais difícil moldar um consenso sobre questões que envolvam ações militares internacionais, exceto nas circunstâncias em que se configura a iminência de uma ameaça externa poderosa (real ou virtual). Nas últimas décadas, os policymakers e a mídia em geral nos EUA têm trabalhado para convencer a opinião publica de que supostas intencionalidades de determinados atores são uma ameaça real, independente de suas capacidades militares, e assim passaram a construir modelos explicativos sobre as causas da guerra. No nível coletivo, processos de percepção são compartilhados e comunicados para criar um estado de espírito coletivo de medo. Neste sentido, as ameaças são socialmente construídas por meio de articulações, públicas e privadas, entre especialistas, líderes políticos e militares. Por exemplo, quase não se fala de onde procede, nem muito menos quais são, os recursos e as reais capacidades militares do Isis, mas são repetidos à exaustão os vídeos de execuções e decapitações para impactar emocionalmente o público.


Como lembra o poeta Mia Couto, para fabricar armas, é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso sustentar fantasmas. O que requer a construção e manutenção de enorme aparato de militares, jornalistas, acadêmicos que nos ensinam que, para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão de direitos. (https://www.youtube.com/watch?v=jACccaTogxE).

Sem dúvida que tudo isso faz parte da cultura do medo que sempre existiu nos EUA, é verdade, mas que se tornou onipresente e absoluto após o 11 de Setembro. Em maio de 2004, o procurador-geral dos EUA, John Ashcroft, alertou que terroristas poderiam “atacar em qualquer lugar, a qualquer momento, e com praticamente qualquer arma”, sem, contudo, especificar sobre quem estava falando e quais eram as reais capacidades desse suposto grupo terrorista. Quando perguntaram ao então secretário de Defesa do governo Bush, Donald Rumsfeld, o que constituiria a vitória na guerra contra o terrorismo após os atentados do dia 11 de Setembro, ele respondeu que dever-se-ia convencer a opinião publica de que seria uma longa batalha. Não foi outra coisa o que disse, recentemente, uma das pessoas mais influentes em questões militares nos EUA, Leon Panetta, que já teve os cargos de chefe de Gabinete da Casa Branca na administração Clinton, diretor da CIA e secretário de Defesa na administração Obama. Em entrevista para oUSA Today advertiu que os norte-americanos precisam se preparar para uma “espécie de guerra dos 30 anos”, que deveria se estender além do Isis, incluindo as ameaças emergentes na Nigéria, Somália, Iêmen, Líbia e em outros lugares.

De certa forma, pode-se argumentar que não houve uma série de guerras no Grande Oriente Médio durante esse período de 40 anos, mas sim uma única e longa guerra, uma guerra sem fim. Supondo que o Estado islâmico seja derrotado, algo bastante provável, podemos ter certeza que de as campanhas militares seguiram seu curso. Assim como até pouco tempo atrás a Al Qaeda era a maior ameaça nunca vista anteriormente, novas ameaças, tão ou mais poderosas que o Isis, serão construídas e, provavelmente, teremos o 15º pais islâmico a ser atacado, ou o retorno para algum campo de batalha de uma guerra considerada inacabada.

Podemos vislumbrar, ainda que remotamente, que essas guerras acabem algum dia? Para responder a uma questão como essa, só recorrendo à genialidade de Mia Couto. Os fantasmas vão morrer apenas quando morrer o medo, mas há quem tenha medo que o medo acabe. E não se iludam, são pessoas poderosas que colocam à sua disposição todos os recursos que possuem para que o medo permaneça.


Artigo publicado originalmente na Revista Forum

(*) Reginaldo Nasser é professor do curso de Relações Internacionais da PUC-SP e do programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).

Da luta de classes e das coisas de comer




http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Da-luta-de-classes-e-das-coisas-de-comer/4/32175




Carta Maior, 26/11/2014


Da luta de classes e das coisas de comer



Por Esther Vivas


​Ricos e pobres comem o mesmo? Nossa renda determina nossa despensa? Hoje, quem são os gordos?

Apesar de frequentemente e em determinados setores se associar com desdém a aposta por uma alimentação saudável a coisa de "mauricinhos", "hippies" ou "maria vai com as outras", a realidade é muito distante desses comentários míopes. Nada mais revolucionário do que defender uma alimentação ecologicamente sustentável, local e camponesa.

Se olharmos de perto para o modelo agroalimentar, veremos como ele está determinado pelos interesses do capital ou pelos interesses das grandes empresas do setor (agroindústria e supermercados), as quais buscam fazer negócio com algo tão essencial como é a comida.

O sistema capitalista, em sua corrida para transformar necessidades em mercadorias e direitos em privilégios, transformou os alimentos, e mais ainda aqueles de qualidade, em objeto de luxo. Do mesmo modo que tornou a moradia um bem acessível somente aos que podem se permitir, e o mesmo acontece com a saúde e a educação.

Ainda que não apenas a lógica do capital afete o modelo alimentar, a mão invisível do patriarcado move também os fios do sistema. Se não fosse assim, como explicar que os que mais produzem comida, as mulheres, são as que mais passam fome? Não esqueçamos que entre 60% e 80% da produção de alimentos nos países do Sul, segundo dados da FAO, está nas mãos das mulheres, entretanto, são elas as que paradoxalmente sofrem os 60% da fome crônica global.

A mulher trabalha a terra, mas não tem acesso à propriedade da terra, aos meios de produção, ao crédito agrícola. Aqui está a questão. Não se trata de ideologizar os discursos, mas de deixar claro a todos os que consideram que isto de "comer bem" é coisa apenas de, como se diz em francês, "bourgeois bohème".

Se respondermos às perguntas iniciais, os dados vão constatar tal afirmação.

Ricos e pobres comem o mesmo? Não.

Nossa renda determina nossa despensa? Definitivamente.


Um estudo da Plataforma de Afetados pela Hipoteca joga uma luz sobre a questão: 45% dos prejudicados pelos despejos têm dificuldades para comprar os alimentos necessários para comer. A renda põe limite ao que adquirimos: diminui o consumo de carne bovina e de peixe, e em relação ao período anterior à crise, o consumo de frutas e verduras frescas. Ao contrário, aumenta a aquisição de produtos menos nutritivos, alimentos processados e ricos em calorias, como os doces de pacote: bolachas, chocolates e sucedâneos, doces e bolos.

Nossa classe social, formação e poder aquisitivo determinam o que comemos.

Hoje, então, quem são os gordos? Em geral, os que menos têm e os que comem pior.

Olhando para o mapa da península espanhola fica claro: as comunidades autônomas com maiores índices de pobreza, como Andaluzia, Canarias, Castela-Mancha e Estremadura, concentram os números mais elevados de população com excesso de peso. Nos Estados Unidos, os que sofrem com maiores problemas de obesidade são as comunidades afro-americanas e latinas. A crise acentua a diferença entre comida para ricos e comida para pobres.

Questionar o modelo agroalimentar dominante e apostar em outro antagônico, que coloque no centro das necessidades das pessoas o respeito à terra, é ir ao âmago da luta de classes. Os jornaleiros do Sindicato de Trabalhadores do Campo (SOC, na sigla em espanhol), em Andaluzia, com Diego Cañamero e Juan Manuel Sánchez Gordillo na liderança, dificilmente classifiicáveis como "pequeno burgueses", têm clareza disso. Seu trabalho em defesa de um mundo rural vivo, da terra para quem trabalha, a favor da agricultura sustentável, por outro modelo de consumo é um combate em defesa dos "ninguém", os oprimidos.

Apostar em uma alimentação e uma agricultura local, saudável, camponesa é o que há de mais subversivo.
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Esther Vivas é pesquisadora de movimentos sociais e políticas agrícolas e alimentares. Licenciada em jornalismo e mestre em sociologia, milita na Izquierda Anticapilista espanhola, tendência interna do Podemos.

A tradução é de Daniella Cambaúva. Leia o original aqui.​