quarta-feira, 2 de maio de 2012

Ex-delegado do DOPS confessa participação no atentado do Riocentro e aponta quem foram os outros terroristas

A história dos anos de chumbo em nosso país está sendo revelada.
Todos os dementes que barbarizaram uma geração de jovens idealistas estão tendo seus nomes divulgados.
Todos aqueles que realmente merecem ser chamados de terroristas estão perdendo suas máscaras.
Vamos fazer circular esta informação. A verdade precisa ser conhecida por todos nós.




Exclusivo: livro muda história da ditadura

Publicado em 02/05/2012


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“Militantes de esquerda foram incinerados em usina de açúcar”. Delegado revela em livro que viraram cinzas os corpos de David Capistrano, Ana Rosa Kucinski e outros oito opositores da ditadura

A primeira confissão do atentado ao Riocentro
Ex-delegado do DOPS conta ter participado atentado, dá nomes dos  chefes militares da operação e conta o que deu errado

Tales Faria, iG Brasília

“Participei do atentado ao Riocentro (durante as comemorações do Dia do Trabalhador, em 1981) e fiz parte das várias equipes que tentaram provocar aquela que seria a maior tragédia, o grande golpe contra o projeto de abertura democrática”, revela o ex-delegado Cláudio Guerra, do DOPS (Departamento de Operações Políticas e Socias), no livro “Memórias de uma guerra suja”.
O depoimento aos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto, que acaba de ser publicado pela editora Topbooks, é a primeira confissão de participação no atentado feita por um integrante das forças de resistência á redemocratização do país no final da década de 70.
No Riocentro, bomba explodiu antes da hora do atentado previsto e matou agente de informações do Exército.
Cláudio Guerra conta que a bomba explodiu por engano no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário por um erro do capitão Wilson Luís Chaves Machado, que dirigia o Puma onde os dois estavam:
“Aquela bomba era uma das três que deveriam explodir no show. O capitão Wilson estacionou o veículo embaixo de um fio de alta tensão e a carga elétrica desse fio, a energia que passava em cima do Puma, fechou o circuito da bomba, provocando a explosão. O erro foi do capitão. (…) Eu era especialista em explosivos.”
O ex-delegado dá os nomes dos comandantes da operação, “os mesmos de sempre”:
O coronel de Exército Freddie Perdigão (Serviço Nacional de Informações); o comandante Antônio Vieira (Cenimar); e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (comandante do Departamento de Operações de Informações do 2º Exército – DOI-Codi).
Quanto à sua equipe, a missão seria prender esquerdistas que seriam responsabilizados pelo atentado: “Fui para lá com uma lista de nomes.”
Mas deu tudo errado. Com a explosão da bomba no Puma, os militares policiais civis e os policiais civis que levavam outras duas bombas abortaram a operação.
“O destino daquela bomba era o palco. Tratava-se de um artefato de grande poder destruidor. O efeito da carga explosiva no ambiente festivo, onde deveriam se apresentar uns oitenta artistas famosos, seria devastador. A expansão da explosão e a onda de pânico dentro do Riocentro gerariam consequências desastrosas. Era evidente que muitas pessoas morreriam pisoteadas.”
Segundo conta Cláudio Guerra, a coordenação feita pelo pessoal de inteligência que havia mandado suspender todos os serviços de apoio do Riocentro, incluindo o policiamento e a assistência médica, para que não houvesse socorro imediato às vítimas. Até as portas de saída foram trancadas e placas de trânsito com siglas da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) haviam sido pichadas para dar a entender que se tratava de uma ação da esquerda.


“Delegado Fleury foi morto pelos militares”

Tales Faria, iG Brasília

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Delegado Cláudio Guerra (Foto: Divulgação)


Símbolo da linha-dura do regime militar, o delegado Sérgio Paranhos Fleury – titular da Delegacia de Investigações Criminais (DEIC) de São Paulo – foi assassinado por ordem de um grupo de militares e de policiais rebelados contra o processo de abertura política iniciado pelo ex-presidente Ernesto Geisel. É o que afirma Cláudio Antônio Guerra, ex-delegado do DOPS (Departamento de Operações Políticas e Sociais) do Espírito Santo.
Em depoimento aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, no livro “Memórias de uma guerra suja”, que acaba de ser editado pela Topbooks, Guerra conta ter participado da reunião em que foi decidida a morte de Fleury.
Ele próprio teria dado a ideia de fazer tudo parecer um acidente. Acabou sendo enviado para liquidar o colega. Mas, por problemas operacionais, a execução teria ficado para um grupo de militares do Cenimar, o Centro de Informações da Marinha.
No livro ao qual o iG teve acesso, o delegado confessa ter sido um dos principais encarregados pelo regime militar de matar adversários da ditadura entre os anos 70 e 80.
Guerra está sob proteção da Polícia federal. Tornou-se uma testemunha-chave às vésperas do início dos trabalhos da Comissão da Verdade, criada para apurar violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988, período que inclui a ditadura militar (1964-1988).
Ele conta ter executado pessoalmente militantes de esquerda como Nestor Veras, do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB), após uma sessão de tortura da qual afirma não ter participado:
“(Veras) tinha sido muito torturado e estava agonizando. Eu lhe dei o tiro de misericórdia, na verdade dois, um no peito e outro na cabeça. Estava preso na Delegacia de Furtos em Belo Horizonte. Após tirá-lo de lá, o levamos para uma mata e demos os tiros. Foi enterrado por nós.”
Além do assassinato de Veras, Guerra conta como matou, a mando de seus superiores, outros militantes contra o regime, como: Ronaldo Mouth Queiroz (estudante universitário e membro da Aliança Libertadora Nacional – ALN); Emanuel Bezerra Santos, Manoel Lisboa de Moura e Manoel Aleixo da Silva (os três, do Partido Comunista Revolucionário – PCR).


Queima de arquivo

“O delegado Fleury tinha de morrer. Foi uma decisão unânime de nossa comunidade, em São Paulo, numa votação feita em local público, o restaurante Baby Beef”, afirma Cláudio Guerra.
Além dele, segundo conta, estavam sentados à mesa e participaram da votação:
O coronel do Exército Ênio Pimentel da Silveira (conhecido como “Doutor Ney”); o coronel-aviador Juarez de Deus Gomes da Silva (Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Justiça); o delegado da Polícia Civil de São Paulo Aparecido Laertes Calandra; o coronel de Exército Freddie Perdigão (Serviço Nacional de Informações); o comandante Antônio Vieira (Cenimar); e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (comandante do Departamento de Operações de Informações do 2º Exército – DOI-Codi), que abriu a reunião.
“Fleury tinha se tornado um homem rico desviando dinheiro dos empresários que pagavam para sustentar as ações clandestinas do regime militar. Não obedecia mais a ninguém, agindo por conta própria. E exorbitava. (…) Nessa época, o hábito de cheirar cocaína também já fazia parte de sua vida. Cansei de ver.”
Guerra conta que chegou a fazer campana para a execução, mas o colega andava sempre cercado de muita gente. “Dias depois os planos mudaram, porque Fleury comprou uma lancha. Informaram-me que a minha ideia do acidente seria mantida, mas agora envolvendo essa sua nova aquisição – um ‘acidente’ com o barco facilitaria muito o planejamento.”
A história oficial é, de fato, que o delegado paulista morreu acidentalmente em Ilhabela, ao tombar da lancha. Mas Guerra afirma que Fleury na verdade foi dopado e levou uma pedrada na cabeça antes de cair no mar.


“Militantes de esquerda foram incinerados em usina de açúcar”

Tales Faria, iG Brasília 


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Capa de "Memórias de uma guerra suja", da editora Topbooks (Foto: Divulgação)


Ele lançou bombas por todo o país e participou, em 1981 no Rio de Janeiro, do atentado contra o show do 1º de Maio no Pavilhão do Riocentro
. Esteve envolvido no assassinato de aproximadamente uma centena de pessoas durante a ditadura militar. Trata-se de um delegado capixaba que herdou os subordinados do delegado paulista Sérgio Paranhos Fleury nas forças de resistência violenta à redemocratização do Brasil.
Apesar disso, o nome de Cláudio Guerra nunca esteve em listas de entidades de defesa dos direitos humanos. Mas com o lançamento do livro “Memórias de uma guerra suja”, que acaba de ser editado, esse ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) entrará para a história como um dos principais terroristas de direita que já existiu no País.
Mais do que esse novo personagem, o depoimento recolhido pelos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, ao longo dos últimos dois anos, traz revelações bombásticas sobre alguns dos acontecimentos mais marcantes das décadas de 70 e 80.
Revelações sobre o próprio caso do Riocentro; o assassinato do jornalista Alexandre Von Baumgarten, em 1982; a morte do delegado Fleury; a aproximação entre o crime organizado e setores militares na luta para manter a repressão; e dos nomes de alguns dos financiadores privados das ações do terrorismo de Estado que se estabeleceu naquele período.
A reportagem do iG teve acesso ao livro, editado pela Topbooks. O relato de Cláudio Guerra é impressionante. Tão detalhado e objetivo que tem tudo para se tornar um dos roteiros de trabalho da Comissão da verdade, criada para apurar violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988, período que inclui a ditadura militar (1964-1988).

David Capistrano, Massena, Kucinski e outros incinerados

Cláudio Guerra conta, por exemplo, como incinerou os corpos de dez presos políticos numa usina de açúcar do norte Estado do Rio de Janeiro. Corpos que nunca mais serão encontrados – conforme ele testemunha – de militantes de esquerda que foram torturados barbaramente.
“Em determinado momento da guerra contra os adversários do regime passamos a discutir o que fazer com os corpos dos eliminados na luta clandestina. Estávamos no final de 1973. Precisávamos ter um plano. Embora a imprensa estivesse sob censura, havia resistência interna e no exterior contra os atos clandestinos, a tortura e as mortes.”

Os dez presos incinerados
– João Batista e Joaquim Pires Cerveira, presos na Argentina pela equipe do delegado Fleury;
– Ana Rosa Kucinsk e Wilson Silva, “a mulher apresentava marcas de mordidas pelo corpo, talvez por ter sido violentada sexualmente, e o jovem não tinha as unhas da mão direita”;


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Ana Rosa Kucinsk e o maruido Wilson Silva

 
– David Capistrano (“lhe haviam arrancado a mão direita”) , João Massena Mello, José Roman e Luiz Ignácio Maranhão Filho, dirigentes históricos do PCB;
– Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho, militantes da Ação Popular Marxista Leninista (APML).

O delegado lembrou do ex-vice-governador do Rio de Janeiro Heli Ribeiro, proprietário da usina de açúcar Cambahyba, localizada no município de Campos, a quem ele fornecia armas regularmente para combater os sem-terra da região. Heli Ribeiro, segundo conta, “faria o que fosse preciso para evitar que o comunismo tomasse o poder no Brasil”.
Cláudio Guerra revelou a amizade com o dono da usina para seus superiores: o coronel da cavalaria do Exército Freddie Perdigão Pereira, que trabalhava para o Serviço Nacional de Informações (SNI), e o comandante da Marinha Antônio Vieira, que atuava no Centro de Informações da Marinha (Cenimar).
Afirma que levou, então, os dois comandantes até a fazenda:
“O local foi aprovado. O forno da usina era enorme. Ideal para transformar em cinzas qualquer vestígio humano.”
“A usina passou, em contrapartida, a receber benefícios dos militares pelos bons serviços prestados. Era um período de dificuldade econômica e os usineiros da região estavam pendurados em dívidas. Mas o pessoal da Cambahyba, não. Eles tinham acesso fácil a financiamentos e outros benefícios que o Estado poderia prestar.”

Quando o Brasil se tornou um sorvedouro de pessoas




 

Quando o Brasil se tornou um sorvedouro de pessoas

 

Marco Aurélio Weissheimer


“Até os nazistas, que reduziam suas vítimas a cinzas, registravam os mortos”, observa com espanto K., em sua jornada em busca da filha desaparecida em 1974, na ditadura militar brasileira. Professora de Química na Universidade de São Paulo, ela desapareceu sem deixar vestígios, junto com seu marido, militante da ALN (Ação Libertadora Nacional), organização que pegou em armas contra a ditadura que derrubou o governo constitucional de João Goulart, em 1964. Ao contrário dos nazistas, os militares brasileiros não registravam os mortos. O Dossiê Ditadura: Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil (1964-1985) registra 358 vítimas do período ditatorial, sendo que 138 são desaparecidos políticos no país. É importante fixar bem o significado da palavra “desaparecido”.

Trata-se de um “sorvedouro de pessoas”, como define Kucinski logo no início de "K." (Expressão Popular). Ao contrário dos nazistas, que “a cada morte, davam baixa num livro”, os militares e policiais do aparato repressivo da ditadura fizeram muitas pessoas desaparecer, assim como ocorreu na Argentina, no Uruguai, no Chile e em outros países latino-americanos. Nos primeiros dias da invasão da Polônia, assinala o autor, os nazistas praticaram muitas chacinas. “Enfileiravam todos os judeus de uma aldeia ao lado de uma vala, fuzilavam, jogavam cal em cima, depois terra e pronto”. Mas os moradores do local sabiam quantos e quais eram os judeus fuzilados. “Não havia a agonia da incerteza”. A ditadura brasileira, ao contrário, alimentou e alimentou-se da agonia da incerteza. Agonia alimentada até hoje, aliás.

O livro de B. Kucinski deveria ser leitura obrigatória nas escolas brasileiras. Por várias razões. A qualidade da narrativa é uma delas. Qualidade, aqui, entendida não apenas como uma virtude estética, mas também como algo que Ítalo Calvino considerava um valor moral. Quando se percorre um ambiente de trevas, a clareza expressa, entre outras coisas, um gesto de solidariedade, compaixão e compromisso com o outro. Mas, talvez, a principal razão pela qual “K.” deva ser lido, principalmente pela juventude brasileira, é que ele fala de um período da história do país até hoje sonegado da ampla maioria da população. Mais do que isso, o livro fala de um país violento, perverso, desmemoriado, obscuro e atravessado por trevas, ambiente, aliás, muito bem retratado pelas ilustrações de Enio Squeff que pontuam a narrativa.

Em sua longa jornada trevas adentro, K. se dá uma conta de uma incômoda característica dos nomes de rua no Brasil:

“Rua Fernão Dias, diz uma placa. Onde mora, em São Paulo, também há uma placa com esse nome, disseram-lhe que foi um famoso caçador de índios e escravos fugidos. Percorreram algumas ruas com nomes que ele desconhecia. Depois, para espanto de K., uma avenida General Milton Tavares de Souza. Ele sabia muito bem quem foi: jamais esqueceria este nome. Foi quem criou o Doi-Codi, para onde levaram Herzog e o mataram(...)”

“Como foi possível nunca ter refletido sobre esse estranho costume dos brasileiros de homenagear bandidos, torturadores e golpistas como se fossem heróis ou benfeitores da humidade”.


Recentemente, dois vereadores do PSOL de Porto Alegre (Pedro Ruas e Fernanda Melchiona) apresentaram um projeto na Câmara de Vereadores da cidade, propondo que a avenida Castelo Branco passasse a se chamar Avenida da Legalidade, uma tentativa de suprimir a homenagem feita a um dos ditadores golpistas de 1964. O projeto foi rejeitado, mas serviu ao menos para expor não só as viúvas da ditadura, mas também a permanência de “posições” do sistema repressivo no interior dos meios de comunicação e fora deles.

“Centenas de pessoas passam por aqui todos os dias, jovens, crianças, e leem esse nome na placa, e podem pensar que é um herói. Devem pensar isso”, pensou K. ao ver a placa “Viaduto General Milton Tavares”. “Agora ele entendia por que as placas com os nomes dos desaparecidos foram postas num fim de mundo”.

Dezenas de brasileiros tiveram seus nomes e suas vidas lançadas para além do fim do mundo. Num determinado dia, eles “desapareceram”, ou “foram desaparecidos”, simplesmente deixaram de existir. Não é por acaso que os militares brasileiros e seus aliados civis seguem se opondo até hoje ao esclarecimento desses “desaparecimentos”. Além de expressar a sobrevivência do sistema repressivo, ainda que de uma forma mais dispersa e dissimulada, essa resistência cumpre ainda o objetivo de manter vivos os sentimentos de culpa e de medo que acompanham e alimentam esse sistema.

Uma das contribuições mais preciosas de K. é mostrar, em diferentes episódios narrados no livro, como a culpa e a destruição da memória andam de mãos dadas:

“O esclarecimento dos sequestros e execuções, de como e quando se deu cada crime acabaria com maior parte daquelas áreas sombrias que fazem crer que, se tivéssemos agido diferentemente do que agimos, a tragédia teria sido abortada (...)”

“O totalitarismo institucional exige que a culpa, alimentada pela dúvida e opacidade dos segredos, e reforçada pelo recebimento de indenizações, permaneça dentro de cada sobrevivente como drama pessoal e familiar, e não como a tragédia coletiva que foi e continua sendo, meio século depois”.


A oposição à abertura dos arquivos da ditadura, ao julgamento de torturadores e assassinos e à Comissão da Verdade expressa, para usar um jargão caro ao meio, a existência de elementos repressivos positivos e operantes ainda hoje. No final do livro, B.Kucinski dá um testemunho disso ao relatar como, em 2010, recebeu uma nova “pista falsa” sobre o suposto paradeiro da irmã desaparecida, um estratagema utilizado à exaustão contra seu pai, em sua jornada em busca da filha. “Esse telefone – concluí –é uma reação à mensagem inserida nas televisões há alguns meses pela Secretaria de Direitos Humanos do governo federal, na qual uma artista de teatro personificou o seu desaparecimento [da irmã do autor]. O telefone da suposta turista brasileira veio do sistema repressivo, ainda articulado”, afirma.

A sobrevivência desse sistema repressivo depende da manutenção das trevas sobre a memória daquele período. Qual seria a reação da população brasileira se ela soubesse, por exemplo, com detalhes que prisioneiros políticos tiveram seus corpos esquartejados para não serem identificados nunca mais?

B.Kucinski define seu livro como uma “exumação imprevisível de despojos de memória” que o obrigou “a tratar os fatos como literatura e não como História”. Em uma das passagens dessa exumação, Jesuína Gonzaga, após muita resistência, conta a sua terapeuta:

“O Fleury já tinha voltado para São Paulo de madrugada. Eu sozinha tomando conta. Então desci até lá em baixo, fui ver. A garagem não tinha janela, e a porta estava trancada com chave e cadeado. Uma porta de madeira. Mas eu olhei por um buraco que eles tinham feito para passar a mangueira de água. Vi uns ganchos de pendurar carne igual nos açougues, vi uma mesa grande e facas igual de açougueiro, serrotes, martelo. É com isso que tenho pesadelos, vejo esse buraco, pedaços de gente. Braços, pernas, cortadas. Sangue, muito sangue”.

Até os nazistas registravam os mortos. Os funcionários do “sorvedouro de pessoas” brasileiro decidiram aperfeiçoar essa metodologia macabra e fizeram desaparecer também esse registro. Lendo o livro de B.Kucinski ficamos sabendo por que seguem fazendo isso, trancafiando nomes, existências e afetos. E somos apresentados a um Brasil desmemoriado, violento e perverso. Um Brasil com sangue, muito sangue, e muitas verdades encarceradas que precisam vir à luz.
Marco Aurélio Weissheimer é editor-chefe da Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)

“K” e a dor sem remédio de uma ausência sem fim

 

Eric Nepomuceno


A produção literária brasileira – tanto a de ficção como a testemunhal – sobre os anos de breu da ditadura militar é, na verdade, escassa. Se comparada à produção de países vizinhos, como a Argentina, o Chile e o Uruguai, torna-se mais escassa ainda, principalmente se for levado em conta que, apesar da barbárie ter sido maior, nesses três países os regimes militares tiveram duração menor. É como se os escritores brasileiros não encontrem matéria prima nesse passado tão recente e escuro.

Há livros – poucos – que aliam alta qualidade do texto à profunda e comovedora honestidade do relato. Penso, especialmente, em ‘Memórias do Esquecimento’, de Flávio Tavares, ou ‘Uma tempestade como a sua memória’ (ambos publicados pela editora Record), em que Martha Vianna traça um delicado e certeiro perfil biográfico de Maria do Carmo Britto, a primeira mulher a ocupar um posto de mando numa organização da resistência armada (a mesma, aliás, à qual pertenceu Dilma Rousseff).

Há outros em que a indiscutível qualidade do texto mascara o pouco respeito pelo que efetivamente ocorreu, e o afã de protagonismo de seus autores, que se arvoram de façanhas que jamais realizaram, distorce e enfraquece o relato. Há também aqueles nos quais a fidelidade aos fatos não é correspondida pela qualidade do texto, e que por isso mesmo se tornaram desinteressantes. Enfim, há de tudo – mas em poucos livros.

É nesse cenário que surge ‘K’, o romance-testemunho de Bernardo Kucinski, lançado pela Expressão Popular. E se logo de saída a própria estrutura proposta para a narrativa surpreende e impacta, é aos poucos, conforme desfia o longo e dolorido rosário da memória, que ‘K’ alça vôo e ganha força e espaço.

Na abertura, Kucinski esclarece que ‘tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu’. A partir daí, o autor dá voz à memória, e conta o que conta seguindo os passos erráticos das lembranças, que nunca surgem – como, aliás, na vida real – em ordem rigorosamente cronológica, e muito menos com precisão absoluta.

A narrativa lança mão de vários recursos literários, a começar por concentrar num personagem determinado – o ‘K’ do título – vários outros, inclusive o próprio autor. A busca desesperada primeiro, furiosa depois, serena mais tarde, porém perene, absolutamente perene, de um pai pela filha seqüestrada e desaparecida pelo terrorismo de Estado que imperou no Brasil durante muito mais tempo, e de maneira muito mais profunda do que se acredita (e se quer fazer acreditar) nos conduz, nos torna acompanhantes e testemunhos dos andares e desandares de ‘K’. E é essa angustiada – e inútil – saga que surge dos lampejos de memória que aparecem desordenados, na tentativa de conseguir enfim entender o que aconteceu, como aconteceu, quando aconteceu. E, ao mesmo tempo, abre portas e brechas para que saltem à luz personagens daquele tempo, deste nosso tempo, com seu inventário de dores e amputações, com suas cicatrizes na alma.

Ana Rosa Kucinski e seu marido, Wilson Silva, militantes da ALN, foram seqüestrados e desaparecidos numa noite de abril de 1974. Sumiram no ar sem deixar rastros. Ao narrar como o pai de Ana Rosa começa a buscar a filha, Bernardo Kucinski constrói um antes e um depois dessa história trágica. O antes é o antes, é a presença de sua irmã Ana Rosa. E o depois? Bem, o depois é a perversa, a dramática comprovação de que é justamente a presença dessa ausência que se tornou e se tornará permanente, irremediavelmente permanente. Ana Rosa jamais apareceu. A ausência de Ana Rosa jamais deixa de estar presente.

‘K’ é uma narrativa de vertigem, escrita de forma pungente e avassaladora. Mais que um grito de dor e revolta, mais que um uivo inconformado, é um lento, sossegado, estonteante lamento. O livro fala de uma falta, fala da carência dessa vida ceifada, seqüestrada, sumida. E é essa falta que se estende ao leitor, ao passado, à memória. Um lamento perene, porque não há nem haverá final para esse vazio.
 

Sífilis e cinema


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Pessoal,

Há dias, assisti ao filme Heleno (grande jogador de futebol do Botafogo, 1920-1959).
Gosto muito de cinema, mas, honestamente, neste caso, meu interesse maior era ver a abordagem que seria dada à história de um astro que teve sífilis e dela morreu em um sanatório.
Não sou critico de cinema, todavia me sinto no direito de fazer alguns comentários.
Os autores fizeram um filme primoroso. Embora retrate a vida de um jogador de futebol, o esporte não é o foco principal. A meu ver, o filme é sobre comportamento humano – a história de um homem que escolhe um estilo de vida que define seu trágico futuro. Rodrigo Santoro, no papel de Heleno, tem desempenho digno das maiores premiações nacionais e internacionais. Com certeza, muitos e merecidos prêmios virão para a obra.
No entanto, cabem algumas reflexões de outro teor. A palavra sífilis só é pronunciada uma vez, ao longo de todo o filme. A abordagem dos médicos, em relação ao tema da DST, se não me engano, ocorre em apenas duas ocasiões. Ainda assim, foram observações apáticas, sem mostrar qualquer enfático interesse em que o cliente se tratasse. Nas entrelinhas, era como se lhe dissessem: "O senhor tem sífilis e trate-se se quiser." Em relação às pessoas com quem Heleno mantinha relações sexuais, os médicos não esboçaram qualquer preocupação. Ficamos sem saber se as mulheres com quem ele se relacionou sexualmente também contraíram a doença. 
Ainda não foi dessa vez que a sífilis e as DSTs conquistaram uma boa visibilidade, na tela maior. Não foi dessa vez que médicos apareceram com condutas proativas em relação às doenças sexualmente transmissíveis. 
Aprendi que a arte não tem o compromisso de responder a questões, tampouco de trazer explicações. A arte deve, sim, inquietar, levar o espectador a refletir.
De algum modo, Heleno me inquietou. Não por ter alertado sobre a gravidade das questões ligadas às DSTs, mas por ter silenciado a esse respeito.
Precisamos atuar em todos os cenários, para que menos pessoas sofram de flagelos que há milênios afligem os seres humanos, a despeito de todos os conhecimentos científicos e de todos os recursos disponíveis para combatê-los.
Por fim, vale ressaltar que, independentemente do meu forte, e, muitas vezes, chato, viés de especialista em DST, recomendo o filme. É obra imperdível e traduz com perfeição a alta qualidade do cinema brasileiro da atualidade.

Mauro Romero Leal Passos
Chefe do Setor de DST da Universidade Federal Fluminense
Editor-chefe do Jornal Brasileiro de DST

Bancos não respondem à Dilma. O PiG está aí pra isso

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Bancos não respondem à Dilma. O PiG está aí pra isso

    Publicado em 02/05/2012

Não bastasse a primeira, imediata reação da Globo, com o William Traack (segundo o amigo navegante Joaquim) contra a Dilma, em defesa dos bancos privados, nesta quarta-feira a artilharia do PiG veio furiosa.

No Globo, na pág. 4, Merval Pereira acusa a Presidenta de uma espécie de “populismo financeiro”.

Deve inspirar-se na expressão “populismo cambial”, que o Padim Pade Cerra usava (em off, com os colonistas que o tratam de “Serra”) para dinamitar o Plano Real e derrubar o Malan.

Na pág. 20, sem muita imaginação – como sempre – a Urubóloga ataca a Presidenta na mesma tecla: ela, a Dilma precisa ficar atenta (claro, a Urubóloga sabe o que é melhor para a Dilma) à “fronteira entre o popular e o populismo”.

O mais raso deles, na pág 2 da Folha, diz que a Presidenta “xingou” os bancos.

E que agora é “matar ou morrer”.

Ou os juros caem ou a Dillma morre politicamente (o sonho de consumo de todos os colonistas (**) supra citados.)

Sobre a expressão “populismo”, recomenda-se a leitura de “O populismo e sua história – debate e critica”, organizado por Jorge Ferreira e editado pela Civilização Brasileira.

Em resumo: os conservadores chamam de “populismo” tudo o que os governantes trabalhistas fazem em benefício do povo.

Por exemplo: chamar os bancos privados na chincha, reestatizar a YPF argentina, ou a Transporte de Eletricidade da Bolívia.

Isso é de um populismo obsceno !

Que horror !

Em tempo: ao lado da Urubóloga, no Globo, lê-se: “Juros: Febraban evita rebater Dilma.” Não precisa, não é mesmo, amigo navegante ? Tem quem faça.


Paulo Henrique Amorim

.....

Esta nossa Presidenta é, realmente, Dilmais!


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Pronunciamento em que Dilma critica bancos


UOL, 30/04/2012 - 20h51 

 

Na TV, Dilma eleva tom contra bancos privados e pede corte em juros


BRASÍLIA, 30 Abr (Reuters) - A presidente Dilma Rousseff elevou o tom na guerra do governo para que bancos privados reduzam os juros cobrados a consumidores, instou as instituições a seguir movimento de cortes anunciado pelos concorrentes públicos e disse ser inadmissível que o Brasil continue com uma das taxas mais altas do mundo.
A guerra para a redução das taxas se intensificou nas últimas semanas, com Banco do Brasil e Caixa anunciando cortes nos juros numa tentativa de forçar uma redução por bancos privados, que acompanharam em parte o movimento.

Em pronunciamento em rádio e televisão dominado pela temática econômica, Dilma disse que o governo tem uma "posição firme" para a redução dos juros e foi direta na mensagem às instituições privadas.

"É inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos, continue com um dos juros mais altos do mundo", disse Dilma durante pronunciamento em comemoração ao Dia do Trabalhador, transmitido na noite desta segunda-feira.

"A economia brasileira só será plenamente competitiva quando nossas taxas de juros, seja para o produtor seja para o consumidor, se igualarem às taxas praticadas no mercado internacional".

Além de usar os bancos estatais como arma para forçar a redução das taxas, o governo tem tido a colaboração do Banco Central, que tem cortado sistematicamente a taxa básica de juros brasileira, hoje em 9%.

"Os bancos não podem continuar cobrando os mesmos juros para empresas e para o consumidor, enquanto a taxa básica Selic cai, a economia se mantém estável e a maioria esmagadora dos brasileiros honra com presteza e honestidade os seus compromissos", disse.

"O setor financeiro, portanto, não tem como explicar essa lógica perversa aos brasileiros".

Dilma e outros integrantes do governo vêm demonstrando publicamente desagrado com as taxas de juros e o spread bancário -a diferença entre o valor pago pelos bancos para captar recursos e o cobrado pelos tomadores de crédito.

A presidente disse ainda que o governo vai continuar buscando meios para baixar os impostos e voltou a citar a defesa dos empregos da indústria.

"Para que nosso país tenha uma economia mais forte, é preciso ainda que encontremos mecanismos que permitam uma diminuição equilibrada dos impostos para produtos e para consumidores", disse.

"E que tenhamos uma taxa de câmbio que defenda nossa indústria e nossa agricultura, em suma, os nossos empregos".

(Reportagem de Hugo Bachega)

Lei inclui nome de Anita Garibaldi no Livro dos Heróis da Pátria

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2/5/2012

Lei inclui nome de Anita Garibaldi no Livro dos Heróis da Pátria

 

Por Redação, com ABr - de Brasília
 

O Diário Oficial da União publica nesta terça-feira a lei que inscreve o nome da heroína catarinense Anita Garibaldi (1821-1849) no Livro dos Heróis da Pátria.
O livro registra perpetuamente os nomes dos brasileiros e de grupos de brasileiros que tenham dado a vida pela pátria “defendendo ou construindo, com dedicação e heroísmo”.
Anita Garibaldi, nascida Ana Maria de Jesus Ribeiro da Silva, foi esposa do herói italiano Giuseppe Garibaldi que, no Brasil, lutou pelos ideais republicanos contra o Império.
Anita conheceu Giuseppe em 1837, durante a Guerra dos Farrapos, quando as forças da República Rio-Grandense tomaram a cidade catarinense de Laguna. Com o tempo, ela aprendeu a manejar armas e passou a acompanhar o marido nas batalhas.
O Livro dos Heróis da Pátria foi criado em novembro de 2007, pela Lei 11.597, assinada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ex-ministro da Cultura Gilberto Gil. Está depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes, em Brasília.
Também estão no livro Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes; Zumbi dos Palmares; Marechal Manuel Deodoro da Fonseca; Dom Pedro I, entre outros. O Panteão é um monumento de arquitetura modernista, simbolizando uma pomba, criada por Oscar Niemeyer.