quinta-feira, 25 de julho de 2013

Os estudantes de economia de Harvard têm motivo para uma nova revolta

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Quinta-Feira, 25 de Julho de 2013

Os estudantes de economia de Harvard têm motivo para uma nova revolta



Alejandro Nadal




No dia 2 de novembro de 2011, os 70 estudantes do curso de economia do professor Greg Mankiw, na Universidade de Harvard, decidiram sair da sala de aulas como ato de protesto. Em uma carta aberta a seu professor, os estudantes criticaram o fato de ele não oferecer uma discussão adequada sobre os fundamentos da teoria econômica. Também afirmaram que o curso tampouco brindava perspectivas críticas sobre a teoria econômica convencional nem opções alternativas através de outros enfoques teóricos. Nos tempos que correm, essas duas acusações são bastante sérias.

Os alunos anunciaram em sua carta de protesto que estavam fartos do caminho imposto no curso de Mankiw. Explicitamente afirmaram que a orientação do curso contribuía para perpetuar a desigualdade econômica que hoje marca a sociedade estadunidense. Essa é uma imputação grave levando em conta que hoje, nos Estados Unidos, o coeficiente de Gini para medir a desigualdade (o indicador mais utilizado para medir níveis de concentração na distribuição do ingresso) é de .48 e constitui um dramático testemunho do fracasso da política econômica da economia capitalista mais desenvolvida do mundo. Esse indicador no México é de .49, o que diz muito sobre o péssimo desempenho da economia estadunidense.

Mas os bravos professores de economia filiados ao establishment não têm medo de nada. Hoje Mankiw está publicando em uma prestigiosa revista acadêmica um artigo com o provocador título “Em defesa do um por cento”. O texto começa afirmando que nos últimos 40 anos o ingresso médio nos Estados Unidos cresceu, mas dito crescimento não foi uniforme: para o um por cento no alto da pirâmide social o aumento do ingresso foi muito mais alto que a média. Segundo Mankiw, isso se deve a que as pessoas no um por cento realizaram grandes contribuições à economia do país norte-americano.

O texto do professor recorre, em diferentes momentos, à ideia de que a remuneração que as pessoas recebem está em proporção direta à sua contribuição ao produto social. Os que recebem pouco em termos de compensação salarial, por exemplo, realizam uma exígua contribuição ao produto. Do contrário, os que percebem grandes ingressos o fazem porque realizaram grandes contribuições ao produto e ao bem-estar social.

Em seu artigo, Mankiw redescobre a teoria marginalista sobre a distribuição. O sentido chave desta teoria é que a distribuição do ingresso em uma economia (capitalista) está determinada pela produtividade marginal dos fatores da produção, capital e trabalho. Os fatores da produção percebem como remuneração o que corresponda a sua contribuição à produção social. Cada trabalhador recebe como remuneração sua contribuição marginal ao produto.

Entre 1965 e 1975 se desatou uma importante controvérsia entre os seguidores dessa teoria e um grupo de professores da Universidade de Cambridge, Inglaterra. Nessa disputa a teoria marginalista recebeu uma crítica decisiva. Os críticos, com Piero Sraffa, Joan Robinson e Pierangelo Garegnani à cabeça, demostraram que não havia maneira de medir o fator chamado capital de maneira independente da distribuição. Essa crítica demostrou que a teoria da produtividade dos fatores sofria de uma circularidade fundamental. Só é possível determinar a produtividade do capital conhecendo o preço dos bens de capital (porque isso é o que permite somar máquinas heterogêneas e edifícios de todo tipo), mas os preços não são independentes da distribuição do ingresso e, no caso do capital, o preço depende da taxa de lucro. Portanto, para conhecer a produtividade do capital é necessário conhecer a taxa de lucro, mas para isso é necessário conhecer: a produtividade do capital!

Os seguidores da teoria da produtividade marginal compraram a briga, mas seu caso estava perdido. No final, o sumo pontífice da seita neoclássica, Paul Samuelson, aceitou a derrota em um célebre artigo publicado em 1966. Esse reconhecimento devia ter sido suficiente para abandonar o enfoque marginalista. Mas a contribuição ideológica que realiza essa teoria é chave e os poderes estabelecidos resistem em perdê-la.
A conclusão do debate é clara: a distribuição do ingresso não está determinada por fatores técnicos na economia. A distribuição se define, como bem afirmou Sraffa há já 50 anos, por forças que estão fora do sistema econômico e depende de coisas como a força relativa das uniões de empresários e dos sindicatos dos trabalhadores. Não há nenhuma razão técnica pela qual os salários devem ser baixos ou inclusive miseráveis. Tampouco há motivos tecno-econômicos para justificar os descomunais ingressos do um por cento da população que Mankiw quer defender, por mais que insista que suas contribuições à economia guardam proporção com esses ingressos.

Alejandro Nadal é membro do Conselho Editorial de SinPermiso.

Tradução: Liborio Júnior

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Inglaterra inclui mulher em cédula de libra

http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,bc-ingles-cede-a-pressao-feminina-e-inclui-mulher-em-cedula-de-libra,160005,0.htm



24 de julho de 2013

BC inglês cede à pressão feminina e inclui mulher em cédula de libra

 
 
EFE


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LONDRES - A imagem da escritora britânica Jane Austen (1775-1817) vai substituir a de Carles Darwin (1809-1882) nas cédulas de dez libras a partir de 2017, anunciou o Banco da Inglaterra nesta quarta-feira, 24.
A decisão encerra um período em que todas as cédulas de libras esterlinas eram ocupadas apenas por homens, fato que motivou vários protestos, como o liderado pela ativista Caroline Criado-Perez.
"É um dia genial para as mulheres e fantástico para o poder do povo", afirmou a líder feminista, que este mês compareceu ao Banco de Inglaterra para reclamar da situação das mulheres nos símbolos monetários.

"Damos as boas vindas a este movimento e estamos agradecidos ao Banco Central da Inglaterra por escutar nossos argumentos e dar um passo positivo para resolver nossas preocupações", acrescentou Caroline Criado-Perez, responsável por uma petição na internet que reuniu mais de 35 mil assinaturas a favor de imagens de mulheres nas novas cédulas.

A luta de setores feministas pela inclusão de imagens femininas em cédulas de libras cresceu depois que o Banco Central inglês substituiu os bilhetes de cinco libras e trocou a imagem da ativista Elisabeth Fry (1780-1845) pela do ex-primeiro ministro Winston Churchill (1874-1965). Desde então, nenhuma mulher tinha espaço nas moedas britânicas.

O novo governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney, garantiu que a escritora Austen "definitivamente merece um lugar no seleto grupo de personagens históricos que aparecem nas cédulas".

Dentro de quatro anos será possível ver bilhetes de dez libras o retrato de Austen adaptado de um desenho feito por sua irmã, Cassandra, ao lado da citação "Não há prazer como a leitura".

Austen será a terceira mulher a figurar em uma cédula do Reino Unido, depois da rainha Isabel II e de Fry Florence Nightingale (1820-1910), enfermeira, escritora e estadista britânica.
 
Outros escritores protagonistas de cédulas de libras esterlinas são William Shakespeare (1564-1616), na cédula de 20 libras e Charles Dickens (1812-1870), na de 10 libras.

Dilma perdeu popularidade, mas não a eleição

Maria Inês Nassiff: “Se Dilma não é a favorita, quem é?”



24 de Jul de 2013

Dilma perdeu popularidade, mas não a eleição



Maria Inês Nassiff



As manifestações de julho deixaram como saldo uma alta queda na popularidade da presidente Dilma Rousseff. Mas daí a tratá-la como derrotada em 2014 vai uma enorme distância. Dilma ganharia a eleição no primeiro turno, antes de julho. Após julho, leva no segundo turno. A situação política da candidata do PT, mesmo agravada por uma onda difusa de insatisfações, ainda é a de franca favorita.
Até as manifestações, Dilma se constituiu num fenômeno atípico de popularidade para uma petista. Tinha índices pouco menores que o do seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, quando este saiu do governo, mas curiosamente estavam espalhados por todas as faixas de renda, escolaridade e regiões do país. Ao longo de seu governo, o presidente mais popular da história do Brasil – mas que ainda assim ganhou um segundo mandato sendo obrigado a disputar o segundo turno – tinha simpatias concentradas na população de mais baixa renda. A partir de sua primeira eleição para a Presidência, em 2002, Lula transitou sua popularidade das faixas de mais para menos escolaridade também, em função das políticas sociais de seu governo, e deslocou o seu eleitorado do Sul e Sudeste para o Norte e Nordeste, regiões mais pobres do país. A partir do chamado escândalo do Mensalão, em 2005, perdeu massa eleitoral no Sul e Sudeste, que se tornaram redutos de votos mais conservadores. O Sudeste, hoje, é o grande suporte eleitoral do PSDB, principal partido de oposição.
Até o final do ano passado, Dilma conseguiu aumentar a sua popularidade para além da de Lula e para mais do que o PT costuma dispor em véspera de eleição. Alcançou um eleitor que o petismo deixou de dispor a partir do primeiro governo de Lula: com mais renda, mais escolarizado e morador de Estados mais ricos da Federação. Esse eleitorado mais expandido de Dilma, em relação ao de Lula e do PT, foi atraído pelo fato de a presidente ser mais distante do PT do que Lula, e pelo fato de ter assumido de forma mais visível para o público uma ação anticorrupção, com a demissão pronta de ministros denunciados pela grande mídia. No seu primeiro ano de governo, vitimou todos os ministros que foram objeto de denúncias pela mídia tradicional.
No primeiro ano de governo, portanto, Dilma conseguiu responder de forma mais eficiente que Lula ou o PT a um movimento de opinião pública alimentado pela mídia, pelos partidos de oposição e pela própria forma como o PT se comportou em relação aos dois primeiros – desde então, o partido se encolhe diante de qualquer acusação, referendando pela omissão à afirmação de que tem uma natureza eminentemente corrupta.  Em pesquisas feitas no começo do ano, no quesito intolerância com a corrupção, Dilma superava Lula e o PT de longe. Pode-se dizer que o eleitor fiel do PT e de Lula os considerava pouco rigorosos em relação à corrupção e até os perdoava, por considerarem que o governo de Lula trouxe outros benefícios mais tangíveis. Dilma era vista como apartada dessa realidade, uma governante que veio depois e não tinha nada a ver com a história que, há dez anos, persegue o partido como um fantasma  ressuscitado pela Justiça e pelos meios de comunicação nas vésperas de todas as eleições. Como o PT tem vencido todas, desde então, persiste no erro de considerar que a repetição do mantra PT-Lula-Mensalão-corrupção não interfere sobre o voto e nem tem o poder de contaminação sobre outras classes sociais que não as conservadoras, as mais sensíveis a uma ofensiva udenista que mistura discurso anticorrupção com a aversão à ascensão social das classes que estão na base da pirâmide social.
O fato é que o saldo das eleições municipais foi bom para o PT, apesar do julgamento do Mensalão. Mas, como era de se esperar, a decisão do calendário de julgamento produziu o seu saldo político. Ao final dele, o circo midiático montado dentro do Supremo Tribunal Federal conseguiu colar ainda mais o Mensalão em Lula e Dilma. O espetáculo proporcionado pelos ministros do Supremo, que jogaram réus aos leões em um julgamento cheio de falhas, teve um efeito contaminador da opinião pública que coroou a campanha sistemática da mídia e dos partidos de oposição nos últimos oito anos. O STF foi mais eficientemente politicamente do que os próprios partidos políticos de oposição.
A isso se somou uma grande queda nas expectativas da economia. As pesquisas de popularidade de Dilma antes das manifestações de julho são interessantes. A grande maioria dos entrevistados tem emprego e não tem receio de perdê-lo; não existe um alto grau de endividamento de suas famílias; e existe um reconhecimento de que a vida deles melhorou nos últimos anos. A expectativa em relação ao futuro e à renda, todavia, vem se deteriorando. Ou seja, os entrevistados reduziram suas expectativas em relação ao futuro não porque suas vidas pioraram, mas porque acham que  podem piorar. Parece mais uma ansiedade em relação às interpretações da mídia sobre a economia – em especial a Rede Globo, que continua a mais assistida no país – do que propriamente uma situação que interferiu no bem-estar deles. Em relação à classe média tradicional, todavia, existe um certo “achatamento” salarial e de expectativas – essas faixas da população não tiveram qualquer aceno de ascensão financeira nos últimos governos. A renda da classe média tradicional foi congelada na última década.
Esse conjunto de fatores, potencializado pelas manifestações de julho, acabou trazendo Dilma para uma realidade que foi a de todo candidato petista antes das eleições. Dilma incorporou faixas de rejeição tradicionais ao PT e a Lula: de renda alta e escolaridade alta e de regiões mais conservadoras. Lula, em 2006, viveu a mesma situação, disputou um segundo turno e venceu.
Nada indica que Dilma tenha condições mais desfavoráveis do que Lula – pelo menos não neste momento. Os programas sociais que elegeram Lula para um segundo mandato foram aprofundados em seu governo. O processo de desgaste que atingiu todo o quadro partidário neste mês de julho manteve a reserva de mercado de votos do PT, em torno de 25%, índice do qual parte qualquer candidato seu. A candidata que aparece em segundo lugar nas pesquisas de hoje, com chances de ameaçar sua vitória, é Marina Silva, que sequer um partido constituído tem. Marina herdou, aparentemente, os votos de maior renda e mais escolaridade que Dilma perdeu nos últimos meses, mas bandeiras mais progressistas de direitos civis, que atraem essas camadas que são conservadoras em outras áreas da política, terão pouco trânsito na campanha da candidata. Existe uma dificuldade intransponível para uma pessoa convictamente evangélica transitar temas como casamento de homossexuais, aborto ou pesquisas com células-tronco, por exemplo.
Dilma, enfim, não foi derrotada pelas ruas. Se aliados de conveniência querem pular fora já, podem estar cometendo um grande erro. A melhor forma de avaliar isso é: se não for Dilma a vitoriosa, quem vai ser? A resposta a essa pergunta mostra que a vida dos outros candidatos é muito mais difícil que a da presidente da República. 

A incrível pirâmide da desigualdade global

 
 

24 de julho de 2013
 
 

A incrível pirâmide da desigualdade global

 
 
 
 Por José Eustáquio Diniz Alves, no EcoDeabte



 
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Milionários são apenas 0,6% da população, mas abocanham doze vezes mais riqueza que 69,3% dos habitantes da Terra. Concentração e consumismo podem tornar civilização insustentável


O relatório sobre a riqueza global, em 2012, do banco Credit Suisse (The Credit Suisse Global Wealth Report 2012) traz um quadro bastante amplo e esclarecedor da distribuição da riqueza (patrimônio) das pessoas adultas do mundo. A riqueza global foi estimada em US$ 223 trilhões em 2012 (meados do ano). Como havia 4,59 bilhões de pessoas adultas no mundo, a riqueza per capita por adulto foi de US$ 49 mil.
Mas, evidentemente, existe uma distribuição desigual desta riqueza. Na base da pirâmide estão as pessoas com a riqueza menor do que 10 mil dólares. Nesta imensa base havia 3,184 bilhões de adultos, em 2012, o que representava 69,3% do total de pessoas na maioridade no mundo. O montante de toda a “riqueza” deste enorme contingente foi de US$ 7,3 trilhões, o que representava somente 3,3% da riqueza global de US$ 223 trilhões. Ou seja, pouco mais de dois terços (2/3) dos adultos do mundo possuíam somente 3,3% do patrimônio global da riqueza. A riqueza per capita deste grupo foi de US$ 2.293.
No grupo de riqueza entre US$ 10 mil e US$ 100 mil, havia 1,035 bilhão de adultos, o que representava 22,5% do total de pessoas adultas no mundo. O montante de toda a riqueza deste contingente intermediário foi de US$ 32,1 trilhões, o que representava 14,4% da riqueza global. Ou seja, pouco menos de um quarto (1/4) dos adultos do mundo possuíam 14,4% do patrimônio global da riqueza. A riqueza per capita deste grupo foi de US$ 31 mil.
No grupo de riqueza entre cem mil e 1 milhão de dólares, havia 344 milhões de adultos, o que representava 7,5% do total de pessoas na maioridade no mundo. O montante de toda a riqueza deste contingente intermediário foi de US$ 95,9 trilhões, o que representava 43,1% da riqueza global. Ou seja, pouco menos de um décimo (1/10) dos adultos do mundo possuíam 43,1% do patrimônio global da riqueza. A riqueza per capita deste grupo foi de US$ 279 mil.
Os milionários, aqueles com patrimônio acima de um milhão de dólares eram somente 29 milhões de adultos, representando 0,6% do total, no mundo. Todavia, este pequeno grupo de pessoas concentrava 39,3% da riqueza mundial, um montante de US$ 87,5 trilhões, o que representava 39,3% da riqueza global. A riqueza per capita deste grupo foi de US$ 3,017 milhões.
O que mais chama a atenção na distribuição da riqueza é que os 29 milhões de adultos do alto da pirâmide possuíam um patrimônio superior a 12 vezes o patrimônio da base de 3,2 bilhões de pessoas. Os dados também mostram que os contingentes intermediários estão crescendo e que a riqueza global aumentou no passado e tende a aumentar nas próximas décadas. Em 2000, na virada do milênio, a riqueza global era de US$ 113,4 trilhões, uma média de US$ 30,7 mil por adulto, em um total de 3,6 bilhões de pessoas na situação de maioridade.
Contudo, todo o montante atual de US$ 223 trilhões de riqueza para 4,6 bilhões de adultos, em 2012, está sustentado em bases frágeis, pois a riqueza do ser humano (em sua forma piramidal) está alicerçada sobre bases naturais degradas pelas atividades antrópicas. A pirâmide da riqueza humana tem crescido e se ampliado sobre uma base de pauperização dos ecossistemas. Não é improvável, que em algum momento, a pirâmide possa afundar por falta de sustentação ecológica ou possa implodir por falta de justiça redistributiva em sua arquitetura social.
Enquanto o capital natural tem sido depredado, a riqueza global (e o consumo) dos seres humanos cresceu cerca de 50% no século 21, passando de uma média per capita de US$ 30,7 mil no ano 2000, para US$ 43,8 mil em 2010 e para US$ 49 mil, em 2012. Todavia, as necessidades e os sonhos humanos são ilimitados e os de baixo da pirâmide aspiram o padrão de consumo daqueles do meio e do topo do status social. Mas é impossível haver um crescimento ilimitado da riqueza material em um planeta finito e a história mostra que, em vários momentos, pirâmides que pareciam sólidas se transformam em castelos de areia.
Não é sem surpresa que os indignados do mundo estão se unindo, se mobilizando e corroendo as estruturas piramidais das sociedades árabes, espanhola, europeia, dos Estados Unidos, etc. Também não é sem surpresa que a indignação tenha chegado ao Brasil, pois existe um mal-estar geral com o modelo de desenvolvimento econômico, com o funcionamento da democracia, com a imobilidade urbana e social e com a relação humanidade/natureza. Evidentemente, este mal-estar aparece de maneira difusa e sem alternativas claras de novos rumos.
Mas o que o mundo precisa não é manter o processo de ampliação da pirâmide da riqueza e do consumo e, sim, construir relações mais horizontais, simples e justas entre as pessoas e entre as pessoas e o meio ambiente.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionaise Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Morre Candeeiro, último cangaceiro de Lampião


 
 
 
 
24 julho 2013
 
 
 
Morre Candeeiro, último cangaceiro de Lampião
 


 
 
 
 
candeeiro
 
 
Morreu nesta quarta-feira o último cangaceiro do bando de Lampião, Manoel Dantas Loiola, de 97 anos, mais conhecido como Candeeiro. Ele faleceu na madrugada de hoje no Hospital Memorial de Arcoverde onde estava internado desde a semana passada, após sofrer um derrame. O sepultamento está marcado para as 16h, no cemitério da cidade de Buíque.
Pernambucano de Buíque (a 258 quilômetros do Recife), Manoel ingressou no bando de Lampião em 1937, mas afirmava que foi por acidente. Trabalhava em uma fazenda em Alagoas quando um grupo de homens ligados ao famoso bandido chegou ao local. Pouco tempo depois, a propriedade ficou cercada por uma volante e ele preferiu seguir com os bandidos para não ser morto.
No final da vida, atuava como comerciante aposentado na vila São Domingos, distrito de sua cidade natal. Atendia pelo nome de batismo, Manoel Dantas Loyola, ou por outro apelido: seu Né. No primeiro combate com os “macacos”, quando era chamado de Candeeiro, foi ferido na coxa. O buraco de bala foi fechado com farinha peneirada e pimenta.
Teve o primeiro encontro com o chefe na beira do Rio São Francisco, no lado sergipano. “Lampião não gostava de estar no meio dos cangaceiros, ficava isolado. E ele já sabia que estava baleado. Quando soube que eu era de Buíque, comentou, em entrevista concedida ao Diario: ‘sua cidade me deu um homem valente, Jararaca’”.
Candeeiro dizia que, nos quase dois anos que ficou no bando, tinha a função de entregar as cartas escritas por Lampião exigindo dinheiro de grandes fazendeiros e comerciantes. Sempre retornava com o pedido atendido. Ele destacou que teve acesso direto ao chefe, chegando a despertar ciúme de Maria Bonita. Em Angicos, comentou que o local não era seguro. Lampião, segundo ele, reuniria os grupos para comunicar que deixaria o cangaço. Estava cansado e preocupado com o fato de que as volantes se deslocavam mais rápido, por causa das estradas, e tinham armamento pesado.
No dia do ataque, já estava acordado e se preparava para urinar quando começou o tiroteio. “Desci atirando, foi bala como o diabo”. Mesmo ferido no braço direito, conseguiu escapar do cerco. Dias depois, com a promessa de ser não ser morto, entregou-se em Jeremoabo, na Bahia, com o braço na tipóia. Com ele, mais 16 cangaceiros. Cumprindo dois anos na prisão, o Candeeiro dava novamente lugar ao cidadão Manoel Dantas Loyola. Sobre a época do cangaço, costumava dizer que foi “história de sofrimento”.

Fonte: Diário de Pernambuco