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Carta Capital, 7 de agosto de 2015
A Lava Jato e o PT
Por Wanderley Guilherme dos Santos
A novidade política da Operação Lava Jato
é a revelação de que o Partido dos Trabalhadores cedeu à tentação de
patrocinar e se beneficiar das relações espúrias entre interesses de
grupos privados e iniciativas públicas. Faz parte da história intestina
de todas as sociedades acumulativas o vírus da predação, do suborno, do
saque, da extorsão e da violência em busca de vantagens além dos méritos
competitivos.
O Império inglês foi assim construído, incluindo associações
clandestinas com piratas e corsários, no século XVIII, e escândalos
internos sem fim desde o XIX; a riqueza das cidades hanseáticas e
italianas que financiaram os jardins artísticos do Renascimento, seus
pintores, arquitetos e escultores, essa riqueza foi obtida mediante
fraude e corrupção de bandidos inescrupulosos e violentos, organizados
em poderosas companhias de negócios. A grande arte flamenga e espanhola é
rebento da generosa dissipação de recursos de ladrões e assassinos em
versão marqueteira de mecenas. O extraordinário progresso material
norte-americano a partir de meados do XIX colocou na galeria cívica do
país os “robber barons”, sabidos e consabidos corruptos, genocidas,
paradigmas das administrações libertinas e extorsivas das grandes
cidades contemporâneas como Chicago, Nova York, Los Angeles ou Kansas
City, sempre com a cobertura midiática de campanhas moralizadoras.
As
fraudes eleitorais são discutidas tão abertamente quanto o
financiamento de campanha e não é segredo que a vitória democrata de
John Kennedy contra Richard Nixon nada teve de católica (acobertada pela
patranha midiática de que Nixon perdeu por causa do último debate na
televisão), com os Republicanos dando troco na roubalheira da Flórida
que deu a vitória a Bush Junior sobre Al Gore. Tudo supervisionado pelas
autoridades eleitorais. Ninguém chia, trata-se de assunto exclusivo
entre eles: dos roubos econômicos aos roubos eleitorais. O vírus está
lá, agora protegido nos portfólios do sistema financeiro mundial.
A história recente do Brasil não fica a dever. A começar pelas obras
marcantes da ditadura, de onde brotaram progresso material, liquidação
física dos opositores e mágicos milionários, de sucesso inexplicável. Da
tolerância democrática de José Sarney restou a criminosa entrega da
propriedade pública das comunicações a um prático monopólio de golpistas
centenários, corruptor de jornalistas, escritores, artistas, políticos.
O monopólio das comunicações é atualmente o único poder irresponsável
no País, exercido com brutalidade e a ele se curvam os demais, inclusive
o poder judiciário. Fonte de corrupção permanente, manteve como assunto
inter pares os escândalos financeiros do governo Fernando Henrique
Cardoso, as trapaças das privatizações e a meteórica transformação de
bancários em banqueiros, tendo o BNDES como rampa de lançamento. Assim
como guarda no porão do noticiário a ser mobilizado, caso necessário, os
rastilhos da política tucana em Minas Gerais e em São Paulo. Todos,
juízes, ministros, políticos, procuradores, cantores, atrizes,
narradores de futebol, são todos terceirizados do Sistema Globo de
Comunicação.
Nesse País, por surpreendentes acasos, todas as investigações
envolvendo os companheiros da boa mesa, pecaram por vícios de origem e
devidamente esquecidas. Menos a Lava Jato, que segue aparentemente de
acordo com as rigorosas regras judiciais, de que dá testemunho o
Ministro Teori Zavaski. Qual é a novidade?
A novidade não é o roubo nem as relações ilegítimas entre agentes
privados e públicos. Todos os consultores, projetistas, jornalistas,
escritórios de advocacia econômica, todos que fingem ultraje ao pudor
sempre foram não só cientes como, no todo ou em parte, beneficiados pelo
sistema virótico da sociedade acumulativa brasileira. Enriqueceram e
vivem como parasitas do sistema nacional de corrupção. A novidade é que o
Partido dos Trabalhadores entrou como sócio, apresentando como cacife
os milhões de votos daqueles que nunca foram objeto de atenção.
Candidatou-se ao suicídio.
A caça ao intruso foi imediata. A cada
política em benefício dos miseráveis, mais se acentuava a perseguição ao
novo jogador, insistindo em reclamar parte do botim tradicional da
economia brasileira. A penetração do PT na associação das elites
predadoras era encoberta pelo compromisso real de muitos de seus quadros
com o destino dos carentes. E assim como os grandes capitães de
indústria, pelo mundo a fora, os nossos também cobraram uma exploração
extra, uma vantagem desmerecida, uma nova conta na Suíça em troca dos
empregos criados, da produção aumentada, do salário menos vil. Mas assim
também como os operadores tradicionais, os petistas se entregaram à
sedução da sociedade acumulativa: o roubo com perspectiva de impunidade.
A Lava Jato revelou a tragédia da vitória do capitalismo sobre a
liderança dos trabalhadores. Os grandes empresários e as grandes
empresas, ao fim e ao cabo, vão se safar, com os acordos de leniência e
as delações premiadas, reservas que fazem parte de suas mochilas de
sobrevivência. Serão nossos “robber barons” do futuro. Não assim a
destroçada elite petista, à qual não resta senão acrescentar o opróbrio
da traição à vergonha da confissão.
A vítima ensanguentada dessa caçada é o eleitorado petista. Muito
além dos militantes, todos aqueles que saudaram e apoiaram a trajetória
de crescimento de um partido que, claramente, era o deles. Os que
suportaram os preconceitos, que resistiram às pressões e difamações e
que viam nas políticas sociais o cumprimento de promessas nunca
realizadas. Esses estão hoje expostos à brutalidade dos reacionários e
fascistas, ao escárnio, aos xingamentos e ofensas. O eleitorado petista
não é criminoso, criminosos são os fascistas que os perseguem nas ruas,
nos lugares públicos, sem que as autoridades responsáveis tenham a
decência de garantir-lhes a inocência.
Presidenta Dilma Rousseff: é
de sua responsabilidade e de seu Ministro da Justiça sair desse palácio
de burocratas e meliantes suspeitos e garantir, e fazer governadores e
prefeitos garantirem, por atos enérgicos, a integridade física e moral
dos milhões de brasileiros inocentes que acreditaram na sinceridade dos
membros do seu Partido. Os ladrões estão no seu Partido, não entre os
eleitores que a elegeram.