quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Zé Bolinha-de-Papel se irrita com repórteres

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http://eleicoes.uol.com.br/2012/noticias/2012/10/17/serra-se-irrita-com-perguntas-e-sugere-que-reporter-do-uol-trabalhe-para-haddad.htm



UOL, 17/10/2012

Serra se irrita com perguntas e sugere que repórter do UOL trabalhe para Haddad


Do UOL, em São Paulo



Pelo segundo dia consecutivo, o candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, José Serra, se irritou com perguntas feitas pela reportagem do UOL e sugeriu que a jornalista Débora Melo, que acompanha a campanha do tucano, trabalhe para a campanha de Fernando Haddad (PT), rival do candidato na disputa.
Nesta terça-feira (16), Serra se irritou com a pergunta da reportagem sobre o material anti-homofobia distribuído em escolas estaduais, em 2009, quando o tucano era governador do Estado. O material é semelhante ao chamado "kit gay" do MEC (Ministério da Educação), que é alvo de criticas de Serra e foi elaborado na gestão de Haddad na pasta.
"Vai lá com o Haddad e trabalha com ele. É mais eficiente", disse o candidato ao ser questionado sobre o fato de concordar ou não com ações de combate à homofobia em escolas.
No dia anterior, Serra também se irritou após a jornalista perguntar se o tom agressivo do programa do tucano na TV e no rádio se justifica pelo fato de Serra estar atrás de Haddad nas pesquisas. "Vai lá para o Haddad. É a pauta dele. Você não precisa trabalhar para ele. Ele já tem bastante assessores. Não precisa ter uma assessora a mais para ele. Vai lá direto", disse o tucano.
O candidato do PSDB também mostrou irritação durante entrevista à rádio "CBN", na manhã de terça (16), com a pergunta feita pelo jornalista Kennedy Alencar sobre a semelhança entre a cartilha anti-homofobia elaborada durante a gestão do PSDB no governo do Estado, e o material feito pelo MEC. Serra foi irônico com o jornalista.
"Eu sei que você tem suas preferências políticas, mas modere-se, Kennedy. Você está na CBN, não pode fazer campanha eleitoral aqui", disse Serra.
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UOL, 17/10/2012 19h00


Ibope: Haddad amplia vantagem e vai a 49%; Serra tem 33% das intenções de voto

 

Do UOL, em São Paulo

Pesquisa Ibope sobre a disputa pela Prefeitura de São Paulo no segundo turno, divulgada nesta quarta-feira (17), aponta a liderança do candidato do PT, Fernando Haddad, com 49% das intenções de voto. O candidato do PSDB, José Serra, aparece com 33%.
Essa é a segunda pesquisa divulgada pelo Ibope sobre o segundo turno em São Paulo e a primeira após a retomada do horário eleitoral no rádio e na TV, que voltou a ser transmitido na última segunda-feira (15) . Na pesquisa anterior, divulgada no dia 11 de outubro, Haddad aparecia com 48%, contra 37% de Serra. 
Dos entrevistados, 13% informaram que vão votar em branco ou nulo, e outros 5% não decidiram em quem votar. A margem de erro é de três pontos percentuais, para cima ou para baixo.
A pesquisa Ibope, que foi contratada pela "TV Globo", ouviu 1.204 eleitores entre os dias 15 e 17 deste mês e foi registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o número SP-01864/2012.
Pesquisa Datafolha divulgada no dia 10 mostrou Haddad com 47%, e Serra com 37%.
A apuração no primeiro turno em São Paulo terminou com Serra com 30,75% dos votos (1.884.849) e Haddad com 28,98% (1.776.317 votos).

Campanha

Nesta quarta-feira,  para rebater as críticas de Serra à sua gestão à frente do Ministério da Educação, Haddad disse que o tucano reclamou da aprovação do piso nacional do magistério, em 2008 e apoiou recursos judiciais de governadores contra a medida.
“Ele [Serra] tem desinformado a população. Nos bastidores, ele lutou muito contra a aprovação do piso nacional do magistério, chegou a me ligar reclamando da lei que foi aprovada no Congresso Nacional", afirmou Haddad após visita ao Sindicato dos Eletricitários e Sindicato dos Engenheiros, na região central de São Paulo.
Serra, que fez campanha em Heliópolis, na zona sul da capital, negou que tenha ligado para o petista.
"É mentira dele. Aliás, o Haddad propôs o piso nacional do magistério para a cidade de São Paulo porque ele ignora que o piso na cidade de São Paulo é muito mais alto do que o piso nacional", disse.
Na ocasião, Serra ainda se recusou a responder sobre suas propostas para combate à homofobia na cidade.
“Eu não vou entrar nesse tema agora, senão vira pauta permanente, imposta pela imprensa. E depois os adversários dizem que fui eu que botei na pauta”, disse.

"Você bate no saco mas pensa no animal que carrega o saco”



MONTBLÄAT - 438 , 17 de setembro de 2012
 
 

Manter viva a causa do PT: para além do “mensalão”
 
 
Leonardo Boff
 
 
Há um provérbio popular alemão que reza: “você bate no saco mas pensa no animal que carrega o saco”. Ele se aplica ao PT com referência ao processo do “Mensalão”. Você bate nos acusados, mas tem a intenção de bater no PT. A relevância espalhafatosa que o grosso da mídia está dando à questão mostra que o grande interesse não se concentra na condenação dos acusados, mas através de sua condenação, atingir de morte o PT.
De saída quero dizer que nunca fui filiado ao PT. Interesso-me pela causa que ele representa, pois a Igreja da Libertação colaborou na sua formulação e na sua realização nos meios populares. Reconheço com dor que quadros importantes da direção do partido se deixaram morder pela mosca azul do poder e cometeram irregularidades inaceitáveis.
Muitos sentimo-nos decepcionados, pois depositávamos neles a esperança de que seria possível resistir às seduções inerentes ao poder. Tinham a chance de mostrar um exercício ético do poder na medida em que este poder reforçaria o poder do povo que assim se faria participativo e democrático. Lamentavelmente houve a queda. Mas ela nunca é fatal. Quem cai, sempre pode se levantar. Com a queda não caiu a causa que o PT representa: daqueles que vem da grande tribulação histórica sempre mantidos no abandono e na marginalidade.
Por políticas sociais consistentes, milhões foram integrados e se fizeram sujeitos ativos. Eles estão inaugurando um novo tempo que obrigará todas as forças sociais a se reformularem e também a mudarem seus hábitos políticos.
Por que muitos resistem e tentam ferir letalmente o PT?
Há muitas razões. Ressalto apenas duas decisivas.
A primeira tem a ver com uma questão de classe social.
Sabidamente temos elites econômicas e intelectuais das mais atrasadas do mundo, como soia repetir Darcy Ribeiro. Estão mais interessadas em defender privilégios do que garantir direitos para todos. Elas nunca se reconciliaram com o povo.
Como escreveu o historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma no Brasil) elas “negaram seus direitos, arrasaram sua vida e logo que o viram crescer, lhe negaram, pouco a pouco, a sua aprovação, conspiraram para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continuam achando que lhe pertence”.
Ora, o PT e Lula vêm desta periferia. Chegaram democraticamente ao centro do poder. Essas elites tolerariam Lula no Planalto, apenas como serviçal, mas jamais como Presidente. Não conseguem digerir este dado inapagável. Lula presidente representa uma virada de magnitude histórica. Essas elites perderam. E nada aprenderam. Seu tempo passou. Continuam conspirando, especialmente, através de uma mídia e de seus analistas, amargurados por sucessivas derrotas como se nota nestes dias, a propósito de uma entrevista montada de Veja contra Lula. Estes grupos se propõem apear o PT do poder e liquidar com seus líderes.
A segunda razão está em seu arraigado conservadorismo. Não quererem mudar, nem se ajustar ao novo tempo. Internalizaram a dialética do senhor e do servo. Saudosistas, preferem se alinhar de forma agregada e subalterna, como servos, ao senhor que hegemoniza a atual fase planetária: os USA e seus aliados, hoje todos em crise de degeneração. Difamaram a coragem de um presidente que mostrou a autoestima e a autonomia do país, decisivo para o futuro ecológico e econômico do mundo, orgulhoso de seu ensaio civilizatório racialmente ecumênico e pacífico. Querem um Brasil menor do que eles para continuarem a ter vantagens.
Por fim, temos esperança. Segundo Ignace Sachs, o Brasil, na esteira das políticas republicanas inauguradas pelo do PT e que devem ser ainda aprofundadas, pode ser a Terra da Boa Esperança, quer dizer, uma pequena antecipação do que poderá ser a Terra revitalizada, baixada da cruz e ressuscitada. Muitos jovens empresários, com outra cabeça, não se deixam mais iludir pela macroeconomia neoliberal globalizada. Procuram seguir o novo caminho aberto pelo PT e pelos aliados de causa. Querem produzir autonomamente para o mercado interno, abastecendo os milhões de brasileiros que buscam um consumo necessário, suficiente e responsável e assim poderem viver um desafogo com dignidade e decência. Essa utopia mínima é factível. O PT se esforça por realizá-la. Essa causa não pode ser perdida em razão da férrea resistência de opositores superados porque é sagrada demais pelo tanto de suor e de sangue que custou.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A vanguarda da barbárie


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Terça-Feira, 16 de Outubro de 2012
 
 

PSDB: vanguarda da barbárie
 
 
Luiz Marques
 
 
A obra legada pelo filósofo da democracia direta, J. J. Rousseau (1712-1778), O contrato social, comemora 250 anos. O último capítulo interessa, hoje, graças à incorporação da religião como elemento central da política pelo Tea Party, a ala conservadora de extrema-direita do Partido Republicano nos Estados Unidos, e agora pelo PSDB no Brasil. Não à toa, o movimento inaugural da candidatura de José Serra no segundo turno das eleições foi reunir-se com o pastor radialista Silas Malafaia e o pastor Jabes Alencar, membro do Conselho de Pastores de São Paulo (Saul Leblon, “Malafaia: o procônsul de Serra para 'os bons costumes'”, Carta Maior, 11/out).

Sem um programa que interpele a população, o tucano quer promover o apagão das consciências com o auxílio de batedores medievais, acusando (sic) o petista Fernando Haddad de “apoiar ativistas gays” e propor um “kit gay” às escolas no Ministério da Educação. Se as desregulamentações neoliberais sinalizaram o surgimento de uma sociedade pós-contratual, o recurso a um código moralista nos processos políticos para demarcar território aprofunda o retrocesso civilizacional inspirado no Consenso de Washington. “A ação política é revestida de valores... que é uma coisa que ameaçou sair de moda, e felizmente com o STF voltou à moda”, discursou Serra ao conhecer o resultado das urnas em São Paulo. Do fetichismo da globalização, dos ajustes fiscais e das privatizações ao fetichismo da família, da propriedade e da tradição.

Ao apagar a fronteira entre a vida privada e a vida pública, bem como introduzir dogmas na jurisdição da política, a direita brasileira busca afastar do debate eleitoral os avanços obtidos pelo governo Lula / Dilma. O objetivo é retirar de cena o modelo atual de desenvolvimento com justiça social, liderado pelo PT. Pouco importa que o preço seja a substituição do sistema político por um sistema teológico para o qual a tolerância é uma fraqueza, e não um princípio de convivialidade em favor dos direitos humanos. A opção joga no lixo o Estado moderno (laico, por definição) e os alicerces da nação (respeito às diferenças) em um país continental, cuja força e encanto decorrem de sua diversidade cultural. Na defesa do projeto de classe a que serve a social-democracia serrista, o rentismo, setor mais beneficiado com os índices elevados da taxa Selic que aumentam a dívida pública e diminuem os recursos para investimentos sociais, - vale tudo. Não há limites às táticas para assegurar os interesses do capital financeiro.

O PSDB estimula um despotismo comportamental que transfere a autonomia dos indivíduos de decidir sobre o seu corpo para uma esfera de heteronomia, em nome de um padrão dominante. Ademais, insinua a prevalência da autoridade clerical sobre a autoridade civil, como se a pluralidade da vontade geral coubesse em uma única linha de pensamento.

A religião que tutela o homem não deve se confundir com a Constituição que rege a vida do cidadão. A primeira remete a um culto interior de Deus e aos preceitos contidos no imperativo categórico kantiano de tratar as pessoas sempre como um fim em si mesmo e não como um meio. A segunda estabelece a igualdade frente ao Estado, independente de gênero, etnia, ideologia ou orientação sexual. A liberdade e a tolerância religiosa são conquistas da democracia caras aos fundadores do liberalismo clássico, a exemplo de John Locke (1632-1704). Para a reação neoliberal, porém, aqueles valores submetem-se antes à acumulação capitalista e à luta pelo poder.

Quando a religião (a cruz) sobrepõe-se ao aparelho estatal (a águia, metáfora herdada dos romanos), ela torna-se tirânica e má por dilacerar a sociabilidade e incentivar a execração pública dos acusados de desvio de conduta. “Tudo quanto rompe a unidade social nada vale; todas as instituições que põem o homem em contradição consigo mesmo não servem para coisa alguma”. Em resumo: “Quem quer que ouse dizer: 'Fora da igreja não há salvação', deve ser banido do Estado, a menos que o Estado não seja a Igreja e o príncipe não seja o pontífice”, ensinou Rousseau. A laicidade do Estado é o que garante a equanimidade entre todos e pavimenta a civilização.

Sobre a subjetividade que move o tucanato, vale lembrar a atitude que separa a hipocrisia do cinismo. O hipócrita age com dissimulação. O cínico engana sem disfarçar as manipulações em proveito próprio. Serra e os arrivistas da mídia que fazem o trabalho sujo para a Casa Grande pertencem ao último grupo. Não se preocupam em ocultar, atrás do falso moralismo, o ódio à Senzala e seus representantes no espectro partidário. Ecoam os setores resistentes às mudanças que compartilharam os aeroportos, então exclusivos, e valorizaram o salário das funcionárias domésticas em uma conjuntura de pleno emprego, para citar itens do cotidiano. Cabe às organizações populares combinarem a denúncia da desfaçatez ultradireitista com iniciativas que reafirmem a luta pela modernização dos costumes, sob a guarda do Estado Democrático de Direito. Vade retro!

Luiz Marques é professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Sabotando o próprio passado


Serra sabota até o próprio passado
 
Por Saul Leblon
 
 
A 12 dias das urnas do 2º turno, e somente depois de escancarada a omissão, o tucano José Serra lançou seu programa de governo. O evento entre amigos, em uma livraria em SP, foi quase um programa de lazer tucano, uma encenação política filmada para tapar o buraco mais corrosivo de uma propaganda eleitoral: a credibilidade.

Em meio ao contravapor das pesquisas, o tucano enfrenta um desgaste de fundo. Quanto mais se expõe, mais se configura o teor de uma trajetória em que as dissimulações se sucedem, como as cascas de uma cebola.

Essa é a grande dificuldade dos seus marqueteiros: hoje o tucano compõe aos olhos da população um personagem cada vez mais desconectado de sua fala; as atitudes ecoam mais alto do que a voz e desautorizam as promessas.

O acúmulo tende a consolidar uma imagem que se move de forma autônoma.À revelia do arsenal publicitário calcifica-se o perfil de um político que sabota até o próprio passado na busca sôfrega pelo poder.

Mudar isso é como enxugar o chão com a torneira aberta.

Carrega-se na maquiagem aqui, arruma-se um beijo inverossímil ali. Em seguida, a realidade irrompe como um vento inoportuno a sabotar o controle do incêndio.

O 'progressista', descobre-se mais adiante, teve atuação regressiva nas votações relativas ao direito do trabalhador, segundo levantamento do DIAP.

O 'desenvolvimentista', soube-se de fonte insuspeita, foi um dos mais empenhados defensores das grandes privatizações do ciclo tucano, caso da Vale do Rio Doce, por exemplo. Testemunho de FHC nas eleições de 2010.

O propalado 'arrojo administrativo' reduz-se ao cacarejar de galinha velha: faz barulho mas não bota
. Juntos, Serra/Kassab completaram oito anos de um condomínio administrativo que objetivamente destratou SP; agora recolhe o saldo de uma rejeição estrondosa: 45% da cidade reprova a gestão consorciada.

No episódio mais recente, do 'kit anti-homofóbico, cairam as cascas da cebola que ostentavam as credenciais do liberal. Emergir o oportunista da intolerância, abraçado a um savonarola dos 'bons costumes'. Um intercurso explicito entre o obscurantismo e o o vale tudo pelo voto.

Depois de alvejar a iniciativa do MEC, Serra foi obrigado a admitir, desmascarado mais uma vez: em 2009, quando governador, distribuiu material muito semelhante ao professorado estadual de SP.A semelhança é compreensível: o material nos dois casos foi produzido pela mesma instituição, a ONG Ecos.

Palavras de um dos integrantes da equipe que participou do projeto: "A Ecos sempre trabalhou na gestão do Serra; ele está cuspindo no pote que comeu. O material que fizemos para o MEC tem 80% do material do Estado de São Paulo. É um absurdo se utilizar do preconceito para ganhar voto" (Toni Reis, presidente da ABGLT).

Avulta nesse episódio a caricatural disposição de alhuém disposto a dilapidar o próprio currículo: Serra atacar o programa do próprio Serra no desespero eleitoral. Compare o tucano de agora, agarrado ao pastor Malafaia, com esse outro, que tomou as seguintes medidas, lembradas por Antonio Lassance, colunista de Carta Maior:

a) em 2005, ele criou a Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual em São Paulo; depois, instituiu a Comissão a Comissão Processante Especial para apuração de atos Discriminatórios a que se refere a Lei n° 10.948/2001, destinada a receber, analisar e mandar punir atos anti-homofóbicos;

b) também em 2005, Serra criou o Conselho Municipal em Atenção à Diversidade Sexual e o Centro de Referência e Combate à Homofobia;

c) em 2006, criou o GRADI – Grupo de Repressão a Delitos de Intolerância a DECRADI – Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, para o controle e repressão dos grupos homofóbicos.


Em resumo, quando o interesse era disputar o espaço LGBT com a petista Marta Suplicy, Serra não criou apenas um kit anti-homofobia, mas armou um elogiável rede da tolerância em SP. Agora, dá guinada na direção oposta e salta para os braçs dos malafaias, supostamente puxadores do voto evangélico.O evento tardio desta 2ª feira em torno do 'programa' para a cidade ressente-se desse vício congênito à natureza política de Serra: a simulação, irma gêmea do vale tudo.

O que se divulgou foi um adereço de mão de fantasia eleitoral, no qual nem o candidato acredita.

Passa-se ao largo da oportunidade preciosa de discutir São Paulo para valer, estendendo aos moradores da cidade o direito elementar de escrutinar seus problemas e elevar a consciência dos requisitos políticos para equacioná-los.

Não há rigor técnico algum na rudimentar listagem tardia das propostas mal-ajambradas pelo tucano. O que é feito para não valer pode elidir metas, omitir cronogramas e abstrair custos.

Em resumo, prescindir dos requisitos que lhe dariam veracidade e transparência compatível com a sua eventua fiscalização pela cidadania.

O simulacro do conjunto foi resumido na descrição de um item por insuspeita fonte: "Em um dos poucos momentos em que dedicou sua fala às próprias propostas, Serra lembrou a promessa de construir 30 AMAs (Assistência Médica Ambulatorial)". (...) "Mas não a ponto de detalhar onde vamos fazer..." (ressalvou o tucano). "Isso seria impossível" (UOL, 16-10).

O modelar descompromisso se repete em outros tiros a esmo, como a promessa de implantar '30 parques' na cidade (onde? como?com que verba?); ou instalar mais cinco mil novos pontos de luz ou ainda a etérea menção uma deficiência escandalosa da gestão de seu apadrinhado, que não dedicou a ela um centímetro adicional de asfalto: 'expandir a rede de corredores de ônibus'. Assim, em quatro palavras, desincumbe-se o tucano da grave distopia do transporte em São Paulo, como se fosse algo tangencial, passível de tratamento genérico e ligeiro. Vai por aí o seu crepuscular 'programa de governo'.

O conjunto exala o peso e a contundência de uma bolinha de papel eleitoral. Mais que isso, reforça uma percepção que se calcifica: Serra é o principal testemunho contra Serra.
A postura professoral ancorada em boutades é quase ofensiva; a soberba incontrolável das sobrancelhas em pinça denuncia a impaciência de quem ouve por obrigação.

Quando tenta transparecer humildade, o tucano exala condescendência
; o tom do discurso é sempre o mais revelador: ao tentar ser simpático é notório que está sendo falso.O anti-sindicalismo udenista de Serra explode ao primeiro conflito social, assim como o recorte antidemocrático irrompe à primeira pergunta embaraçosa de jornalista não embarcado na vassalagem midiática.

O higienismo social desse conjunto sequer é dissimulado - e olha que estamos falando de um dissimulador experimentado.

É difícil demover as consequências eleitorais dessa sedimentação ancorada na percepção intuitiva da cidade, saturada de dissimulações rotas, convicções esfarrapadas e do vale tudo das conveniências.

São Paulo é o grande bunker logístico do conservadorismo brasileiro.

A rejeição a um dos principais quadros desse aparato precisa acumular muito vapor na fornalha para romper uma blindagem arrematada com a solda dupla do jornalismo cúmplice.

O maior trunfo de Haddad hoje é esse discernimento em curso na opinião pública.

Trata-se de iluminá-lo cuidadosamente: Serra é impermeável a qualquer valor ou compromisso que não atenda ao seu exclusivo interesse pessoal
. No seu arquivo biográfico, o interesse da população ocupa olugar da prateleira subalterna. E essa hierarquia se adensa nos episódios caricaturais da campanha municipal de 2012.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Os fatos são subversivo​s

O PT e os teimosos fatos
 
Elvino Bohn Gass
 
 
Um dos bons debates que se trava no Brasil atual diz respeito ao comportamento dos grandes veículos de comunicação. Discussão que só não se amplia porque é interditada por quem mais poderia se beneficiar dela, a própria mídia. Em alguns países, contudo, esta contenda fez nascer mecanismos de controle público tão positivos que, recentemente, grandes conglomerados de mídia fecharam suas portas porque, simplesmente, não cumpriam o dever de informar.
Se a imprensa trabalha com fatos, é adequado que a analisemos a partir daquilo que deveria ser sua matéria-prima: os fatos.
A eles, então:

Dias antes do primeiro turno da eleição municipal, o colunista Josias de Souza, da Folha de São Paulo, afirmava: “...Serra e Haddad subestimaram Russomano; custaram a perceber que ele era mais do que se havia imaginado...”.

O fato: Russomano ficou fora do segundo turno. Para ficar no mesmo verbo, a Folha subestimou os vencedores do primeiro turno.

No jornal Estado de São Paulo, Dora Kramer sentenciava: “...Lula não é mais aquele, sua liderança se esvai e sua influência míngua...” O mesmo Estadão, em editorial do dia 30 de setembro, sob o sugestivo título “Lula está definhando?” via o seguinte cenário: “...o esfarelamento petista nas eleições municipais, resultante da mão pesada de Lula...” E no Globo, Merval Pereira previa: “...a mais complicada eleição paulistana pode acabar deixando de fora da disputa Fernando Haddad, o candidato que o ex-presidente tirou do bolso de seu colete, outrora considerado milagreiro. Terá sido a primeira vez em que o PT não disputará o segundo turno na capital paulista, derrota capaz de quebrar o encanto que se criou em torno das qualidades quase mágicas do líder operário tornado presidente...”

Tivemos, também, Cláudio Humberto, categórico: “...apadrinhado de Lula, Haddad esperava atropelar Serra com a entrada da presidente Dilma e de Marta Suplicy na campanha. Deu chabu...” e “...o comando petista acha que Haddad empacou porque o escândalo do mensalão virou campeão de audiência no horário eleitoral gratuito...”. Mais: Marco Antonio Villa garantia: “...o grande perdedor é o Lula. Até agora, ele fracassou em suas principais movimentações. Se a candidata fosse Marta Suplicy em São Paulo, ela estaria no segundo turno...”

O fato: o candidato de Lula na maior cidade do país, São Paulo, começou a corrida eleitoral com 2% nas pesquisas, nunca havia disputado uma eleição e era desconhecido de boa parte da população. Lula o tomou pela mão e saiu pelas ruas de São Paulo. Haddad recebeu 1 milhão e 700 mil votos, foi para o segundo turno e as pesquisas, agora, o apontam como favorito com 47% das intenções de voto.
De novo, o Estadão. Duas semanas antes da eleição, José Roberto Toledo prenunciava: “...um resultado possível a sair das urnas é o PT, desgastado pelas condenações do mensalão, perder espaço nas capitais...” De novo, o Globo. Na semana que antecedeu o pleito Ricardo Noblat lançava enquete para saber os motivos pelos quais “...pesquisas mostram o PT fraco nas capitais...” Nestes jornalões, ganharam destaque, ainda, as falas de João Ubaldo Ribeiro “...ele [Lula] insistirá e talvez ainda o vejamos perder outra eleição em São Paulo. Não a do Haddad, que aparentemente já perdeu....” e de Fernando Gabeira “...ao longo de minhas viagens observei que o mensalão não havia afetado as eleições municipais. Mas o processo está em curso. Algumas cidades já estão afetadas, como São Paulo e Curitiba. Nesta ocorre algo bastante irônico: o candidato Gustavo Fruet (PDT) é acusado de ter o apoio do PT e por isso perde votos...”

Sentiu falta de Veja? Ei-la no twitter: “...derrocada do PT e disputas acirradas marcam eleições...”

O fato: O PT saiu da eleição como o campeão absoluto em número de votos: 17 milhões e 300 mil, quase um milhão a mais do que em 2008, quando fez 16 milhões e 500 mil. E das cidades onde há segundo turno, o PT foi o partido que mais obteve vitórias – 8 (oito) – seguido pelo PSDB e PSB que obtiveram 5 (cinco) cada um. Tomando-se apenas as Capitais, incluindo São Paulo com Haddad, o Partido dos Trabalhadores venceu numa e está no segundo turno em outras sete. A propósito, Fruet está no segundo turno em Curitiba.

A esta imprensa cuja bola de cristal só projeta o que diminui o PT, sempre sobrará o recurso de lançar mão do velho ditado “Cabeça de juiz, fralda de bebê e urna, reservam sempre uma surpresa”. Sejamos honestos: não é este o caso. Até porque, premida, agora, pela realidade dos fatos (ah, os teimosos fatos...) a mesma imprensa nos apresenta manchetes do tipo: “PT resiste a ataques sobre mensalão e reacende força de Lula nas eleições” ou “Peso do mensalão nesta eleição foi próximo de zero” ou ainda “PMDB é campeão em número de prefeitos, PT vence em total de votos”.

Para Luís Nassif, tudo isto compõe “um retrato que seria-cômico-se-não-fosse-trágico de ‘especialistas` que não conseguem entender seu país e seu povo, porque não têm o menor interesse em fazê-lo – só em participar do jogo político, da maneira mais escancarada possível.”

Já o historiador inglês Timothy Garton Ash, em seu livro “Os fatos são subversivos”, afirma que se o parlamento britânico soubesse a verdade (os fatos) sobre o Iraque – que o país de Saddam não possuía armas nucleares - muito provavelmente não teria autorizado o governo da Inglaterra a juntar forças com os Estados Unidos para aquela invasão genocida.

Nassif está corretíssimo. Mas penso que a formulação de Ash, por ser tão cínica quanto boa parte de nossa imprensa, é ainda mais adequada para a análise das previsões catastróficas sobre o desempenho do PT na eleição. Nenhuma delas se realizou porque o povo não pensa e não sente como a imprensa. Mas não se assuste se, na vã tentativa de se justificar, você acabe por ler algo que tente nos fazer crer que os fatos é que são subversivos.

(*) Deputado Federal PT/RS, Secretário Nacional Agrário e vice-líder da bancada do PT na Câmara.