sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Galinha que acompanha pato acaba morrendo afogada


http://www.maurosantayana.com/2015/09/o-pato-e-galinha.html




Blog do Santayana, 3 de setembro de 2015


O pato e a galinha


Por Mauro Santayana




Embora não o admita - principalmente os países que participaram diretamente dessa sangrenta imbecilidade - a Europa de hoje, nunca antes sitiada por tantos estrangeiros, desde pelo menos os tempos da queda de Roma e das invasões bárbaras, não está colhendo mais do que plantou, ao secundar a política norte-americana de intervenção, no Oriente Médio e no Norte da África.

Não tivesse ajudado a invadir, destruir, vilipendiar, países como o Iraque, a Líbia, e a Síria; não tivesse equipado, com armas e veículos, por meio de suas agências de espionagem, os terroristas que deram origem ao Estado Islâmico, para que estes combatessem Kadafi e Bashar Al Assad, não tivesse ajudado a criar o gigantesco engodo da Primavera Árabe, prometendo paz, liberdade e prosperidade, a quem depois só se deu fome, destruição e guerra, estupros, doenças e morte, nas areias do deserto, entre as pedras das montanhas, no profundo e escuro túmulo das águas do Mediterrâneo, a Europa não estaria, agora, às voltas com a maior crise humanitária deste século, só comparável, na história recente, aos grandes deslocamentos humanos que ocorreram no fim da Segunda Guerra Mundial.

Lépidos e fagueiros, os Estados Unidos, os maiores responsáveis pela situação, sequer cogitam receber - e nisso deveriam estar sendo cobrados pelos europeus - parte das centenas de milhares de refugiados que criaram, com sua desastrada e estúpida doutrina de "guerra ao terror", de substituir, paradoxalmente, governos estáveis por terroristas, inaugurada pelo "pequeno" Bush, depois do controvertido atentado às Torres Gêmeas.

Depois que os imigrantes forem distribuídos, e se incrustarem, em guetos, ou forem - ao menos parte deles - integrados, em longo e doloroso processo, que deverá durar décadas, aos países que os acolherem, a Europa nunca mais será a mesma.

Por enquanto, continuarão chegando à suas fronteiras, desembarcando em suas praias, invadindo seus trens, escalando suas montanhas, todas as semanas, milhares de pessoas, que, cavando buracos, e enfrentando jatos de água, cassetetes e gás lacrimogêneo, não tendo mais bagagem que o seu sangue e o seu futuro, reunidos nos corpos de seus filhos, irão cobrar seu quinhão de esperança e de destino, e a sua parte da primavera, de um continente privilegiado, que para chegar aonde chegou, fartou-se de explorar as mais variadas regiões do mundo.

É cedo para dizer quais serão as consequências do Grande Êxodo. Pessoalmente, vemos toda miscigenação como bem-vinda, uma injeção de sangue novo em um continente conservador, demograficamente moribundo, e envelhecido.

Mas é difícil acreditar que uma nova Europa homogênea, solidária, universal e próspera, emergirá no futuro de tudo isso, quando os novos imigrantes chegam em momento de grande ascensão da extrema-direita e do fascismo, e neonazistas cercam e incendeiam, latindo urros hitleristas, abrigos com mulheres e crianças.

Se, no lugar de seguir os EUA, em sua política imperial em países agora devastados, como a Líbia e a Síria, ou sob disfarçadas ditaduras, como o Egito, a Europa tivesse aplicado o que gastou em armas no Norte da África e em lugares como o Afeganistão, investindo em fábricas nesses mesmos países ou em linhas de crédito que pudessem gerar empregos para os africanos antes que eles precisassem se lançar, desesperadamente, à travessia do Mediterrâneo, apostando na paz e não na guerra, o velho continente não estaria enfrentando os problemas que encara agora, o mar que o banha ao sul não estaria coalhado de cadáveres, e não existiria o Estado Islâmico.

Que isso sirva de lição a uma União Europeia que insiste, por meio da OTAN e nos foros multilaterais, em continuar sendo tropa auxiliar dos EUA na guerra e na diplomacia, para que os mesmos erros que se cometeram ao sul, não se repitam ao Leste, com o estímulo a um conflito com a Rússia pela Ucrânia, que pode provocar um novo êxodo maciço em uma segunda frente migratória, que irá multiplicar os problemas, o caos e os desafios que está enfrentando agora.

As desventuras das autoridades europeias, e o caos humanitário que se instala em suas cidades, em lugares como a Estação Keleti Pu, em Budapeste, e a entrada do Eurotúnel, na França, mostram que a História não tolera equívocos, principalmente quando estes se baseiam no preconceito e na arrogância, cobrando rapidamente a fatura daqueles que os cometeram.

Galinha que acompanha pato acaba morrendo afogada.

É isso que Bruxelas e a UE precisam aprender com relação a Washington e aos EUA.

 




Folha.com,​ 04/09/2015


Uma crise forjada a ferro e fogo

 
Por Vladimir Safatle


​Cada um tem a crise que merece. Ao que parece, a Europa estaria passando, neste exato momento, por uma "crise de imigração".
Em nome desta "crise", o continente que mais se beneficiou da imigração durante décadas desde o século 19, mandando contingentes enormes de trabalhadores pobres para a América, além de população para suas antigas colônias, tem ultimamente recebido imigrantes com bombas e internamento em campos.

Com lágrimas de silicone abaixo dos olhos, seus dirigentes agem como se seguissem esta frase primorosa de um antigo ministro francês, Michel Rocard: "Não podemos acolher toda a miséria do mundo".
Segundo tal raciocínio, infelizmente, os países de origem desses imigrantes, com suas elites dirigentes corruptas e seus arcaísmos, teriam produzido uma situação da qual a Europa não é nem responsável nem beneficiária.

Logo, não haveria muito o que se fazer a não ser deplorar o estado atual do curso do mundo.

Mas vejam que coisa interessante. Boa parte destes que batem à porta da Europa não são imigrantes, mas refugiados que fogem de situações de guerra ou da simples desagregação de seus países, como é o caso da Síria e da Líbia.
 
Essa desagregação é fruto direto, entre outras coisas, das intervenções desastrosas que EUA e Europa fizeram em países como Iraque, Afeganistão, Líbia, Mali. Talvez você se lembre como, em nome de supostas "armas de destruição em massa" que colocariam em risco o Ocidente, EUA e Inglaterra invadiram o Iraque, criando um espaço de anomia, caos e ressentimento que gerou monstruosidades como o Estado Islâmico.

O mesmo EI que atualmente amedronta os sírios à procura de refúgio em todas as partes do mundo (inclusive no Brasil), que recruta entre líbios cidadãos de um país que simplesmente não existe mais e foi objeto de intervenções militares ocidentais.
 
Seria interessante aos europeus começarem por se perguntar quanto lhes cabe na produção da dita miséria do mundo e o quanto tais levas de refugiados são sintoma de seus arroubos militaristas desastrados.

Mas há ainda um ponto fundamental. Os imigrantes atualmente são os verdadeiros proletários do capitalismo global. Sem garantias trabalhistas e sem defesa, cada vez mais espoliados de direitos, obrigados a viver em situações de trabalho degradado e brutalmente precário, são o exército de mão de obra barata que faz o resto de economia produtiva nesses países funcionar. São aqueles que não têm nada, que sequer são defendidos por sindicatos, que devem permanecer invisíveis.

De nada adianta a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) lembrar que a imigração tem impacto fiscal positivo nos países receptores ou, como disse seu secretário-geral, Ángel Gurría: "Os imigrantes são recurso, não problema" (embora tratar sujeitos como "recurso" já diga muita coisa).
 
Quanto mais os imigrantes sentirem-se amedrontados, mais fácil espoliá-los e jogá-los contra os trabalhadores nativos que ainda têm alguma garantia. Quanto mais eles servirem de bode expiatório da crise econômica, mais os verdadeiros responsáveis, ou seja, os banqueiros de olhos azuis da City, de Paris e de Frankfurt continuarão em paz.

No entanto, não seria incorreto dizer que o projeto capitalista atual é transformar todos nós em imigrantes, ou seja, em trabalhadores precários amedrontados, invisíveis e facilmente descartáveis.

Por isto, nossa sobrevivência passa pela defesa incondicional dos direitos destes que hoje são desprovidos de todo direito.

Diga-se de passagem, não é necessário ir muito longe. Se quisermos ter uma ideia desse processo, basta lembrarmos das levas de bolivianos trabalhando em condição sub-humana nas confecções de São Paulo. Pergunte-se o quanto setores do empresariado nacional se beneficiam da imigração precária e ilegal. Pergunte-se também sobre como tratamos os haitianos que procuram sobreviver fugindo de seu país em ruínas.

Há pouco vimos casos de haitianos vítimas de insultos racistas e violência na Baixada do Glicério, isso em nome de pretensamente "roubarem nossos empregos".
 
Aos que realmente se preocupam com "nossos empregos", melhor pararem de atirar em haitianos e se voltarem para quem realmente ganha, e muito, com a crise que destrói nossos empregos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Os EUA como obstáculo para o desenvolvimento mundial





Carta Maior, 02/09/2015


Os EUA são o obstáculo para o desenvolvimento mundial


Por Joseph E. Stiglitz*
 

​Recentemente se realizou a Terceira Conferência Internacional sobre o Financiamento para o Desenvolvimento, na capital da Etiópia, Addis Abeba. A reunião aconteceu num momento em que os países em desenvolvimento e os mercados emergentes vem demonstrado sua capacidade de absorver grandes quantidades de dinheiro de forma produtiva. Aliás, os esforços que esses países vêm empreendendo – como os investimentos em infraestrutura (estradas, eletricidade, portos e muito mais), a construção de cidades que um dia chegarão a ser o lar de bilhões de pessoas e a mudança, ou as mudanças visando uma economia verde – são realmente enormes.

Por outro lado, não falta dinheiro esperando encontrar um uso produtivo. Há quatro anos atrás, Ben Bernanke, então presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, falou que o mundo vivia de um excesso de poupança. Todavia, os projetos de investimento com alta rentabilidade social não avançavam, muitas vezes por falta de fundos. Algo que continua acontecendo hoje em dia. O problema, tanto antes como agora, é que os mercados financeiros globais, em vez de cumprir com seu objetivo de realizar uma intermediação eficiente entre a necessidade de poupar e as oportunidades de investimento, administram mal o capital, o que acaba gerando riscos.

Não é a única ironia. A maioria dos projetos de investimento que o mundo emergente necessita são de longo prazo, assim como grande parte das poupanças disponíveis – ou seja, os bilhões de dólares ou euros que estão em fundos de aposentadorias ou de pensões, ou fundos soberanos. Porém, nossos mercados financeiros, cada vez mais míopes, se interpõem.

Muitas coisas mudaram nos treze anos que se passaram desde a Primeira Conferência Internacional sobre o Financiamento para o Desenvolvimento Internacional – organizada em Monterrey, no México, em 2002. Naquele então, o G-7 dominava a formulação de políticas econômicas no mundo. Hoje em dia, a China é a economia mais pujante do mundo (em termos de paridade do poder aquisitivo), com uma taxa de poupança que supera cerca de 50% o nível dos EUA. No ano de 2002, pensava-se que as instituições financeiras ocidentais eram alquimistas da gestão de risco e da boa administração de capital. Hoje, vemos que são bruxos da manipulação dos mercados e outras práticas enganosas.

Ficaram para trás os apelos para que os países desenvolvidos a cumprissem com seu compromisso de dar ao menos 0,7% do seu produto nacional bruto (PNB) para ajudar no desenvolvimento. Alguns países do norte de Europa – Dinamarca, Luxemburgo, Noruega, Suécia e, surpreendentemente, o Reino Unido – em meio do martírio da austeridade que se auto impuseram, cumprira com suas promessas em 2014. Porém, os Estados Unidos (com 0,19% do seu PNB, no mesmo ano) ficou muito, muito longe.

Atualmente, os países em desenvolvimento e os mercados emergentes dizem aos EUA e demais países: se não vão cumprir suas promessas, ao menos não molestem e nos permitam construir uma arquitetura internacional para uma economia mundial que também traga benefícios aos pobres. Não é surpreendente que as potências hegemônicas existentes, a começar pelos Estados Unidos, estejam fazendo todo o possível para frustrar tais esforços. Quando a China propôs a criação do Banco Asiático de Investimentos em Infraestruturas, para ajudar a redirecionar alguns dos excessos de poupança no mundo em direção a outros lugares, onde o financiamento é muito necessário, Washington tentou torpedear esse esforço. Quando o projeto finalmente deu certo, o governo de Barack Obama sofreu uma dolorosa (e muito vergonhosa) derrota.

Os Estados Unidos também estão bloqueando o caminho para estabelecer um direito internacional voltado às dívidas e às finanças. Para que os mercados de títulos possam funcionar bem, por exemplo, é preciso encontrar uma forma ordenada para resolver os casos de insolvência soberana. Entretanto, não existe essa instância atualmente. A Ucrânia, a Grécia e a Argentina são exemplos do fracasso dos acordos internacionais existentes. A grande maioria dos países pediu a criação de um novo sistema no qual se possa reestruturar a dívida soberana. Os EUA, novamente, se colocaram como o principal obstáculo.

O investimento privado também é importante. Mas as novas disposições incluídas nos acordos comerciais que o governo de Obama está negociando, em ambos os oceanos, implicam em que qualquer investimento estrangeiro direto venha acompanhado de uma importante redução da capacidade dos governos para regular o meio ambiente, a saúde, as condições de trabalho e inclusive a economia.

A posição dos Estados Unidos com relação ao tema mais debatido na conferência de Addis Abeba foi particularmente decepcionante. Na medida em que os países em desenvolvimento e os mercados emergentes abrem suas portas para as multinacionais, se torna cada vez mais importante a tributação desses gigantes, para registrar os lucros gerados mediante a atividade empresarial que se produz dentro de suas fronteiras. Apple, Google e General Electric demostraram que são muito mais geniais na hora de encontrar maneiras de evadir impostos que quando desenvolvem produtos inovadores.

Todos os países – tanto os desenvolvidos como os que estão em desenvolvimento – perderam bilhões de dólares em ingressos fiscais. No ano passado, o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, em sua sigla em inglês) divulgou a informação sobre as medidas tomadas por Luxemburgo, que expuseram a magnitude e a diversidade das formas de evasão fiscal. Um país rico como os Estados Unidos talvez possa suportar o comportamento descrito no denominado Caso Luxleaks, mas um país pobre não pode. Fui membro de uma comissão internacional, a Comissão Independente para a Reforma da Fiscalidade Internacional de Sociedades, cujo trabalho é examinar maneiras de reformar o sistema tributário atual. Num informe apresentado durante a Conferência Internacional sobre o Financiamento para o Desenvolvimento, chegamos à conclusão unânime de que o sistema atual está quebrado, e que não basta com uma reparação aqui e outra ali. Propomos uma alternativa – similar à maneira na qual as empresas são tributadas nos Estados Unidos – baseada no repasse da arrecadação que corresponde a cada Estado sobre a base da atividade econômica que ocorre dentro das fronteiras estatais.

Os Estados Unidos e outros países desenvolvidos vêm pressionando em favor de uma série de mudanças muito menores, recomendadas pela OCDE, que é o clube dos países desenvolvidos. Em outras palavras, os países de onde provêm os politicamente poderosos sonegadores de impostos são, supomos, os mesmos países que precisam desenhar um sistema para reduzir a sonegação fiscal. Nossa Comissão explica porque as reformas da OCDE tem sido, no melhor dos casos, pequenos ajustes a um sistema fundamentalmente defeituoso. São simplesmente inadequadas.

Os países em desenvolvimento e os mercados emergentes, encabeçados pela Índia, argumentaram que a instância adequada para debater esses temas é um grupo já estabelecido nas Nações Unidas, o Comitê de Especialistas sobre a Cooperação Internacional em Assuntos Fiscais, e que portanto é necessário melhorar sua situação jurídica e incrementar o seu financiamento. Os Estados Unidos se opôs de forma veemente: queria manter as coisas como no passado, de forma tal que a governança mundial seja conduzida por e para os países desenvolvidos.

As novas realidades geopolíticas exigem novas formas de governança mundial, nas que a voz dos países emergentes e em desenvolvimento possa ser ouvidas mais alto e com maior peso. Os Estados Unidos impôs seu parecer em Addis Abeba. Contudo, também mostrou que está do lado equivocado, uma postura que será julgada pela historia.

(*) Professor da Universidade de Columbia, Prêmio Nobel de Economia de 2001 e autor do livro “Queda livre: Estados Unidos, mercados livres e o afundamento da economia mundial” (Freefall: America, free markets and the sinking of the world economy). Artigo publicado no El País, de Madrid, dia 30 de agosto de 2015.


Tradução: Victor Farinelli​

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O silêncio cúmplice aceita a barbárie

Blog do Mario Magalhães, 17/08/2015


O silêncio cúmplice aceita a barbárie


Por Mário Magalhães







Somente um grande mentecapto suporia que os 800 mil manifestantes do domingo subscreveram mensagens como as retratadas acima (todas garimpadas na internet).

Seria ofensivo vincular o conjunto dos participantes dos protestos a bandeiras como o extermínio sob tortura em campos de concentração, como eram os DOI (Destacamentos de Operações de Informações) da ditadura; à convicção de que rico é imune à corrupção (vide contas secretas na Suíça e pilantragens de empreiteiros); ao lamento por não ter havido genocídio de antagonistas no golpe de Estado de 1964; à defesa de um novo golpe, por meio de “intervenção militar''; e ao abraço em Eduardo Cunha como deputado digno de reverência.

Não subscrevem, é verdade. Mas não se soube de uma só restrição à presença de tais pessoas e à divulgação de tais ideias. Nem de cidadão que tenha se retirado dos atos públicos ao se deparar com os arautos da intolerância.

A presidente da República foi o alvo central, com justiça ou não, das manifestações. Não é o caso, aqui, de julgar seu governo. Quando jovem, mais jovem do que hoje é a minha filha mais velha, Dilma Rousseff foi presa por agentes do Estado. À margem até da lei da ditadura, foi torturada com choques elétricos, no pau-de-arara, com a crueldade que quem não viveu não é capaz de imaginar.

Cartazes como os de ontem não são novidade nas demonstrações anti-Dilma que se sucedem desde o ano passado. Desta vez, novamente, ninguém confrontou os mensageiros da barbárie.

Quem cala consente, proclama o provérbio.

A gestação do fascismo, do nazismo e do stalinismo foi facilitada pelo silêncio cúmplice.
Não estou dizendo que o Brasil de 2015 se assemelha à Europa dos anos 1920 e 1930.

Mas que, se não podem ser apontados como co-autores das barbaridades de ontem, os manifestantes toparam estar lado a lado com os autores das barbaridades.

Em nome do combate ao adversário político, aceitam perfilar com quem, no conteúdo de alguns cartazes, não difere muito dos cretinos que, no século XX, identificavam-se com a SS.

Se quiserem brigar, não avacalhem a mim, nem me xinguem.

Briguem, avacalhem e xinguem os fatos. Pois é fato que silenciaram diante do ovo da serpente.

E desfilaram com quem preferia que Dilma Rousseff tivesse sido enforcada no DOI a enfrentá-la na democracia.

16 de agosto: Elite branca era maioria esmagadora na Paulista


http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Datafolha-elite-branca-era-maioria-esmagadora-na-Paulista-/4/34267



Carta Maior, 17/08/2015


Datafolha: elite branca era maioria esmagadora na Paulista


PorAntônio David


Às vezes dizer o óbvio tem a sua importância. As pessoas que participaram das manifestações no último dia 16 de agosto não são idênticas. Nas ruas, havia de tudo. Pobres e ricos, brancos e negros, trabalhadores e patrões. É fato que a insatisfação desceu. Cabe à esquerda compreendê-la e oferecer saídas. Mas daí a concluir que o "povo" tomou as ruas é um grande equívoco. 

O que predominou no domingo?

De início, é importante notar que os extremistas, entusiastas da ditadura e defensores da "intervenção militar constitucional", representam uma minoria. A maioria não parece fechar com suas ideias, embora não faça o menor esforço para contestá-las, antes dando-lhes guarida e abrigo.

Todavia, ao contrário do que os patrocinadores das manifestações alegam, também o povo figurou em minoria nas ruas no último dia 16 de agosto.

A tabela abaixo, divulgada pelo insuspeito Datafolha, não deixa dúvida de que, na Avenida Paulista, predominava a elite branca, repetindo o quadro de abril e de março, como notou na época o também insuspeito jornalista Fernando Canzian: "Os que foram à rua em São Paulo pareciam muito representativos dos ricos" (15/03/2015) (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/fernandocanzian/2015/03/1603261-festa-de-rico-velorio-de-pobre.shtml).



Por que a elite branca protesta?


Seria útil se o Datafolha incluísse em sua pesquisa perguntas que oferecessem um perfil mais detalhado dos manifestantes, que incluísse suas opiniões e atitudes em relação aos pobres. Ajudaria muito a explicar as razões profundas das manifestações. Mas talvez o grupo Folha de S. Paulo não tenha interesse nisso.

É certo que, entre as pessoas de maior renda, nem todos são necessariamente o tipo de gente que pensa "esse aeroporto está parecendo uma rodoviária". Há sempre exceções. Contudo, inúmeras pesquisas têm mostrado que predomina na classe média tradicional - isto é, na elite branca - uma forte insatisfação devido à perda relativa de prestígio e status fruto da mobilidade social promovida pelo governo Lula.

São pessoas que não aceitam qualquer fissura na cultura senhorial legada de nossa formação social escravocrata, por mais tíimida e modesta que seja. É o tipo de gente que até gosta da empregada doméstica, desde que ela "fique no seu lugar". Mas como agora a empregada doméstica "está ficando folgada", sobrou para Lula, Dilma e o PT.

Embora a corrupção mereça ser alvo de protestos - cabendo ao PT uma dura autocrítica na prática -, para a maioria a operação Lava Jato foi o pretexto. Não que a maioria não queira o fim da corrupção, mas querer isso e votar em Aécio Neves não é exatamente sinal de coerência. 
Não é o vago desejo de um país livre da corrupção que os move neste momento. Se assim fosse, o Datafolha teria revelado outro quadro. Os pobres também querem o fim da corrupção e, mais uma vez, abstiveram-se de misturar-se com os ricos na avenida. Os pobres não sentem ódio do PT por causa, por exemplo, do Mais Médicos; os ricos, sim. 

Os pobres estão descontentes e decepcionados com Dilma, e com razão, mas daí a supor que eles não têm discernimento é outro equívoco, dessa vez banhado de preconceito. Os pobres intuem com aguda clareza que, por trás do ódio ao PT e aos dois mandatários presidenciais, esconde-se na verdade um profundo e arraigado ódio contra eles próprios.

Por mais que "elite branca" tenha se tornado um bordão na boca da esquerda, de modo que alguns jornalistas e ativistas da direita já começam a ironizar, o que importa é que os de baixo percebem a existência de uma elite branca e sabem que ela os odeia. Sabem porque, afinal, trata-se de um ódio que se manifesta diária e cotidianamente. Experientia docet.

Nesse sentido, fotos e vídeos das manifestações são extremamente instrutivas. Sobretudo aquelas imagens nas quais o mal-disfarçado preconceito vêm à tona, ganhando contornos e voz em cartazes, faixas, estampas e declarações. 

Na Avenida Paulista, a elite branca mais uma vez destilou um veneno bastante conhecido dos pobres. Escancarando o submundo senhorial de nossas elites, as manifestações desde ano ao menos têm um mérito: tornar mais visível a herança de um passado que não cessa de persistir no presente. Essa é a maior de todas as heranças malditas.​

domingo, 16 de agosto de 2015

Por que Lula não aceitou ser ministro


http://www.jornalggn.com.br/noticia/exclusivo-por-que-lula-nao-aceitou-ser-ministro-por-ricardo-amaral



Jornal GGN, 16/08/2105


Por que Lula não aceitou ser ministro

 
Por Ricardo Amaral



Ao recusar um posto no ministério da presidenta Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula produziu um raro momento de grandeza na cena política brasileira. Lula considera indigno de sua história buscar, no foro privilegiado, o salvo-conduto contra as arbitrariedades da hora. Virar ministro seria criar um constrangimento para o governo e para a presidenta. E isso Lula não fará jamais. É assim que se comporta um líder, que não precisa de cargos para exercer a política e dispensa refúgio para a dignidade afrontada.
 
Na plena vigência do estado de direito, Lula não teria nada a temer. Não cometeu nenhum crime, antes, durante ou depois de governar o País. Sua atividade como palestrante é o resultado da projeção internacional que conquistou. Recolhe impostos pelo que ganha licitamente. Não faz lobby, consultoria nem intermediação de negócios. O Instituto Lula não recebe dinheiro público, nem direta nem indiretamente. Mas, e daí?
 
No ambiente de terror policial insuflado pela oposição e pela mídia, Lula tornou-se alvo de toda sorte de violência. Agentes do terror lançaram uma bomba na sede do Instituto Lula. Agentes do Estado, que deveriam estar submetidos à Lei e à hierarquia, quebraram ilegalmente o sigilo bancário do ex-presidente e de um de seus filhos. As pegadas sujas do crime estão nas páginas de uma revista sórdida esta semana. Quebraram o sigilo de suas comunicações e, ao invés de denunciá-la, parte da imprensa associou-se à meganha bandida.
 
Há fortes motivos para crer que o próximo passo seja submeter Lula aos métodos parajudiciais da República de Curitiba: o mandado cego de busca; a condução coercitiva para mero depoimento; a prisão “preventiva” pela simples razão de que o sujeito está solto. Os vazamentos seletivos dos últimos dias desmoralizaram as negativas formais do juiz e dos promotores da Lava Jato: Lula é, sim, o alvo cobiçado da operação. Não para ser processado, pois não há acusação contra ele, mas para ser humilhado diante das câmeras.
 
No estado de exceção a que se encontra sujeita uma parte do País, ninguém poderia negar razão a Lula caso aceitasse a oferta solidária e leal da presidenta Dilma. Ministro, ele estaria a salvo das arbitrariedades da primeira instância e do terror policial-midiático. Mas Lula não é um ex-presidente qualquer – e nisso é preciso concordar, por razões opostas, com o autor original da frase: Merval Pereira.
     
O imortal do Globo sustenta que Lula não pode ser tratado como um cidadão de pleno direito, porque continua sendo um líder muito influente cinco anos depois de ter deixado o Planalto. Trapaça da história: o promotor que denunciou Lula na LSN por um discurso contra a ditadura, em 1980, também sustentou que a ameaça à segurança nacional não estava exatamente nas palavras do metalúrgico, mas na influência que ele exercia sobre as plateias.
 
De volta ao imortal: Lula não pode fazer palestras para empresas contratadas pelo governo (Merval talvez ignore que seu patrão, o Infoglobo, que tem contratos milionários com o governo, já contratou palestra de Lula). O Instituto Lula não pode receber doações empresariais (só o Instituto FHC pode, e pode até receber doação da estatal tucana Sabesp). Lula não pode encontrar governantes estrangeiros (embora seja o brasileiro mais respeitado ao redor do mundo). E, se isso fosse possível, Lula não poderia fazer política.
       
Este raciocínio autoritário, parcial e preconceituoso sustenta as torpezas cometidas contra Lula (e contra a verdade) pelos veículos e colunistas amestrados sob influência do sublacerdismo tosco e tardio que emana da rua Irineu Marinho. É o que explica as manchetes mentirosas atribuindo a Lula a propriedade de um apartamento que ele não tem, os “voos sigilosos” (em aviões invisíveis?), as “reuniões secretas” (em auditórios públicos, com cobertura da imprensa), os telegramas oficiais grosseiramente manipulados para virar notícia. 
 
Lula é atacado justamente por ser o mais influente líder popular que o Brasil já conheceu. E por ser o maior obstáculo ao projeto regressista e conversador que, frustrada a aventura golpista, por suas contradições políticas e econômicas, precisa eliminar a liderança de Lula antes das eleições de 2018. A Pax Marinho, que ninguém se engane, é um movimento das elites econômicas para garantir a estabilidade necessária ao ambiente de negócios. Não é um pacto para preservar Dilma. E muito menos, para preservar Lula. 
 
O que preserva Lula é sua liderança, sua coerência e seu caráter. Ao recusar o ministério, Lula promoveu um magnífico contraste com personagens políticos, institucionais e midiáticos nesta que é a mais rebaixada quadra da disputa política desde a redemocratização. Enquanto alguns ousam sequestrar instituições, para salvar a pele ou perseguir adversários, e outros se omitem de suas responsabilidades republicanas, por covardia ou conveniência, Lula decidiu simplesmente portar-se com dignidade.
 
A recusa de Lula é um gesto fundamentalmente moral. É corajoso, porque arrosta a arbitrariedade, e desprendido, porque preserva a presidenta. É mais uma lição do ex-retirante, ex-engraxate, ex-metalúrgico, ex-sindicalista para a educação política desta e de outras gerações. Isso é incompreensível para os abutres que tentam medi-lo pela régua de seu próprio e mesquinho caráter. Lula não é mesmo um ex-presidente qualquer. Lula é um líder.