quarta-feira, 30 de maio de 2012

Demóstenes, eu seu último ato, revela a farsa do ‘mensalão’

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29/5/2012 23:36

Demóstenes, eu seu último ato, revela a farsa do ‘mensalão’


Por Gilberto de Souza - do Rio de Janeiro  


A guilhotina, durante a Revolução Francesa, era extremamente nervosa. Milhares perderam a cabeça por questões minúsculas, se comparadas ao que se assiste hoje nos julgamentos do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, no Judiciário, e de seu cúmplice no Senado, Demóstenes Torres. Sem a menor desfaçatez, Demóstenes dá de ombros, desdenha dos brasileiros ao presumir como uma questão menor, com os valores que o levaram à cadeira dos réus perante o Conselho de Ética da Casa mais alta do Parlamento, o fato de um criminoso condenado pagar-lhe a conta do telefone, entre outras contas mais de que ainda não se têm notícia. Em um julgamento político, cada um dos “R$ 30 ou R$ 50″ que custaram cada mensalidade do rádio, usado para se comunicar com a gangue, transforma-se em milhões de bofetadas na face da Nação.
Fato é que a Polícia Federal chegou ao ninho das vespas e o país, cada eleitor, cada brasileiro, resolveu correr o risco e terminar com a infestação. Não importa se há zangões no Supremo Tribunal Federal (STF), governadores corruptos em Estados da Federação, empresários endinheirados à custa dos cofres públicos e jornais, revistas e jornalistas preparados pela organização criminosa para vender o caos em troca de um novo golpe contra o governo eleito. Esta parcela, a ínfima parte da população representada por cada um dos envolvidos na fabricação de uma cortina de fumaça para os olhos do Brasil, à qual integram os mesmos algozes da democracia durante os Anos de Chumbo, está hoje nas páginas dos inquéritos em andamento, nas escutas telefônicas realizadas com a autorização da Justiça, nos autos dos processos que seguem adiante, no tortuoso rito das cortes penais.
Ministros, parlamentares e alguns governadores, aninhados na certeza da impunibilidade, aplicaram golpes milionários sim, mas a aparência de normalidade que buscam passar por atos torpes, de menor importância para verdadeiros atentados criminosos, o semblante de coitado, carola recém-devoto, insone fariseu no pântano da maledicência, esta atitude mereceria, por si mesma, levar quem a adota ao caminho que Luís XV percorreu tempos atrás, embora este o tenha feito com a altivez que falta às personagens da ópera bufa ora em serviço. Se lhes respeitaria muito mais a coragem, caso empunhassem a bandeira da insolência e do escárnio com que trocavam mensagens, cifradas no pueril código dos ladrões, com os risos escancarados nos telefonemas de parabéns por mais um assalto bem sucedido ao Erário, na sebenta troca de amabilidades entre os ímpios, após arrastar os nomes de seus inimigos na lama do esgoto que corre pelas páginas dos meios de comunicação de que são sócios. Assim, teriam o direito a uma despedida honrosa, ao invés da lenta dissecação, em vida, pela qual passarão até o último de seus dias.
Vem o ainda senador Torres cotejar o sofrimento da família dele ao seu próprio, diante dos pares, como se isso fosse argumento, desculpas para a sordidez com que enganou, mentiu e, em segredo de polichinelo, urdiu contra o país e a ordem democrática, em seu proveito próprio e de seus cúmplices. Agora, quando não conta mais com o escudo da moralidade e a armadura dos bons costumes, dos quais se autodeclarava prócer e campeão, despido de qualquer autoridade moral, preferiu o ato contrito à ferocidade com a qual detratou todos aqueles que ousaram se insurgir contra o império que, por décadas, manteve ajoelhadas as instituições nacionais. Parece mais claro, neste momento, descerrado o pano em seu último ato, o enredo da peça infame que deu origem ao processo ora em curso no STF. Esclarecem-se, diante desta pífia audiência do canastrão, as reais intenções daqueles que desenharam a cena habitada por corruptores maquiavélicos, prestes a transformar o Brasil na República dos iníquos. Tatuaram as próprias intenções na pele de seus detratores e, com ajuda profissional de bandidos travestidos em jornalistas, popularizaram em folhetins, com o título de ‘Mensalão’, as caricaturas dos homens públicos que o país elegeu, exatamente para extirpar todos eles, a casta que aqui governava desde o golpe de 64.
Caiu por terra, nesta terça-feira, a casa de caboclo que armaram contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e vários de seus ministros, entre eles o chefe da Casa Civil, José Dirceu. Ficou evidente o nível de interação entre as camadas que bradavam palavras de Liberdade e Justiça àquelas máfias formadas para sustentar os jatinhos e convescotes animados nas capitais europeias. Está escancarado, para quem quiser ver, o atrevimento da camarilha que ora se esfacela. Encerra-se, na lastimável performance do ex-líder da extrema direita, a falseta de um discurso que pecou contra os seus princípios. Mas é preciso ir adiante e, no rastro do bufão que entreteve a audiência dos telejornais, nesta noite, algemarem a mão que controla, ainda agora, os títeres abandonados à própria sorte, ainda que contem com o auxílio luxuoso dos mais caros advogados do país.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Correio do Brasil.

Mendes vai adaptando a história à medida em que ela perde consistência

 
 
Jornal do Brasil, 30/05/2012
 

Um encontro comum e a falsa crise

 
Por Mauro Santayana
 
 
Tentemos examinar os fatos — como eles estão sendo narrados. Admitamos, como certo, por ser possível, ainda que pouco provável, o divulgado diálogo de Lula com o ministro Gilmar Mendes, no escritório do advogado Nelson Jobim, amigo de ambos — mesmo que Jobim o tenha desmentido e de forma definitiva. A versão de Gilmar é a de que Lula lhe falou na necessidade de adiar-se o julgamento, pelo STF, do processo de que são réus, entre muitos outros, alguns membros do PT, e que tenha lembrado a Gilmar a ainda não esclarecida viagem do ministro e do senador Demóstenes Torres a Berlim.
Até aqui, tudo no terreno do possível, nada há de estranho, nem qualquer deslize da parte de Lula. Sendo negócio de homens, e não de anjos, a política, desde que o mundo existe, é conversa, que admite pressões e contrapressões. E o ato político se faz, para o bem e para o mal, mediante pactos. Nada se pactua sem conversa prévia, mesmo que isso desagrade a muitos cidadãos. Não houvesse pactos políticos sigilosos, a História seria sempre um rio fétido de sangue.
Nós temos, na crônica quase recente do país, o processo de redemocratização como exemplo dos pactos sigilosos. Foi necessário que, de um e de outro lado, os moderados se movessem e conversassem, quase sempre à sombra do segredo e da confiança dos interlocutores, para que se dessem os passos na direção da retomada do estado de direito. Os extremados, de um lado e do outro do espectro político, condenaram esses esforços de pacificação nacional, crendo que, se não os houvesse, a facção a que pertencem teria obtido a vitória final e construído o estado que pretendiam perfeito. Sem a ação de Tancredo e outros, por quantos anos mais teríamos que esperar pela liberdade de imprensa, pela liberdade partidária e pelo direito do voto direto para os cargos executivos?
Não façamos de Lula um congregado mariano. Os homens são o que deles faz a sua experiência. Lula foi obrigado, desde menino, a negociar a sobrevivência, e nisso se baseou para construir sua biografia política. Nesse caso particular, se fez o que lhe é atribuído, agiu, em nosso juízo, de forma equivocada, de maneira a lhe trazer, como está trazendo, mais custos do que benefícios. Gilmar não era o melhor interlocutor no STF, entre outras razões por ser uma figura controvertida na opinião pública e entre os seus pares.
Queiramos ou não queiram os puristas, é assim que se faz política.
Há, e deve ser registrada, uma diferença de personalidades, entre Gilmar e Jobim, que deve ser lembrada: Jobim conhece algumas regras de convívio político e humano, das quais o controvertido ministro do Supremo parece jejuno. Não sendo provável que Lula tenha confidenciado a alguém o encontro com Gilmar e Jobim — e tampouco que Jobim haja descurado de seus deveres de anfitrião para narrar o diálogo, ainda mais porque o negou — que fonte abasteceu a revista que o reproduziu?
Não podemos cair na sedução fácil de admitir que Carlos Cachoeira tenha mandado um de seus agentes dissimular-se em poltrona, ou colocar um microfone oculto no escritório de Jobim. Ele e seu homem de confiança para tais assuntos, o famoso Dadá, já se encontravam presos. Segundo as versões correntes, Gilmar revelou a alegada conversa com Lula ao procurador-geral da República e a outras autoridades, antes que a revista semanal a divulgasse.
Nelson Jobim desmente, de forma irrestrita, o diálogo revelado pelo ministro Gilmar Mendes. Mais do que o desmentido, Jobim abre uma fímbria do manto que cobre as razões do ministro do Supremo para apregoar o encontro, ao fazer a observação singela, em entrevista ontem divulgada pelo jornal Zero Hora, de Porto Alegre: “É estranho que o encontro tenha acontecido há um mês e só agora Gilmar venha se dizer indignado com o que ouviu de Lula. O encontro foi cordial. Lula queria agradecer a colaboração de Gilmar com o seu governo”.
Excluindo-se a possibilidade de que tudo não tenha passado de uma trama entre Gilmar e Nelson Jobim, o que faria deles dois patifes — o que não são — a quem interessou a divulgação do encontro, um mês depois? O terreno das hipóteses é movediço, mas instigante. Uma delas, que está circulando pelas esquinas excitadas da internet, é a de que Gilmar (diante de versões correntes e que o comprometem mais além de viagens à antiga capital da Prússia, e que podem surgir durante a CPI) esteja, com sua experiência rural, fazendo um aceiro para evitar que o incêndio da CPI atinja os seus pastos. E se Gilmar se considerava grande amigo de Lula — a ponto de as duas famílias se encontrarem com frequência, como se noticia — por que revelar uma conversa íntima, pessoal, que compromete o ex-presidente como um interessado em que o STF adie um julgamento?
Há quem veja, nas razões de Lula — a ter como verdade o que se noticia — propósito político explicável: coincidindo a realização da CPI com o julgamento do STF, todo o interesse dos meios de comunicação estaria concentrado no Mensalão, desviando para um segundo plano as investigações mais amplas do sistema de corrupção do Estado, que envolve os três poderes republicanos. É uma tese. O que o Brasil espera é que, tanto em um caso como no outro, tanto no processo que o STF julgará como na CPI que se instaurou, a verdade seja conhecida.
Há o propósito de transformar o episódio do encontro em uma crise política que atinja o governo — e não há crise alguma. O conhecimento público do episódio não altera o quadro político, não muda seu desenvolvimento, que vai depender das revelações a vir. O novelo é denso, e seu tamanho exato só será conhecido quando toda a trama for desfeita. É necessário que os homens de bem estejam preparados a fim de imporem o bom-senso e encontrarem a salvação do Estado, depois das revelações temidas e imaginadas.


http://blogdoprotogenes.com.br/?p=3369

Blog do Protógenes, 29/05/2012

Nota sobre as declarações de Gilmar Mendes   


Ao povo brasileiro: como todos e todas puderam recentemente testemunhar, o ex-presidente do STF, Sr. Gilmar Mendes, fez declarações à revista Veja, ao site Conjur, aos jornais Globo e Folha de S. Paulo nesta semana, repercutido em diversos meios de comunicação, envolvendo o ex-presidente Lula e também o ex-ministro Nelson Jobim. Tanto foi assim que o próprio Gilmar Mendes teve que retificar tais declarações em seguida, na Rede Globo em 29/05.
Desta vez a tentativa de blindar o crime organizado não deu certo. Felizmente, o trabalho da CPMI do Cachoeira já transcendeu o poder de obstrução dos corruptos, corruptores e do Sr. Gilmar Mendes. Não adianta mais tentar ganhar no grito ou querer dispersar o foco objetivo da CPMI por meio de mentiras.
Convém lembrar que, há pouco menos de quatro anos, em 2008, quando o mesmo Gilmar Mendes, então presidente do STF, concedeu dois habeas-corpus em 48 horas ao banqueiro condenado Daniel Dantas, previa e devidamente preso por desviar bilhões de reais dos cofres públicos. Inaugurou naquela época o “foro privilegiado” para banqueiro bandido.
Naquele momento de crise institucional no Brasil, advindo da operação Satiagraha, a falta de credibilidade na justiça brasileira foi alertada, também, pelo ministro Joaquim Barbosa, ocasião em que abriu o debate na própria corte com o ex-presidente do STF Gilmar Mendes.
Os atos incomuns praticados no STF pelo ex-presidente Gilmar Mendes tinha, então, respaldo de um super poder judicial acima da lei e da Constituição da República. Hoje ele não tem mais. As coisas mudaram no Brasil. E continuarão mudando.
As afirmações mentirosas e criminosas dirigidas por ele contra mim, serão apreciadas em instrumentos próprios e no foro adequado, registrando que não tem indícios e documentos que classifiquem qualquer conduta na minha atividade como policial ou parlamentar vinculados ao esquema Cachoeira.
Talvez, o destempero, nervosismo e arrogância de Gilmar Mendes se explique ao longo da CPMI do Cachoeira na ampliação da coleta de dados, documentos e informações que aprofundem as investigações com o objetivo final de revelar as infiltrações nos Poderes da República, que ameaçam o Estado Democrático de Direito.
Por isso, é bom lembrar que as mudanças abrem novos caminhos para o futuro da mesma forma em que resgatam a memória. Assim, retroativamente, podemos desimpedir a evolução de um país que permanece obstruído por um legado de corrupção ética, moral e material. Ressalto ao final que a instauração da Comissão da Verdade e do Acesso à Informação dá para entender que a busca pela verdade é a ordem do dia no Brasil de hoje e de amanhã.
Deputado Delegado Protógenes

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GILMAR AGORA INSINUA TRAIÇÃO DE JOBIM


Gilmar Mendes, no Valor de hoje, insinua que pode ter sido traído por Nelson Jobim no encontro entre os dois e o ex-presidente Lula, a quem atribui constrangimento por afirmações sobre o julgamento do mensalão e suas relações com Demóstenes e Cachoeira.
 
Gilmar Mendes vai adaptando a história à medida em que ela perde consistência:
a) 'esqueceu' e ninguém mais o questiona sobre a versão original oferecida a Veja, cabalmente desmentida por Nelson Jobim, de que a conversa com Lula teria sido apenas entre os dois, na cozinha do escritório de Jobim, sem a presença deste;
b) ao Valor, diz textualmente que Jobim participou de 'toda a conversa';
c) ao Globo, ontem, alivia as afirmações sobre Lula (ele está sob pressão) ao mesmo tempo em que acusa o ex-presidente de ser uma central de boatos sobre suas relações com Demóstenes e Cachoeira;
d) mais ainda: insinua que Jobim (Jobim que foi ministro de FHC, um conservador atritado com o PT) pode tê-lo atraído para uma armadilha.
 
Veja o trecho da entrevista ao Valor, desta 4ª feira:  
 
Valor: O nome do Paulo Lacerda (ex-dirigente da ABIN demitido após uma denúncia nunca comprovada de Gilmar, que diz não ter 'tradição de desmentidos', sobre escutas em seu gabinete no STF) foi mencionado na conversa?
Mendes: Nessa conversa, Jobim perguntou: e Paulo Lacerda? Agora, as coisas passam a ter sentido. 
 
Valor: Seria uma demonstração de que se tratava de chantagem?
Mendes: Pode ser. Interpretem como quiser.
 
Valor: Ou seja, que o próprio Jobim participou de uma tentativa de chantagem?
Mendes: Era uma conversa absolutamente normal, nós repassamos vários assuntos. Nós falamos sobre o Supremo, recomposição do Supremo, PEC da Bengala, a má articulação hoje entre o Judiciário e o Executivo. O Jobim participou da conversa inteira. Nesse contexto, cai uma ficha.
 
Valor: Que ficha caiu, de que seria uma estratégia?
Mendes: Isso é possível, vamos constrangê-lo com Paulo Lacerda. Não sei se é isso".

Suprema Corte da Grã Bretanha aprova extradição de Assange à Suécia

 
O Estadão.com, 30/05/2012
 

Fundador do WikiLeakes será extraditado à Suécia

Yolanda Fordelone


Por cinco votos a favor e dois contra, a Suprema Corte da Grã Bretanha aprovou nesta quarta-feira a extradição do fundador do site WikiLeakes, Julian Assange, à Suécia. O tribunal decidiu que ele deverá ser levado ao país em que é acusado de abuso sexual e estupro.
Assange pode apelar da decisão à Corte Europeia de Direitos Humanos, mas segundo advogados tal ação não adiaria a extradição por muito tempo.
“O pedido de extradição de Assange foi feito legalmente e seu recurso contra extradição é rejeitada”, disse Nicholas Phillips, presidente da Suprema Corte britânica, ao anunciar a decisão.
Embora o acusado admite ter mantido relação sexual consentida com as acusadoras, Assange afirma desde o início que o caso é politicamente motivado pela expansão em seu website WikiLeaks.



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(Com Efe e AP)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Michel Foucault e as confissões da Xuxa

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 Terça-feira, 29 de Maio de 2012


SEXUALIDADE & IDENTIDADE

Michel Foucault e as confissões da Xuxa


Por Luís Eustáquio Soares


Em História da sexualidade: vontade de saber (1976), o filósofo francês Michel Foucault (1925-1942) mostrou-nos, para quem tem olhos livres para ler, como o não menos “livre e democrático” Ocidente produziu, a partir de seu ponto G civilizacional, as subjetividades estilizadas que circulam em Nova York e que se tornaram os modelos de humanos a serem reverenciados e imitados por todo o planeta como exemplos de liberdade, plasticidade, alegria, despojamento e afirmação de diferenças sexuais ou simplesmente como exemplos de democracia encarnada em subjetividades humanas.
Michel Foucault recorreu às técnicas de confissão inquisitoriais impostas pela Igreja Católica na Idade Média e a partir delas nos mostrou que a especificidade do Ocidente, em relação a outros modelos de sociedade, foi a de ter produzido uma civilização confessional, na qual e através da qual somos o que confessamos ser: nossos sexos reis, senhores de nossas vidas e nossas identidades.
As técnicas confessionais desenvolvidas pela Igreja Católica medieval eram, como se sabe, inomináveis procedimentos de tortura física, através dos quais o torturado ou a torturada devia confessar a verdade dos pecados cometidos, quando não eram a própria punição voltada e devotada contra plebeus, mulheres, judeus, mulçumanos, africanos, homossexuais, – contra antes de tudo àqueles e àquelas que, por um motivo ou outro, não se adaptavam ao padrão divino, de puro sangue azul, das heterossexuais castas aristocráticas das monarquias medievais, principalmente as de Portugal e Espanha.

Meios de comunicação são tecnologias de eu
Confessar-se como outro em relação ao padrão supostamente transcendental do patriarcal e racista rosto das monarquias católicas medievais – mesmo que a custo de ser queimado vivo, sob a acusação de herético – produzia, através da cerimônia da tortura, três consequências consecutivas: 1) servia para destacar a superioridade divina das monarquias ibéricas, pois a confissão estava intimamente implicada com a necessidade ritual de dizer “a verdade” de sua impureza feminina, homossexual, étnica, plebeica e não católica; 2) aceitar, via confissão torturada, a impureza de seu próprio sangue mortal, sujo, vil, pecador, vis-à-vis à pureza divina do sangue azul da divina monarquia católica; 3) confessar-se como naturalmente pecador, por constituir-se como outro em relação ao padrão divino monárquico, a fim de, pelo ritual da tortura, inscrever-se como vida nua ou cordeiro de Deus, sempre disponível a compor a diversidade gustativa da mesa da monarquia católica, como manjar dos Deuses, cujo principal prato é o da carne torturada do pecado de ser outro.
Michel Foucault argumentou, em História da sexualidade, que as técnicas de confissão ou de tortura da Idade Média católica se tornaram o modelo de referência da civilização ocidental, pois esta se singularizou ao se transformar numa fábrica mundial de confissão, sobretudo após o advento da burguesia, no século 19.
À diferença da Idade Média católica, no entanto, a civilização ocidental burguesa transformou-se ela mesma em sua própria divina monarquia, a monarquia burguesa, para a qual as técnicas de confissão devem seguir o seguinte roteiro cerimonial: 1) a democracia é o pecado ou o herético povo pecador da civilização burguesa ocidental, agora planetária; 2) a democracia deve, tal como ocorria na Inquisição medieval, ser torturada a fim de confessar a verdade de si como inferior, em relação ao divino proprietário burguês dos meios de produção; 3) confessar-se como inferior significa aceitar, alegremente, constituir-se como o manjar diversificado da culinária do prato da civilização burguesa; 4) essa aceitação implica que a democracia não pode ser herética, isto é, não pode ser democracia, entendida como dissenso do povo, como o lugar da diversidade indomável; 5) o povo deve ser domável, portanto, confessando o pecado de ser povo indisciplinado e indomável; 6) essa confissão do pecado de ser povo é realizada através de novas técnicas de confissão, diferentes das da Idade Média católica, porque necessariamente não têm o corpo como objeto de tortura, mas a alma;7) Foucault dá o nome de tecnologias do eu às técnicas confessionais da civilização burguesa ocidental; 8) os saberes ocidentais, como a medicina, a antropologia, a psicologia, a psicanálise, psiquiatria, filosofia, teorias da literatura, o jornalismo, a história – dentre outros – se tornaram saberes que têm como principal inconfessável objeto produzir identidades ou subjetividades livres para se tornarem o manjar diversificado da civilização ocidental burguesa; 9) a principal confissão das subjetividades ou identidades produzidas pelas tecnologias de eu da civilização ocidental é a de aceitá-la “livremente”, a civilização burguesa, como se fora um presente eterno e imutável; 10) a civilização burguesa ocidental se torna divina e eterna, através das técnicas de confissão, na medida em que consegue deslocar e domesticar a potência povo, que é potência coletiva, da democracia, em potência individual, de modo que o outro da e na potência povo deixa de ser a possibilidade de outro modelo civilizacional e passa a ser o outro como diferente indivíduo isolado;11) este, o indivíduo isolado, é o que confessa a si mesmo como outro, como gay, negro, índio, latino, mulher e tem como horizonte de expectativa a afirmação orgulhosa de si como outro, aceitando a sociedade burguesa como eterna, imutável, porque não pode de forma alguma vincular a sua condição de outro, em relação a qualquer padrão étnico e sexual, por exemplo, à necessidade de produzir um outro modelo de civilização, não burguês; 12) o indivíduo isolado, orgulhoso de sua diferença, é o supermercado humano da civilização burguesa, seu cordeiro de Deus, razão pela qual é mercadoria de gente ou gente como mercadoria, duplamente comprável: comprável porque é literalmente comprado e comprável porque compra diferenças humanas no supermercado humano burguês;13) Nova Iorque é a principal cidade-supermercado da civilização burguesa planetária e suas ruas são prateleiras onde os confessados indivíduos isolados são expostos à publicidade midiática mundial, como cordeiros do Deus da sociedade burguesa; 14) tal como na Idade Média católica, o grande inimigo da civilização burguesa, é o não católico, isto é, o não burguês ou aquele que não aceita a confissão da verdade de sua diferença-mercadoria da e para a sociedade burguesa; 15) as guerras que a civilização burguesa realiza diariamente, tal como na Idade Média católica, são cruzadas contra heréticos que, por uma razão ou outra, não se confessam nas prateleiras humanas do supermercado mundial da burguesia ou oligarquia burguesa planetária; 16) a sexualidade ou o dispositivo da sexualidade é o principal mecanismo de tecnologia do eu da civilização burguesa ocidental, de modo que confessar a si mesmo como outro, na prateleira do supermercado humano burguês, torna-se antes de tudo confessar a verdade de seu próprio sexo; 17) no interior da sociedade do espetáculo, os meios de comunicação de massa são tecnologias de eu ou fábricas de produção de identidades sexualmente confessadas como “felizes” ocupantes das prateleiras do supermercado humano burguês.

O supermercado midiático
Dizer que os meios de comunicação de massa são máquinas de produção de “eus confessados” do mundo burguês contemporâneo, como disse na décima sétima enumeração acima, equivale a interpretar literalmente a máxima do filósofo e educador canadense Marshall McLuhan, “o meio é a mensagem”, razão pela qual, na civilização burguesa contemporânea, os meios de comunicação de massa constituem a própria mensagem da verdade literal do mundo burguês como democracia de fachada ou como domesticada democracia de prateleira.
A mídia planetária burguesa, tautologicamente, é ela mesma uma máquina de publicidade burguesa ou simplesmente o supermercado midiático e publicitário do mundo burguês, como confessada verdade tecnológica da exposição planetária das subjetividades burguesas. Ela é, pois, o supermercado virtual das confessadas mercadorias humanas das multicoloridas subjetividades burguesas, como farsa ou propaganda enganosa daquilo que elas efetivamente não podem ser: diversidades não burguesas, povo em dissenso produzindo a si mesmo fora do mundo burguês: fora da mercadoria ou do humano como mercadoria ou da mercadoria humana como cordeiro de Deus do mundo burguês.
E aqui finalmente chegamos à confissão da apresentadora Xuxa, realizada no programa da TV Globo, Fantástico, no domingo do dia 20. Tal como a máxima de McLuhan, “o meio é a mensagem”, suas confissões devem ser interpretadas literalmente como verdades não apenas dela, Xuxa, mas antes de tudo das prateleiras do supermercado midiático do mundo burguês.

A prateleira midiática global
As confissões de Xuxa no Fantástico detêm um ponto sísmico subjetivamente obscuro proibido cuja verdade deve ser publicitariamente revelada para o público: a violação sexual de que foi vítima na sua infância e adolescência. Xuxa confessa a verdade de que foi vítima de pedófilos, verdade publicitária porque serve antes de tudo para produzir audiência.
A propósito das confissões das práticas ou experiências sexuais proibidas, como a pedofilia, por exemplo, no ensaio Tecnologias do eu (1988), Michel Foucault diz textualmente: “A diferença do que ocorre com outras proibições, as proibições sexuais estão continuamente relacionadas com a obrigação de dizer a verdade sobre si mesmas” (FOUCALT, 1990, p.21).
Dialogando com Foucault, as confissões pessoais e sexuais de Xuxa estão diretamente comprometidas com a necessidade de dizer a verdade sobre si mesma – sobre a experiência traumática da verdade da história de Xuxa, talvez a mais cara mercadoria humana produzida pelo mais poderoso supermercado midiático brasileiro: a TV Globo.
Aqui, antes de continuar, abro um parêntese.
(Claro que dizer o que disse não constitui uma forma de desconsiderar o trauma vivido por Maria da Graça Meneghel: a Xuxa como pessoa real. Minha análise, deixo claro, é sobre a personagem Xuxa, embora já não saibamos se era Xuxa como personagem que confessava a verdade dela como pessoa real, como Maria da Graça Meneghel; ou se esta que confessava a verdade daquela, tal a verdade que uma se misturou com a outra, inevitavelmente, como parte da prateleira midiática global. Deixo claro enfim que respeito o trauma vivido por Maria da Graça Meneghel.)

O padrão machista e patriarcal
Fechado o parêntese, penso que analisar literalmente as confissões de Xuxa no Fantástico só é possível se não caímos na cilada das técnicas de confissão midiáticas; cilada programada para que fiquemos presos às confissões individuais de Xuxa, seja como personagem, seja como pessoa real.
A fim de sair dessa cilada, é preciso admitir que a verdade não é individual e que, portanto, a verdade confessada de Xuxa é a verdade do confessionário da máquina midiática ao estilo da TV Globo, como verdade que interessa à civilização ocidental capitalista, que produz tecnologias de supostas verdades individuais, a fim de que não enxerguemos a verdadeira verdade: a verdade sobre o próprio capitalismo ocidental planetário contemporâneo.
É aqui que é necessário ir ao mesmo tempo além da Xuxa, como pessoa real, como Maria da Graça Meneghel, a fim de nos determos na Xuxa como produção subjetiva midiática, midiaticamente coletiva ou midiaticamente produzida para provocar, induzir, despertar verdades subjetivas que interessam à civilização burguesa ocidental contemporânea.
Tendo em vista, pois, a Xuxa como personagem produzida midiaticamente, penso que a verdade literal que deve ser considerada é esta: Xuxa foi agenciada midiaticamente para despertar, provocar e fazer confessar, em carne e osso, a identidade da sexualidade infantil no Brasil, razão pela qual ela pode ser perfeitamente considerada, sob esse ponto de vista, como a maior – a Xuxa como personagem midiática, bem entendido – pedófila do Brasil, se entendemos a pedofilia não apenas como uma violação ou estupro do corpo infantil, mas também e antes de tudo como violação programada do corpo de crianças e de adolescentes, através do estímulo sexual precoce nos moldes do padrão machista e patriarcal, com o claro objetivo de reduzir a libido humana à alienada função sexual associada ao consumo de massa.

Figuras inocentes e extremamente erotizadas
Este, o capitalismo mundial contemporâneo, também designado como sociedade de consumo mundial, é eminentemente pedófilo, pois, a fim de vender suas mercadorias reificadas, necessita sexualizar a tudo e a todos, inclusive a infância, porque, se alguma verdade deve ser confessada, a literal verdade é esta: não existe capitalismo sem exploração publicitária e carnal do dispositivo da sexualidade.
É por isso que, como personagem ou animadora de programas infantis, Xuxa sempre foi uma figura híbrida: mistura de criança inocente e mulher extremamente erotizada e erotizável. É evidente que, consciente ou não, ela contribuiu significativamente para sexualizar precocemente e da pior forma possível milhões de crianças brasileiras.
É preciso entender a pedofilia literalmente como uma espécie de razão encarnada. Sob esse ponto de vista, como não evidenciar a sexualização generalizada da infância, sobretudo da infância pobre? Como fechar os olhos para o que vemos, ao andar pelas ruas das periferias do Brasil: crianças e adolescentes confessando através do corpo, dos gestos, das maquilagens, das roupas, suas híbridas figuras ao mesmo tempo inocentes e extremamente – para não dizer epidermicamente ou “xuxamente” – erotizadas?

A prostituição da rendição ao dinheiro
É por isso que é possível dizer que a verdade da confissão, desde pelo menos os bastidores da Inquisição medieval até as subjetivas confissões encarnadas do mundo burguês contemporâneo, é uma só: a única confissão que as técnicas confessionais admitem é a da mentira ou do desvio em relação à confissão inconfessável: a de que a primeira violação, a mais violenta de todas, é a violação do roubo da riqueza comum, via exploração/extorsão/estupro da riqueza dos povos.
No Manifesto Comunista de 1948, Marx e Engels descreveram singularmente como o contrato social da civilização burguesa transformaria o trabalhador em mera peça na engrenagem geral do lucro concentrado através da fria universalidade do dinheiro. Este seria (e já era) o novo Deus que subjugaria e prostituiria o mundo inteiro por meio da não menos universalização monolítica da relação impositivamente imparcial de compra/venda. Tudo se tornaria – e já era – uma “impessoal” relação de compra e venda, desde a força do trabalho, o corpo vivo do operário, até a sexualidade dos filhos e filhas dos trabalhadores, razão suficiente para afirmar categoricamente que o sexo – e a sexualidade – se transformaria cada vez mais em uma questão de finanças ou econômica, inclusive, portanto, a violação pedófila de crianças e adolescentes – e novamente principalmente a dos filhos e filhas dos trabalhadores.
Não é à toa, a propósito, que Maria da Graça Meneghel jamais confessaria, no Fantástico, a violação de ter sido pobre, tendo passado parte da infância na periferia do Rio de Janeiro, pois foi dessa violação que conseguiu escapar se tornando Xuxa, assim como foi como a midiática personagem ou animadora de auditório, a Xuxa, que encarnou por um bom período a infame violação da infância pobre do Brasil, convocando-a a mistificá-la e contribuindo globalmente para sexualizá-la através da própria mistificação mercadológica, cujo embutido mistificador estava (está) implicado com a tarefa midiática de fazer com que as crianças do Brasil a encarnassem, principalmente o seu Frankenstein lado mulher/lasciva/infância/inocência, como encarnada verdade de que o sexo deve ocupar o lugar da luta por um mundo sem exploração econômica, pois deve ser o exclusivo interesse e fixação de todos nós, inclusive e antes de tudo de nossas abandonadas crianças e adolescentes, violados pelo estupro econômico e jogados precocemente ao horizonte sem horizontes da mais vil prostituição, a que nos toca a todos, sem exceção: a prostituição da rendição geral ao dinheiro, este pedófilo da vida ao qual Xuxa não faz a mais mínima menção porque foi e é milionariamente bem paga.

[Luís Eustáquio Soares é poeta, escritor, ensaísta e professor de Teoria da Literatura na Universidade Federal do Espírito Santo – Ufes]

Uma narrativa que excreta o suor frio do desespero

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A pretensão de pautar as urnas de 2012


Por Saul Leblon


Qualquer brasileiro tem o direito de dizer que considera inconveniente atropelar o processo eleitoral de 2012 com o julgamento do chamado mensalão. Não se pode subtrair a um líder político como Lula, que combateu a ditadura, liderou greves históricas, disputou, perdeu e ganhou eleições presidenciais, tendo sido conduzido duas vezes ao cargo máximo da Nação, a prerrogativa de externar idêntico ponto de vista.

Mais que um direito, mais que uma avaliação com a qual muitos democratas concordam, é um dever de Lula contribuir para a ordenação da agenda política nacional. Outra coisa é se o ex-presidente acertou em participar de um encontro a três, sendo os outros dois quem são, Gilmar Mendes e Nelson Jobim.

A resposta a essa questão pertinente não avaliza a indisfarçável sofreguidão dos que querem pautar a democracia brasileira, impondo como prioridade fazer o julgamento do chamado 'mensalão' incidir na campanha de 2012.

Reduzir as eleições municipais em 5.560 municípios a um plebiscito em torno desse episódio controvertido contempla forças que não se consideram habilitadas para enfrentar o debate municipal com propostas e, mais que propostas, com o legado de suas escolhas estratégicas pesado e medido pelo veredito da história recente.

A manifestação democrática de Lula nesse sentido, se houve, incomoda muito; mas é legítima.

Derivar daí um enredo fantasioso, desmentido por testemunho insuspeito, de chantagem e ofertas de capangagem política é uma narrativa que ademais de caluniosa excreta o suor frio do desespero. Embora provoque desconcerto pela audácia, no fundo há coerência na tentativa de pautar a democracia brasileira.

A trajetória de certos personagens e veículos que se notabilizaram como a corneta mais estridente do conservadorismo nativo atingiu um beco sem saída. A dobra da história não lhes é favorável. A esmagadora eleição de Dilma Rousseff derrotou , pela terceira vez consecutiva, a aposta na manipulação midiática da opinião pública como receita de sucesso eleitoral. O stress dos materiais é evidente no almoxarifado conservador.

Faltam-lhe peças de reposição. Ferrugem e fuligem corroem seus discursos e agendas.
No auge da crise de Cachoeira, quando seu mundo ruiu, Agripino Maia, o líder que sobrou aos demos, decidiu escafeder-se em busca ar fresco junto a aliados no exterior: foi parar na Espanha, onde equivalentes ibéricos dos demos assumiram o governo para dobrar a aposta neoliberal esfarelando a sociedade espanhola em desemprego e recessão

A mídia aliada se desgasta no esforço de preencher o vácuo com factóides que vão sedimentando a sua irrelevância. Sintomático nesse sentido é o declínio da outrora relevante página 2 da Folha, hoje preenchida com dificuldade por personagens do segundo escalão jornalístico que sofrem para empilhar palavras em comentários previsíveis e frequentemente descartáveis. O conjunto todo clama por uma renovação que não parece capaz de brotar das entranhas do velho aparato agônico.

À consagradora avaliação dos dois governos Lula - que deixou a presidência com 80% de aprovação - não sucedeu o vaticinado fracasso de Dilma. Ao contrário. A presidenta que caminha para o seu ano e meio de gestão desfruta de credibilidade e prestígio igual ou superior aos de seus antecessores em igual período. Dilma consolida, dilata e radicaliza conquistas trazidas do ciclo que ajudou a erigir: politizou corajosamente a agenda dos juros acossando o território sagrado da lógica rentista; afrontou dogmas da ditadura ao instituir uma Comissão da Verdade que, nascida frágil, rompe a esférica blindagem de uma agenda tabu e pode surpreender.

No plano internacional, esfarela-se o leque de referências econômicas que sustentaram a hegemonia do mercadismo tupiniquim. O tripé surrado feito de privatizações, Estado mínimo e supremacia das finanças desreguladas sobre a economia e a sociedade reduziu povos à condição de nações zumbis; destruiu o Estado do Bem-Estar Social; arrasta o mundo há quatro anos para uma espiral descendente igual ou pior que aquela produzida pela grande depressão dos anos 30. Quem, hoje, em pleno controle de suas faculdades mentais apresentar-se-ia ao eleitor com a proposta de impingir ao Brasil um projeto anacrônico de laissez-faire como o que esmaga nações europeias, entregues a versões locais do programa demotucano?

A bandeira da moralidade, ademais, foi-lhes definitivamente subtraída pelo estouro da roleta tentacular da quadrilha Cachoeira.
Restou assim requentar o pão amanhecido do 'mensalão', tarefa frágil a qual dedicam-se os centuriões dos interesses derrotados nas urnas e na história nos últimos anos. Gilmar Mendes perfila entre eles. É uma constatação biográfica assumida, não um dedo acusador. Na ausência dos titulares da linha de frente , assoberbados por processos criminais e derrotas eleitorais humilhantes, o ex-presidente do STF assumiu o vácuo para protagonizar o enredo do desespero, generosamente ecoado por Veja e seus satélites.

A agressiva manipulação dos fatos a partir do encontro ocorrido no escritório do ex-ministro Jobim evidencia o peso e a medida que os factóides passaram a ocupar na arquitetura de sal de um aparato retalhado pelos ventos da história. Pautar a democracia através do jogral midiático é um requisito para legitimar o derradeiro suspiro dessa lógica: fazer do mensalão' uma borracha histórica, capaz de eclipsar derrotas e desnudamentos, para postergar o funeral sem lágrimas da hegemonia conservadora no país