CartaCapital, 02/07/17
É primavera no Brasil, por Francisco
Teixeira
Por Francisco Teixeira*
Muitos brasileiros tinham esperança, ou ao menos expectativas, na atuação da
Justiça. Mesmo sabendo que os tribunais brasileiros são lentos, formais e que
se expressam num leguleio que poucos entendem – mesmo assim! – esses
brasileiros tinham esperanças. Não podíamos crer, materializar, o dito antigo
de
que a Justiça no Brasil é feita – e
com dureza! – apenas para ladrão de galinhas. “Para os amigos tudo, para os
inimigos a Lei!”. Nem muito menos podíamos imaginar que
seria através
de tribunais brasileiros que interesses estrangeiros declarariam guerra ao
Brasil.
Uma guerra de novo tipo: uma guerra
sem guerra, ou seja, uma guerra que usa meios não bélicos para destruir,
solapar, aniquilar a capacidade do adversário. Assim,
utilizando-se de modernos meios tecnológicos – mídias digitais,
propaganda massiva, formação de quadros de elite em universidades estrangerias,
sistemas de estágios e bolsas de estudos em centros de treinamentos, etc... arma-se uma elite para atuar a serviço, consciente ou
inconscientemente, desse poder estrangeiro.
O Brasil não seria o primeiro alvo. Na verdade
Ucrânia, Líbia, Egito, Tunísia, Síria, Geórgia e Turquia foram alvos
anteriores desse modelo novo de guerra – uma guerra que não precisava
recorrer aos custosos meios tradicionais de luta com canhões, bombardeios e
destruição de cidades. Podia-se fazer a guerra a bem dizer... sem guerra. Por
outros meios. Não era exatamente uma “guerra híbrida” ainda. A guerra híbrida
misturaria meios novos e meios tradicionais. Por enquanto,
nas chamadas “primaveras”, a guerra seria “sem guerra”.
Para funcionar a “guerra sem guerra”, precisa-se conhecer bem
o ponto fraco do inimigo. No caso
brasileiro foi fácil: homens do talho de Victor
Nunes Leal e Raymundo Faoro já
apontavam para a chaga aberta do país – o caráter patrimonial do Estado
brasileiro. O patrimonialismo, no perfeito conceito de Max
Weber, permitiu que uma elite parasitária colonizasse o Estado e
cooptasse tudo e todos que se apresentem como “o novo”, “o transformador”, “o
renovador”. Trata-se do velho “transformismo” das elites, e de seu poder de
cooptação, tão bem descrito por
Jorge Amado em
seu personagem ‘Doutor Mundinho’, de ‘
Gabriela, cravo e canela’.
Cabia, posto, utilizar-se dos males propiciados pela elite corrompida do
país como brecha para iniciar o ataque à soberania nacional. O interessante é
que tal ataque a nossa soberania seria feita pela parcela, aparentemente, não
corrompida dessa mesma elite.
Estrangeirada,
imbuída do élan “renovador”, tal elite embora inteiramente colonizada, vestida,
como no dizer de Frantz Fanon, com a máscara
do colonizador para impor ao seu próprio povo um modelo importado e
alienado. A elite
“renovadora”, capacitada em centros estrangeiros,em nome de uma pureza que só o
“outro perfeito”, “o estrangeiro”, “o espelho” em que devemos nos mirar e,
assim, deixar de ser o que somos para ser a cópia mascarada do “Outro”
colonizador, renega sua própria gente, sua história e suas tradições.
Com tudo isso destrói as bases da
própria soberania nacional.
A Operação Lava-Jato abriu, sim, para muitos, a esperança de que as coisas
mudariam, o patrimonialismo de mais de quatro séculos seria arrancado pelas
raízes e que o país seria “passado a limpo” – mas, infelizmente, só miravam no
espelho do Outro, do estrangeiro. Depois de seus cursos e estágios no exterior
se sentiam prontos para a hercúlea tarefa de “limpar” o Estado brasileiro,
tomando-a como “missão”. De qualquer ponto que puxassem o fio viria o novelo de
pecados da história-pátria: propinas, sinecuras, prebendas, filhotismo,
estelionato, favoritismo, peculato, e tanto mais... Contra uma “história feia”,
a nossa, a da própria pátria, considerada viciosa, apunham a história virtuosa
d´“Outro”, sem saber que a história desse “Outro” é uma pura construção mítica,
ideológica, benzida na pia da religião.
Incultos na sua erudição tomaram o mito d´Outro como história.
Iniciaram-se, então, os procedimentos jurídicos, o flanco da “guerra sem
guerra”, a primavera do Brasil: afinal poderosos iriam para prisão. E realmente
foram
. Foram mesmo? Bem,
Eduardo Cunha – uma unanimidade nacional, uma espécie de “meu
malvado predileto” da Nação – mas,
só
depois que cumpriu seu papel, o de defenestrar Dilma
Rousseff do seu cargo via acusações que seriam nos meses seguintes
“fichinha”, “crime” de freira de colégio interno, face ao chorume a vazar
do Congresso Nacional nos meses seguintes ao seu impeachment.
Bom, prendeu-se Cunha com seu aspecto melífluo, sua voz dissimulada, suas
mãos felinas e seu cabelo oleoso e com aparência de caspa severa – está lá!
Condenado a 15 anos de prisão! No entanto, sua esposa – uma jornalista de
grande experiência foi considerada inocente, pois não sabia de onde caía o
dinheiro no seu generoso cartão de crédito...
Há quem mais? Ah, não... Esse está livre; este outro... Fez delação
e foi solto; aquele... hum, foi liberado e.... acolá outrem está em
prisão domiciliar.
O próprio Cunha é personagem central de tramas noturnas da República e
continua sendo personagem central no “esquema” (ou será “organização”, um sinônimo
talvez de “quadrilha”) que sustenta com propinas e malas cheias o presidente em
exercício. Portanto,
é, em verdade, um
homem mais livre que a maioria dos 204 milhões de brasileiros que não
escolheram seu presidente e com passes de equilibrista esticam seus salários
até o mês seguinte!
Ah,
temos sim um prisioneiro da
Lava-Jato: o Almirante Othon Silva, condenado
a 43 anos de reclusão. Um homem que prestou inúmeros serviços à Pátria, que
enfrentou terríveis forças internacionais para dotar o país de uma tecnologia
única e avançada, resistindo heroicamente às pressões ocultas de grandes
potências. Envergonhado, após a prisão, tentou o suicídio. Mostra caráter! Sérgio Cabral, Eduardo
Cunha, qual outro político escreveu sequer uma linha de arrependimento?
Nada!
Muito pelo contrário continuam, com
recursos escusos, conspirando contra a ordem constitucional da República.
No entanto
o tribunal entendeu que o
homem que dotou o país de alta e exclusiva tecnologia de ponta, um saber
estratégico para a Nação, merecia uma pena 3.7 vezes superior ao mago do mal
que presidiu o Congresso Nacional, o senhor Eduardo Cunha. Decidiu-se punir
um Almirante muito mais do que quaisquer um dos malfeitores que roubam não só o
dinheiro, mas principalmente o bem maior do povo, roubam o voto dos cidadãos.
Temos, contudo, como explicar mais esse paradoxo:
como permitir que um país com tantas
riquezas como o Brasil pudesse se dotar de uma tecnologia nuclear autônoma? Tinha-se
que exemplificar em alguém o castigo para parar, deter e nunca mais permitir a
ousadia de uma mera colônia neo-extrativista de ser, de fato, um país
verdadeiramente soberano.
Como se não bastasse,
o mesmo
tribunal, aliado a governos estrangeiros, condenam as empresas brasileiras.
Isso mesmo, as empresas. Não condenam apenas os executivos responsáveis pelos
atos de corrupção, condenam as empresas. Ou seja,
em vez de julgar “CPFs”, o tribunal julga “CNPJs”. Condenando as empresas com multas bilionárias a serem pagas a governos estrangeiros, conseguem
gerar desemprego massivo, destruição de postos de trabalho, extinção de
modernas tecnologias, subdesenvolvimento e a retirada do Brasil de mercados
duramente conquistados. E os executivos? Bem, esses são “premiados” e vão para
casa! Uma tornozeleira aqui, outra ali; uma retenção de passaporte de um e de
outro não... e para outros nenhuma punição! Ou seja, as empresas, os “CNPJs”,
são condenadas, caminham para extinção, o desemprego campeia, os trabalhadores
sofrem e os executivos – “CEOs”, gostam de dizer! – vivem feliz o resto da
história!
Nem as
empresas que colaboraram, e mesmo colocaram em funcionamento o Holocausto durante
o Terceiro Reich, foram punidas desta forma.
A punição recai sobre seus proprietários e executivos e hoje são orgulho
da nova Alemanha.
Aqui, como se não
bastasse a contaminação de valores intangíveis das empresas, devora-se a
própria capacidade das empresas sobreviverem. Assim, a engenharia, a pesquisa
geológica, a mineral, agropecuária, ferroviária, a engenharia de alimentos, os
laboratórios das universidades, transportes e logística passam a ser alvo de
uma operação profunda de desmonte.
Enquanto isso, outros
produtores/fornecedores internacionais, concorrentes do Brasil, ocupam fatias
crescentes de mercados tradicionalmente do país.
A capacidade de agregação de valor despenca e cada vez mais nos
aproximamos de uma situação de colônia neo-extrativista.
Trava-se, assim, uma “guerra sem guerra” na qual o futuro da soberania
nacional está em jogo. E o mais triste de tudo é que o povo brasileiro nada
sabe sobre guerras.
*Historiador,
ganhador do Prêmio Jabuti, 2014.