domingo, 7 de dezembro de 2014

As confissões do DOI-CODI




http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,as-confissoes-do-doi-codi-imp-,1603291




Estadão.com, 07 de dezembro de 2014



As confissões do DOI-CODI


Por Marcelo Godoy






Houve um momento em 1971, durante o regime militar, em que a    repressão do Destacamento de Operações de Informações (DOI) de São Paulo aos militantes de grupos de esquerda no País mudou de qualidade. O cotidiano de violência e morte foi disciplinado. Produziram-se regras sobre quem devia apanhar, quem devia bater, quem devia viver, quem devia morrer. Tudo com o conhecimento do comando. Essa história agora é contada pelos próprios agentes que trabalharam no DOI - e está no livro A Casa da Vovó.
"Tinha um critério: foi preso, fez curso (de guerrilha) em Cuba ou na China ou na Argélia... Era na rua mesmo", revelou o tenente Chico, que trabalhou 20 anos no DOI. A ordem de matar os presos que tivessem treinamento de guerrilha no exterior se estendia às pessoas que, banidas do território nacional, voltassem clandestinas ao Brasil. "O banido era para morrer rápido. Já não existia. Tinha de morrer mesmo", contou a tenente Neuza, que esteve no destacamento de 1970 a 1975.
Inaugurado em 1969, o órgão recebeu primeiro o nome de Operação Bandeirante (Oban) - tornou-se DOI em 1970. Era uma associação entre militares e policiais sob mando do Exército que permitiu ao governo esmagar os grupos que pegaram em armas contra o regime. Sua estratégia se baseava na Doutrina da Guerra Revolucionária, formulada por militares franceses nos anos 1950 para combater a insurgência que buscava a independência da Argélia, então parte da França.
Durante dez anos, agentes do DOI paulista, que serviu de modelo para outros no País, contaram o que sabiam. Homens e mulheres que trabalharam na chamada Casa da Vovó, como eles se referiam ao destacamento, revelaram que a sentença de morte que atingiu guerrilheiros no Araguaia e na Casa da Morte em Petrópolis, no Rio, também existiu em São Paulo. Ela atingiu organizações armadas, como o Movimento de Libertação Popular (Molipo) e a Ação Libertadora Nacional (ALN) e grupos que defendiam a luta democrática, como o Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Foi essa sentença, dizem, que se abateu sobre o guerrilheiro Ayrton Adalberto Mortati, o Tenente, do Molipo. Em outubro de 1971, os agentes da equipe Cúria, da Seção de Investigações do DOI, começaram uma vigilância diária em uma casa na zona leste de São Paulo. "Era um aparelho na Vila Prudente. A gente sabia que tinham uns 'cubanos' (guerrilheiros formados em Cuba) lá dentro", contou o agente Alemão, no DOI de 1970 a 1975.
Mortati foi vigiado até 4 de novembro. Naquele dia, Alemão notou o desaparecimento do Fusca dos ocupantes da casa - eram dois homens e uma mulher. O veículo costumava ficar na rua. Os agentes informaram aos chefes e receberam a ordem: pegar todo mundo.
Alemão e seu companheiro, o delegado Cyrino Francisco de Paula Filho, viram Mortati deixar a casa e o seguiram. Acompanharam o guerrilheiro até a Avenida Paes de Barros, onde viram o Fusca dos guerrilheiros. Quando ele se preparava para entrar no veículo, Alemão e Cyrino o detiveram. Mortati foi entregue ao capitão Ênio Pimentel da Silveira, o Doutor Ney, chefe da Investigação, e se tornou um dos desaparecidos do regime.
Viajou. O Exército nunca admitiu sua prisão. "Ele viajou", contou Alemão. "Viajar" é como os agentes se referem à execução. "O Mortati morreu. Lembro que a gente tinha uma pasta no Interrogatório onde constava o nome dele como morto", contou Chico. Na casa da Rua Cervantes, outro "cubano" - José Roberto Arantes - foi cercado e morto pelos militares. Maria Augusta Thomaz, a guerrilheira que morava no imóvel, estava fora quando tudo ocorreu.
Além de Mortati, dois guerrilheiros do Molipo foram capturados e mortos nos dias subsequentes: Flávio de Carvalho Molina e Francisco José de Oliveira. Depois de balear Oliveira, os agentes contam que o deixaram sangrar até a morte. Frederico Mayr e Antonio Benetazzo também foram executados depois de presos em 1972.
No relato dos agentes, Lauriberto José Reyes, Alexander José Ibsen Voerões e João Carlos Cavalcanti Reis morreram em emboscadas. Reyes e Voerões iam se encontrar com uma guerrilheira que havia sido detida e torturada pelo DOI. Reis foi vítima da ação do mesmo informante que entregou Benetazzo. O traidor - segundo os agentes - era um dos guerrilheiros formados em Cuba. O homem era controlado pelo capitão Freddie Perdigão Pereira, o Doutor Flávio, subchefe da Seção de Investigação. Era conhecido como Camilo.
Todos os mortos haviam feito curso em Cuba e pertenciam ao Molipo. O grupo nascera de uma cisão da ALN. Seu comando foi esfacelado entre 1971 e 1973 em operações do DOI paulista. A última ocorreu em 17 de maio de 1973, em Rio Verde, Goias. "Nós estávamos com o CIE (Centro de Informações do Exército)", contou o agente Jonas, um cabo do Exército.
Ali morreram e desapareceram Márcio Beck Machado e Maria Augusta, a moça que escapara ao cerco na Rua Cervantes. A estratégia de morte e desaparecimento se manteria no DOI até o general Ednardo D'Ávila Melo ser removido do comando do 2.º Exército (São Paulo), em 1976.

A relação entre ativismo de extrema direita na Internet e psicopatia




http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-relacao-entre-ativismo-de-extrema-direita-na-internet-e-psicopatia-segundo-um-novo-estudo/




DCM, 07/12/2014


A relação entre ativismo de extrema direita na Internet e psicopatia, segundo um novo estudo


 
Por Kiko Nogueira*




                 Marcello Reis, do Revoltados Online
 

Numa entrevista à Deutsche Welle, o diretor do Programa de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford, Timothy Power, chama a atenção para os arrulhos direitistas na Internet.

“Os manifestantes que pedem o impeachment de Dilma se aproveitam da atenção midiática no período de ressaca pós-eleições”, afirma. “Hoje, a direita acha que uma conta no Twitter vale mais do que uma CUT, por exemplo, mas não é exatamente assim”.

O que se viu na Paulista nas últimas semanas é um exemplo claro dessa tendência. As dezenas de manifestantes não têm o mesmo tamanho do barulho virtual. Grupos como Revoltados Online, Movimento Brasil Livre e outros dão visibilidade a reacionários de todo o território nacional e ocupam espaço como pernilongos, mas quando se chega à vida real o que se vê são os gatos pingados arruaceiros de sempre.

Por que eles são tão histéricos? Por que essa vocação para a trolagem? A ciência explica.
Um estudo da revista americana Neuroethics afirma que as opiniões socialmente conservadoras têm entre 5 a 30 vezes mais chances de ser relacionadas a três transtornos de personalidade: maquiavelismo, narcisismo e psicopatia (ausência de culpa ou remorso), a chamada “tríade sombria”.

O levantamento da Universidade de Tampa, na Flórida, examinou 1200 pessoas, que se submeteram a um teste e a uma pesquisa sobre seu comportamento na rede. Os pesquisadores procuravam por uma ligação entre a tal tríade e gente que era a favor da pena de morte, do casamento gay, dos mercados livres, da tortura etc. Encontraram.

Veja o caso de Marcello Reis, por exemplo, do Revoltados Online. Ou do professor Alexandre Seltz, que levou um disparo de arma de taser na arruaça no Congresso e passou a se autodenominar “Choquinho”. Ou de Matheus Sathler, candidato a deputado estadual pelo PSDB do DF, que chamou homossexuais de pedófilos. Ou mesmo daquele velho cantor barbado.

Todos eles são trolls que gastam sem tempo espalhando um ódio patológico em suas contas nas redes, repercutindo a si mesmos. Como diz o relatório, numa “manifestação de sadismo cotidiano”. O resultado? Vergonha alheia. Mas com o zumbido de uma furadeira.


* Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A tragédia está desenhada !




http://www.cartacapital.com.br/revista/829/business-men-as-soltas-2771.html




Carta Capital, 5 de dezembro de 2014



Editorial

Businessmen às soltas



Por Mino Carta



Que pretende Dilma? Uma conciliação de roupa nova? O ódio de classe não a admite e uma liderança popular nascida há 12 anos não deveria permitir recuos.


  Depois de debater com André Lara Resende e Paulo Guedes, em São Paulo, na semana passada, Thomas Piketty confessou a CartaCapital: Não sabia que teria de me encontrar com homens de negócios”. De fato, os organizadores da singular tertúlia atiraram Piketty a uma cilada, não fosse ele capaz de impagável ironia voltairiana.

O herói destas minhas primeiras linhas é autor de um livro formidável, O Capital no Século XXI, best seller mundial que acaba de ser publicado no Brasil, exposição de um teorema implacável: o capitalismo atinge nesta quadra fatal do mundo seu objetivo final. Ou seja, dilatar ao extremo a desigualdade social. Não era isto que Adam Smith pretendia, mas o homem é um bicho inconfiável e cuidou de frustrar suas intenções.  

Inúmeros cidadãos nativos que se dizem economistas são, de verdade, homens de negócios. Alguns, excelentes no mister de enricar. Por exemplo, os envolvidos no escândalo da privatização das Comunicações, entre eles André Lara Resende. Quanto a Paulo Guedes, sócio destacado do Instituto Millenium, é infatigável inquisidor de todo projeto de inclusão social. Creio que a própria editora brasileira da obra de Piketty tenha agido em relação ao seu autor movida apenas pela perspectiva do bom negócio.

Nada disso me espanta. Surpreende-me que a presidenta Dilma esteja agora a compor um governo de homens de negócios. Em busca de explicações, solto a imaginação. Se o objetivo for reconstituir os esquemas adotados no começo do governo Lula, a dedução é inevitável: o próprio aprova. Ou não seria mesmo o inspirador, assessorado na ação por Antonio Palocci, o grande operador daquele início de governo?

Ah, os operadores… Surge na memória a figura de Serjão Motta, dotado de habilidades que no Brasil conferem poder infinito a quem as tem. Entre P.C. Farias, personagem escrachada, e Palocci, vítima de vez em quando de transparente provincianismo, campeia Serjão, mais eficaz do que Júpiter ao lançar raios e urdir manobras.

Mesmo assim, a imaginação me leva a figurar Palocci em busca dos senhores do Bradesco para sugerir, em conversa amena, o nome de uma de suas velhas relações, Joaquim Levy, homem do banco, de onde, aparentemente, cogita-se extrair à força o presidente em pessoa, Luiz Carlos Trabuco, para sagrá-lo ministro da Fazenda. Ora, ora, o banco não deve perder Trabuco, treinado longamente para a missão pelo Grão-Mestre Lázaro Brandão. E que tal, então, o Levy? Ele sabe tudo de contenção de despesas.

Levy, está claro, não é o único homem de negócios convocado pela presidenta, e aí pergunto aos meus perplexos botões quais seriam as razões de tais escolhas. Sem demovê-los da perplexidade, também eles mergulham em roteiros imaginativos. Aparece Dilma a romper com o PT para reeditar a conciliação das elites de roupa nova. Pasmem, se for do seu agrado.

Entendo que, assim como a editora de Piketty foi incapaz de se dar conta da inadequação dos convocados para debater com seu autor, Dilma e Lula não entenderam o alcance do seu poder e o usam em benefício de fórmulas caducas. Os passos dados adiante até ontem, graças às políticas de inclusão social praticadas nos últimos 12 anos não são considerados, bem como o apoio incondicional de Severina e Maria das Dores. O desencanto com um partido como o PT, que tanto prometeu e não cumpriu, justifico por parte de Dilma, em cuja lisura e honestidade aposto a vida. Cadê, porém, a inovação política? Onde fica a confiança em quem a elegeu ao cabo de uma contenda tão acirrada? Ou vinga a leniência tradicional, se não for coisa pior, a precipitar a genuflexão ao deus mercado? 

Há outra questão. Até que ponto adianta hoje oferecer satisfações à casa-grande? Não se iludam os manobristas, o ódio de classe não admite conciliações. Graças a Lula e Dilma, ficou superado o momento da composição entre o primogênito do barão e o irmão deserdado, instado à rebeldia pelo desapontamento e pelo rancor, eventualmente esquerdista de ocasião. Entrou no jogo uma liderança popular autêntica, protagonista inédito. Se esta recua, dá-se o desastre. A tragédia está desenhada.

A Rússia tem o hábito de triturar seus inimigos




http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Por-que-Putin-esta-ganhando-a-Nova-Guerra-Fria-/6/32367




Carta maior, 05/12/2014



Por que Putin está ganhando a Nova Guerra Fria?



Rakesh Krishnan Simha, Tehelka.com




É dito sobre os Russos que eles tomam um longo tempo para selar seus cavalos, mas eles cavalgam incrivelmente rápido. Depois de cuidar pacientemente da economia russa colapsada de volta à saúde de 1999 a 2007, Putin começou a ir de encontro com a cerca ocidental em seu país. Na Síria, Criméia e Ucrânia, o ocidente encarou derrotas humilhantes e se desfez em sua aproximação. Na aposta alta do jogo da energia, serão os dutos Russos - não os ocidentais - que irão dominar a território Euro-asiático.

Um exercício mais instrutivo seria tentar entender como Putin conseguiu manter a Rússia a frente no jogo.

Mais do que qualquer outro líder, o presidente Russo em virtude de sua experiência na KGB (serviço secreto russo) entende como os EUA operam. O modus operandi americano - em sintonia com o britânico - é o de organizar golpes, rebeliões e contra-revoluções em países onde líderes nacionalistas chegam ao poder. Irã, Chile, Equador, Venezuela, Panamá e Ucrânia são os exemplos clássicos.

John Perkins escreve em Confissões de um Assassino Econômico (2004) como ele e outros "matadores de aluguel" foram enviados à países em desenvolviemnto como consultores para subornar ou coagir diplomatas, economistas, administradores e políticos para entrarem no jogo americano. Frequentemente eles têm sucesso, mas se falhassem a CIA iria enviar os 'chacais' - assassinos profissionalmente treinados que iriam arquitetar as mortes daqueles que se colocaram na frente do caminho da dominação americana.

Essa manobra dos matadores econômicos foi tão efetiva em criar as repúblicas de bananas que os EUA raramente tinham que ir pra cima. Dentre as raras ocasiões que os EUA tiveram que usar o exército em busca de objetivos comerciais está o Iraque, e de certa forma a Líbia.

Putin sabe que os EUA tentaram - e vão continuar a tentar - mudar o regime na Rússia. Como um ex-oficial da KGB baseado na Alemanha Oriental, ele sabe que os matadores estão procurando por uma oportunidade. E isso é exatamente o porquê de ter expulsado as agências desonestas USAID e o Conselho Britânico: ambas são frontes para os serviços secretos Anglo-americanos.

"Uma das coisas a se entender é que ele em particular estudou contra-inteligência, o que é a chave para entender porque ele é um jogador crítico," escreve Joaquin Flores para o website Centro Para Estudos Sincréticos. "Contra-inteligência não é somente achar espiões, mas sim contrariar o trabalho dos outros agentes que estão incorporados ou daqueles cujo trabalho envolve se incorporar a uma instituição para destruí-la por dentro."

Paralela à Guerra Fria estão as operações obscuras americanas. A economia dos EUA - e de sua companheira Grã-Bretanha - é uma economia de guerra. O conselheiro do Kremlin Sergei Glazyev disse em uma mesa redonda em Junho em Moscou: "Os americanos ganharam com todas as guerras na Europa - 1a GM, 2a GM, Guerra Fria. As guerras na Europa são os meios de seu milagre econômico, sua própria prosperidade."

A bagunça contínua na Ucrânia é um pretexto claro para puxar a Rússia para uma confrontação militar direta com as forças armadas Ucranianas, afim de criar uma guerra regional na Europa.
 

A resposta Russa tem duas vias. Uma, recusando entrar em uma guerra com a Ucrânia, deixa os EUA frustrado. A inatividade de Washington na Ucrânia foi brilhantemente descrita por um general chinês como um sintoma da estratégia de "disfunção erétil" americana.

Segundo, Putin está empregando estratégias assimétricas para parar - e eventualmente extinguir - o império americano. Um elemento chave dessa estratégia é o de atacar o pilar chave do poder americano - o dólar. A Rússia - com o apoio de companheiros do BRICS -China, India, Brasil e África do Sul - está se afastando do comércio dominado pelo dólar, um passo que irá impactar a economia americana em crescimento.
 

De acordo com o portal financeiro Zero Hedge:

"As contra-medidas de Glazyev miram especificamente na força da máquina de guerra americana, isto é, a impressa federal. Os conselheiros de Putin propõem a criação de 'uma aliança anti-dólar vasta' de países dispostos e capazes de deixar o dólar de lado no comércio internacional. Membros da aliança iriam também evitar manter as reservas monetárias em instrumentos em dólar. Uma coalizão anti-dólar seria o primeiro passo para a criação de coalizão anti-guerra que pode ajudar a dar um fim à agressão americana."

A Ucrânia poderia eventualmente se tornar na catalisadora do divórcio dos EUA com a Europa. Isso porque as sanções contra a Rússia estão ameaçando casas de negócios na Alemanha e em outros países do oeste europeu, os quais com o tempo desenvolveram ligações profundas com a economia russa. "De algum modo supreendente para Washington, a guerra pela Ucrânia deve logo se tornar uma guerra pela independência da Europa dos EUA e uma guerra contra o dólar," diz o Zero Hedge.

Moscou também está promovendo mudanças institucionais. O novo Banco do Desenvolvimento de $100 bilhões, comandado também pelo BRICS, não irá somente contrariar a influência das instituições de empréstimo ocidentais, mas também irá parar o fluxo de dinheiro dos países em desenvolvimento para o ocidente.

O atual sistema de empréstimos é enviesado a favor dos países ocidentais porque os empréstimos do Banco Mundial e do FMI vêm com um cesto de condições. Por exemplo, quando os dois oferecem um empréstimos, pode ser usado para adquirir bens e serviços somente do ocidente. Ou o empréstimos podem ser usados apenas para construir represas, mas não, digamos, para beber a água.

Claro, o material e o conhecimento para a construção de represas terão que vir dos EUA e Europa. E quando a oferta de água potável é baixa, cria-se demanda para garrafas de água e refrigerantes. O novo banco irá, com isso, atacar o ocidente aonde dói mais, no bolso. 

Mesmo com Putin fazendo todos os movimentos certos no quadro político, seus oponentes não estão de braços cruzados assistindo seu império se montar. O rublo Russo está sendo martelado até quando o preço do petróleo está sendo guiado para o solo pelos Sauditas na licitação de seus suseranos americanos. Sem supresas aqui - os americanos irão tentar enfraquecer a Rússia por ser o único país que se encontra no meio entre Washington e a dominação mundial.
 

No entanto, Putin é um judoca que sabe como usar a força do seu oponente contra o próprio oponente. Ele sabe que os dias fáceis do ocidente acabaram e que não estão em posição de atacar o exército russo. Está contente em assistir os americanos se excederem - atacando a Rússia e simultaneamente tentando conter a subida irresistível do BRICS.

Putin tem a sorte de ainda ter o apoio dos seus companheiros dos BRICS em sua briga com o ocidente. Tanto Índia quanto a China concordam que Moscou tem interesses legítimos na Ucrânia e na Criméia. Recentemente, o BRICS incomodou a Austrália pela sua proposta de banir Putin da cúpula do G20.

Tais confirmações de apoio estimularam Putin a mostrar o dedo do meio ao ocidente. Em 2012, sem preocupações, não compareceu à cúpula do G8 e ainda esse ano, meramente esboçou uma emoção quando o G8 voltou a ser G7 - a configuração pré-Guerra Fria. (Com membros como o Canadá, o G7 é uma piada.)

Se a história nos ensinou algo, é que a Rússia tem o hábito de triturar seus inimigos. Depois de Napoleão e Hitler, pode ser a vez dos americanos reconhecerem os perigos de atrair o predador.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Delação manipulada




http://paulomoreiraleite.com/2014/12/04/delacao-manipulada/




4 de dezembro de 2014



Delação manipulada



Por Paulo Moreira Leite


   Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, da Toyo Setal, e o tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto

O esforço dos meios de comunicação para encontrar  — de qualquer maneira — uma ligação da campanha de Dilma Rousseff com os recursos nas  da operação Lava Jato superou um novo limite na fronteira que separa a boa fé da manipulação mais descarada.

Tenta-se, agora, aproximar a delação premiada do executivo Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, da Toyo Setal, da campanha presidencial de Dilma em 2010. Todos os jornais destacaram que parte da propina paga para o ex-diretor de Engenharia e Serviços da Petrobras Renato Duque eram “doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores”.

O que se esconde é um aspecto essencial. Mendonça Neto esclareceu no depoimento que não havia informado ao PT do motivo das doações.

É verdade que o executivo admitiu  ter mantido em 2008 uma reunião com o tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto, na sede do diretório estadual do PT em São Paulo, quando disse que “gostaria de fazer contribuições” ao partido. Mas Mendonça Neto também disse no depoimento que “não mencionou a Vaccari  que as doações seriam feitas a pedido de Renato Duque” e que seriam fruto de propina.

Vaccari então  orientou o executivo como doar de forma legal. Ou seja, o PT aceitou a doação na forma da lei. Está lá, entre aspas, na página 8 do depoimento de Mendonça Neto.

Este é o ponto espantoso. A divulgação seletiva de informações, de modo a atingir adversários e proteger aliados é uma tradição de nossos jornais e revistas. Mas raras vezes se fez isso de forma tão descarada, sem o cuidado sequer de manter as aparências. Vamos combinar que quem é capaz de vazar informações prestadas de caráter confidencial, como consta do documento, deveria, pelo menos, cumprir o dever de prestar um relato fiel daquilo que se disse a Justiça. Afinal, o que se quer é elevar o padrão ético de nossas práticas políticas e econômicas, correto? Ou não?

Outro aspecto é que os jornais preferiram confundir seus leitores ao repercutir a acusação de Aécio Neves que a doação legal ao PT em 2010 poderia tornar “ilegítima” o governo de Dilma Rousseff. No depoimento à Justiça do Paraná, Mendonça disse que as empresas Setec Tecnologia, PEM Engenharia e a SOG Óleo e Gás doaram legalmente R$ 4 milhões ao PT. Não existe nenhuma prova de que esse dinheiro tenha sido usado pela campanha de Dilma porque a legislação eleitoral da época não exigia a identificação da origem dos recursos transferidos entre partido e campanha, a chamada “doação oculta”. Isso só passou a ser obrigatório em 2014.

Com essa obrigatoriedade, sabe-se hoje que seis construtoras ligadas à Lava-Jato e com obras nos governos tucanos de Minas (Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, OAS, Odebrecht e Queiroz Galvão) doaram R$ 34,17 milhões à campanha de Aécio Neves.