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Carta Maior, 12/02/16
Nota técnica sobre microcefalia e doenças relacionadas ao Aedes aegypti
AbrascoNós, sanitaristas e pesquisadores da Saúde Coletiva que atuamos no
GTs Saúde e Ambiente; Saúde do Trabalhador; Vigilância
Sanitária; Promoção da Saúde e Desenvolvimento Sustentável; Educação
Popular e Saúde e Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva da
Associação
Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), vimos a público porque temos o
dever
de elaborar reflexões, questionamentos e fazer proposições que possam
orientar as políticas públicas na intervenção preventiva frente às
epidemias de microcefalia e doenças vetoriais relacionadas ao Aedes
aegypti. Dentre os eventos sanitários clinicamente visíveis, as
problemáticas relacionadas às doenças vetoriais surgem como um dos mais
importantes eventos sanitários pós Segunda Guerra Mundial.
Como
se sabe, foi decisão do Ministério da Saúde (MS) imputar a associação
da epidemia de microcefalia à infecção materno-fetal pelo vírus da Zika,
supostamente introduzido no Brasil em 2014, no Nordeste brasileiro.
Diante da inusitada incidência foi determinado o estado de Emergência em
Saúde Pública de Importância Nacional, desencadeando a intensificação
do controle vetorial do
Aedes aegypti, dentro da mesma abordagem
utilizada para Dengue, que há cerca 40 anos é realizada sem efetividade
para os objetivos pretendidos.
Contexto do surgimento da epidemiaO
quadro sanitário no qual emerge a epidemia de microcefalia deve ser
analisado considerando-se os graves problemas que estão presentes na
realidade socioambiental em que ocorreram os casos e no modelo operacional de controle vetorial.
A distribuição espacial por local de moradia das mães dos
recém-nascidos com microcefalia (ou suspeitos) é maior nas áreas mais
pobres, com urbanização precária e com saneamento ambiental inadequado,
com provimento de água de forma intermitente, fato que leva essas
populações ao armazenamento domiciliar inseguro de água, condição muito
favorável para a reprodução do Aedes aegypti, constituindo-se em “criadouros” que não deveriam existir, e que são passíveis de eliminação mecânica.
Alguns fatos que ainda precisam ser questionados e investigados podem
justificar a introdução e a disseminação do vírus Zika.
É necessário
avaliar quais contextos e contingências existiram e aconteceram em 2014
nos locais de aparecimento dos casos de microcefalia. Podemos aventar
alguns por saltarem aos olhos, como:
1) Na região Nordeste, em
especial na periferia das suas Regiões Metropolitanas, como a de Recife,
pode ter havido
aumento da degradação ambiental, por existirem nelas
todas as condições para a manutenção da alta densidade do
Aedes aegypti,
pelos baixos indicadores de saneamento ambiental, relacionados ao
abastecimento de água, ao esgotamento sanitário, à imensa presença de
resíduos sólidos junto aos domicílios e às deficiências de drenagem de
águas pluviais. A propósito desta questão, a
Revista RADIS Comunicação e
Saúde da Fiocruz (n.154, julho 2015) traz uma esclarecedora matéria
sobre saneamento ambiental mostrando sua defasagem e os graves problemas
ainda não solucionados, o que se agrava pelos indícios de que haverá um
retardo de anos no Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) com o
ajuste fiscal.
[1]2)
A
utilização continuada de larvicidas químicos na água de beber dessas
famílias há mais de 40 anos sem, contudo, implicar na redução do número
de casos de doenças provocadas por arbovírus.
Em 2014 foi introduzido na
água de beber das populações nos domicílios e nas vias públicas um novo
larvicida o Pyriproxyfen. Conforme orientação técnica do MS
[2] esse
larvicida é um análogo do hormônio juvenil ou juvenóide, tendo como
mecanismo de ação a inibição do desenvolvimento das características
adultas do inseto (por exemplo, asas, maturação dos órgãos reprodutivos e
genitália externa), mantendo-o com aspecto “imaturo” (ninfa ou larva),
quer dizer age por desregulação endócrina e é teratogênico e inibe a
formação do inseto adulto.
3) A
intensificação de processos
migratórios pela atração de grandes empreendimentos, cujos trabalhadores
passam a viver em condições sanitárias precárias nas periferias dos
polos industriais (como o de Suape-PE, com trabalhadores vindos de
outras regiões e estados do país e de Pecém-CE, com a presença de
milhares de coreanos);
4) A
Copa do Mundo de 2014, evento de
massa de grande porte, teve uma subsede em Recife
(Arena Pernambuco).
Instalada no município de São Lourenço da Mata (IDH de 0,614), está em
uma região com precárias condições sanitárias. Foi observada a maior
concentração dos casos de microcefalia inicialmente notificados (600
casos suspeitos) nessas áreas;
5)
Fragilidade da vigilância
epidemiológica dos municípios e dos estados no diagnóstico diferencial,
na investigação de arboviroses e na diferenciação entomológica;
6)
As dificuldades na condução da vigilância da Zika e Chinkungunya, ao
tratá-las como “dengue branda”. Frise-se que a capacidade vetorial do
Aedes aegypti para
transmitir o vírus da Zyka e Chikungunya em nosso meio ainda não está
devidamente estudada nem pelos entomologistas em nossos contextos
socioambientais. Daí caber
indagações: o que fez os casos de dengue se
tornar mais graves, se antes era considerada doença benigna desde 1779
até 1950, sem provocar sequela e sem alterações hematológicas, conforme
dados da OMS? Como está o sistema imunológico da população diante do
modelo químico de controle vetorial e adotadas pelo MS em curso no País
há cerca de 30 anos?
As estratégias adotadas pelo MSApesar
das razões e incertezas que estão na determinação da ocorrência da
epidemia de microcefalia,
o caminho para o que se chama de
“enfrentamento” foi o de intensificar o “combate” ao mosquito pela
repetição do que vem sendo adotado há mais de 40 anos sem sucesso.
Chamamos a atenção da sociedade para esta questão.
Por quais razões,
apesar de todos os indicadores de ineficácia, o MS continua a utilizar a
mesma abordagem para o controle do mosquito transmissor do vírus da
dengue, doença cuja transmissão depende também de outros elementos?
Mesmo desencadeando diversas capacitações para os profissionais de saúde
e trabalhando em salas de situação para aprimorar o diagnóstico e a
notificação de casos das novas doenças virais;
permanece sem integração
as ações das Vigilâncias Epidemiológica, Sanitária e a Promoção da
Saúde.
O problema que queremos destacar nesta Nota Técnica de alerta
está na essência do modelo de controle vetorial, haja vista a intensificação do uso de larvicidas e adulticidas para o
Aedes aegypti,
sendo que segundo as orientações adotadas pelo MS desde 2014,
retrocede-se à orientação de utilização da técnica Ultra Baixo Volume
(UBV)
[3] com Malathion a 30% diluído em água, abrangendo todo território nacional.
É
preciso também problematizar
o uso de produtos químicos numa escala que
desconsidera as vulnerabilidades biológicas e socioambientais de
pessoas e comunidades. O consumo de tais substâncias pela Saúde Pública
só interessa aos seus produtores e comerciantes desses venenos. São
insumos produzidos por um cartel de negócios muito lucrativo, que atua
em todo o mundo e que, mesmo com evidências dos riscos provocados pelos
organofosforados e piretroides, dos quais se conhecem tantos efeitos
deletérios, têm tido o apoio de agências internacionais de Saúde
Pública, como o Fundo Rotatório da Organização Pan-Americana de Saúde
(OPAS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Uma simples consulta às
fichas de segurança química de tais produtos entregues pelas empresas
aos órgãos de Saúde Pública mostra que
esses produtos, a exemplo do
Malathion, são neurotóxicos para o sistema nervoso central e periférico,
além de provocarem náusea, vômito, diarreia, dificuldade respiratória e
sintomas de fraqueza muscular, inclusive nas concentrações utilizadas
no controle vetorial.
Quanto à toxicidade ambiental é recomendado evitar
seu uso no meio ambiente, o que não tem sido observado, pois seu
lançamento é feito da forma como aqui denunciamos. Tais agências se
constituem em instâncias de decisão para a compra e distribuição de
venenos para todos os países vinculados à Organização das Nações Unidas
(ONU).
Os fornecedores são os mesmos cartéis de empresas produtoras de
agrotóxicos que operam na agricultura, tornando-a também tóxica e
químico-dependente. Esse modelo, pós-II Guerra Mundial, destacamos,
impôs-se também para o controle das doenças vetoriais em Saúde Pública.
As
tecnologias de controle químico dos vetores foram introduzidas
amplamente no Brasil a partir de 1968, não se podendo desconsiderar que
sua origem deve-se às armas químicas de destruição em massa, amplamente
utilizadas pelo exército norte-americano, naquela época, na guerra do
Vietnã.
A adoção da técnica de tratamento por UBV foi uma prática
introduzida nesse mesmo período e, não por acaso, um dos primeiros
documentos de sua normatização foi elaborado pelo Exército Americano[4].
Essa
mesma lógica já está adotada para oferecer a solução mediante a
transgenia e outras biotecnologias imprecisas, duvidosas e perigosas
para os ecossistemas, focando a ação apenas no mosquito, sem levar em
conta os efeitos em organismos não-alvo.
Atenção deve ser dada a empresa
inglesa OXITEC nas pesquisas e comercialização do mosquito transgênico,
cuja fábrica foi implantada em Campinas-SP em 2013 e que, em 2014,
obteve a autorização da CTNBio para comercialização desse Organismo
Geneticamente Modificado (OGM), e sobre essa questão a Abrasco publicou
Nota Técnica
[5].
O foco no mosquito e as consequências para a saúde humanaO
lado invisível dos danos ao ambiente e à saúde humana, decorrentes do
uso de produtos químicos no controle vetorial, ainda não foi devidamente
estudado ou revelado às populações vulneráveis, incluindo os
trabalhadores de Saúde Pública. Seus efeitos nocivos são totalmente
desconsiderados tanto no agravamento das viroses, quanto no surgimento
de outras patologias tais como: alergias, imunotoxicidade, câncer,
distúrbios hormonais, neurotoxicidade, dentre outras.
Frisamos o
simplismo no trato da questão por parte do MS que reduz a causalidade
da Dengue, da Zika e da Chicungunya, centrando as ações na tentativa de
eliminar ou reduzir o vetor, o que deve ser substituído, insistimos,
pela ação de medidas de cunho intersetoriais para intervir no contexto
socioeconômico e ambiental. Visando eliminar o mosquito a ação orientada
pelo MS acaba, também, envenenando seres humanos. Mas isto não é
reconhecido: ao contrário, há uma ocultação desses perigos.
As vozes
oficiais repetem até tornar verdadeiros diversos absurdos como: “As
doses de larvicidas são tão baixas e pouco tóxicas que podemos colocar
na água de beber, sem perigo”[6].
Este
despreparo também leva a defender que a epidemia é um problema de Saúde
Pública que justifica
o uso do “fumacê”, mesmo com produtos químicos
sabidamente tóxicos, como o Malathion, um verdadeiro contrassenso
sanitário. Este produto é um agrotóxico organofosforado considerado pela
Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) como potencialmente
cancerígeno para os seres humanos[7].
Assim,
na tentativa de eliminar o mosquito estão sendo atingidos os humanos
mediante efeitos agudos (de morbimortalidade) e de morte lenta, gradual,
invisível e que é ocultada. Além das doenças agudas, as crônicas
causadas por tais produtos aparecem a médio e longo prazos, a maioria
delas chamadas
“idiopáticas”, isto é, de causa indefinida ou
desconhecida, que não são diagnosticadas ou se quer investigadas.Ocorre que em pleno século XXI, no caso das doenças transmitidas pelo
Aedes Aegypti,
houve mais um complicador em termos de Saúde Pública, pois dois novos
vírus entraram em nosso país, para cujas doenças – Chikungunya e Zika –
não havia experiência no manejo clínico e nem epidemiológico.
A dengue e o sistema de vigilância epidemiológicaO
sistema de vigilância epidemiológica da maioria dos serviços de saúde
não investigou adequadamente esta nova realidade. Agora, com a tragédia
do surgimento dos casos de microcefalia, revela-se este despreparo
técnico-gerencial.
Historicamente essas questões de Saúde Pública estão
imersas em “razões de Estado”, desconhecidas pela maioria da sociedade.
Devemos perguntar:
que razões são essas? Para tal basta examinar os
documentos oficiais do MS sobre controle vetorial.
Neste
sentido, é pedagógico examinarmos os documentos orientadores emanados do
MS. É o caso, por exemplo, da NOTA TÉCNICA N.º 109/2010
CGPNCD/DEVEP/SVS/MS
[8] de
COMBATE à DENGUE, na qual estão bem ilustrados os equívocos que aqui
sinalizamos, ou seja, a intensificação do uso da UBV motorizada e costal
nos domicílios e nas vias públicas. Nela se reitera os vários absurdos
cometidos no controle vetorial do
Aedes aegypti e que o MS insiste em manter e ampliar.
O envenenamento da população pobreNo
Brasil, a Dengue tornou-se uma doença endêmica com surtos epidêmicos e
isto precisa ser assumido de uma vez por todas.
Quais são as áreas
específicas de maior circulação viral? Justamente aquelas onde habitam
as populações mais pobres, que tem piores condições imunológicas e sem
saneamento adequado, o que vai se agravar conforme noticias do jornal
FOLHA de SÃO PAULO, edição de 11-01-2016. E
por que não se divulgam
essas vulnerabilidades para a própria população? Acima referida Nota
Técnica faz menção à outra, de nº 118/2010, que formula um parâmetro
composto, com o que se busca introduzir indicadores ambientais
[9].
Ocorre
que o faz apenas para a “delimitação das áreas que necessitam de maior
intensificação das ações do combate ao vetor”. Ou seja
, a aplicação de
veneno (inseticidas e larvicidas) acaba aumentando a nocividade sobre o
sistema imune.
A NT 109/2010 informa ainda, que “as ações de
controle larvário a serem implementadas estão voltadas, principalmente,
para as atividades de redução de fontes criadoras do mosquito (caixas
d’água, depósitos diversos, pneus, entre outros)”. Ao assim proceder,
admite-se que caixa d´água seja criadouro de mosquito e, portanto, deve
ser “tratada” com veneno. Ocorre que
a água de beber deve ter sua
potabilidade garantida.
Por que as ações não incidem na limpeza e na
proteção dos reservatórios destinados a armazenar o líquido mais
precioso para a vida? Como é possível aceitar a perda da potabilidade da
água destinada aos mais pobres? Sim aos mais pobres, justamente aqueles
que têm a maior vulnerabilidade. Que equidade é essa na qual aqueles
que deveriam ser os mais protegidos e são, paradoxalmente, os mais
expostos às situações de nocividade química por quem deveria
protegê-los? A alegação de que a população é passiva também decorre
desse modelo vertical e autoritário. Prioriza-se a potência do veneno
contra os insetos desconsiderando o perigo aos seres humanos e, assim,
nada mais precisa ser feito.
Ainda na NT 109/2010 o MS advoga
que o sucesso do controle de doenças transmitidas por vetores possa ser
atribuído aos agrotóxicos, quando cita como referência para sua
justificativa nesse documento a “National Academy of Sciences, National
Research Council. Pesticides in the Diets of Infants and Children.
National Academy Press, Washington”. Ressaltamos que o MS é a
autoridade máxima em saúde e deveria se pautar pelo princípio da
precaução quando se coloca o tema relacionado às exposições humanas a
produtos químicos perigosos.
Também nela se lê que em razão do
crescente agravamento do processo de resistência de mosquitos aos
inseticidas,
uma das principais missões do Comitê de Especialistas em
Praguicidas da OMS (WHOPES) é encontrar novos biocidas para os quais não
haja insetos resistentes, não havendo qualquer abertura para outros
métodos, não perigosos, de controle. É fato bem demonstrado que a
resistência adquirida pelo mosquito está a demonstrar a
insustentabilidade do modelo químico-dependente de controle vetorial,
pois já é sabido há muitos anos que os venenos desenvolvem e/ou aumentam
a frequência de insetos portadores de mecanismos de resistência aos
inseticidas e larvicidas, como vem ocorrendo com o Aedes aegypti.Ademais
a NT 109/2010 admite que “
todos os inseticidas que se utilizam em saúde
pública – por razões de mercado – são produtos originalmente
desenvolvidos para a agricultura, não havendo nenhum que tenha sido
desenvolvido exclusivamente para uso em saúde”. E cita como parâmetro de
sustentação do sucesso da medida, as pesquisas realizadas em Cingapura
para avaliar possível impacto da utilização das diversas medidas
utilizadas no enfrentamento de uma epidemia de dengue naquele país.
Por
que não analisar nossas próprias experiências, afinal temos um tempo de
controle vetorial de mais de 40 anos. Será que não são edificantes?
Mais venenos, mais resistência, mais venenosÉ
utilizado o exemplo do
inseticida organofosforado Temephós (conhecido
comercialmente como ABATE®), a 1%, introduzido no Brasil em 1968, como
larvicida em água potável especialmente no Norte e Nordeste brasileiro,
cujos impactos na saúde das populações não foram estudados. Sabemos que
apesar da constatação da resistência do mosquito o MS continuou a
utilizá-lo até o esgotamento de seu estoque, a despeito de ter sido
demonstrado a resistência nos insetos alvo e a farta informação
toxicológica dos potenciais riscos para a saúde humana.
A
continuidade da adição de outros larvicidas substitutos na água de beber
das pessoas se dá até hoje sem qualquer preocupação sobre sua
concentração final, pois
por orientação das normas do MS é indicada a
diluição dos larvicidas apenas considerando o volume físico do
recipiente e não pela quantidade interna de água no recipiente. Em
1998, u
m alerta formal sobre este erro de diluição foi feito por
químicos, médicos e engenheiros sanitaristas reconhecidos, mas nada
mudou! Teimosamente, até hoje os documentos oficiais do MS recomendam a
adição do larvicida nas caixas d’água considerando apenas o volume
físico e não a quantidade de água que de fato existe em seu interior.
Um
fato agravante é que em Pernambuco e outras regiões do Nordeste há
racionamento frequente de água. Diante disso, cabe indagar:
há quanto
tempo o povo dessas regiões bebe água envenenada? De forma não cuidadosa
e com falta de precaução, a introdução dos larvicidas classificados
como reguladores de crescimento de insetos (IGR) dá-se mediante Notas
Técnicas ainda mais abusivas no que se refere a “despotabilização” da
água de beber.
Entendemos que aqui está a chave mestra para
discutir porque o MS admite e defende esse modelo. Por trás disso estão
a
OMS e OPAS com o peso institucional de seus comitês de “pesticidas” que
não dialogam com os comitês: ambiental, de saneamento e de promoção da
saúde. Naqueles comitês internacionais, os que fazem a prescrição do uso
e a regulação da compra dos insumos de controle vetorial para o mundo
são imperiais. São tais organismos que convencem e dão o aval aos
processos licitatórios dos governos nacionais.
Os larvicidas
reguladores de crescimento como o Diflubenzuron e Novaluron,
introduzidos no lugar do Temephós, mostram-se problemáticos. Em Recife,
foi realizado estudo de efeito sobre a saúde dos trabalhadores que os
aplicam
constatou-se a ocorrência de metahemoglobinemia; também se sabe
que
seus metabólitos têm diversos efeitos tóxicos, e que não são
considerados. Tais resultados foram amplamente divulgados no II
Seminário da Rede Dengue da Fiocruz em novembro de 2010, na cidade do
Rio de Janeiro; no Primeiro Simpósio de Saúde e Ambiente em 2010,
realizado na cidade de Belém e no 10º. Congresso Brasileiro de Saúde
Coletiva em 2012, na cidade de Porto Alegre.
Com sua política
centralizadora,
os setores do MS responsáveis pelo controle vetorial
contraindicam que os municípios adotem outros meios independentes do uso
químico. Mesmo diante da constatação da ineficácia do modelo utilizado.
Os municípios gastam inutilmente seus parcos recursos em produtos
químicos perigosos e fazem os trabalhadores da saúde atuarem apenas
nesse ponto, expondo-os ainda aos venenos.
Insistindo nessa
estratégia, houve, em 2014,
a introdução do larvicida Pyriproxyfen, e
mesmo sabendo-se de sua toxicidade como teratogênico e de desregulação
endócrina para o mosquito, foi considerado de baixa toxicidade. E, mais
uma vez, o MS recomenda o seu uso em água potável, para ser adicionado
nos reservatórios e caixas de água, independentemente da quantidade de
água no seu interior, tornando a concentração mais elevada quando em
situações de racionamento de água[10][11].
Diante
de produtos que têm efeito teratogênico em artrópodes, o que pelas
normatizações para registro de agrotóxicos seria vedado seu uso na
agricultura, por razões de segurança alimentar, perguntamos como aceitar
o uso em água potável destinado ao consumo humano? O que dizer desse
uso em um contexto epidêmico de má formação fetal? No estado de
Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional, recentemente
decretado pelo MS, conforme noticia a grande mídia,
está sendo
preconizado o uso de larvicida diretamente nos carros-pipas que
distribuem água nas regiões do Agreste e Sertão do Nordeste.
Alertamos
que esta é a mais recente medida sanitária absurda e imprudente imposta
pelos gestores do modelo químico de controle vetorial.Embora
a NT 109/2010 reconheça que “
A inserção de ações intersetoriais, tais
como o abastecimento regular de água e coleta de resíduos sólidos,
constitui-se em uma atividade fundamental para impactar na redução da
densidade do vetor Aedes aegypti”, pouco se propõe nesse sentido.
Insistimos na pergunta:
por que é mantido o controle vetorial centrado
em um programa que há mais de 40 anos vem mostrando ineficácia e
ineficiência para fazê-lo? Impõe-se, pois, uma estratégia centrada na
identificação e eliminação dos criadouros e no Saneamento Ambiental. O
que de fato está sendo feito para o abastecimento regular de água nas
periferias das cidades? Como as pessoas podem proteger as águas
reservadas para consumo? Por que apesar de muitas cidades terem coleta
de lixo regular ainda se observa uma quantidade enorme de resíduos
sólidos diariamente dispostos no ambiente? O que está sendo feito para
cuidar desta questão? E a drenagem urbana de águas pluviais? E o
esgotamento sanitário?Merece ainda destaque a NT 109/2010,
quando afirma que “o maior problema reside nos “adulticidas espacial e
residual”, lamentando que os venenos disponíveis estejam restritos
apenas aos “grupos dos organofosforados e piretróides. Nos
organofosforados a oferta restringe-se ao Malathion (espacial) e o
Fenitrothion (residual)”. Esclarecemos que
a menção ao termo “espacial”
se refere a uso em nebulizadores (Ultra Baixo Volume – UBV, conhecido
como “fumacê”, ou por equipamento costal). Dos venenos acima referidos,
sabe-se, como já dito, que o Malathion é um potente cancerígeno para
animais e, recentemente, foi reconhecido como potencialmente cancerígeno
para humanos pela IARC da OMS
[12]. Vale o destaque, de que diversos produtos utilizados no controle vetorial do
Aedes aegypti como
o Fenitrothion, Malathion e Temephós vem sendo estudados desde 1998,
no Departamento de Química Fundamental da UFPE e mostram ter efeitos
potencialmente carcinogênicos para humanos. As recomendações pelo MS do
uso de Malathion encontram-se no documento Recomendações sobre o uso de
Malathion Emulsão Aquosa-EA 44% para o controle de
Aedes aegypti em aplicações espaciais a Ultra Baixo Volume UBV, de 2014
[13]. Com a adoção dessas nebulizações o envenenamento é potencialmente, ainda mais amplo e perigoso.
Sem
trocadilhos, chega-se assim, ao fundo do poço, em termos de falta de
compreensão dos processos de determinação socioambiental e de cuidados
na prevenção das doenças relacionadas aos vetores, aos quais se somam os
interesses nacionais e internacionais estranhos às questões de saúde
públicas e relacionadas às agendas de consumo dos agrotóxicos.
Onde fica o saneamento ambiental?Uma
pergunta que não quer calar precisa ser aqui posta com total
indignação:
por que não foram priorizadas até agora as ações de
saneamento ambiental, estratégia que parece ficar ainda mais distante?
A
propósito,
se visitarmos as periferias das grandes cidades e as
chamadas zonas especiais socialmente vulneráveis, onde as carências são
de toda ordem, ver-se-á um quadro sanitário tão grave que nenhuma
quantidade de veneno poderá resolver o controle vetorial, ao que acresce
o fato de que as pessoas terão sua saúde gravemente comprometida.
As
políticas urbanas e de saneamento são, em geral, desarticuladas. As
precárias condições de moradia, de urbanização e de saneamento
ambiental, contexto característico da grande maioria dos casos de
microcefalia, refletem um modelo de desenvolvimento e de políticas
urbanas que atinge aos pobres, já vulnerabilizados historicamente pela
abissal desigualdade social brasileira. Habitações sem condições para
adequado armazenamento de água domiciliar, localizadas em áreas íngremes
ou alagadas, com precária infraestrutura e urbanização e com serviços
de saneamento precários.
Um contexto que reflete a mazela social que
destina melhor infraestrutura e melhores serviços para as classes média e
alta.
O exemplo da desigualdade no acesso à água potável no Brasil é
emblemático dessa assimetria de acesso. O consumo per capita pode
variar em uma cidade de 30 a 500 litros/hab/dia. Uma das expressões
dessa desigualdade é no rodízio semanal do acesso ou na intermitência do
abastecimento de água. A grande maioria de casos de microcefalia
ocorreu em cidades com problemas sérios de rodízios ou intermitência,
onde os mais pobres ficam mais dias sem água por semana e os mais ricos
ou não tem rodízio ou intermitência ou os tem por poucos dias. A crise
hídrica e a má gestão dos serviços de saneamento também tem imposto o
rodízio ou intermitência a cidades inteiras, e mesmo o colapso no
abastecimento, cenário de muitos casos de microcefalia no Nordeste.Diante da inoperância dos métodos de controle do
Aedes aegypti,
a gravidade da situação se aprofunda. Em Pernambuco a Secretaria de
Estado da Saúde (SES) notificou ao MS, em 28 de outubro de 2015, a
existência de 29 casos de microcefalia naquele ano, até então mais do
que o dobro do que vinha ocorrendo nos anos anteriores. Destaca-se que
apenas 07 estados tinham a prática de notificação obrigatória de
má-formação congênita. Em dezembro de 2015 constatava-se que 14 estados
estavam com prevalência de microcefalia elevada. A proporção de novos
casos em Pernambuco tornou-se assustadora.
No dia 18 de novembro de
2015, o MS decreta o estado de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional,
situação que apenas fora adotada em 1917, com a ocorrência de Gripe
Espanhola. Conforme noticiado pelo Diário de Pernambuco, em 20/01/2016, o
número de casos suspeitos de microcefalia subiu para 3.893. Os
registros foram feitos em 764 municípios, distribuídos em 21 unidades da
federação. Até essa data, foram notificadas 49 mortes provocadas por
essa má-formação. Do total desses óbitos, 05 tiveram confirmadas a
presença do vírus Zika. Embora sabemos que, em uma situação de exposição
materna ao vírus, e este ultrapassando a barreira placentária, é
esperado que o feto também se exponha. Neste campo ainda há muitas
questões em processo de pesquisa. Segundo informações do MS,
Pernambuco
continua a ser o Estado com o maior número de casos suspeitos (1.306), o
que representa 33% do total registrado em todo o país
[14].
Deve-se
alertar e assinalar que a entrada no Brasil do vírus Zika não foi
acompanhada de um conhecimento da sua dispersão pela vigilância
epidemiológica e entomológica. Uma série de medidas, todas centradas na
prática do uso de venenos foi intensificada, a partir da aceitação de
relação direta entre microcefalia e Zika vírus. Como aditivo temos
a
recomendação para gestantes de uso de repelente[15].
Com isso o DEET (N,N-dimetil-meta-toluamida) vem sendo comercializado
sem restrição para mulheres grávidas, outra banalização de exposição
química[16].
O quadro de crise epidemiológica das doenças transmitidas pelo
Aedes aegypti é
ainda mais grave e aqui é importante dizer que
no Brasil, entre 2014 e
2015, ocorreram cerca de 1,5 milhão de casos, a metade no estado de São
Paulo. Por que nesse estado, onde ocorrem periodicamente epidemias de
Dengue, que anteriormente registrava pouquíssimos óbitos, e que, nesse
período, houve inusitadamente mais de 400 mortes associadas a
complicações de Dengue? Será que tal fato tem relação com a informação
de que,
em São Paulo, vem se intensificando o controle vetorial com uso
de Malathion em nebulização química? Esse veneno é utilizado desde 2001,
a 30% na formulação final, em processo de nebulização, pela
Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN), sendo que no segundo
semestre de 2014, foi introduzida pelo MS uma nova formulação de
Malathion diluído em água
[17],
contendo emulsificantes e estabilizantes não declarados.
A
justificativa dessa substituição foi o seu menor custo. Será que pode
haver alguma associação entre a exposição ao Malathion e essa
mortalidade considerada tão aumentada por complicações da Dengue? Quem
são esses que morreram? São idosos, portadores de doenças crônicas,
crianças? É preciso saber mais.
A população exposta ao Malathion foi
investigada? A possibilidade de essas mortes estarem associadas à
exposição ao Malathion foi aventada e pesquisada? Salientamos que
devido
ao uso massivo e contínuo de substância tão tóxica essa investigação
precisa ser realizada.
Finalizando, reivindicamos das autoridades competentes a adoção das medidas a seguir:1) Imediata
revisão do modelo de controle vetorial.
O foco deve ser a ELIMINAÇÃO DO CRIADOURO e não o mosquito como centro
da ação; com a
suspensão do uso de produtos químicos e adoção de métodos
mecânicos de limpeza e de saneamento ambiental. Nos reservatórios de
água de beber utilizar medidas de limpeza e proteção da qualidade da
água e garantia de sua potabilidade;2) Nas campanhas de Saúde Pública para controle de
Aedes aegypti,
imediata suspensão do uso de Malathion ou
qualquer outro organofosforado, carbamato, piretróide ou
organopersistente, seja em nebulização aérea ou em cortinados tratados
com veneno (mosquiteiros impregnados).
Substituir o uso desses produtos
por barreiras mecânicas, limpeza, aspiração, telagem de janelas, portas
entre outras medidas;
3) Nas medidas adotadas pelo MS para controle de
Aedes aegypti em suas formas larva e adulto,
imediata suspensão do Pyriproxyfen (0,5 G) e de todos os inibidores de crescimento como o Diflubenzuron e o Novaluron,
ou qualquer outro produto químico ou biológico em água potável.
O
conceito de potabilidade da água não pode ser perdido, ele é a chave
para as medidas participativas de eliminação de vetores.
4) Que sejam realizados esforços intersetoriais para a
acabar com a intermitência do abastecimento de água nas
áreas de urbanização precária.
Água é um direito humano. As populações
mais vulneráveis devem, por equidade, serem as mais protegidas;5)
Que as ações de controle vetorial no ambiente seja uma atribuição dos órgãos de saneamento e de controle ambiental municipais,
estaduais e nacional e não só do SUS, que deve atuar na vigilância
entomológica, sanitária, ambiental, epidemiológica, virológica e da
saúde do trabalhador, aferindo se as medidas de saneamento ambiental
estão resultando em melhoria das condições de saúde;
6) Que as políticas urbanas e de saneamento ambiental promovam
programas integrados para a resolução dos problemas de moradia, saneamento e urbanização;7) Que a
vigilância epidemiológica seja realizada por profissionais experientes em clínica, fisiopatologia e epidemiologia,
em diversos níveis do SUS. Esta proposição se dá no fortalecimento da
integração e atuação articuladas das áreas de vigilância da saúde com as
áreas de produção de conhecimentos.
8) Que sejam realizadas
pesquisas clínicas e informadas outras
disfunções ou malformações relativas as viroses da Dengue, da Zika e da
Chincungunya e que sejam estudados os efeitos da exposição a produtos
químicos utilizados no controle vetorial do Aedes aegypti;9)
Que o amparo às famílias acometidas pelo surto de microcefalia se dê mediante uma política pública perene e
não transitória. Que esse apoio seja integral, incluindo neste atenção a
família pelo trauma psíquico decorrente desse desfecho gestacional.
10) Que seja realizada uma
auditoria nos modelos de controle vetorial por
uma comissão multidisciplinar de especialistas independentes,
incluindo avaliação do modos operados do Fundo Rotatório da OPAS/OMS a
ser solicitado pelo governo brasileiro, quiçá em conjunto com outros
países latino-americanos que sofrem as mesmas imposições, à Organização
da Nações Unidas;
12) Que seja ratificada a
imediata elaboração
pelo Ministério da Saúde de orientações técnicas para a Atenção à Saúde
dos Trabalhadores da Saúde que NO PASSADO se expuseram aos agrotóxicos utilizados no controle do
Aedes aegypti, a
serem adotadas pelas Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, em
acordo com a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e com experiência
exitosas;
13) Que seja criado, pelo MS,
um Portal para
acesso amplo da população a todos processos e fatos associados ao
controle vetorial, às epidemias relacionadas à ação do Aedes aegypti e a epidemia de microcefalia. Nele deve também ser informado quando utilizados, o volume, os tipos de produtos químicos,
o número de domicílios e imóveis nebulizados, por Unidade da Federação e
por município, pois são do maior interesse dos profissionais de saúde e
da sociedade.
Por fim, chamamos atenção da sociedade civil,
diante da atual declaração de Estado de Emergência em Saúde Pública de
Importância Nacional para epidemia de microcefalia e arboviroses, que:
a)
todas as medidas de controle vetorial sejam realizadas
com mobilização social no sentido da proteção e respeito da cidadania
pela Saúde Pública, priorizando-se as medidas de saneamento ambiental,
com garantia da potabilidade da água de beber, como parte do respeito
aos Direitos Humanos e orientados pelos princípios da Política Nacional
de Educação Popular em Saúde; b)
que o SUS deve rever as estratégias e conteúdos da comunicação social à
população, tirando o foco na responsabilidade individual e das
famílias, explicitando as responsabilidades dos diversos setores
estatais, com ênfase na importância das medidas de saneamento, coleta de
resíduos, cumprimentos das políticas de resíduos sólidos, garantia de
abastecimento de água; e c) melhoria da qualidade da assistência às famílias e às crianças acometidas e da atenção pré-natal,
pois se agrava a fragilidade observada que já era conhecida – a exemplo
dos casos de sífilis congênita – e que se comprova com a ocorrência de
casos de microcefalia identificados após o parto.
Grupos Temáticos da Abrasco:
GT Saúde e Ambiente
GT Saúde do Trabalhador
GT Vigilância Sanitária
GT Promoção da Saúde e Desenvolvimento Sustentável
GT Educação Popular e Saúde
GT Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva
[1] Livro editado pela CNBB no final de 2015.
[2] Disponível em
http://u.saude.gov.br/images/pdf/2014/julho/15/Instrucoes-para-uso-de-pyriproxifennmaio-2014.pdf)
[3] UBV
é uma técnica que utiliza equipamentos motorizados ou costal de alta
pressão fazendo com que as partículas sejam menores, aumentando sua
dispersão no ambiente e a penetração nos pulmões pela inalação das
pessoas expostas.
[4] Armed
Forces Pest Management Board, por meio do Memorando nº 13 – TECHNICAL
INFORMATION MEMORANDUM NO. 13, do Centro Médico do Instituto Walter
Reed). Disponível em:
http://www.afpmb.org/pubs/tims/tim13.htm#Equipment[5] Ver NT da Abrasco de 2014
https://goo.gl/GbAXx7[6] Disponível em:
http://u.saude.gov.br/images/pdf/2014/maio/30/Instrucoes-para-uso-de-pyriproxifen-maio-2014.pdf[7] Disponível em:
https://www.iarc.fr/en/media-centre/iarcnews/pdf/MonographVolume112.pdf[8] Coordenação
Geral do Programa Nacional de Controle da Dengue / Departamento de
Vigilância em Saúde / Secretaria de Vigilância em Saúde
[9] Disponível em:
http://www.saude.mppr.mp.br/arquivos/File/dengue/nt_aval_vul_epid_dengue_verao_10_11.pdf[10] Disponível em:
http://u.saude.gov.br/images/pdf/2014/maio/30/Instrucoes-para-uso-de-pyriproxifen-maio-2014.pdf[12] Disponível em:
https://www.iarc.fr/en/media-centre/iarcnews/pdf/MonographVolume112.pdf[13] Disponível em:
http://u.saude.gov.br/images/pdf/2014/setembro/02/Recomenda