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Carta Maior, 02/05/2016
Dilma já governa com a rua e resistirá se a rua se organizar
Por Saul Leblon
A história apertou o passo no país e quem não entender isso será atropelado pela velocidade dos acontecimentos.
Esse
é um tempo em que jornais de hoje amanhecem falando de um remoto mundo
de ontem; tempo em que a tergiversação colide com a transparência; tempo
em que nenhum discurso faz mais sentido dissociado da tríade: ‘rua’,
‘resistência’ e ‘organização’.
As sirenes da história anunciam
confrontos intensos no front.
De
um lado, os interesses da maioria da população; de outro, a coalizão da
escória parlamentar com o rentismo e a classe média fascista.No arremate desse enredo a mídia insufla a venezuelanização do Brasil.
Não
é sugestivo do lugar da Folha na história que a edição desta 2ª feira,
por exemplo, de hoje mostre Paulinho Boca festejado pelo "povo" e Dilma
cercada por uma mosca?
Dilma fez no 1º de Maio do Anhangabaú o melhor discurso de sua vida.
Veja
a íntegra de sua fala aqui: https://www.facebook.com/jornalistaslivres/posts/363835267073690
Sim,
Dilma incendiou um ato que começou morno e sem a presença de Lula. Como
explicar essa mutação que passou batida aos petizes da mídia pautados
no Anhangabaú para alimentar o golpe – de moscas, se possível —e não para
fazer jornalismo?
A
explicação está no acirramento de um conflito que Lula, Dilma, o PT e
todas as forças progressistas e democráticas resolveram encarar de
frente, pelo simples fato de que não fazê-lo seria trair o país, o povo
e, sobretudo, a esperança na construção de uma democracia social na
oitava maior economia do mundo e principal referência da luta pelo
desenvolvimento no ocidente.
Todo
o discurso da Presidenta Dilma irradiou esse discernimento de que o seu
governo e mais que ele, o projeto que ele expressa só tem futuro se
tiver o desassombro de ser defendido na rua.
Foi
isso que Dilma fez ao levar seu governo à rua do 1º de Maio e lá
anunciar um aumento médio de 9% para o Bolsa Família, ademais de
reafirmar a prorrogação do Mais Médicos por três anos, corrigir a tabela
do IR e adicionar mais 25 mil contratações à linha do Minha Casa
vinculada à autoconstrução dos movimentos.
Dilma
afrontou assim o martelete midiático do ‘país aos cacos’, que
lubrifica a sociedade para a resignação diante do arrocho embutido na
tese do golpe ‘saneador’.
Dilma
fez mais que isso ao acusar a
sabotagem paralisante contra o seu
governo, por parte dos interesses que, derrotados quatro vezes no jogo
democrático, resolveram destruir a urna e pisotear seus escombros para
chegar poder.
A propaganda do
jornalismo embarcado sonega esse traço central da encruzilhada
brasileira:
a ofensiva golpista não é uma consequência da crise; ela é a
crise em ponto de fusão.
Em
outras palavras, ao contrário do que solfejam os violinistasdo golpe,
não existe uma ‘macroeconomia responsável’ (a do arrocho) que vai tirar o
Brasil da espiral descendente.
O
que existe é um acirramento da luta de classes, a exigir uma
repactuação política do país e do seu desenvolvimento. Algo que a
plutocracia, a mídia, a escória e o fascismo decidiram elidir por meio
do golpe e através dele impor a sua agenda ao país.
‘Eu
vou resistir’, disse Dilma ovacionada pela multidão no Anhangabaú que
teve a prerrogativa de participar desse pontapé da resistência de
uma
Presidenta que passou a governar na rua, pela rua, com a rua.
Esse
é o requisito para mudar a correlação de forças e destravar as
verdadeiras reformas de que a sociedade e o desenvolvimento necessitam.
A
saber: reforma política, para capacitar a democracia a se impor ao
mercado; reforma tributária, para buscar a fatia da riqueza sonegada à
expansão da infraestrutura e dos serviços; reforma do sistema de
comunicação, para permitir o debate plural dos desafios brasileiros – que
não são poucos, nem se resolvem sem ampla renegociação do desenvolvimento.
Quem rumina desalento diante do gigantismo dessa tarefa menospreza o salto histórico percorrido nos últimos meses.
Há
exatamente um ano, um outro comício do dia do trabalhador organizado no
mesmo Vale do Anhangabaú foi igualmente desdenhado pelo noticiário – e
mesmo por uma parte da esquerda.
Foi tratado como mero evento retórico.
Um ano depois, as ruas do Brasil já não dormem mais.
Um ciclo de grandes mobilizações de massa está em curso no país.
Respira-se a expectativa dos campos de batalha no amanhecer do confronto.
A
engrenagem capitalista puro-sangue escoicea o chão do estábulo.
Aguarda os cavalariços do golpe que vem lhe trazer a liberdade para
matar.
A chance de que o
embate resulte em uma sociedade melhor depende da determinação
progressista – acenada no discurso de Dilma - de assumir a rédea das
forças xucras do mercado, para finalmente domá-las a favor do povo e da
nação brasileira.
O golpe tornou quase inevitável isso que o ciclo do PT sempre adiou em favor de soluções acomodatícias e avanços incrementais.
A
natureza ferozmente excludente de sua lógica revela os limites
estreitos e irredutíveis de uma parte da elite brasileira, da qual a
mídia se fez porta-voz.
No 1º
de Maio do ano passado, Lula – ausente nesse por recomendação médica -
lembrou que
a primeira universidade brasileira só foi construída em
1920.
Quatro séculos depois do descobrimento.
Em
1507, em contrapartida, 15 anos depois de Colombo chegar à República
Dominicana, Santo Domingo já construía sua primeira universidade.
Tome-se o ritmo de implantação do metrô em São Paulo, em duas décadas de poder tucano.
Compare-se a extensão duas vezes maior da rede mexicana, ou a dianteira expressiva da rede argentina e da chilena.
O padrão não mudou.
Lula
criou 18 universidades em oito anos. A elite levou 420 anos para erguer
a primeira e Fernando Henrique Cardoso não fez nenhuma.
Há lógica na assimetria.
Para
que serve uma universidade se não faz sentido ter projeto de nação; se a
industrialização será aquela que a ALCA rediviva permitir e se o
pré-sal deve ser entregue à Chevron?
O
que Lula estava querendo dizer ao povo do Anhangabaú, então, tinha
muito a ver com algo que agora assume nitidez desconcertante nos
‘planos’ do golpismo.
O
desenvolvimento brasileiro não pode depender de uma elite que dispensa
ao destino da nação e à sorte do seu desenvolvimento o mesmo
descompromisso do colonizador em relação aos povos oprimidos.
Uma
elite para a qual a soberania é um atentado ao mercado não reserva
qualquer espaço à principal tarefa do desenvolvimento, que é civilizar o
mercado para emancipar a sociedade e, portanto, universalizar direitos.
Reinventar
a soberania no Brasil do século XXI, portanto, implica vencer o golpe e
seu projeto de terceirização do Estado e do patrimônio nacional aos
mercados.
A devastação do
mundo do trabalho e a supressão da cidadania social é a lógica que move o
golpismo e os homens-abutres frequentam seu bazar de ministérios.
O
que a elite preconiza nos salões onde se negocia o botim é de uma
violência inexcedível em regime democrático e muito provavelmente
incompatível com ele.
É como
se uma gigantesca engrenagem cuidasse de tomar de volta tudo aquilo que
transgrediu os limites de uma democracia tolerada por ser apenas
formal, mas que o ciclo iniciado em 2003, com todas as suas limitações,
desvirtuou em direção a um resgate social transgressivo para o gosto da
elite local.
No lugar disso,
o
que se pretende instituir agora é um paradigma de eficiência feito de
desigualdade ascendente. A Constituição Cidadã de 1988 será retalhada.
Programas e políticas sociais destinadas a combater a pobreza e a
desigualdade de oportunidades serão evisceradas. O que restou da esfera
pública, privatizado. A riqueza estratégica do pré-sal e o impulso
industrializante contido na exigência de conteúdo nacional serão
ofertados no altar dos ditos livres mercados (ou Chevron).
A
ambição implica regredir aquém do ciclo de redemocratização que
subverteu o capitalismo selvagemente antissocial da ditadura. Como
disse Dilma no 1º de Maio:
lutamos hoje para preservar tudo o que
conquistamos com a redemocratização; mas também tudo o fizemos antes
para ter a democracia de volta’.
A
petulância chega a tal ponto que na véspera deste 1º de Maio,
Michel
Temer afagou a bancada ruralista com uma promessa obscena: o golpe
revisará todos os decretos de desapropriação de glebas para reforma
agrária e demarcações de áreas indígenas assinados por Dilma nos últimos
meses.
O confronto é aberto.
Não será vencido só com palavras.
No
1ºde Maio de 2015, o presidente da CUT, Vagner Freitas chamou para a
frente do palco dirigentes da Intersindical e da CBT; chamou Gilmar, do
MST; chamou Boulos, do MTST, e outros tantos; e através deles convocou
quase duas dezenas de organizações presentes.
Vagner
apresentou ao Anhangabaú, então, a unidade simbólica da esquerda
brasileira, fixada em torno de uma linha vermelha a ser defendida com
unhas e dentes: a fronteira dos direitos, contra a direita; a da
democracia, contra o golpe.
Premonitória, sua iniciativa, já não basta mais para deter uma violência que agora marcha ostensivamente para sua consumação.
A defesa da agenda progressista hoje implica, ademais da unidade das direções,
promover a capilaridade da resistência popular.
Comitês
de resistência da vizinhança; comitês de resistência nos locais de
trabalho; comitês profissionais e sindicais; comitês de amigos; comitês
de mães de alunos; comitês por escola...
Sobretudo,
urge dotar essa capilaridade de uma prontidão articulada, exercida por
uma efetiva coordenação da frente progressista nascida no 1º de Maio de
2015.
Hoje para afrontar o
golpe; amanhã para vencer uma nova disputa presidencial, essa rede da
legalidade é a tarefa inadiável dos dias que correm.
Por
uma razão muito forte: sem ela o próximo 1º de Maio talvez encontre o
Vale do Anhangabaú cercado por tropas de um golpe vencedor.
O Brasil será aquilo que a rua conseguir que ele seja.
Quando o extraordinário acontece na vida de uma nação é inútil reagir com as ferramentas da rotina.
Hoje a palavra organizar é sinônimo de resistir, assim como o substantivo ‘rua’ tornou-se equivalente ao verbo lutar.
As lideranças populares não podem desperdiçar o significado histórico dessa mutação
As ruas do Brasil já não dormem mais, cabe às lideranças dotá-las de sonhos reais.