terça-feira, 4 de março de 2014

A determinaç​ão política de fazer da servidão uma virtude

Carta Maior, 04/03/2014

              

O conformista inconformado



Por Saul Leblon




Resgatar  o legado de Fernando Henrique Cardoso é tido como o  grande trunfo da campanha conservadora em 2014.
O escrutínio eleitoral desse patrimônio, como se sabe, não contabiliza  um saldo favorável.
‘Por acanhamento do próprio tucanato’ -alega o PSDB, que agora estaria disposto a redimir a herança de seu maior quadro.
Nas derrotas presidenciais de 2002, 2006 e 2010 a coalizão conservadora preferiu, ao contrário,  guardar essa carta  na manga do esquecimento.
Havia respaldo nas estatísticas sociais e econômicas, bem como nas enquetes de prestígio popular, à conveniência da decisão.
Talvez tenha chegado a hora de voltar a Fernando Henrique Cardoso, de fato,  não propriamente pelo seu legado presidencial.
Mas pela atualidade que a tensão da história latino-americana  –e brasileira, claro—veio adicionar à coerência do seu percurso intelectual, da sociologia à Presidência da República.
O próprio tucano ensaia esse aggiornamento das linhas estratégicas do projeto conservador, do qual ele se tornou uma referência.
Em artigo recente (‘Diplomacia inerte’), FHC faz a atualização do quadro analítico que desenvolveu como sociólogo, depois adotou como presidente, para responder aos desafios do desenvolvimento na periferia do capitalismo.
“(...) houve um erro estratégico desde o governo Lula na avaliação das forças que predominariam no mundo e da posição do Brasil na ordem internacional”, diz o ex-presidente.
O cabo eleitoral número um do PSDB reafirma o fatalismo implícito no festejado texto de 1967, ‘Dependência e desenvolvimento na América Latina’, escrito com Enzo Falletto, no Chile, quatro anos depois do golpe no Brasil, e publicado em 1973, ano da queda de Allende.
Os dois acontecimentos trágicos pareciam dar razão à analise sociológica sobre a inviabilidade de um modelo de desenvolvimento soberano na região.
O artigo do último domingo reitera essa inexorabilidade diante do que aponta como sendo  ‘as forças que predominariam no mundo’ na última década.
“Nossa diplomacia guiou-se pela convicção de que um novo mundo estava nascendo e levou o presidente (NR Lula), em sua natural busca de protagonismo, a ser o arauto dos novos tempos. Não me refiro ao que eu gostaria que ocorresse, mas às tendências que objetivamente se foram configurando (...)  A convicção implícita era a de que pós-Muro de Berlim, depois de breve período de quase hegemonia dos Estados Unidos, (dos) equívocos da política externa daquele país...assistiríamos a uma correção de rumos. (essa visão)  encontra eco nos sentimentos de boa parte dos brasileiros, inclusive de quem escreve este artigo. Sempre sonhamos com um mundo multipolar (...)  Nisso é que o governo Lula calculou mal.(...)  o Brasil faz reuniões com países árabes (...) abre embaixadas nas mais remotas ilhas,(enquanto) a Petrobras é expropriada pela Bolívia, interfere contra o sentimento popular em Honduras, além de calar diante de manifestações antidemocráticas quando elas ocorrem nos países de influência ‘bolivariana’. Noutros termos: escolhemos parceiros errados, embora, em si mesma a relação Sul/Sul seja desejável, e menosprezamos os atores que estão saindo da crise como principais condutores da agenda global (...)”


Desguarnecido dos préstimos da toga colérica, que de herói da ética se confessou um delinquente jurídico ao manipular  a dosimetria na AP 470,  o conservadorismo renova  assim o martelete do suposto anacronismo geopolítico dos projetos progressistas.
A dependência é estrutural, dizia FH em 1967; a dependência é virtuosa, adicionaria FH presidente; a dependência é inexorável e o Brasil do PT perdeu seu tempo ao afrontá-la, diz o redimido patrono do PSDB.
O ponto de partida repisado no artigo de domingo encontrou suas bases empíricas em um texto que antecede o  livro de 1967 da dupla FHC/Faletto.
Em 1964, dois meses antes do golpe de Estado,  seria publicada uma pesquisa premonitória, ‘Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico’, coordenada pelo então sociólogo da USP.
Nela,  Fernando Henrique encontraria o fundamento da futura  visão sobre a dependência.
A pesquisa  desnuda o  equivoco de boa parte da esquerda, então, que via na burguesia nacional um aliado dos trabalhadores do campo e da cidade na luta pelo desenvolvimento industrial, contra o imperialismo e o atraso  agrário.
O levantamento coordenado por FHC não apenas desmentia o idílio.
Ele  antecipava a vontade predominante no empresariado industrial brasileiro de se aliar ao capital estrangeiro, ao largo de Jango, dos sindicatos e das reformas de base.
Em síntese, as bases burguesas do projeto nacional e popular eram tão sólidas quanto se revelaria o dispositivo militar de Jango.
O esquematismo importado das sociedades europeias viveu seu teste do pudim dois meses depois de publicado o diagnóstico e deu razão ao sociólogo.
Três anos mais tarde, com Faletto, ele ampliaria essa constatação, dando-lhe o escopo de uma matriz de validade latino-americana.
Focado na realidade efetiva dos interesses das classes dominantes, que opunha o capital às massas populares na disputa pela destinação do excedente econômico na região, ‘Dependência e Desenvolvimento na América Latina’, sinalizava a complementariedade de propósitos entre o capital local e o estrangeiro.
Tal convergência, antes de levar à estagnação pela atrofia do mercado interno, em decorrência do arquivamento das reformas de base, permitiria um padrão de desenvolvimento associado e dependente.
Ao privilegiar os conflitos de interesse no interior da sociedade à margem de idealizações ideológicas, o livro representou um avanço, sem  todavia definir um novo marco histórico.
Faltava-lhe abordar o essencial: a problematização dos conflitos inerentes à endogamia entre o capital local e o internacional  e o seu custo social.
A ausência desse olhar dialético e engajado o levaria a amplificar aquilo que corretamente criticava nos esquematismos de uma parte da esquerda: trocava-se a materialidade da luta de classes por um fatalismo alheio às contradições transformadoras do processo.
Até que ponto seria viável um desenvolvimento que alijava a grande maioria da sociedade das decisões relativas ao seu destino e à destinação do excedente econômico?
A visão de FH, de certa forma, repetia o tropeço dos que viam no desenvolvimento periférico quase que  uma atividade reflexa do centro hegemônico.
A dinâmica interna estaria assim previamente dada; independente da prática política, ela orbitaria como um lubrificante, sem nunca alterar o núcleo duro da engrenagem.
Com a exacerbação da lógica financeira, a partir da desregulação propiciada pelas derrotas da esquerda mundial nos anos 70/80, esse enredo mecanicista ganha a robustez de um sujeito histórico hegemônico.
Os mercados autorreguláveis, seus agentes racionais e as agencias de risco assumem o rosto genérico de um interlocutor dotado de mando e ubiquidade.
Esse determinismo  inquestionável, sob a ótica conservadora,  daria estofo ao  projeto político do sociólogo que exerceu  a Presidência da República de 1995 a 2002, disposto a  personificar sua teoria.
E assim o fez.
A saber: com as privatizações, o desmonte do Estado (‘sepultar a Era Vargas’) , o descompromisso  estatal com as grandes obras de infraestrutura, a renúncia a uma política industrial, a redução do Itamaraty a um anexo do Departamento de Estado norte-americano, a desmoralização do planejamento econômico,  a terceirização do interesse público a agentes privados, a corrosão do poder aquisitivo dos trabalhadores, a desqualificação dos sindicatos e das organizações sociais, o sopão à pobreza (cuja sorte seria entregue à transição demográfica), a derrisão de tudo o que remetesse ao interesse público e, finamente, o deslumbramento constrangedor de um cosmopolitismo provinciano, festejado no Presidente que falava ‘línguas’ e era bajulado no exterior pelo bom comportamento.
Aquilo que em princípio era só  uma constatação  histórica, que desmentia o flerte da elite local com a agenda do desenvolvimento soberano, transformar-se-ia na determinação política de fazer da servidão uma virtude.
O surgimento do PT e a vitória desconcertante do líder operário em 2002 e 2006 –que fez  a sucessora em 2010-  introduziu um ruído insuportável no escopo desse conformismo estratégico com a sorte do país e de sua gente.
Para revalidar a teoria  –e os interesses aos quais ela consagra uma dominância irreversível, era preciso desqualificar a heresia de forma exemplar.
Não apenas  derrotá-la nas urnas.
Quando a realidade teima, a redenção requer o açoite inapelável da moral.
E parecia que Joaquim Barbosa seria o anjo negro de origem humilde, desfrutável em mais de um sentido, capaz de executar a purga saneadora  da história maculada pelo ‘voluntarismo petista’, como espicaçou FH em outro artigo (‘Estadão’, 03-03-2014).
Não foi assim que se deu.
O artigo deste domingo retoma então os marcos analíticos de uma biografia em rota de colisão com a realidade e exorta o país a aceitar o seu confinamento no tabuleiro geopolítico que os vencedores manejam à revelia das ilusões multipolares.
Como em 1967, não se cogita discutir os requisitos para disputar a hegemonia do processo.
Não há atores e interesses capacitados a operar essa difícil disputa, sugere o ex-presidente.
Nem no Brasil, nem em outras latitudes da  América Latina, onde hereges  verão  igualmente  fracassar  uma agenda social desprovida de sustentação econômica e inserção mundial.
A demonização das experiências venezuelana, boliviana e argentina faz parte desse tour de force  que transforma o noticiário internacional em uma extensão da guerra interna contra a ingerência do Estado e da democracia nas diretrizes do desenvolvimento.
FHC e assemelhados tem razão ao apontar a espiral de desequilíbrios introduzida na matriz econômica brasileira desde 2003.
De fato, mais de 50 milhões de novos consumidores aportaram no mercado em apenas dez anos; 17 milhões de empregos foram criados no período; o salário mínimo registrou um aumento real superior  a 60%.
O conjunto não apenas invadiu o mercado, mas a teoria de 1967 e com ela asfixiou o espaço politico e eleitoral d conservadorismo.
Um novo protagonista histórico, imprevisto e improvável na mecânica fatalista da dependência conservadora exige seu espaço na democracia depois de tê-lo conquistado no mercado: o consumo das famílias brasileiras cresce ininterruptamente há 120 meses; tempo suficiente para uma geração nascer, crescer e completar dez anos.
Como devolver essa pasta de dente ao tubo estreito da dependência se a disputa se acirrou com demandas crescentes por infraestrutura, serviços de qualidade, habitação, participação, segurança, lazer etc?
O conformismo de 1967  esgotou o prazo de validade e com ele a pertinência da agenda conservadora abrigada no PSDB e assemelhados?
Não, sugere FHC, se o caos urbano -e o constrangimento externo decorrentes de desequilíbrios na capacidade de pagar importações crescentes- fizer regredir os avanços da última década.
Não se o torniquete financeiro internacional  –ancorado nas agencias de risco e na potencial fuga de capitais-  tanger a pasta  com a  chibata dos juros altos, o estalo do arrocho fiscal, a volta do desemprego e reversão dos ganhos salariais.
A hora do acerto de contas chegou, brada o conservadorismo latino-americano de olho na reversão do ciclo mundial de liquidez que, de fato, restringe a   margem de manobra progressista para mitigar a disputa pelo excedente.
É um pedaço da verdade. Mas a exemplo do que constatou o livro de 1967, não é toda a verdade.
O Brasil  dispõe dos requisitos objetivos para um salto industrializante que irradie a produtividade necessária aos novos avanços em direção à cidadania plena de sua gente.
A saber:
1) as empresas instaladas no país dispõem de uma massa de capital monetário suficiente,  hoje alocado na roleta rentista (que inclui a dívida pública; e em repouso em paraísos fiscais, onde Brasil figura como o 4º país com maior volume de depósitos: US$ 520 bi, ou mais de R$ 1 trilhão, segundo a organização inglesa "Tax Justice Network);
2) o mercado de massa brasileiro forma hoje, sozinho, o 16º maior país do mundo em movimento econômico;
3) a economia dispõe de sólidas bases de recursos naturais, incluindo-se o impulso industrializante inerente à exploração das maiores reservas de petróleo descobertas no planeta neste século. 
Falta a amarração política desses ingredientes, processo que guarda semelhança com a disputa de um gigantesco jogo de truco estratégico.
A iniciativa privada mantém o pé no freio do investimento e a emissão conservadora exaspera a guerra de expectativas para desencorajar o capital privado a apostar no país.
Derrotado o ‘lulopetismo’, o lucro será maior, sugere-se.
Quem pode induzir a  gigantesca escala de investimentos e o salto tecnológico que os oligopólios globais e seus associados locais – assim convertidos, como previa FHC em 1967-  se recusam a deflagrar?
Para escapar ao fatalismo conservador, e à  hipertrofia autoritária do Estado verificada na ditadura, só existe um caminho:  encarar o fortalecimento da democracia participativa como um requisito indispensável à reordenação do desenvolvimento brasileiro.
Entenda-se por isso a criação dos instrumentos que forem necessários à ampla repactuação de metas e prazos  que tornem críveis as linhas de passagem entre as urgências da sociedade  e as possibilidades efetivas do crescimento.
Antes  que a crispação conservadora resulte em um endosso ao fatalismo embutido em ‘Dependência e Desenvolvimento na América Latina’, será preciso escrever na prática uma outra referência histórica que liberte a democracia da passividade a que foi condenada no arcabouço conservador.
‘Democracia Social e Desenvolvimento na América Latina’ é um bom título para esse novo período à espera do seu autor coletivo.

Venezuela: os filhotes da reação




Carta Maior, 04/03/2014
 

Venezuela: os filhotes da reação


 
Luis Hernández Navarro
 
Lorent Saleh é um jovem venezuelano de 25 anos, de língua flamejante, que estudou comércio exterior. É uma das cabeças visíveis da coalizão para derrubar o presidente Nicolas Maduro. Ele dirige a Organização Operação Liberdade, que aponta o castro-comunismo cubano como o principal inimigo da Venezuela.

Lorent começou seu trabalho contra a revolução bolivariana em 2007. Desde então, ele não desiste. Promoveu greves de fome e campanhas para denunciar as “mentiras de Chávez”. Embora tenha abandonado as salas de aulas há anos, ainda se apresenta como um líder estudantil. E, ainda que não tenha nenhum emprego conhecido, viaja pela América Latina para tentar isolar o governo de Maduro.
O jovem Saleh tem bons amigos em diversos países. Na Colômbia, por exemplo, é cobiçado e promovido pela Aliança Nacionalista pela Liberdade e Terceira Força, agrupações neonazistas (El Espectador, 21/7/2013).


 
Vanessa Eisig é uma simpática jovem ruiva de 22 anos, que usa óculos e se descreve em sua conta no Twitter como uma “guerreira de luz e bígama, casada com minha carreira e com a Venezuela”. Estuda comunicação na Universidade Andrés Bello e confessa que, ao participar dos protestos, sente que está fazendo história. Vanessa é militante da Juventude Ativa Venezuela Unida (JAVU). Exige a deposição do “usurpador” Nicolás Maduro e de todo o seu gabinete. A organização tem como emblema um punho direito de cor brança que, segundo ela, “é símbolo de resistência e de crítica ao socialismo”.

JAVU, que promove a Operação Liberdade, desempenhou um papel relevante nos distúrbios de rua das últimas semanas na Venezuela. Fundada em 2007, a organização se define como uma plataforma juvenil de resistência, que busca derrubar os pilares que sustentam um governo que “menospreza a Constituição, atinge nossos direitos e entrega nossa soberania ao comando dos decrépitos irmãos Castro”.

Em seu comunicado de 22 de fevereiro deste ano, a JAVU denunciou que forças estrangeiras sitiaram militarmente a Venezuela. “Seus mercenários nos atacam de maneira vil e selvagem. Seu objetivo é nos escravizar”. Para conseguir sua liberdade, assinalam, é vital defender a soberania da nação expulsando os comunistas cubanos que estão usurpando o governo e as Forças Armadas.

A JAVU está inspirada e mantém estreita relação com Otpor (Resistência) e com o Centro para a Aplicação de Ações e Estratégias Não-Violentas (Canvas, na sigla em inglês). Otpor foi um movimento estudantil criado na Sérvia para remover do governo o presidente Slobodan Milósevic em 2000, que recebeu financiamento de agências governamentais dos Estados Unidos. Canvas é a face renovada de Otpor.


 
O guru desses grupos é Gene Sharp, que reivindica a ação não violenta para derrubar governos. Sharp fundou o Instituto Albert Einstein, promotor das chamadas revoluções coloridas em países que não estão alinhados aos interesses da OTAN e de Washington.

Documentos divulgados por Wikileaks tornaram público que Canvas – presente na Venezuela desde 2006 – elaborou para a oposição desse país um plano de ação, no qual propõe que os grupos estudantis e os atores não formais são os mais capacitados a construir uma infraestrutura e explorar sua legitimidade na luta contra o governo de Hugo Chávez.

A relação entre JAVU, Otpor e Canvas é muito estreita. Como confessou Marialvic Olivares, militante de um grupo de extrema direita: as organizações internacionais que estão nos ajudando neste momento sempre estiveram conosco, não somente apoiando os protestos, mas também ajudando na formação. Sempre nos estenderam a mão. Não temos vergonha nem medo de dizê-lo.

Mas os vínculos entre os jovens dirigentes estudantis venezuelanos e os think tanks e agências de cooperação de direita vão muito mais além da aliança com Otpor/Canvas. Diversas fundações estadunidenses financiam abertamente o movimento dissidente. Também contam com o apoio do Partido Popular, da Espanha, e da organização de juventude de Silvio Berlusconi, da Itália.


 
É o caso do jovem advogado Yon Goicoechea, estrela rutilante dos protestos de 2007, e que agora estuda na Universidade Columbia, depois de se filiar ao partido de Henrique Capriles e de abandoná-lo quando não lhe deram o cargo que queria. Em 2008, foi generosamente recompensado por seu compromisso de luta contra Chávez. O Instituto Cató deu a ele o prêmio Milton Friedman para a Liberdade, no valor de meio milhão de dólares.

Outra força que desempenha um papel relevante na tentativa de derrubar Maduro é o Movimento Social Universitário 13 de Março, organização estudantil que atua na Universidade dos Andes.


 
Seu dirigente mais conhecido é Nixon Moreno, ex-estudante de Ciências Políticas, acusado de violentar a policial Sofia Aguilar, e que hoje está foragido e exilado no Panamá.

Estes jovens sabem o que fazem: promover a desestabilização política. Recebem financiamento internacional. Militam nas fileiras da extrema-direita e do anticomunismo. São xenófobos. Estão vinculados com organizações neonazistas e conservadoras em vários países. E marcham lado a lado com políticos da direita radical como Leopoldo López, María Corina Marchado e Antonio Ledezma.

Apesar de contar com todos esses apoios, Lorent Saleh, da Operação Liberdade, se lamenta: “Estamos tremendamente sós”. Em parte tem razão. Entre os jovens latinoamericanos não despertam simpatia nem solidariedade. Pelo contrário, suscitam desconfiança e repúdio. É por que sua plumagem está à vista. Sua causa não tem nada a ver com o ideário do movimento estudantil popular mexicano de 1968, por exemplo. Não por acaso, receberam o repúdio público dos estudantes chilenos. Para eles, os filhotes da reação na Venezuela são inaceitáveis.
Tradução:Louise Antonia León

O discurso vazio da alternânci​a no poder

 
 
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Carta Maior, 04/03/2014 

          

O discurso vazio da alternância no poder

​
Por
Antonio Lassance


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​O discurso da alternância no poder apareceu na avenida para desfilar na campanha eleitoral. É daqueles carros alegóricos grandes, pomposos e reluzentes. Inconsistentes, feitos de papelão e isopor, cheios de gente para empurrar, por baixo dos panos, e “curtir” como se fosse o suprassumo do espírito democrático.

À frente desse carro alegórico, as duplas de mestres-sala e porta-bandeiras: Eduardo Campos e Marina Silva; Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso.

“O que eu acho é que temos de ter alternância no poder. O PT está há muito tempo no poder”, disse Fernando Henrique Cardoso.

"É importante que todo tempo os partidos possam experimentar governar, fazer oposição", recomendou Eduardo Campos, do PSB.

Se a lógica de FHC for válida, já passou da hora de o PSDB parar de governar São Paulo. Estão lá desde 1995 e depois falam mal do chavismo.

Os 12 anos de PT no Governo Federal são do mesmo tamanho dos 12 anos de PSDB no Governo de Minas Gerais. Também já chega por lá, nas Alterosas?

Pela lógica de Eduardo Campos, se cada partido tem que ficar um tempinho no governo e, depois, na oposição, um dia seremos governados pelo PSC de Marco Feliciano.

Fala-se em alternância como se fosse um princípio democrático. Nunca foi. O princípio democrático fundamental é o da soberania popular. A troca de governantes não é dada pelo “princípio” da alternância, e sim pelo da supremacia da vontade popular.

O povo mantém os governantes se está satisfeito; troca, se achar que há outros melhores para pôr no lugar.

Os discursos que propalam uma alternância no poder não têm nada de alternância e não mexem numa única vírgula das relações de poder.

Aécio e Eduardo Campos já confessaram seus programas. Entoam, em uníssono, o hino para "resgatar o tripé" do Plano Real: metas rígidas de inflação, câmbio flutuante e controle dos gastos públicos.

Enquanto PSDB e PSB falam de tripé, estão mostrando o que são: uma mesmice, embrulhada para presente dentro de um tédio, enfeitada com um laço de monotonia.
No célebre romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, "O Leopardo", o velho aristocrata diz que "é preciso mudar para que tudo continue como está".

Este é o espírito do discurso da alternância que trata o poder e a democracia mais como dança das cadeiras do que como inovação política promotora de transformação social.

Lula e Dilma: uma ruptura ainda em curso

Alternância no poder deveria supostamente significar mudança no poder. O poder muda de mãos para que as novas mãos mudem, em alguma medida, as relações de poder. Do contrário, mudar para quê?

Certamente, não é disso que falam FHC e Aécio. A alternância que pedem é a volta do padrão de desenvolvimento excludente, de baixo crescimento, desemprego em alta, desvinculação de receitas da saúde e da educação, desmonte do Estado, desregulação da economia e uma política externa rebaixada.

Esses eram os fundamentos do Plano Real de FHC, rompidos por Lula. Esse foi o padrão abandonado também durante o governo Dilma. Romperam sem alterar muitas das relações que fogem aos horizontes restritos dos poderes de uma Presidência da República.

Mesmo assim, mexeram com variáveis-chave do jogo político e da estrutura de interesses da sociedade. Do contrário, não haveria tanto ódio de classe contra Dilma, contra Lula, contra o PT e o petismo.

De forma democrática, é preciso décadas para que possam ser feitas grandes mudanças. Interromper tais mudanças no meio do caminho é, na verdade, uma maneira de frustrar a alternância no poder, e não de garanti-la.

Outra maneira de frustrar a verdadeira alternância é o próprio governo desistir de seu programa de mudança no meio do caminho. Se isso ocorrer, pouco valem anos ou mesmo décadas de exercício do poder.

Mais Dilma ou uma outra Dilma?

Pesquisa após pesquisa, fica claro que os eleitores querem mudança. O favoritismo de Dilma, sujeito a oscilações, para mais ou para menos, mostra que o desejo de mudança não necessariamente quer dizer vontade de trocar de partido e de presidenta.

Pode ser Dilma mais uma vez, desde que não seja a mesma Dilma. Assim como o Lula de 2006 não era o mesmo Lula de 2002.

Lula promoveu uma alteração de seu programa do primeiro para o segundo mandato. Fez "o que precisava ser feito" - como ele mesmo gostava de dizer - , nos primeiros quatro anos, e foi muito mais ousado em seu segundo mandato. Primeiro, deu um passo; depois, um salto.

A mesma história de Lampedusa traz outra frase, menos conhecida:

"Uma casa em que já se conhecem todos os cômodos não é uma casa em que valha a pena viver".

O Brasil ainda é uma casa pequena e de muitas portas fechadas. O que se deve mostrar, em uma eleição, é quem tem as chaves para abri-las e a disposição para criar novos espaços que não estejam reservados a uns poucos.

Do lado oficial, está na hora de Dilma preparar sua própria reviravolta, tal como Lula fez entre seu primeiro e segundo mandatos.

Se, como dizia o general grego Xenofonte, estratégia é a arte de surpreender o adversário, ao que parece, ou a estratégia oficial ainda não está preparada, ou está muito bem guardada. Isso a poucos meses das eleições.

Em 2006, quando apareceu a turma da “alternância no poder”, Lula surpreendeu-os na política com uma plataforma de aprofundamento das mudanças. É disso que o Brasil precisa, mais uma vez.


(*) Antonio Lassance é cientista político.

domingo, 2 de março de 2014

Uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em lugar nenhum

 





Sexta-feira, 2 de Março de 2012
 


Um Dia Isto Tinha Que Acontecer.



Por Mia Couto




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. 
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

A perda de Alain Resnais

Perdemos o grande cineasta, Alain Resnais, ocorrida neste sábado passado, aos 91 anos.
 
Um dos Mestres da chamada "Nouvelle Vague", ao lado de outros "monstros" do Cinema, como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette, Claude Chabrol, Eric Rohmer,  Agnès Varda, Roger Vadim e outros, Alain Resnais foi um dos nossos ídolos, quando começamos a estudar e fazer Cinema, no 1o. Curso de Cinema brasileiro de Nível Superior, na UCMG, em 1962.  
 
A Nouvelle Vague, foi praticamente gerada a partir dos "críticos" de Cinema da Revista "Cahiers Du Cinéma" .
 
Resnais é muito lembrado por dois de seus antológicos filmes : "Hiroshima, mon Amour" e "Ano Passado em Marienbad" .
 
Recentemente, tivemos aqui em B. Hte., a oportunidade de ver um de seus últimos Filmes, "Vocês Ainda Não Viram Nada" , sem dúvida alguma, uma homenagem quase póstuma a ele prestada por um verdadeiro "Time" de vários grandes "atores" do cinema francês...
 
Em resumo :  uma grande perda para o cinema mundial


 
            Alain Resnais (1922 – 2014)
 
Morreu o mestre do cinema francês Alain Resnais, diretor de obras revolucionárias da nouvelle vague. Ele faleceu na noite de sábado (1/3) em Paris, ao lado da família, aos 91 anos de idade.
Resnais deixou um legado de 50 filmes, entre curtas e longas, pelo qual recebeu cinco prêmios César (dois de Melhor Diretor, três de Melhor Filme), dois Ursos de Prata no Festival de Berlim, um Bafta, um Prêmio Especial do Júri em Cannes, um Leão de Ouro e dois outros prêmios no Festival de Veneza.
 
alain resnais f 0021 Alain Resnais (1922 – 2014)
Noite e Neblina
 
 
Nascido em Vannes em 3 de junho de 1922, filho de um farmacêutico, ele se apaixonou cedo pela literatura e pelo cinema. Aos 13 anos fez seu primeiro curta-metragem e ainda jovem ganhou reputação como bom documentarista, com curtas elogiados sobre artes plásticas, como “Van Gogh” (1946), “Guernica” (1950) e “Gauguin” (1951).
Ele se concentrou na direção de documentários durante os primeiros dez anos de sua carreira, consagrando-se com o curta “Noite e Neblina” (pelo qual recebeu o prêmio Jean Vigo em 1956), o primeiro filme a abordar a questão do genocídio nazista no cinema.
 
Resnais Hiroshima mon amour 04 Alain Resnais (1922 – 2014)
Hiroshima Mon Amour, com Emmanuelle Riva e Eiji Okada
 
 
Uma mistura de fotografias em preto e branco terríveis, tiradas de prisioneiros judeus durante a 2ª Guerra Mundial, combinadas com imagens plácidas e coloridas dos campos de concentração vazios, “Noite e Neblina” não poderia ser mais simples, mas também angustiante e eficaz. O então crítico François Truffaut considerou seus 30 minutos de duração os mais importantes já registrados pelo cinema e eles permanecem até hoje, mais de 50 anos depois, como uma das obras que melhor manifestaram o horror do Holocausto.
A estreia de Resnais como diretor de ficção aconteceu em 1959, quando levou às telas um roteiro da escritora Marguerite Duras, “Hiroshima Mon Amour”. Seu lançamento se tornou a estreia mais elogiada e controvertida de um cineasta desde “Cidadão Kane” (1941), de Orson Welles. 
 
last year at marienbad Alain Resnais (1922 – 2014)
O Ano Passado em Marienbad
 
 
Apesar de se consagrar com a crítica internacional, inclusive ganhando prêmios dos críticos de Nova York e no Festival de Cannes, sua narrativa complexa, os flashbacks silenciosos e as cenas de sexo ousadas foram questionadas por muitos. Assim como sua história, sobre uma atriz francesa (Emmanuelle Riva, de “Amor”), que, durante um caso com um arquiteto japonês (Eiji Okada, de “Operação Yakuza”), lembra o seu amor polêmico por um soldado alemão durante a 2ª Guerra Mundial.
O impacto de “Hiroshima Mon Amour” só foi inferior à perturbação causada por seu segundo filme, “O Ano Passado em Marienbad” (1961), uma narrativa vanguardista que partia de um texto do escritor Alain Robbe-Grillet, usava inspiração de história em quadrinhos e artes plásticas, e assumia proporções labirínticas. Melhor Filme do Festival de Veneza de 1961, a obra transformou a estreante Delphine Seyrig (que depois faria vários clássicos, como “Escravas do Desejo” e “O Discreto Charme da Burguesia”) numa estrela instantânea.
 
l annaace derni ore 01 g 600x391 Alain Resnais (1922 – 2014)
Resnais e a atriz Delphine Seyrig no set de O Ano Passado em Marienbad
 
 
Marco do cinema, “O Ano Passado em Marienbad” é um dos poucos filmes da história que causa controvérsia por razões meramente estéticas. Enquanto outros filmes são questionados sobre seu conteúdo religioso, sexual ou violento, “Marienbad” – ainda – causa indignação e admiração simplesmente pela forma como foi filmado, usando de simbolismo para contar uma história de suspense.
Na trama, um homem identificado apenas como “X” (Giorgio Albertazzi, de “O Assassinato de Trotsky”) tenta convencer uma mulher identificada como “A” (Delphine Seyrig) de que tiveram um caso no ano anterior em Marienbad, o spa da alta sociedade. Enquanto vagam pelos corredores e jardins de um castelo, “A” resiste aos avanços de “X”, observados por um terceiro personagem, “M” (Sacha Pitoëff, de “A Mansão do Inferno”), cuja motivação não é clara.
 
m 238186752 0 600x400 Alain Resnais (1922 – 2014)
A Guerra Acabou, com Yves Montand e Geneviève Bujold
 
 
Influenciando todo o cinema de arte que veio depois dele, “O Ano Passado em Marienbad” aproximou os filmes das artes plásticas, atingindo sua força hipnótica por meio de frases e situações repetidas, um esquema de tempo que se dobra sobre si mesmo, e pela força de suas imagens em preto-e-branco, que evocam pinturas surrealistas – onde apenas os personagens têm sombras, mas não os arbustos ao seu redor. Sua cinematografia, registrando os personagens com a frieza de manequins, também é apontada como responsável por redefinir a linguagem da fotografia de moda.
Resnais voltou a filmar Delphine Seyrig em “Muriel” (1963), que rendeu à atriz um prêmio no Festival de Veneza. Embora aparentemente menos complexo do que o seu antecessor enigmático, o filme também abordava a memória, relações ambíguas, passado e presente, e tinha o dobro de cortes das produções da época.
 
Resnais jetaime jetaime 04 Alain Resnais (1922 – 2014)
Eu Te Amo, Eu Te Amo, com Claude Rich e Olga Georges-Picot
 
 
Os três primeiros longas e os curtas que os antecederam catapultaram Resnais a uma posição de destaque no cinema de arte que emergiu nos anos 1960, em meio à novelle vague francesa e outros movimentos culturais espalhados pelo mundo. Mas sua fase assumidamente experimental teve final abrupto após o fracasso da sci-fi “Eu Te Amo, Eu Te Amo” (1968), no qual uma máquina do tempo fazia Claude Rich (“E se Vivêssemos Todos Juntos?”) rever sua vida inteira fora de ordem.
Seu afastamento da vanguarda cinematográfica coincidiu com o respaldo comercial obtido ao filmar dois roteiros do escritor espanhol Jorge Semprun, “A Guerra Acabou” (1966) e “Stavisky” (1974), ambos estruturados de forma convencional. O primeiro tinha Yves Montand (“Z”) como um revolucionário espanhol cansado, residente em Paris, que percebia que a luta contra o fascismo tinha conseguido pouco para seu país. Já o segundo fez Resnais cair no gosto popular.
 
resnais belmondo stavisky Alain Resnais (1922 – 2014)
Com Jean-Paul Belmondo, nos bastidores de Stavinsky
 
 
O diretor tinha passado seis anos sem filmar até retornar com “Stavisky”, estrelado por Jean-Paul Belmondo (“O Profissional”) no auge de sua popularidade, como o financista infame que quase derrubou o governo francês. Com um elenco que incluía Charles Boyer (“À Meia Luz”), música de Stephen Sondheim (“Sweeney Todd”) e uma impressionante recriação da década de 1930, o filme mostrou que Resnais também podia dirigir obras de entretenimento.
O sucesso de “Stavisky” mudou sua trajetória, levando-o a trabalhar com grandes estrelas. O infant terrible foi até filmar em inglês, dirigindo John Gielgud (“Arthur, o Milionário Sedutor”), Ellen Burstyn (“Réquiem para um Sonho”) e Dirk Bogarde (“Morte em Veneza”) no drama “Providence” (1977) – filme que, no entanto, era muito mais do que parecia à primeira vista.
 
Alain Resnais Alain Resnais (1922 – 2014)
Com Ellen Burstyn, nos bastidores de Providence
 
 
A conciliação entre o cinema comercial e a consagração da crítica aconteceu com o lançamento de “Meu Tio da América” (1980), um filme que seria considerado insuperável na filmografia de qualquer diretor que não tivesse feito antes “O Ano Passado em Marienbad”. Premiado com o Grande Prix no Festival de Cannes e seis César, inclusive os troféus de Melhor Filme e Diretor, a obra estrelada por Gerard Depardieu (“O Homem que Ri”) se debruçava sobre as teorias comportamentalistas do psicólogo Henri Laborit para satirizar a vida francesa moderna. Sua estrutura de contrapontos, que utilizava três histórias diferentes para explorar um tema comum, se tornaria um elemento chave no trabalho posterior do diretor.
Em sua obra seguinte, “A Vida É um Romance” (1983), que se divertia às custas de intelectuais franceses, Resnais juntou pela primeira vez o trio de artistas que o acompanharia pelo resto de sua carreira: Sabine Azéma (com quem ele se casaria em 1998), Pierre Arditi e André Dussollier, especialistas no tipo de atuação teatralizada que marcaria seus últimos filmes.
 
 Alain Resnais (1922 – 2014)
Meu Tio da América, com Gerard Depardieu ao centro
 
 
Em filmes como “Melô” (1986), adaptado a partir de uma peça de teatro de Henri Bernstein, “Smoking e No Smoking” (1993), que inaugurou seu ciclo de peças de Alan Ayckbourn, e mais recentemente em “Vocês Ainda Não Viram Nada!” (2012), sobre a encenação de uma peça, Resnais explorou a tensão entre realismo cinematográfico e artifício teatral. Ao mesmo tempo, usou este conflito como uma metáfora para explorar os papeis do destino e da predeterminação na formação das vidas humanas.
Nos últimos anos, o trabalho de Resnais vinha se tornando mais alegre. Fã assumido de quadrinhos, ele filmou uma comédia escrita pelo célebre cartunista francês Jules Feiffer, “Quero Ir para Casa” (1989), com Gerárd Depardieu. Também devoto dos musicais da Broadway, incorporou a música em “Amores Parisienses” (1997), repleto de clássicos da chanson francesa, e “Na Boca, Não” (2003), adaptação de uma opereta de 1925, estrelada por Audrey Tautou (“Coco Antes de Chanel”).
 
001 Alain Resnais (1922 – 2014)
Com Sabine Azéma nos bastidores de Melô
 
 
Especializando-se nas peças de Alan Ayckbourn, ele ainda filmou “Medos Privados em Lugares Públicos” (2006), sobre seis pessoas em busca de amor numa ciranda de encontros e desencontros. O drama ficou três anos em cartaz na cidade de São Paulo. Do mesmo dramaturgo, também adaptou “Life of Riley”, seu último filme, exibido em fevereiro no Festival de Berlim, em que atores de teatro recebem a notícia de que um amigo está para morrer.
É interessante reparar que suas últimas obras, incluindo “Ervas Daninhas” (2009), vinham girado em torno de situações casuais, encontros e falecimentos, ao mesmo tempo em que buscavam desafiar o destino ou, ao menos, pontos de vista. “Ervas Daninhas” chegava a ter dois finais diferentes, e Resnais sugeria que os espectadores escolhessem o que mais gostassem como o final verdadeiro.
 
vous n avez encore rien vu 26 09 2012 8 g 600x399 Alain Resnais (1922 – 2014)
Dirigindo o elenco de Vocês Ainda Não Viram Nada
 
 
Resnais tratava o cinema como uma obra aberta, projetada para levar o espectador a refletir e tirar suas próprias conclusões. Mesmo quando parecia abordar temas convencionais, seu cinema provocava percepções, como em “Providence”, onde apenas ao final revelava que o ponto de vista do protagonista, e tudo o que o filme mostrara, era uma distorção da realidade.
Sua filmografia representa exatamente essa manifestação: cinema enquanto arte, capaz de transformar a realidade em ilusão, na qual ele foi um dos maiores mestres.
 
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Alain Resnais